Plinio Corrêa de Oliveira

 

As Sete Dores de Nossa Senhora

 

"Santo do Dia", 15 de setembro

(Há incerteza quanto ao ano: 1965 ou 1966 )

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tãobelo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.

Hoje é festa das Sete Dores de Nossa Senhora, colocada, com muita felicidade, logo depois da festa da Exaltação da Santa Cruz. “ Festa estendida a toda Igreja por Pio VIII, em memória da proteção da Santíssima Virgem na libertação de Pio VII”. Sobre isto comenta D. Guéranger:

“No decurso da oitava da Natividade, o pensamento do sofrimento não se apresentava ao espírito do fiel, mas se nós nos tivéssemos posto a questão “o que será essa criança”, nós teríamos visto exatamente que se todas as nações devessem um dia proclamá-la bem-aventurada, Maria deveria sofrer antes com seu Filho, para a salvação do mundo. Ela mesma, pela voz da liturgia, nos convida a considerar sua dor: “Ó vós todos que passais pelo caminho, parai e vede se há uma dor igual à minha dor. Deus me pôs e estabeleceu na desolação. Minha dor é obra de Deus”.

“É Ele que, predestinando-A a ser Mãe de seu Filho, uniu indissoluvelmente sua pessoa à vida, aos mistérios, aos sofrimentos de Jesus para ser, na obra da Redenção, sua fiel cooperadora. É preciso que o sofrimento seja um bem muito considerável, para que Deus, que ama tanto Seu Filho, tenha dado sofrimento a Ele. E como depois de Seu Filho, Ele ama a Santa Virgem mais do que qualquer criatura, Ele quis dar a Ela também o sofrimento como o mais rico dos presentes. Por Maria, o sofrimento não dava só no Calvário; o sofrimento lhe veio com Jesus, “essa criança incômoda” como disse Bossuet, porque Jesus, entrando em qualquer lugar, entra com Sua cruz; e a traz com seus espinhos, e a distribui a todos que a amam”.

“A solenidade desse dia, que nos mostra sobretudo Maria no Calvário, nos lembra, nessa dor suprema de todas as dores, conhecidas ou não, que encheram a vida de Nossa Senhora. Se a Igreja se deteve no número de sete, é porque esse número exprime sempre a idéia de totalidade ou universalidade. Para compreender, com efeito, a extensão e intensidade dos sofrimentos de Nossa Senhora, é preciso conhecer o que foi seu amor por Jesus. E seu amor aumentou seu sofrimento. A natureza e a graça concorrem juntas para produzir no coração de Maria impressões profundas. Nada é mais forte e mais premente do que o amor que a natureza dá para um filho e aquele que a graça dá para um Deus”.

As Sete Dores da Santíssima Virgem

DÜRER, Albrecht - c. 1496

Alte Pinakothek, Munchen and Gemäldegalerie, Dresden

São tantos pensamentos excelentes, que se seria tentado a desenvolver excessivamente este Santo do Dia. Mas em todo caso, vamos nos concentrar sobre duas idéias que estão aqui: a primeira das idéias é que Nosso Senhor, tendo amado com amor infinito ao Seu Verbo Encarnado, Nosso Senhor Jesus Cristo, e tendo amado com um amor inferior a esse, mas superior a todos os outros amores, a Nossa Senhora, lhes deu tudo quanto há de bom. E por isso lhes deu aquela imensidade de cruzes que é representado pelo número sete. São sete dores, quer dizer, são todas as dores. E Nossa Senhora das Dores poderia ser chamada perfeitamente Nossa Senhora de todas as Dores, porque não houve dor que Ela não tivesse.

Por causa disso, se é verdade que todas as gerações A chamarão bem-aventurada, a um título menor, mas imensamente real, todas a gerações A poderiam ter chamado “infeliz”. Ora, se isso é assim, nós deveríamos compreender melhor, quando a dor entra na nossa vida, que é uma prova de amor de Deus. E que enquanto a dor não penetrar em nossa vida, nós não temos todas as provas de amor de Deus. E eu acrescentaria, e justificarei daqui a pouco isto, nós não temos a principal prova de amor de Deus.

