Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

Os Servitas de Maria e

o senso da Contra-Revolução

 

"Santo do Dia", 11 de fevereiro de 1964

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A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.

Hoje é festa dos Servitas de Maria [No atual calendário, 17 de fevereiro] - são sete Santos Fundadores - “Confessores. Membros da aristocracia florentina, deram à sua Ordem a missão de propagar o culto das Dores da Bem-Aventurada Virgem Maria. Suas relíquias se veneram em nossa capela. Século XIII”.

Esta é uma das mais antigas ordens especialmente fundadas para propagar a devoção a Nossa Senhora. É muito bonito o título de servitas de Maria, quer dizer, o título de servos de Maria, ou seja de escravos de Maria. Como é evidente, esse título prenuncia a devoção de São Luís Maria Grignion de Monfort, que [é] a devoção da escravidão a Nossa Senhora; mas escravidão, no sentido próprio da palavra, quer dizer, de um despojamento completo de todos os bens, passados, presentes e futuros, que são postos nas mãos de Nossa Senhora; inclusive os bens espirituais, que são os méritos de nossas boas obras.

Esse título é muito bom porque serve também para marcar a diferença entre a boa piedade católica e a Revolução. Os senhores saberão, provavelmente, que há um certo número de teólogos contemporâneos que consideram o título dado por São Luís Grignion de Montfort no seu ato de consagração, e a expressão que ele usa ao longo do seu Tratado, a respeito da escravidão a Nossa Senhora, uma coisa indigna do homem do século XX. Era uma coisa que podia ser utilizada no passado, mas em nossa época, em que a escravidão foi abolida e em que não há mais servos, ninguém mais é servo, nem sequer de Nossa Senhora.

Santuário de Montesenario, berço da Orden dos Servos de Santa María

Então, em relação a Nossa Senhora, poderemos chamar-nos filhos, mas não escravos, porque a dignidade humana não comporta o título de escravidão nem em relação a Nossa Senhora.

Esta afirmação, evidentemente, é uma afirmação igualitária e de caráter revolucionário e não há de ser aqui que eu hei de demonstrar uma coisa destas. Em relação a Nossa Senhora, que é a Rainha do Céu e da Terra, e é a rainha absoluta do céu e da terra, todo mundo é servo e é uma honra ser servo dEla. De maneira que em relação a Ela o que nós aspiramos, e propriamente o desejo nosso em nossa vida, é sermos verdadeiros escravos dEla. E sendo escravos somos verdadeiramente filhos, e filhos somos verdadeiramente escravos, porque nós a amamos como filhos e queremos servi-La como escravos e como servos, queremos obedecer a Ela como servos e escravos verdadeiros.

E esses sete santos que fundaram essa Ordem religiosa quiseram dar à Ordem o título de Ordem dos Servitas, quer dizer, dos servos, a Ordem dos escravos. A Igreja canonizou estes sete santos, instituiu a Ordem fundada por eles, aprovou, promulgou as regras dessa Ordem, com o nome de servos. Portanto, o próprio magistério da Igreja, por várias formas, indica que em relação à Nossa Senhora devemos ser servos.

Os senhores vêem aqui o espírito demoníaco da Revolução, que não querendo nenhuma espécie de superioridade, não se agüenta em sacudir a hierarquia na terra -- quer a hierarquia eclesiástica, quer a hierarquia temporal -- mas quer ao mesmo tempo sacudir até as desigualdades na ordem sobrenatural, e não quer que haja a desigualdade imensa que Nosso Senhor pôs entre a Mãe dEle, como rainha de todos os anjos, de todos os santos, de todo o universo , e todas as outras criaturas que estão a um abismo de Nossa Senhora.

Tive outro dia ocasião de lembrar isto, quando Nossa Senhora pede sozinha uma coisa, ainda que seja sem o concurso de nenhum santo, Ela obtém. Se todos os anjos e santos do céu pedissem algo sozinhos, sem o concurso dEla, não obteriam. De tal maneira o reinado dEla é um reinado completo e absoluto. E não há maior disparate do querer pôr isto, sequer de longe, em dúvida. Pois bem, este é o espírito da Revolução, este é o espírito do igualitarismo e esta é a raiz do ateísmo. A raiz do ateísmo é ter ódio de que exista esse senhor no céu, que domine em nós sobre nós, porque não pode haver em nenhum lugar, nenhuma espécie de senhor.

Karl Marx disse isto muito bem, ele chamava isto de alienação no sentido da palavra alienum. Alienação era o ato pelo qual o homem cede uma parte de si mesmo, quer dizer, cede o domínio sobre si mesmo, a um outro homem. Então, é alienação que um patrão mande no emprego; é alienação que um pai mande no filho; é alienação que o esposo mande na esposa; é alienação que o nobre mande no plebeu; é alienação que o professor mande no aluno. Toda forma de autoridade é uma alienação.

E ele dizia que uma das piores alienações era a alienação que o homem praticava para com Deus. Que Deus não existia, era um mito que o homem inventava para alienar-se. Mas um mito ruim, porque o homem assim imaginava que estava alienado. E o que deve haver não é a alienação, mas cada homem por si, ou melhor, cada homem possuir-se a si próprio, ser inteiramente independente e não obedecer a ninguém. Este é o ideal do marxismo, é o ideal da Revolução.

O que devemos pedir aos santos servitas? Se esses santos servitas do século XIII ressuscitassem hoje e presenciassem essas abominações, e as vissem proferidas por lábios católicos e amadas por corações católicos, o que eles diriam? Que indignação teriam? Que censuras fariam, que réplicas? Devemos pedir a eles que intervenham aqui na terra e que ajudem a acender uma verdadeira devoção a Nossa Senhora entre os homens e com a devoção a Nossa Senhora, o senso da hierarquia e o senso da Contra-Revolução. Deve ser esta nossa intenção no dia de amanhã, que será o dia dos santos servitas.