Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

 

Baldeação ideológica inadvertida

 

e

 

Diálogo

 

 

 

 

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EDITORA VERA CRUZ LTDA.

Rua Dr. Martinico Prado 246

01224–São Paulo, SP

5ª edição, julho de 1974

 

Publicado em “Catolicismo” (nº 178-179, de outubro-novembro de 1965) com Imprimatur do Exmo. Revmo. Sr. D. Antonio de Castro Mayer, Bispo Diocesano de Campos. 

1ª edição (5.000 exemplares) – janeiro de 1966

2ª edição (7.000 exemplares) – fevereiro de 1966

3ª edição (8.000 exemplares) – março de 1966

4ª edição (10.000 exemplares) – abril de 1966

5ª edição (15.000 exemplares) – julho de 1974

Total das edições em português: 45 mil exemplares. 

Teve também uma edição em alemão, três em espanhol e uma em italiano, num total de 22 mil exemplares. Foi outrossim transcrito integralmente em cinco jornais ou revistas da Espanha, Argentina e Chile.


 

Prefácio

 

Por que é Plinio Corrêa de Oliveira uma das perso­­nalidades mais discutidas, mais aplaudidas e mais combatidas da atualidade brasileira? Por que seu nome se vai projetando – sempre combatido, aplaudido e discutido – nas Américas e na Europa? 

Por que poucas personalidades são tão ricas em significado ideológico quanto a sua. Como constituinte federal, e posteriormente como professor, conferencista, orador, jornalista, líder e homem de ação, toda a sua vida vem sendo uma contínua tomada de posição, coerente, cristalina e intrépida, a favor de certos princípios. E estes princípios, ele os vai desenvolvendo gradualmente, com profundeza, com solidez e com brilho, ao longo de seus livros. 

Na perspectiva desses princípios, o perigo comunista se apresenta para Plinio Corrêa de Oliveira como de natureza principalmente ideológica e moral. Sem negar a importância da agressão termonuclear, do terrorismo ou da guerrilha como meio de implantar o marxismo, Plinio Corrêa de Oliveira afirma entretanto que a ação ideológica sobre a opinião pública do Ocidente – enfraquecida pela corrupção e pela confusão – pode alcançar para a seita vermelha sucessos mais fáceis e menos arriscados. 

Tal ação ideológica, o comunismo a desenvolve com êxito crescente, através de várias manobras solertes. 

Uma delas consiste em tentar a desmobilização de incontáveis católicos, embaindo-os com a miragem de que podem viver de consciência tranqüila num regime comunista que suprima a propriedade privada mas ao mesmo tempo conceda à Igreja a liberdade de culto. Denunciando o falacioso dessa miragem, Plinio Corrêa de Oliveira escreveu o ensaio “A liberdade da Igreja no Estado comunista”, obra concisa e de grande densidade, que foi objeto de uma expressiva carta de louvor da Sagrada Congregação dos Seminários e Universidades, subscrita pelo Emmo. Cardeal Pizzardo, Prefeito daquele órgão da Santa Sé. Dessa obra, verdadeiro “best-seller”, já foram tirados 142 mil exemplares, em oito linguas: português, francês, inglês, italiano, espanhol, polonês, alemão e húngaro. 

Outra manobra é a apontada no presente ensaio de Plinio Corrêa de Oliveira: a da bolchevização inadvertida de incontáveis anticomunistas, por meio das palavras-talismã. A Editora Vera Cruz dá a lume a 5ª edição deste trabalho, que é um estudo do atualíssimo processo de persuasão ideológica subconsciente adotado pela propaganda comunista. O Autor analiza detidamente, a título de exemplo, a palavra-talismã “diálogo”. 

Trata-se de uma exposição feita com precisão de método, clareza de linguagem e rigor de observação, que descreve uma no­va tática comunista que, colhendo de impr­oviso a opinião ocidental, a pode arrastar para inesperadas negações e infortúnios insondáveis. 

Estamos certos de que este estudo interessa a um largo público, ávido de objetividade, de coerência e de coragem, e saciado do relativismo fácil, vazio e demolidor de nossos dias. 

EDITORA VERA CRUZ LTDA.


 

Introdução 

Por vezes uma circunstância de pequena monta pode esclarecer e explicar todos os aspectos de uma intrincada situação. Isto, que tão freqüentemente se vê nos romances, ocorre também na realidade da vida. O presente estudo nasceu de uma circunstância dessas.

 

1. Torção de vocábulos a serviço da propaganda comunista 

De há muito soavam falso a nossos ouvidos os múltiplos empregos que em certos meios vêm sendo dados à palavra “diálogo”. Em torno do eixo fixo de um significado residual legítimo, notávamos ser ela manipulada no linguajar quotidiano desses meios, e em certos comentários de imprensa, de modo tão forçado e artificial, com ousadias tão desconcertantes, e sentidos subjacentes tão vários, que sentíamos a necessidade, veemente como se fora um imperativo de consciência, de protestar contra essa transgressão das regras da boa linguagem. 

