Plinio Corrêa de Oliveira
São Bernardo e a confiança em Nossa Senhora
"Santo do Dia" de 3 de janeiro de 1967 |
|
|
A D V E R T Ê N C I A O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, e não foi revisto pelo autor. Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:
Dr. Paulo Brito me pediu para fazer um comentário a
respeito de uma oração a Nossa Senhora, composta por São Bernardo (de
Claraval): "Ó doce Virgem Maria, minha augusta soberana, minha
amável Senhora, minha Mãe amorosíssima, ó doce Virgem, eu coloquei
em Vós toda minha esperança e eu não serei confundido. Doce Virgem Maria, eu creio tão firmemente que do alto do
Céu Vós velais dia e noite sobre mim e sobre aqueles que esperam em Vós;
eu estou tão intimamente convencido de que jamais pode faltar nada
quando se espera tudo de Vós, que resolvi viver daqui para o futuro sem
nenhuma apreensão, e me descarregar inteiramente sobre Vós em todas as
minhas iniqüidades. Doce Virgem Maria, Vós me estabelecestes na mais inabalável
confiança. Ó, mil vezes obrigado por uma graça tão preciosa. Eu
ficarei daqui por diante em paz sob vosso Coração tão puro. Eu não pensarei mais senão em Vos amar, em Vos obedecer,
enquanto Vós gerireis, Vós mesma, minha boa Mãe, os meus mais caros
interesses. Ó doce Virgem Maria, que entre os filhos dos homens, uns
esperem sua felicidade de sua riqueza, outros a procurem em seus
talentos; que outros se apoiem sobre a inocência de sua vida ou sobre o
rigor de sua penitência, ou sobre o fervor de suas orações, ou sobre
o grande número de suas boas obras. Por mim, ó Mãe, eu esperarei só em Vós, só em Vós
depois de Deus. E todo o fundamento de minha esperança será minha
confiança mesmo em vossa bondade materna. Doce Virgem Maria, os maus poderão me roubar a reputação
e o pouco de bem que possuo. As doenças poderão me tirar as forças e
a faculdade exterior de Vos servir. Eu poderei mesmo, infelizmente,
minha terna Mãe, perder vossas boas graças pelo pecado. Mas minha amorosa confiança em vossas maternais bondades,
esta jamais eu perderei. Eu a conservarei, essa confiança inabalável
até o meu último suspiro. Todos os esforços do inferno não ma roubarão. Eu morrerei repetindo mil vezes vosso nome bendito e
fazendo repousar sobre vosso Imaculado Coração toda a minha esperança. E porque estou eu tão firmemente seguro de esperar sempre
em Vós, senão é porque Vós me ensinastes, Vós mesma, ó doce
Virgem, que Vós sois toda misericórdia e que não sois senão misericórdia? Eu estou, portanto, seguro, ó boa e amorosa Mãe, eu estou
seguro de que Vos invocarei sempre e estou seguro de que Vós me
consolareis. Eu Vos agradecerei sempre porque Vós sempre me aliviareis.
Eu Vos servirei sempre porque Vós sempre me ajudareis. Eu Vos amarei sempre porque Vós sempre me amareis. Eu
obterei tudo de Vós porque vosso amor, sempre generoso, irá além de
minha esperança. Sim, é de Vós só, ó doce Virgem que, apesar de minhas
faltas, eu espero o único bem que desejo, o meu Jesus, no tempo e na
eternidade. É de Vós só, porque Vós é que meu Divino Salvador
escolheu para me dispensar todos os favores, para me conduzir
seguramente até Ele. Sim, é de Vós Mãe, que depois de ter aprendido a
participar das humilhações e sofrimentos de vosso Divino Filho, me
introduzireis na glória e nas delícias, para O louvar e bendizer,
junto a Vós e conVosco, nos séculos dos séculos. Assim seja. Eis a minha maior confiança e toda a razão da minha
esperança. "Ecce mea maxima fiducia et tota ratio
spei mei." * Uma oração com um misto de humildade e de arrojo, de
ternura e de fogo –
A persuasão da ternura dEla para conosco chega ao último limite
A
oração é verdadeiramente maravilhosa! Ela tem as características da
oração de São Bernardo. Quer dizer, uma oração com um misto de
humildade e de arrojo, de ternura e de fogo, de varonilidade, que é difícil
a gente encontrar reunidas nas expressões de um só homem. De um lado, a ternura para com Nossa Senhora chega ao último
limite a que pode chegar. Sobretudo, chega ao último limite a persuasão
da ternura dEla para conosco. Mas, de outro lado, mesmo no modo de cantar a ternura dEla,
nada há de efeminado, nada há de indigno de um varão. Pelo contrário,
há uma espécie de audácia nessa ternura, de audácia encorajada por
essa ternura, estimulada por essa ternura, que faz exatamente dessa oração
uma obra prima, porque tem toda a suavidade própria à uma pomba, mas
tem um vôo de águia.
