Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

São Miguel Arcanjo:

modelo do perfeito cavaleiro e do perfeito contemplativo

 

Santo do Dia, 28 de setembro de 1966

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A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras "Revolução" e "Contra-Revolução", são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro "Revolução e Contra-Revolução", cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de "Catolicismo", em abril de 1959.

Estátua no alto do Mont Saint Michel (França). Obra de Fremiet (séc. XIX),

o mesmo autor do monumento a Santa Joana d'Arc, em Paris

 

Amanhã nós vamos ter a festa de São Miguel.

Dele afirma este calendário: São Miguel, Príncipe da milícia celeste, no combate que houve no Céu, combateu os anjos rebeldes. Compete-lhe continuar essa luta para nos livrar do demônio. Dele dependem os Anjos da Guarda. É o anjo protetor da Igreja e o que apresenta ao Padre Eterno a oblação eucarística. Nós estamos na novena de Nossa Senhora do Rosário e na novena de Nossa Senhora Medianeira de Todas as Graças.

Eu chamo a atenção dos senhores para esse fato: São Miguel é o chefe então, é o que lutou contra o demônio e o precipitou no inferno. Ele é o chefe dos Anjos da Guarda dos indivíduos e o chefe também dos Anjos da Guarda das instituições. E é, ele mesmo, o Anjo da Guarda da Instituição das instituições, que é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Ele tem, portanto, uma função tutelar, a respeito da qual a gente se pergunta que relação há entre a atitude dele, ou a missão dele derrubando no inferno os que se levantavam contra Deus Nosso Senhor, de um lado, e a proteção que ele dispensa à Igreja e aos homens nesse vale de lágrimas e nessa arena, que é a vida, de outro lado. E nós vemos que essas duas missões se concatenam. Ele defendeu a Deus, Deus quis servir-se dele como de seu escudo, contra o demônio. Deus quer que ele seja o escudo dos homens contra o demônio; Deus quer que ele seja o escudo da Santa Igreja Católica contra o demônio. Mas um escudo que não é meramente escudo: é gládio também. Ele não se limita a defender, mas ele derrota, ele precipita no inferno.

E é, portanto, essa a dupla missão de São Miguel. É por causa disso que São Miguel era considerado na Idade Média, pelos cavaleiros, o primeiro dos cavaleiros; o cavaleiro celeste, leal perfeitamente como um cavaleiro deve ser, forte idealmente como deve ser um cavaleiro, puro como um anjo e como o cavaleiro deve ser, e vitorioso como deve ser o cavaleiro, que põe toda sua confiança em Deus, e depois de ter nascido Nossa Senhora, põe toda sua confiança também em Nossa Senhora.

É, portanto, essa figura admirável de São Miguel que, vista assim, nós devemos considerar a figura de nosso aliado natural nas lutas, porque o movimento contra-revolucionário não quer ser outra coisa do que um grupo de homens que executam, “mutatis mutandis”  em nível humano, a tarefa de São Miguel Arcanjo. Quer dizer, de defender a honra de Deus, defender a glória de Nossa Senhora, defender a Igreja Católica, defender a Civilização Cristã. Nós vemos, portanto, que há uma afinidade enorme e que andam muito bem os contra-revolucionários que queiram constituir São Miguel Arcanjo seu especial patrono.

Há em D. Guéranger, uma ficha, a respeito da devoção contemplativa dos anjos:

Assim a Igreja considera São Miguel como o mediador de sua prece litúrgica. Ele se mantém entre a humanidade e a divindade. Deus que distribui, com uma ordem admirável, as hierarquias visíveis e invisíveis, emprega por opulência, para louvor de sua glória, o ministério desses espíritos celestes que contemplam sem cessar a face adorável do Pai, e que sabem, melhor do que os homens, adorar e contemplar a beleza de suas perfeições infinitas

Aí é que diz que ele é o que apresenta ao Padre Eterno a oblação eucarística. E foi assim que ele apareceu também em Fátima, para os pequenos pastores, com o cálice na mão.