Aos poucos, impressões, observações, notas colhidas aqui e acolá, iam criando em nossa mente a sensação de que essa multiforme torção da palavra “diálogo” tinha uma lógica interna que deixava ver algo de intencional, de planejado e de metódico. E que esse algo abrangia não só essa, mas outras palavras usuais nas elucubrações dos progressistas, socialistas e comunistas, como sejam “pacifismo”, “coexistência”, “ecumenismo”, “democracia-cristã”, “terceira-força”, etc. Tais vocábulos, uma vez submetidos a análoga torção, passavam a constituir como que uma constelação, em que uns apoiavam e completavam os outros. Cada palavra constituía um como que talismã a exercer sobre as pessoas um efeito psicológico próprio. E o conjunto dos efeitos dessa constelação de talismãs nos parecia de molde a operar nas almas uma transformação paulatina mas profunda. 

Essa torção, segundo se nos tornava claro pela observação, se fazia sempre num mesmo sentido: o de debilitar nos não comunistas a resistência ao comunismo, inspirando-lhes um ânimo propenso à condescendência, à simpatia, à não-resistência e até ao entreguismo. Em casos extremos, a torção chegava até o ponto de transformar não comunistas em comunistas. 

E à medida que a observação nos ia fazendo vislumbrar uma linha de coerência nítida e uma lógica interna invariável no emprego variado e até desconcertante daquelas palavras eficazes e subtis como um talismã, ia-se-nos firmando no espírito a suspeita de que, se alguém chegasse a descobrir e a explicitar em que consiste essa linha de coerência ou essa lógica, teria desvendado um artifício novo e de grande envergadura, empregado pelo comunismo em sua incessante guerra psicológica contra os povos não comunistas. 

Nem por isto cogitávamos de nos entregar especialmente ao estudo do assunto. Um fato, contudo, nos levou a tal 

 

2. Desvendando um processo 

Em 1963 publicamos um estudo intitulado “A liberdade da Igreja no Estado comunista”. Traduzido para vários idiomas, transpôs esse trabalho a cortina de ferro, e o Sr. Zbigniew Czajkowski, um dos dirigentes do movimento “comuno-católico” Pax, da Polônia, julgou necessário imunizar contra ele o público de seu país, dando a lume nos periódicos “Kierunki” e “Zycie i Mysl” de Varsóvia, dos quais é colaborador, uma carta aberta a nós dirigida, na qual procurava opor-lhe ampla refutação (*). Respondemos pelo conhecido mensário de cultura brasileiro “Catolicismo”, daí derivando toda uma polêmica que ainda não foi encerrada. 

-------------- (Nota) ----------

(*) Nota da 5ª edição: Também “BALDEAÇÃO IDEOLÓGICA INADVERTIDA E DIÁLOGO” transpôs a cortina de ferro. No mesmo semanário “Kierunki” (n.°s. 51-52 e 53, de 1967), o Sr. Z. Czajkowski, redator-chefe do mensário “Zycie i Mysl”, escreveu um novo artigo com um título bastante singular: “No círculo de uma mistificação psicológica, ou seja, de uma polêmica com o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira – continuação”. Ao tomar posição contra “A liberdade da Igreja no Estado comunista”, o escritor “comuno-católico” polonês fizera questão de enviar seus argumentos ao autor do livro que pretendia refutar. Desta feita, entretanto só tomamos conhecimento de sua nova investida através da notícia de sete páginas publicada em janeiro de 1968 em “La Vie Catholique en Pologne / Revue de la Presse Polonaise”, editada em Varsóvia pela Associação “Pax”. Tal revista destinada a informar (ou desinformar?…) o público ocidental sobre a vida religiosa naquele país e, particularmente, sobre as atividades do grupo “Pax”, só por acaso chegou às nossas mãos, e assim mesmo com um atraso enorme. Ao apresentar, assim, o seu novo ataque como continuação da polêmica o Sr. Z. Czajkowski empregou a palavra num sentido muito “sui generis”, uma vez que não tomou as providências para que sua argumentação chegasse à parte contrária. Aliás, o escritor “católico”-comunista tinha lá suas razões para isso: a fim de melhor rebater este nosso ensaio, adulterou pura e simplesmente, com a maior desfaçatez, diversos trechos que quis refutar! (cf. “Catolicismo”, n.° 244, de abril de 1971). Por onde se vê, também, de que lado está a “mistificação”...

O importante, em todo o caso, é que um elemento qualificado dentro da Associação “Pax”, a qual constitui dócil instrumento nas mãos do governo comunista polonês, tenha julgado oportuno alertar os círculos intelectuais de seu país contra mais este nosso trabalho. Isso é sinal de que o comunismo receia que “BALDEAÇÃO IDEOLÓGICA INADVERTIDA E DIÁLOGO” lhe acarrete sério dano em seus próprios domínios de além cortina de ferro. 

------------------------- fim da nota -------------------------

 

Em um dos lances de sua argumentação, em artigo publicado em “Kierunki” e reproduzido em “Catolicismo” (n.° 170, de fevereiro de 1965), o Sr. Z. Czajkowski enumerou as vantagens que via no simples fato de discutirmos, vantagens estas que decorreriam da discussão enquanto tal, embora não estivéssemos chegando a um acordo. Nas entrelinhas do que o jornalista de “Pax” escreveu a este propósito, transparecia uma imponderável mas real influência hegeliana. E – pequena circunstância rica em perspectivas – aplicando o pressuposto hegeliano e dialético a todas as palavras cujo desvirtuamento nos impressionava, eis que o sentido desse mesmo desvirtuamento se esclarecia de modo surpreendente. Estava ipso facto explicitado para nós o ponto de referência que explica e ordena todo o conjunto de nossas anteriores observações e impressões, e ficava posto a nu o ardiloso processo de guerra psicológica que até então apenas nos fora dado entrever. 

