Catolicismo, n° 272, Agosto de 1973 (www.catolicismo.com.br)
Catolicismo perde polemista brilhante
Ao baixar o caixão [de Dr. José de Azeredo Santos] à
sepultura, [...] assim se exprimiu, de improviso, o
Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:
"Meu
caro Azeredo, depois de a voz firme, cavalheiresca e calorosa de Cosme Beccar Varela Filho ter
traçado o que foi a tua trajetória pública no firmamento da TFP, cabe-nos a
nós, a quem a Providência deu o privilégio de contigo convivermos tão de perto
durante quarenta anos de trabalhos, de lutas, de esforços em comum, cabe-nos a
nós, e mais especialmente a mim, enquanto Presidente do Conselho Nacional da
Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, dizer uma última
palavra de adeus.
Palavras
de adeus verdadeiramente, neste momento tão triste, mas ao mesmo tempo tão
luminoso, que coincide com a atmosfera crepuscular que a esta hora do inverno
paulista nos cerca, neste momento tão triste, e ao mesmo tempo tão luminoso, em
que nós nos despedimos de um companheiro de batalha. Momento triste porque a
tua ausência, meu caro Azeredo, deixará um vácuo, momento luminoso porque esse
vácuo é preenchido por um facho de luz, um facho de luz, aqui na terra, que se
levanta alto até o Céu, até o trono celeste para o qual foste chamado.
Durante
esses anos de luta foste valoroso e foste destemido, foste lúcido, trouxeste
para a batalha os múltiplos talentos que a Providência te deu. De um lado,
aquela perspicácia da terra montanhesa que te viu nascer; de outro lado, aquela
gentileza, aquele ar prazenteiro, aquele ar acolhedor e afável, que parece
ter-se acentuado pelo influxo do Rio de Janeiro - onde fizeste teus estudos -
que se enriqueceu assim com algo da graça e do charme
carioca.
Dentro dessa atividade na terra paulista, à
qual te ligaste tão profundamente, o teu perfil moral se formou não só como
profissional exímio, galardoado por uma bela ascensão na carreira que seguiste,
mas sobretudo formou-se no convívio interno da TFP, onde ao mesmo tempo
soubeste ser nas horas da luta o batalhador que ocupava um lugar de destaque
nas primeiras fileiras, enérgico, corajoso, perspicaz para descobrir o inimigo,
ao mesmo tempo gentil e cavalheiresco, de maneira tal que nas tuas polêmicas
nunca foste grosseiro, nunca foste agressivo no sentido baixo da palavra, mas
sempre soubeste iniciar o combate e sustentá-lo até o fim com a galhardia de um
verdadeiro cavalheiro.
De um
convívio ameno, afável, atraente, muitas vezes encantador, a tua presença
serviu para cimentar esta família de almas, sólida e robusta, que aqui em torno
de nós se reúne. Tu pertenceste àquele pugilo de bravos que começou a luta a
partir de apenas nove, e que hoje aqui se multiplica por estas cercanias em
tantos jovens, que não eram sequer nascidos quando teus olhos se abriram para
os problemas, e teu coração se abriu para a dedicação.
E aqui,
neste momento, nós de ti nos despedimos com afeto. Com afeto, e considerando
luminoso o momento, porque não podemos deixar de ter em vista que Nossa Senhora
colheu a tua alma de batalhador no momento preciso em que um dos teus amigos
[nota: o Prof. Plinio], junto ao teu leito de dor, recitava a consagração de
São Luís Maria Grignion de Montfort. No momento em que, do coração de todas as
pessoas ali reunidas, e dos lábios de uma delas que representava a TFP junto
com tuas extremosas filhas que tão bem formaste e tão carinhosamente amaste, no
momento em que destas almas, em nome da TFP, subia ao Céu uma consagração que
era também tua - porque sei que outra coisa não querias na vida senão uma morte
embalada pelos acentos da consagração de São Luís Maria Grignion de Montfort -
no momento em que essa consagração chegava ao ápice, Nossa Senhora colheu tua
alma.
Momento
muito significativo, porque pela natureza de tua enfermidade, muitas vezes poderias
ter morrido, em circunstâncias anteriores. Entretanto, no vai e vem da doença,
nas peripécias desta luta entre a vida e a morte, Nossa Senhora reservou esse
momento preciso. Ela quis marcar essa coincidência frisante. Ela reservou esse
momento preciso, em que tua alma, pelos lábios de tuas filhas e de teus amigos,
se consagrava a Ela, para colher-te, aceitando assim
a consagração que era feita em teu nome
em união contigo.
A esta
hora já estarás quiçá entre os bem-aventurados, na visão de Deus face a face. Lembra-te
de nós, que temos talvez um caminho tão longo a percorrer! Luta a nosso lado!
Teu nome será lembrado na aurora do Reino de Maria, e será lembrado sobretudo
no momento terrível em que Deus vier julgar os vivos e os mortos, em que esse
nome será mencionado entre os incontáveis vivos chamados à direita de Deus
Padre para as glórias eternas. Assim seja. "Nos cum
prole pia, benedicat Virgo
Maria".
[vide também o artigo na “Folha de S. Paulo” de 17 de
julho de 1973, O "prêmio
demasiadamente grande"]