Vai
até o Coração Imaculado de Maria diretamente. E com uma liberdade,
com um desembaraço – eu ousaria dizer, com uma
familiaridade cheia de veneração –
mas de intimidade, que verdadeiramente espanta a gente. Ele fala aqui da virtude da confiança. E ele mostra no que
essa virtude consiste. E depois ele mostra as razões (que estão na
base) dessa virtude. Essa virtude consiste fundamentalmente em saber que
Nossa Senhora – como ele diz –
é ternura, é toda ternura e nEla não há senão ternura. Quer dizer, não há severidade, não há juízo, não há
justiça, não existe outra coisa nEla a não ser isso. E como isso é
assim e essa é a disposição dEla em relação a todos os homens, é lógico,
é forçoso, é inevitável que cada homem que sabe que isso é assim,
tenha nEla uma confiança sem limites. Uma confiança no quê? Em duas gamas: em primeiro lugar,
quanto à vida terrena; em segundo lugar, quanto à vida eterna. Confiança de que Nossa Senhora vai gerir os interesses
dele nessa vida. E é uma confiança que abrange portanto, de algum
modo, também os interesses terrenos verdadeiramente ditos. É verdade que ele era religioso e que não tinha, nesse
sentido, interesse terreno. Ele tinha voto de pobreza, de castidade e de
obediência; os interesses materiais dele estavam todos atendidos no
convento. Mas é verdade também que ele fala aqui em termos gerais, não
só para o religioso, mas é uma oração que qualquer fiel pode repetir
e fazer sua. E aqui se entende que nós, nos nossos próprios interesses
terrenos, naquilo que eles têm de legítimo, de
santificante, nós devemos confiar em Nossa Senhora. * Quando a tormenta chegar ao auge, é hora de preparar
o incenso para cantar o "Magnificat", porque Nossa Senhora
intervirá e nos salvará. Essa é uma confiança inabalável
Pedir
a Nossa Senhora que Ela tome conta disso, que Ela faça por nós aquilo
que não somos capazes de fazer. Todos nós sabemos que a Providência tem desígnios insondáveis
e que pode, portanto, querer nos sujeitar, de um momento para o outro, a
um sofrimento que nós não prevemos. Nós sabemos também que a Providência quer,
genericamente, daqueles a quem Ela ama, que passem por muitos
sofrimentos. Nós sabemos, portanto, que nessa vida temos de sofrer. Sem embargo disso, há interesses terrenos que por um
movimento interno da graça, por um certo senso das proporções etc., nós
sabemos e vemos que, muito provavelmente, a Providência não quer que
se percam e não quer que se imolem. Estes interesses nós devemos
entregar à Nossa Senhora. Ela velará por eles, Ela os apoiará, Ela os protegerá,
de tal maneira que nós não temos de estar com ansiedade, nós não
temos de estar com “torcidas” [a palavra aqui é empregada no
sentido de agitação, de frenesi], nós não temos de estar com
sofreguidão e falta de distância psíquica. Mas no pior das nossas angústias e das nossas preocupações,
nós devemos nos lembrar daquilo que diz o Abbé Saint-Laurent no
“Livro da Confiança”: que quando o tormento ou a tormenta tenha
chegado até o auge, é hora de preparar o incenso e todo o necessário
para cantar o “Magnificat”. Porque quando o sofrimento chegou ao
auge, Nossa Senhora intervirá e nos salvará. Quer dizer, essa é uma
confiança inabalável. Confiança que cresce de ponto quando não se trata de
nossos interesses terrenos individuais, mas se trata das questões de
apostolado. Nossa Senhora quer nosso apostolado – Ela tem dado disso
mil provas e está multiplicando essas provas continuamente. Se Ela quer
nosso apostolado, Ela levará o apostolado ao sucesso. E nós não temos que nos colocar nesse ponto de vista péssimo
assim: "Eu, por mim, resolvo os assuntos comuns do apostolado com
minhas forças e minha capacidade. Nossa Senhora resolva o extraordinário".