Como o Sr. Z. Czajkowski se referia propriamente à discussão, veio-nos à mente, por uma explicável associação de imagens, que tudo quanto ele dizia sobre o assunto era estreitamente semelhante ao que ouvíramos ou lêramos sobre o diálogo, palavra esta de um significado multiforme e enigmático que assim se nos tornava claro. 

Em conseqüência se desvendava para nós a importância de certos vocábulos, e especialmente de “diálogo”, como ardil de guerra psicológica. 

As elucubrações daí decorrentes nos levaram a redigir o presente estudo, que submetemos à apreciação do leitor. 

A rigor, para ser completo, este estudo deveria dar igual desenvolvimento à análise do vocábulo-talismã “diálogo” e de cada um dos termos correlatos “torcionados” pelo comunismo, isto é, “pacifismo”, “coexistência”, “ecumenismo”, etc. Pareceu-nos, porém, suficiente, para desmascarar o sistema, tratar a fundo de um deles – “diálogo” – e, a propósito deste, dizer o indispensável sobre os outros. Assim procedemos, pois, para poupar tempo e esforço ao leitor. 

Bem entendido fique desde logo – e voltaremos a este ponto mais adiante –que não é no diálogo em si, nem no ecumenismo em si, e menos ainda na paz em si, que apontamos algo de censurável: seria isto de nossa parte uma aberração. Nosso estudo não visa esses vocábulos tomados em seu sentido normal e correto, nem as realidades a que eles se referem, mas tão só esses mesmos vocábulos na acepção muito especial que os torna talismãs da estratégia comunista. 

 

3. Ação ideológica implícita, nota capital do processo 

Parece importante acentuar desde logo que o processo de que nos ocuparemos se destina a predispor favoravelmente à doutrina e às táticas do comunismo, e, pois, a transformar finalmente em inocentes-úteis, quando não em comunistas convictos, pessoas que de si são refratárias à pregação marxista explícita. Por isto mesmo, o processo em questão atua nas mentalidades de modo implícito. 

É nota essencial e característica desse processo que, ao longo de toda ou quase toda sua extensão, os pacientes não percebem que estão sofrendo uma ação psicológica por parte de quem quer que seja, e nem que o rumo para o qual caminham suas impressões e suas simpatias é o comunismo. Eles têm consciência, com clareza maior ou menor conforme cada indivíduo, de que estão “evoluindo” ideologicamente. Mas essa “evolução” se lhes afigura ser tão somente a descoberta ou o aprofundamento feito paulatinamente por eles mesmos, sem qualquer concurso de outrem, de uma “verdade” ou de uma constelação de “verdades” que reputam simpáticas e generosas. Em via de regra nem sequer passa pela mente desses pacientes, ao longo de quase todo o processo, que aos poucos se vão tornando comunistas. Se em determinado momento o risco disto se lhes tornasse notório, dar-se-iam conta, ipso facto, do abismo em que iam caindo, e retrocederiam. 

É só na etapa final da “evolução” que a evidência de sua transformação interior lhes faz ver que é para o comunismo que tendem. Entretanto, a essa altura sua mentalidade de tal maneira está “evoluída”, que a hipótese de se tornarem adeptos do comunismo já não lhes causa horror, mas antes simpatia. 

 

4. A baldeação ideológica inadvertida: sumário do que sobre ela se diz nesta obra 

Esse fenômeno – ou melhor, esse subtil processo da propaganda comunista – nós o denominamos aqui baldeação ideológica inadvertida. Propomo-nos a descrevê-lo sucintamente no que tem de essencial, e, como ele comporta diferentes modos de realização, estudá-lo-emos especialmente enquanto desenrolado através do que chamamos o estratagema da palavra-talismã. Em seguida, ilustraremos o estudo desse estratagema com um exemplo concreto, ou seja, com o emprego do termo “diálogo” para fazer evoluir inadvertidamente para o comunismo um número incontável de pessoas não comunistas. 

O fenômeno da baldeação ideológica inadvertida – bom é dizê-lo desde logo – comporta modalidades várias. Ele pode desenvolver-se em toda a sua amplitude e em seu sentido mais radical, isto é, pode levar o paciente até o fim do novo caminho, que é a aceitação do comunismo. O mesmo processo ocorrerá de modo menos amplo e radical, quando sua vítima, em lugar de se tornar comunista, ficar simplesmente socialista, por exemplo. Em um e outro caso, a baldeação é ideológica na força do termo. Pode ainda o fenômeno não dizer respeito propriamente a uma concepção filosófica do universo, da vida, do homem, da cultura, da economia, da sociologia e da política, como é o marxismo, mas somente a teorias e métodos de ação. Assim, um anticomunista fogoso pode ser “baldeado” para anticomunista adepto exclusivo das contemporizações, das concessões e dos recuos. É uma baldeação ideológica em um sentido diminutae rationis da palavra “ideológico”. 

Pareceu-nos necessário expor, ao fim do trabalho, de que maneira se pode sustar a ação da palavra-talismã e o processo de baldeação ideológica inadvertida nas pessoas em que uma e outro se vão desenvolvendo, e até prevenir a tempo contra eles os incautos.

