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Plinio Corrêa de Oliveira
A atitude de Nossa Senhora diante da Anunciação
"Santo do Dia" – 25 de março 1965 |
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A D V E R T Ê N C I A O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor. Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:
Anunciação - Fra Angélico - Museu do Prado - Madrid
O Evangelho referente a este acontecimento é o seguinte: São Lucas: ( Lc., I, 26-38 ) (*) Este Evangelho é cheio de
matizes que me parecem interessantes. Em primeiro lugar, como fica
demonstrado, o anonimato em que vivia a Sagrada Família, o anonimato da
cidade e de tudo. O plano é assim: Deus, do alto do Céu, chegada a
plenitude dos tempos, manda o Arcanjo Gabriel à terra. Mas manda-o a um
lugar de tal maneira desconhecido de todos que nos impressiona: manda a
uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré. Fica aí entendido que era um
lugarejo. A uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de
Davi. Uma cidade desconhecida, uma virgem desconhecida, casada com um
homem desconhecido. A única coisa de ilustre que se tem para dizer é que é
da Casa de Davi. O nome da virgem era Maria. E entrando o Anjo onde ela
estava, disse: “ Este “ Quer dizer, Nossa Senhora estava num lugar inteiramente sozinha. É o cúmulo do que o mundo detesta: a pessoa sozinha, isolada, desconhecida, decadente e, o que é pior ainda, no seu isolamento rezando. É para essa pessoa que vem essa mensagem. Os senhores podem imaginar o Anjo que paira dos mais altos páramos celestes, encarregado de uma enorme missão, e que vai ao ponto que menos se poderia imaginar: um lugarejo, um casalzinho, uma mulher que está recolhida no seu quarto, e ali ele leva a mais importante mensagem da História. Tudo isto fica insinuado na linguagem do texto, e é muito bonito ver como a linguagem introduz tudo isto. Depois da saudação do Anjo, a reação. Espera-se a reação [conforme o mundo]: “compreenderam o valor que tenho e, afinal, me fazem justiça...”. Ou imagina-se o Anjo de um modo tal, que ele desce inteiramente tranqüilizador, inteiramente afável, pacífico. É uma coisa curiosa: em todas as visões de Nossa Senhora que tenho lido, repete-se essa cena. Há qualquer coisa de terrível no aparecimento da visão, que incute medo. A idéia da afabilidade, da bondade, etc. vem, mas a idéia que fica é a de medo. As crianças de Fátima sentiam medo, as crianças de La Salette também; também Santa Bernadette Soubirous. É a desproporção de duas naturezas diferentes e de algo tão fabulosamente majestoso, que Ela sentiu medo. E o Evangelho diz:
No total, o que é isso? Vejam bem o que é o espírito de Nossa Senhora: diante de uma coisa, mesmo tão elevada e com todas as características de vir de Deus, uma análise, e uma análise racional do conteúdo, palavra por palavra, daquilo que lhe era dito. Devemos ser assim também. Não perder a cabeça mesmo diante da coisa mais pasmosa, mais inesperada, mais maravilhosa: discorrer pensativos sobre aquilo. Em outro episódio, depois do nascimento de Nosso Senhor, o Evangelho nos diz que "Maria conservava todas essas coisas, meditando-as no Seu Coração" ( Lc., II, 19 ). Eminentemente analítica, pensativa, o que não está de acordo com as expressões das imagens sentimentais, que nos apresentam exatamente uma pessoa não pensativa, abobada e com uma carinha de boneca. E aqui está o exemplo para nós. Ser uma pessoa de discernimento. Até o que vem de Deus analisar, não desconfiada mas refletidamente. Sei que aqui se pode fazer outro comentário sobre a humildade; mas esse comentário já é tão conhecido, que os senhores me permitam fazer um comentário não habitualmente feito do Evangelho. O Anjo, que conhecia por
permissão de Deus o que nEla se passava - note-se que Ela não fez nenhuma
pergunta ao Anjo, como se estivesse estudando que pergunta fazer, e que
não tinha formulado ainda sua pergunta - quando o Anjo interveio: “ Vejam uma coisa curiosa: o respeito de Deus pela criatura que tem discernimento e que pensa, pela criatura que analisa. Ela tinha uma perturbação justa, e o Anjo esclareceu, como que aprovando que Ela quisesse saber que saudação era aquela. E a razão que o Anjo dá é uma razão que explica a dúvida dEla. O Anjo diz a Ela, com a autoridade de quem pode falar, que Ela de fato encontrou graça diante de Deus. É tão santa, tão virtuosa, Deus lhe deu tantas graças, que aquela saudação era merecida. E então Ela se tranqüilizou. Preparado nEla o terreno