Mi – cha – El: quem como Deus? Esse nome exprime por si só, em sua brevidade, o louvor mais completo, a adoração mais perfeita, o reconhecimento mais inteiro da transcendência divina e a confissão mais humilde do nada da criatura, modelo, portanto, de humildade”.

Porque quem exclama que ninguém é como Deus, exclama que não é nada, e essa é a humildade perfeita. A forma de humildade própria do cavaleiro não é a de um dulçuroso sentimental e ilógico.

Também a Igreja da terra convida os espíritos celestes a bendizer o Senhor e cantá-lo; a louvá-lo e bendize-lo sem cessar. Essa vocação contemplativa dos anjos é o modelo da nossa, como nos faz lembrar o belo prefácio do Sacramentário de São Leão. É verdadeiramente digno render-Vos graças a vós, que nos ensinais por vosso apóstolo que nossa vida é dirigida aos céus; que com benevolência quereis que nos transportemos em espírito ao lugar onde servem esses que veneramos, especialmente dirigirmo-nos para essas alturas na festa do bem-aventurado São Miguel Arcanjo”.

Realmente aqui está um traço da devoção aos anjos, que é preciso muito notar. Os anjos são habitantes da Corte celeste. E na Corte celeste eles vivem numa eterna contemplação, numa contemplação de quem vê Deus face a face, e as visões de todos os grandes místicos nos referem às festas que há no Céu; e que são verdadeiras festas. Não são imagens, ou quimeras não, mas são verdadeiras festas em que Deus vai manifestando sucessivamente suas grandezas e eles aclamam com triunfos novos, que não terminam nunca dos nuncas.

E há uma felicidade celeste, há um senso de que o Céu é a pátria de nossa alma e é propriamente a ordem de coisas para a qual nós fomos criados, que corresponde plenamente a todas as nossas aspirações; há um senso da felicidade celeste pela contemplação face a face de Deus que é a perfeição absoluta de todas as coisas, há algo disso que deve e pode passar para a terra. E nas épocas de verdadeira fé alguma coisa dessa felicidade filtra; alguma coisa dessa piedade é sentida pelas almas piedosas e comunicada depois através das almas piedosas, mais notavelmente piedosas, como um tesouro comum para toda a Igreja.

E é isso que falta tanto hoje em dia, de maneira tal que não se tem a idéia de uma felicidade celeste e sem a idéia de uma felicidade celeste não se tem apetência do céu; e as pessoas se chafurdam na pura apetência dos bens da terra. Mas se pudessem compreender por um instante o que é uma consolação do Espírito Santo, o que é uma graça do Espírito Santo, o que é esse tipo de felicidade que a consideração dos bens celestes comunica, se pudesse compreender isso por um instante que fosse, então começava o desapego dos bens da terra; então se começava a compreender como tudo é transitório, como tudo isso não é nada, como há valores que estão acima disso e que tornam a terra um pouco de poeira.

Mas é isso que exatamente falta e que os santos anjos podem nos obter, eles que estão inundados dessa felicidade, e que de vez em quando se comunicam sob essa forma aos santos. Há uma forma de fenômeno místico que é um concerto - Santa Teresinha teve isso, ela até fala na “História de uma Alma” -, um concerto muito longínquo, de uma harmonia maravilhosa e extraterrena. E é um pouco do eterno cântico dos anjos que chega por essa forma, aos ouvidos dos bem-aventurados, para lhes dar exatamente apetência das coisas do Céu.

Em nossa época essa apetência falta fabulosamente. Não poucas pessoas só se interessam e só se empolgam pelas coisas da terra, empolgam-se pelo dinheiro, empolgam-se pela politicagem, empolgam-se pelo mundanismo, empolgam-se pelas trivialidades do noticiário de todos os dias, mas não se empolgam pelas coisas elevadas, pelas coisas doutrinárias e - menos ainda - pelas coisas especificamente celestes.

Então, pedir aos anjos que nos comuniquem o desejo das coisas celestes de que eles estão inundados é uma excelente intenção para ser acrescentada, na festa de amanhã, ao grande pedido dos pedidos, que é o de São Miguel Arcanjo nos fazer imitadores dele, perfeitos cavaleiros de Nossa Senhora nessa terra.