 

 

Capítulo I 

A nova tática comunista:

ação persuasiva no subconsciente

 

Antes de estudar a baldeação ideológica inadvertida, parece útil pôr em relevo toda a importância e atualidade do tema em função da mais recente estratégia dos comunistas para a conquista do mundo.

 

 

1. Uma concepção perempta sobre a eficácia das técnicas de persuasão, e da violência, na estratégia comunista

 

Não poucos leitores esbarrarão com uma dificuldade preliminar, quando se puserem a considerar o assunto. Com efeito, a imprensa, a televisão, o rádio lhes apresentam continuamente a agressão da Rússia ou da China contra as nações não comunistas como praticável, o mais das vezes, conjuntamente pela invasão armada e pelas revoluções sociais promovidas pelos partidos comunistas dos diversos países a serem invadidos. Segundo essa concepção, a violência seria de longe o principal instrumento de conquista do comunismo.

 

Sem dúvida, também entre os que adotam tal concepção se fala de técnicas de persuasão como meio de conquista. Mas elas ocupam nessa perspectiva o lugar que têm na guerra clássica, internacional ou intestina, na qual constituem algo de indispensável mas secundário em relação às operações militares.

 

 

2. As técnicas de persuasão, mais importantes que a força

 

A nosso ver, nas atuais condições, a persuasão ideológica não é considerada pelos comunistas como coisa colateral ou subsidiária em relação à investida violenta. Pelo contrário, esperam eles hoje em dia maiores resultados da propaganda do que da força.

 

 

3. A baldeação ideológica e sua importância atual

 

Ademais, em matéria de propaganda o esforço ideológico explícito e direto do ­partido comunista não ocupa só ele o primeiro plano: o método da baldeação ideológica inadvertida, técnica de persuasão indireta e implícita, não lhe fica atrás, e sob alguns aspectos até o supera.

 

Estas duas afirmações são indispensáveis para que muitos militantes do anticomunismo, que com zelo e com mérito se dedicam à tarefa indispensável de alertar o mundo para o perigo da guerra de conquista do comunismo, e da revolução social violenta, alarguem seus horizontes, e neles introduzam também a solicitude em denunciar, em prevenir e em sustar o processo de baldeação ideológica inadvertida, em suas várias formas, inclusive a da palavra-talismã.

 

É à elucidação deste ponto que dedicamos o primeiro capítulo do presente estudo.

 

 

4. O comunismo, seita imperialista

 

Para demonstrar as asserções que acabamos de fazer, é preciso ter em vista, antes de tudo, que o movimento comunista constitui fundamentalmente:

 

– uma seita filosofica atéia, materialista e hegeliana, a qual deduz dos seus errôneos princípios toda uma concepção peculiar do homem, da economia, da sociedade, da política, da cultura e da civilização;

 

– uma organização subversiva mundial: o comunismo não é apenas um movimento de caráter especulativo. Pelos imperativos de sua própria doutrina quer ele tornar comunistas todos os homens, e amoldar inteiramente segundo os seus princípios a vida de todos os povos. Considerada neste aspecto, a seita marxista professa o imperialismo integral, não só porque visa a imposição do pensamento e da vontade de uma minoria a todos os homens, mas ainda porque essa imposição atinge o homem todo, em todas as manifestações de sua atividade.

 

 

5. Ob­stáculos com que se defronta o imperialismo comunista

 

Para realizar seu anelo imperialista, o comunismo tem de enfrentar graves obstáculos. A título exemplificativo, mencionemos alguns deles.

 

 

A. Insensibilidade das multidões

 

Há cem anos – em números redondos – vem o comunismo pregando às populações operárias do mundo inteiro a revolução social, o morticínio e a pilhagem. Para essa pregação, dispôs ele quase continuamente, ao longo desse século, de inteira liberdade de pensamento e de ação, em quase todos os países. Tampouco lhe faltaram recursos financeiros imensos, bem como especialistas e técnicos dos melhores, em matéria de propaganda. A despeito de tudo isso, as multidões se têm manifestado, em sua grande maioria, pouco sensíveis aos acenos – que tão facilmente as poderiam fascinar – da demagogia marxista. Em nenhum país o comunismo logrou jamais a conquista do poder por eleições honestas. A causa desta insensibilidade está em parte no fato de que em muitos lugares se melhorou consideravelmente a situação das classes necessitadas. Mas é preciso não exagerar o alcance ideológico de melhorias tais: em algumas regiões, como o Norte da Itália, por exemplo, em que as condições do operariado não cessaram de progredir depois da segunda guerra mundial, o comunismo alcançou desconcertantes êxitos eleitorais (1). A causa da insanável inviabilidade da vitória comunista através das urnas está também, em alguma medida, na resistência que ao marxismo opõe o fundo de bom senso natural que constitui o patrimônio milenar e comum da humanidade. Este bom senso se choca com o caráter essencialmente antinatural que se mostra em todos os aspectos do comunismo. Nos povos de civilização cristã, a esse fator se acrescenta a incompatibilidade do espírito, da doutrina e dos métodos marxistas com o espírito, a doutrina e os métodos da Igreja. Da conjunção destes obstáculos é que decorreu o fato inconteste e imensamente significativo de que – repetimos – em cem anos de existência e ação, nenhum partido comunista tenha logrado tornar-se majoritário em qualquer país. Sobre este fato jamais será suficiente insistir, se quisermos ver em sua real perspectiva os obstáculos que o comunismo tem por frente.