psicológico, e preparada a humildade dEla para receber isto, entra a
explicação: “ Muitas vezes Deus fala no interior de nossas almas; e Deus acende misteriosamente numa alma uma esperança. A alma entende de um modo o que Deus a fez esperar e Deus dá de um modo completamente diferente do que a alma estava esperando. Por exemplo, diz: tu serás grande. Vai ser mesmo: depois de morto vai ser canonizado e ser colocado no alto da Basílica de São Pedro. Mas em vida vai ser lixeiro. Deus diz: “Meu filho, eu te escolhi para exaltar o teu nome entre todas as nações; serás até o fim dos séculos lembrado como exemplo memorável etc., e os povos vindos do oriente e do ocidente, do meridiano e do setentrião, hão de se curvar diante de ti”. É verdade. Na Basílica, no dia da canonização, tem X,Y,Z e a promessa se cumpre de um modo diferente do que a pessoa entendeu no dia em que foi feita. Em nossa vocação, quantas vezes há algo de semelhante com isso. Deus faz a promessa de um jeito, o indivíduo entende de outro. E é assim que Deus trata os seus mais amados; é assim que Ele encaminha os seus planos mais maravilhosos. Por causa disso preparemo-nos, porque a própria Anunciação continha uma formulação que o povo judeu entendia de um modo diferente. São os caminhos de Deus que nos importa conhecer. Vejam agora que, depois
de uma coisa estupenda dessas, vem uma objeção. E uma objeção de caráter
moral. Porque Ela podia intuir: afinal de contas, Deus tudo resolve, não
preciso perguntar. Mas vem uma objeção. Notem a firmeza de personalidade,
que lembra os Exercícios de Santo Inácio de Loyola bem pregados e não
adocicados. Maria disse ao Anjo: “ Aí vem então, como prêmio da pergunta dEla, aprovando que Ela tenha sido tão exigente, que tenha perguntado, a realidade da mensagem [que] vai se desdobrando. É como se Deus quisesse que Ela perguntasse para a mensagem ser desenvolvida. Aí a maravilha da mensagem se completa: primeiro é a maternidade divina, depois, a maternidade virginal e por isso mesmo é que Ele será Filho de Deus. Está aí toda a explicação da maravilha que se vai realizar. E vem uma espécie de
ratificação apologética. Como para Deus tudo é possível e para explicar
também o plano, o Anjo diz:
Tudo isto explicado - não
que houvesse dúvida, mas porque o homem age racionalmente - entra a
aceitação de Nossa Senhora. E então disse Maria: “ Deixo os comentários comuns e volto-me a essas considerações que nos fazem ver a alma insondavelmente santa de Nossa Senhora. E então compreender esse espírito lógico, cheio de fé, de obediência, mas coerente e que quer ver claro dentro das coisas, não por dúvida, nem por desconfiança, mas porque a lógica é verdade. O Anjo afastou-se dEla. Segundo os melhores teólogos, imediatamente deu-se a concepção. Uma insondável operação do Divino Espírito Santo operada em Nossa Senhora; o Anjo afastou-se, mas a profecia cumpriu-se imediatamente. É um mistério que só saberemos na eternidade. Esse aspecto vago que fica depois e onde se pode conjeturar tudo, só nos deixa uma idéia: o fato é tão grande que, haja o que tenha havido, ultrapassa toda intelecção humana. Há uma pausa cheia de vazio. O resto não se fala. É o silêncio absoluto que o Evangelho deixa passar sobre as coisas, e que é o ambiente próprio ao recolhimento, para a meditação, própria às coisas sagradas e litúrgicas. Por causa disso, em alguns ritos do oriente, na hora da consagração, corria-se um véu em torno do sacerdote, tão sagrada e misteriosa era a ação. Vê-se então aqui que o senso religioso pede um certo senso do mistério, e que as coisas de Deus ao mesmo tempo dizem e calam muito; e não se sabe pelo que dizem mais: se pelo que falam ou pelo que calam. Compreende-se então que fazer tudo simplizinho, explicadinho, acompanhadinho, certinho é diferente das alturas dessas missões sublimes. Façamos disso uma reserva para nossa alma para podermos amar assim essas grandezas imensas dentro de uma lógica inflexível. Aí está o verdadeiro [senso] da dignidade das coisas de Deus. Peçamos a Nossa Senhora que nos cubra com o manto de seu espírito nessa linha e nesses termos: espírito virginal, termos a clareza e a coerência de espírito. A castidade é uma grande coerência e a coerência uma grande castidade. Peçamos esse dom na noite de hoje. (*) Citações da Sagrada Escritura tomadas da Vulgata anotada pelo Pe. Matos Soares. Edições Paulinas, 14ª edição, 1986
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