Plinio Corrêa de Oliveira

 

Santo Antonio:

“Arca do Testamento” e “Martelo dos Hereges”

 

"Santo do Dia" - 12 de junho de 1965

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A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.

Santo Antônio, cf. representação de Giotto ( Legenda de São Franciso - Aparição de Arles - detalhe  )

Santo Antonio de Pádua - detalhe

Giotto - Legend of St Francis: Apparition at Arles - 1297-1300 - Fresco, Upper Church, San Francesco, Assisi

Dia 13 é festa de Santo Antônio de Pádua, Confessor e Doutor da Igreja. Chamado “Arca do Testamento” e “Martelo dos Hereges”, franciscano. Século XIII.

Neste dia as igrejas de todas as nações, do Ocidente pelo menos, encheram-se de fiéis e, amanhã ainda especialmente, que vão comemorar a festa de Santo Antônio e por toda parte as imagens de Santo Antônio estão sendo expostas para objeto de veneração dos fiéis.

Este fato me lembra que estando em 1950 em Assis, eu tive ocasião de me documentar a respeito de como era Santo Antônio. E ali se mostra, na Basílica de Assis, um quadro pintado por Giotto, que passa por ser o quadro mais próximo, mais provavelmente representativo da pessoa de Santo Antônio. E se trata de uma pessoa de corpo hercúleo, de pescoço taurino, forte, de expressão de fisionomia séria, de olhar imperioso e majestoso, e numa atitude assim [... inaudível] as pessoas, como Doutor da Igreja que ele era. Comprei então algumas fotografias dessa imagem.

Ao mesmo tempo, comprei uma pilha de estampas iguais que eram vendidas às pessoas que iam à igreja também, e que representavam Santo Antônio, não de acordo com a probabilidade histórica do quadro de Giotto, mas de acordo com uma concepção que figura nas imagens comuns. Então, um homenzinho imberbe, coradinho, com o Menino Jesus no braço, com um ar de quem não entende muito o que está fazendo com o Menino Jesus no braço; o Menino Jesus também com uma cara de quem não entende muito o que está fazendo no braço de Santo Antônio, sorrindo os dois um para o outro como que dizendo: desculpe, aqui deve haver algum equívoco.

Santo Antônio - Iconografia eivada de sentimentalismo

Santo Antonio - iconografia eivada de sentimentalismo

Na fisionomia de Santo Antônio, nada que falasse no Doutor da Igreja, nada que representasse o homem que era tido como o maior conhecedor do Novo e Antigo Testamento, - as Sagradas Escrituras, - no tempo dele, porque conhecia as passagens mais raras, mais excepcionais, mais ignotas de todas e tirava delas efeitos de pregação extraordinários. E Santo Antônio, conhecido como o “Martelo dos Hereges”, como polemista, como homem que era capaz de discutir - não de "dialogar" (no sentido irenístico do termo *) - era capaz de entrar em debate com os hereges, de achatá-los - não havia ninguém como ele - e ainda coberto com os milagres que completavam sua pregação e faziam com que fosse o terror dos hereges.

O verdadeiro Santo Antônio histórico, e como é apontado pela Igreja para nosso modelo, portanto como o é no céu, desapareceu quase completamente. É uma figura física que nada tem a ver com ele, nada tem a ver sobretudo com sua fisionomia moral.

Santo Antônio, além de ser o “Martelo dos Hereges” e a “Arca do Testamento”, é venerado como o Patrono das Forças Armadas. E a razão disso - entre outros fatos - está em que Santo Antônio, em certa ocasião, foi objeto de um ato de devoção especial da parte de um almirante espanhol. Uma esquadra espanhola sitiava a cidade de Orán e não havia meio de conseguir resultado eficaz. Então, o almirante espanhol dirigiu-se a uma imagem de Santo Antônio, colocou o chapéu de almirante sobre a imagem, deu-lhe as insígnias de comando e pediu-lhe que investisse [contra] Orán. Os mouros fugiram inesperadamente e interrogados, disseram que tinha estado entre eles um frade vestido com o chapéu do almirante e que tinha ameaçado Orán com o fogo de céu, e que por causa disso eles tinham achado mais prudente ir embora. Quer dizer, este aspecto do “Martelo dos Hereges” que ao mesmo tempo incute terror aos mouros e que se apresenta a uma cidade infiel e a ameaça com o fogo do céu, todo esse aspecto foi abolido.

Santo Antônio com as insígnias de Capitão de Infantaria

S. Antônio com as insígnias de Capitão de Infantaria

"Santo Antonio, cuja imagem esteve colocada na muralha do Convento, defendeu o Rio de Janeiro contra os franceses, o que lhe valeu a patente de Capitão de Infantaria". ( “Santo Antônio – vida, milagres, culto”, pgs. 144-146, Frei Basílio Röwer )

Aí vemos a lamentável deterioração da devoção aos santos em nossos dias. Quer dizer, como eles já não representam, na legenda  que em torno deles se criou, a verdadeira santidade. Quem, por exemplo, comentará a respeito da vida de Santo Antônio, este fato que se deu no Rio de Janeiro e que foi o seguinte: o Rio de Janeiro estava sendo cercado pelos calvinistas franceses e já estava quase completamente rendido e a cidade não tinha meios de resistir. Os frades então tomaram a imagem de Santo Antônio, desceram com ela o morro, colocaram numa pilastra que se encontrava ali e a simples exibição da imagem, de um modo maravilhoso comunicou tal ardor na cidade, que grande número de jovens se alistaram, sendo possível reorganizar a resistência aos franceses e os franceses, depois de pouco tempo, foram embora. De maneira que o Rio de Janeiro não se tornou calvinista e talvez com repercussão em toda a História da América Latina, e portanto em toda a História da Igreja, por causa dessa ação simbólica de presença maravilhosa de Santo Antônio.

Todas essas são coisas que não se dizem, não se contam, não se comentam e os senhores podem, através disso, verificar duas coisas: em primeiro lugar, como é lamentável esta torção que a vida dos santos sofreu.

Mas, por outro lado, também, como é admirável lutar para restaurar todas essas coisas e mostrar os próprios santos no seu aspecto combativo, no seu aspecto guerreiro, no seu aspecto polêmico, no seu aspecto contra-revolucionário, que a Revolução tanto gosta de esconder e de disfarçar.


(*) O Prof. Plinio aqui se refere a um conceito irenístico do termo "diálogo", como magistralmente descrito em sua obra "Diálogo e baldeação ideológica inadvertida", cuja leitura recomendamos a nossos visitantes.