 

 

------------------ (Nota) ----------------

         

          Os progressos do comunismo na Itália em nada invalidam o que afirmamos a respeito do malogro das velhas técnicas de proselitismo comunista explícito. Eles provam, pelo contrário, o êxito das técnicas novas. O Partido Democrata Cristão italiano – pelo menos enquanto considerado em suas correntes de centro-esquerda, esquerda e extrema esquerda – vem sendo trabalhado a fundo por sentimentos de afinidade e medo, habilmente aproveitados pelo PCI. Este encobre quanto possível na Itália, seu caráter materialista e ateu, e apela continuamente para um entendimento com os católicos. Com isto, produz um degelo na Democracia-Cristã. Ao mesmo tempo, o perigo de uma guerra continua a dominar o panorama político peninsular. Daí decorrem uma flexibilidade maior do Partido Democrata-Cristão em relação à esquerda, e a política de boa-vizinhança entre ele e o socialismo. Ambos esses fatores enfraquecem por sua vez as disposições anticomunistas da maioria da população, facilitam a expansão do Partido Comunista, e sobretudo operam um perigoso deslizar do centro para a esquerda socialista, dentro mesmo dos quadros políticos demo-cristãos. Semelhante fenômeno se passa com outros partidos italianos ditos centristas, e também trabalhados por análoga estratégia comunista. Daí o grande risco a que está exposta a Itália, nos dias que correm.

 

------------------------- (fim da nota) ------------------

 

 

Respondendo a objeções

 

 

* Ganhou ele, é verdade, a eleição polonesa de 1957, mas esta eleição, é evidente, careceu de liberdade. Os católicos sabiam que, se derrotassem Gomulka, exporiam sua pátria a uma repressão russa no estilo da que sofrera a gloriosa e infeliz Hungria. Por isto, embora constituindo na Polônia maioria decisiva, optaram eles pelo que se lhes afigurou o mal menor, elegendo deputados “gomulkianos”. Não nos pronunciamos aqui sobre a liceidade dessa manobra, nem sobre o seu acerto do ponto de vista estritamente político. Sublinhamos, entretanto, que de nenhum modo se pode afirmar ter sido eleito livremente pelo ínclito povo polonês um congresso majoritariamente comunista. A maioria comunista existente no parlamento da Polônia não constitui, pois, argumento contra o que acabamos de afirmar.

 

* Em 1970, cinco anos após a primeira edição deste trabalho, assumiu o poder, pela via eleitoral, um governo marxista no Chile. Mas é notório que os partidos marxistas chilenos nem de longe obtiveram a maioria nas eleições. Como tivemos oportunidade de demonstrar na ocasião, em artigo largamente difundido por quase todos os países da América Latina (cf. “Toda a verdade sobre as eleições no Chile”, in “Folha de S. Paulo” de 10-9-70), nas eleições presidenciais anteriores, realizadas em 1964, Allende não era apoiado senão pelos comunistas, ou seja, pelo Partido Socialista (marxista), pelo Partido Comunista e por certos corpúsculos comunistas dissidentes. Assim, toda a votação de Allende era comunista, e toda a votação comunista era de Allende, e ele foi derrotado. No pleito de 1970, pelo contrário, Allende se apresentou como candidato de uma coligação, recebendo, além dos votos comunistas acima referidos, o apoio de partidos não diretamente marxistas. E sucedeu precisamente que Allende, embora se colocando à frente dos demais candidatos, obteve apenas 36,3% dos votos, contra 38,7% na eleição anterior. Houve, portanto, um recuo do contingente marxista, nas eleições presidenciais de 1970, pois mesmo somado a outras forças, ele alcançou menor porcentagem de votos do que em 1964. E não fora: de um lado a divisão política dos candidatos antagonistas; de outro lado o apoio semidisfarçado, mas em todo caso escandaloso, da Hierarquia e do Clero chilenos, com o Cardeal Silva Henriquez à frente (este chegou a autorizar os católicos a votar no candidato marxista!…); e, por fim, a vergonhosa entrega do poder a Allende, pela Democracia Cristã, quando da escolha, pelo Congresso, entre os dois candidatos mais votados; – jamais o comunismo teria sido então instaurado no Chile.

 

É de se notar, ademais, que nas eleições subseqüentes, a coligação esquerdista não obteve maioria de votos. Mais ainda, as eleições não se realizaram em clima de autêntica liberdade. A livre propaganda eleitoral foi coarctada pelo governo, que além de aplicar vigorosamente os dispositivos de “persuasão” que tinha a seu alcance, exerceu pressão direta sobre editoras de jornais e revistas, bem como sobre emissoras de rádio e televisão, envolvendo-as em investigações arbitrárias, assumindo o controle acionário em determinado caso, e mesmo suspendendo o seu funcionamento, em outros casos. Não houve, pois, possibilidade de uma propaganda verdadeiramente livre, o que deixou o eleitor oposicionista de base – cujo pronunciamento é muito importante numa eleição –sem condições para votar livremente (cf. nossos artigos “No Chile: empate sob pressão” e “Nem vitória autêntica, nem pleito livre”, in “Folha de S. Paulo” de 11 e 18-4-71, respectivamente).