Isso é péssimo. * Nossa Senhora não interromperá a obra que Ela começou
e nos levará até lá se nós soubermos confiar
Nossa
Senhora, como Medianeira onipotente junto a Deus, resolve tudo. Eu
preciso de auxílio dEla para as coisas grandes e pequenas. Para as
corriqueiras, como para as enormes. E ainda que as coisas de apostolado possam parecer muito
complicadas, muito comprometidas, eu devo confiar em que Nossa Senhora
resolva; eu ponho a minha confiança nEla e não penso noutra coisa. Isso se aplica ainda mais à nossa vida espiritual. Nossa
Senhora nos chamou para a TFP, e dentro da [vocação da] TFP nos chama
à santidade. Se Ela nos chama para a santidade, Ela não interromperá
a obra que Ela começou e nos levará até lá se nós soubermos
confiar. Alguém dirá: “Dr. Plinio, belas palavras... Na
realidade, elas são vácuas e não correspondem a nada, porque se eu
pecar eu estou criando obstáculos à ação de Nossa Senhora. E se eu
estou criando obstáculos à ação de Nossa Senhora, não posso supor
que Ela vá me santificar. Quer dizer, o senhor está dizendo uma coisa
que é muito bonita, mas que não vale nada, não tem consistência. É
uma quimera”. A resposta está aqui mesmo em São Bernardo. Ainda que a
gente tenha a dor enorme de ter ofendido a Nossa Senhora, ainda que
tenha a dor de ter ofendido gravemente, é preciso continuar a confiar
nEla. Porque se a gente desconfiar dEla, então, está tudo perdido. A
porta do Céu é Ela! E se nós, pela nossa falta de confiança,
fecharmos a porta do Céu, nós mesmos nos condenamos. * Se a pessoa perde a confiança em Deus depois do
pecado, comete um outro pecado ainda pior. Enquanto se confia, o caminho
está aberto
Se,
pelo contrário, nós continuarmos a confiar nEla contra toda confiança,
Ela pelo menos receberá de nós essa forma de glória, que é a do
pecador que confia nEla. É uma forma de glória. O pecado é um
atentado à glória de Nossa Senhora. Mas o pecador que continua a confiar nEla dá-lhe uma forma
de glória que nenhum justo pode dar, e que é exatamente a glória da
confiança daquele que ofendeu. Então ter a confiança nisso, esperar contra toda esperança
mesmo dentro das dificuldades e da buraqueira da nossa vida espiritual,
é uma coisa que São Bernardo recomenda aqui intensamente. E que lembra aquela palavra de São Francisco Xavier, que o
pior do pecado –
ainda que o pecado seja um horror –
o pior do pecado não é tanto o pecado, mas é o fato de que a pessoa
depois do pecado, perca a confiança em Deus. Aí é que vem o pior
pecado. Porque enquanto confia, o caminho ainda está aberto, tudo
é possível. Mesmo para o pecado do tíbio, que é um pecado que Nosso
Senhor diz: "Eu te vomitarei da minha boca." * Devemos ter esperanças de que Nossa Senhora nos ajude
na hora da morte
Ele acaba, então, falando depois da
vida eterna. E ele diz essa coisa admirável: que quando chegar a hora
da morte, ele confia que a confiança dele seja tal que ele morra com o
coração dele recostado sobre o Imaculado Coração de Maria. É
expressão, naturalmente, simbólica, mas é uma expressão que tem um
valor enorme. Lembra aquela posição de São João recostado sobre o
Sagrado Coração de Jesus, na Ceia, e perguntando quem é que haveria
de traí-Lo. Ouvindo, portanto, as pulsações do Sagrado Coração de
Jesus. Também aí vem uma esperança muito grande que Nossa
Senhora, na hora da morte, nos ajude. Ela diminua os horrores desse
transe, Ela até nos dê uma morte cheia dos sentimentos da presença
dEla se isso for para maior glória dEla e para bem de nossa alma. Em todo caso, ainda que nossa morte deva ser muito árida,
ainda nesse caso, que essa aridez será para o bem de nossa alma para nós
irmos para o Céu, passarmos o menor tempo possível no Purgatório,
irmos o mais alto possível para o Céu, e que os sofrimentos da hora da
morte nos ajudem a salvar muitas almas. Este é o pensamento admirável contido nessa ficha de São
Bernardo. Ficha tão bonita que se nós reeditarmos as Preces pro
oportunitate dicendae, tenho impressão de que seria o caso de
incluir esta ficha nas Preces, de tal maneira ela é carregada de
sentido e admirável debaixo de todos os pontos de vista.
|