O que quer dizer isto? Há muitas pessoas que eu olho e vejo a cara. E no fundo da cara vejo isto: falta-lhe ainda sofrer. Falta, no fundo, uma nota de maturidade, uma nota de estabilidade, uma nota de racionalidade, uma elevação que só tem aquele que sofreu, e aquele que sofreu muito; e quem leva uma vida sem sofrimento, leva uma vida em que essa nota não transparece na fisionomia, e o que é muito pior, não transparece na alma.

Nós devemos compreender isso, e quando começam a aparecer os contratempos, dificuldades em nosso apostolado, mal entendidos com os amigos dentro do Grupo(*), mal entendidos com os nossos chefes, saúde que anda mal, negócios que andam mal, encrencas dentro de casa, nós não deveríamos tomar isso como um bicho de sete cabeças, como o espírito hollywoodiano gostaria que se tomasse, quer dizer como uma coisa que não devia acontecer. Como foi que aconteceu uma coisa dessas? ... Não senhor!

Quem não sofre é que deve se perguntar: como está me acontecendo isto, pois não estou sofrendo nada? Porque o normal é sofrer. Aquele a quem Deus ama, aquele a quem Nossa Senhora ama, este sofre, porque Deus não vai recusar a este filho, aquilo que Ele deu em abundância aos dois entes que Ele mais amou, que são Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora.

Os senhores compreendem, então, que o normal é sofrer. E os senhores tenham isto por normal em sua vida: tentações, provações, crises nervosas, toda espécie de coisa, a gente deve pedir para que passem, mas na medida em que não passarem, a gente deve bendizer a Deus, bendizer a Nossa Senhora. São Luís Grignion chega a dizer que quem não sofre deve fazer peregrinações e orações pedindo sofrimento, embora ele condicione este pedido à aprovação de um diretor espiritual, porque é um pedido muito grave. Mas é porque quem não sofre, não vai indo tão bem quanto podia ir, e às vezes vai indo inteiramente mal.

Aí os senhores têm a frase estupenda de Bossuet, a respeito de Nosso Senhor Menino, “aquele menino incômodo”. Como todos aqueles que querem seguir a Nossa Senhor são incômodos! Às vezes temos a sensação experimental disso. Começamos a dar um conselho, um exemplo, começamos a pedir um sacrifício, o semblante de nosso interlocutor vai denunciando que ele nos está vendo incômodo. Como seria mais fácil dizer uma piada alegre, fazer uma brincadeira, acabar tudo com um tapinha nas costas e dispensar de uma obrigação!

Como mandar seria agradável, se fosse isto! Mas mandar é o contrário: mandar é estar exigindo que nosso subordinado tome as coisas a sério, que as olhe pelo seu lado mais profundo. Que veja as coisa pelo seu lado mais alto, mais sério, mais sublime, que veja de frente a sua própria alma, que se examine a si mesmo detidamente, que procure corrigir efetivamente e seriamente os seus defeitos. E como isto é incômodo!

Pois bem, o peso de sermos incômodos é um dos maiores pesos, e também esse nós devemos carregar. Nas nossas famílias nos acham incômodos porque lhes lembramos o dever. A resignação alegra essa incomodidade. A coragem de sermos incômodos em todas as circunstâncias; o votarmos a amizade de preferência aos nossos amigos incômodos, quando a incomodidade deles consiste em nos lembrar o dever, são as virtudes que, no dia das Sete Dores de Nossa Senhora devemos pedir a Nossa Senhora.

Ela, que também teve um Filho que lhe trouxe tantos divinos incômodos, e que nos convidando a meditar sobre a dor dEla, nos convida a meditar sobre a seriedade e a sublimidade da sua e de nossa existência, e que a esse título é também para nós maternal e estupendamente incômoda.


 (*) Aqui o Prof. Plinio se refere aos membros da TFP, aos quais se dirigia. Tendo esta se originado, mais recentemente, do “Grupo do Catolicismo”, isto é dos redatores e de todos aqueles que militavam em torno à Revista “Catolicismo”, generalizou-se, na linguagem interna da TFP, referir-se a si mesma como o “Grupo”.


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