 

As numerosas convulsões das massas populares inconformadas com a miséria decorrente da aplicação dos princípios comunistas à economia chilena deixaram bem claro em que sentido se teria pronunciado o povo se tivesse havido eleições nos meses que antecederam à derrocada e ao suicídio de Allende.

 

Por todas estas razões, o caso chileno também não constitui um argumento válido contra a tese de que jamais um partido comunista obteve a maioria em eleições autênticas e livres.

 

* Se os métodos de persuasão até aqui empregados pelo comunismo são tão insuficientes, a que deve ele então o fato de ser hoje uma força mundial de primeira ordem? De nenhum modo à eficácia desses métodos, diante dos quais a opinião pública permaneceu insensível.

 

O primeiro fator desse êxito, que salta aos olhos, foi a violência. Na Rússia, o comunismo se impôs por uma revolução. Em outros países da Europa, a Rússia, como uma das nações vencedoras da guerra, o instalou à viva força. Entretanto, a violência não operou só por si. Se não fosse o auxílio das potências aliadas, teria a Rússia logrado vencer o invasor nazista? Em 1939 sofreram os exércitos soviéticos vergonhosa derrota da parte da pequena Finlândia. Como dar por indiscutível que eles venceriam por si sós a poderosa Alemanha?

 

Acresce ainda que as vantagens auferidas do Ocidente pelos comunistas não se cifram ao apoio militar que lhes foi dado no decurso da segunda guerra mundial. A política desastrosa do falecido Presidente Roosevelt em Teerã e em Yalta, completada, no que diz respeito à China, pelos enigmáticos desatinos da missão Marshall, contribuiu imensamente para a expansão soviética. Por sua vez, na pequenina Cuba, Fidel Castro tão bem sentiu a impopularidade do comunismo, que se disfarçou de católico durante todo o tempo da guerra civil, certo de que sem isto não alcançaria o poder. Foi só depois de ter nas mãos as rédeas do Estado, que arrancou a máscara. Tudo deixa ver que, se os comunistas tivessem encontrado sempre diante de si líderes resolutos e perspicazes, não teriam, de longe sequer, alcançado os êxitos de que agora se gloriam.

 

Assim, foi pela violência, pela astúcia e pela fraude, e não por uma vitória ideológica sobre as massas, que o comunismo atingiu seu atual grau de poder.

 

* Aliás, convém não sobrestimar o alcance desses êxitos. De fato, se pelo menos depois de se ter implantado em alguns países, o comunismo se tivesse mostrado capaz de conquistar as inteligências e os corações, como explicar que ele precise de um aparelhamento policial imenso para se manter? Como explicar que ele se veja obrigado por toda parte a cercear com o maior rigor a saída dos habitantes desses países? Como explicar que, apesar de tantas medidas, haja um fluxo contínuo de trânsfugas, que enfrentam os piores riscos para atravessar a cortina de ferro?

 

 

B. Malogro no organizar e promover a produção

 

O comunismo que nem conseguiu convencer, nem autenticamente vencer, também se mostrou impotente em organizar e produzir. Sua inferioridade em relação ao Ocidente é, a este respeito, confessada. Tanto os kruchevistas quanto os pós-kruchevistas afirmam a necessidade de reformas fundamentais na estrutura econômica da Rússia, para obter um aumento da produção. E essas reformas devem importar, segundo eles, numa ampliação da livre iniciativa.

 

Em outros termos, é de um princípio fundamentalmente oposto à sua doutrina que os comunistas esperam obter alguma elevação da produtividade… Pode-se facilmente aquilatar quanto esse insucesso desacredita o comunismo junto às populações por ele dominadas, bem como junto à opinião mundial.

 

 

6. Inutilidade do poderio termonuclear na expansão do comunismo pela violência

 

Dessa impotência na persuasão ideológica explícita e na produção econômica, que acabamos de ver, decorrem naturalmente para o marxismo, na realização de seu plano de hegemonia mundial, dificuldades incontáveis, que reduzem a bem mais modestas proporções o espectro de seu irresistível poder. Em um ponto, em um só ponto, o perigo comunista pode parecer grande aos olhos de todos os povos. É no brandir a ameaça de uma hecatombe termonuclear de âmbito quiçá mundial. Se enquanto força de construcão o comunismo nada é, como força de destruição ele é algo.

 

É notório que o poderio atômico soviético é inferior ao norte-americano. Mas, por sua própria índole a Rússia constitui para o mundo, como potência termonuclear, um perigo maior do que qualquer outra nação. Com efeito, para realizar seus planos as forças da desordem e da revolução, pela sua mesma natureza, relutam menos (quando relutam) do que as forças da ordem, em recorrer à destruição. A tendência normal do assaltante emboscado num caminho consiste em agredir. A de sua vítima não consiste em lutar, mas em fugir. E assim é maior o risco de que uma hecatombe atômica seja desencadeada pelos soviéticos ou pelo chineses do que por alguma nação do Ocidente.

 

Este único ponto de “superioridade”, intrinsecamente negativo, de que vale para a expansão comunista? Serão por ele superados os obstáculos que, como vimos, se opõem a essa expansão?

 

A que resultados conduziria, para os próprios comunistas, um conflito termonuclear? Vitoriosos talvez de início, seriam eles as principais vítimas da hecatombe que teriam desencadeado. Pois, seu poderio sendo inferior ao do adversário, sofreriam provavelmente, logo após a agressão, represálias maiores do que o dano que houvessem causado. E por fim perderiam a guerra.

 

Nada com efeito menos provável do que a vitória deles. E, se a alcançassem, o que lhes restaria nas mãos, senão um mundo em que os Estados Unidos e a Europa estariam reduzidos a um imenso monte de ruínas? Como levantar sobre essas ruínas fumegantes e informes o edifício do socialismo, que Marx, Lenine, Stalin e Kruchev anelaram ver construído sobre a técnica mais perfeita, mais avançada, e, em uma palavra, mais capaz de emular com a norte-americana? Ainda recentemente, o “Pravda”, órgão da Comissão Central do Partido Comunista russo, afirmava: “Acontece com freqüência, na política, que as derrotas sofridas por um campo não equivalem necessariamente a vitórias no campo oposto. O exemplo mais surpreendente é o da guerra termonuclear, que nada valeria ao bloco socialista, ainda que nela o imperialismo fosse literalmente pulverizado” (“Pravda”, edição de 6 de janeiro de 1965, apud telegrama da AFP da mesma data, especial para “O Estado de São Paulo”). É a confissão da radical nocividade, para as próprias nações comunistas, de uma hipotética vitória termonuclear soviética sobre o Ocidente.

 

 

7. O imperialismo comunista num impasse

 

Fazendo o balanço de tantos dados, chega-se à conclusão de que, a despeito de aparências em contrário, a expansão mundial do comunismo encontra diante de si gravíssimas dificuldades, produzidas por causas profundas, algumas das quais é difícil e outras é até impossível remover. E que o plano comunista de dominação universal está exposto a consideráveis riscos de malogro.

 

 

8. Como sair do impasse: uma via nova, a técnica de persuasão implícita

 

 

No caminho da violência o comunismo receia entrar. No da persuasão, pelo menos sob a forma de persuasão explícita promovida pelos partidos comunistas dos diversos países, não obtém ele resultados animadores. Como vimos, as massas se têm mostrado frias em relação a essa técnica de persuasão.

 

A saída do impasse não podendo estar para o comunismo nem na violência nem na persuasão explícita só pode estar numa nova via: a da persuasão implícita. Este é o ponto central para onde é preciso chamar insistentemente a atenção da opinião pública.

 

 

9. Condicões propícias à técnica comunista de persuasão implícita

 

Que possibilidades oferece a mentalidade ocidental, para esta forma de ação?

 

Dois fatores a tornam especialmente vulnerável para tal.

 

 

A. O medo

 

O instinto de conservação é muito forte no homem: por isso, muito imperiosa é nele a força do medo. Na imaginação de grandes massas do mundo livre a figura do comunista agressor, visto quer sob o aspecto do revolucionário barbudo, sujo, maltrapilho, sedento de sangue e de vingança, quer sob a forma do soldado sem entranhas, de olhar metálico, pronto a acionar o detonador da bomba atômica, continua a exercer todo o seu poder de intimidação. Um desejo de ceder quase tudo, para evitar uma guerra civil ou uma catástrofe termonuclear, influencia consciente ou inconscientemente inúmeras pessoas.

 

 

B. A simpatia

 

De outro lado, o comunismo não é tanto a antítese do que pensam muitos anticomunistas, mas apenas a última expressão, mais coerente e audaciosa, de certos princípios que eles mesmos admitem. O liberalismo, que triunfou com a Revolução Francesa, disseminou no Ocidente os germes do comunismo (2). Em conseqüência, ao medo deste se alia freqüentemente, uma tal ou qual simpatia por alguns de seus aspectos. Fogosos lutadores do anticomunismo há, cuja repulsa incide mais sobre os métodos violentos e o cunho ditatorial dos regimes bolchevistas atuais, do que sobre os escopos finais do comunismo. Parece-lhes candidamente que, se o Ocidente alcançar tais escopos por métodos incruentos, e atingir assim uma completa igualdade de bens e de condições sociais, reinarão por fim no mundo a justiça, a fartura e a paz (3).

 

---------- (Notas) ---------

 

(2) Desenvolvemos este pensamento em nosso ensaio “Revolução e Contra-Revolução” (Boa Imprensa Ltda., Campos, 1959). Tivemos a alegria de verificar que as principais teses desse ensaio relativas à Revolução Francesa como causa do comunismo foram também afirmadas por 269 Padres do II Concílio Ecumênico Vaticano – pertencentes a 66 países – na substanciosa exposição de motivos de uma petição promovida por dois Prelados brasileiros, os Exmos. Revmos. Srs. D. Geraldo de Proença Sigaud, S. V. D., Arcebispo de Diamantina, e D. Antonio de Castro Mayer, Bispo de Campos, documento esse que pedia fosse renovada pelo Concílio a condenação do socialismo e do comunismo. (O texto integral dessa petição foi publicado em “Catolicismo”, n.° 157, de janeiro de 1964).

 

(3) Trata-se de um mito bem conhecido, presente já nas elucubrações de certas seitas protestantes nascidas no século XVI bem como na ideologia de certos elementos “avançados” da Revolução Francesa. Dele nos ocuparemos mais adiante (cap. IV, 2).

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C. O binômio medo-simpatia

 

Como vemos, há na própria psicologia de incontáveis pessoas no Ocidente um binômio de forças, que chamaremos de medo-simpatia, o qual inspira em influentes setores econômicos, políticos, intelectuais e até religiosos a propensão para entrar em composição com o comunismo (4).

 

---------- (Nota) -------------

 

(4) Seja-nos lícito, de passagem, fazer um comentário à margem do tema, mas que pode elucidar um aspecto importante do problema comunista em nossos dias.

As considerações que fizemos neste capítulo importam, com efeito, ao estudo da verdadeira natureza do estremecimento atual entre a Rússia e a China comunista.

À vista das razões que enunciamos, o comunismo deve, em rigor de lógica, operar uma considerável renovação de métodos para encetar essa nova etapa de sua luta. Assim, é forçoso perguntar, a propósito de cada acontecimento de monta ocorrido no mundo marxista – como é a ruptura da Rússia com a China – até que ponto, por cima das suas causas próximas e visíveis ele se ajusta aos novos métodos e fins da alta e mais recente estratégia comunista. Um observador cauto deve, pois, considerar a esta luz, com o mais acurado senso crítico, o dissídio sino-soviético.

Com efeito, se é bem verdade que existem pontos naturais de divergência entre os interesses nacionais da Rússia e da China e razões de competição entre o PC russo e o PC chinês quanto à direção mundial do movimento comunista, é de se notar que o dissídio entre os dois “grandes” do comunismo apresenta, do ponto de vista propagandístico, outro aspecto, e este de grande envergadura. Considerada em função do binômio medo-simpatia, vê-se que aos olhos dos povos livres a China comunista apresenta a face sombria e agressiva, capaz de atuar sobre o medo do Ocidente enquanto as propostas de coexistência pacífica da Rússia e os sintomas de “degelo” ali verificados fazem vibrar aquém cortina de ferro as fibras de alma simpáticas ao comunismo. Estas duas faces, a chinesa e a russa, formando o verso e o reverso de uma mesma medalha, bem podem constituir como que um dispositivo de dupla pressão psicológica sobre o binômio medo-simpatia existente na opinião pública do mundo livre, servindo assim os supremos interesses do expansionismo comunista. Para compreender a plausibilidade desta hipótese, cumpre ter em vista que esses interesses são comuns, em ultima análise, a todos os marxistas, sejam eles russos ou chineses.

Análogas considerações se devem fazer sobre a atual tendência para um tal ou qual restabelecimento da livre iniciativa na Rússia.

De um lado, se esta, desistindo por ora de uma guerra suicida quer competir com os Estados Unidos em clima de coexistência pacífica no terreno da produção, deve necessariamente apelar para o restabelecimento, ainda que muito rudimentar, da livre iniciativa. Pois a experiência soviética prova que de outro modo nenhum progresso é possível nos setores em que mais insuficiente se mostra a produção.

Mas esse restabelecimento não será utilizado propagandísticamente para outros fins?

Por exemplo, não poderá ele provocar uma desmobilização dos espíritos no mundo livre, preparando-os para a ilusão de que a Rússia estaria a caminho de um regime democrático apenas semi-socialista, e que os perigosos contrastes entre os dois mundos poderiam ser eliminados caso o Ocidente, no interesse da paz, consentisse em se “socializar” fortemente ao mesmo passo que a Rússia se “capitalizasse” um pouco?

Essa ilusão atuando sobre o binômio medo-simpatia, a que recuos, a que capitulações poderia predispor as nações livres!

 

---------- (fim da nota) ----------

 

 

10. O entreguismo e o amor à verdadeira paz

 

Tal propensão não se confunde, bem entendido, com o nobre desejo, comum a todos os espíritos bem formados, de preservar a paz por meio de negociações dignas e acordos judiciosos, que não importem para nós na renúncia aos princípios fundamentais da civilização cristã. Ela vai muito além, e induz o Ocidente a apetecer um regime semicomunista para eliminar, nas suas relações com o outro lado da cortina de ferro, a fricção dos contrastes, e facilitar uma acomodação entre os dois mundos.

 

 

11. Medo e simpatia, persuasão implícita e explícita, conjugados a servi­ço do comunismo

 

O medo e a simpatia parecem incompatíveis. Na situação psicológica atual do Ocidente, não o são.

 

Em suma, não é necessário, para o comunismo, renunciar à sua ação de intimidação para angariar simpatias, ou vice-versa. Interessa-lhe manter todo o “prestígio” de seu poderio destruidor. Com base nesse “prestígio” consegue ele amolecer a resistência de numerosos adversários, tornando-os propensos a um acordo. Alcançado este resultado psicológico, uma certa simpatia desses adversários por alguns aspectos do marxismo se acentua, e os prepara a receber uma tal ou qual capitulação diante dele como um mal menor, realmente suportável.

 

Pari passu, não se trata para o comunismo de renunciar ao proselitismo explícito feito pelos partidos comunistas do mundo inteiro. Este proselitismo continua a servir os seus planos, pois um partido organizado e dinâmico constitui para ele um precioso fator de intimidação em qualquer país, e uma escola de formação dos dirigentes do futuro regime marxista.

 

Simplesmente, não é mais dos partidos comunistas existentes nos países livres, mas sim da técnica de persuasão implícita, que o comunismo espera a conquista da opinião pública mundial.

 

 

12. Com ordem ao capítulo II

 

Evidenciada assim a necessidade, para o comunismo, de renunciar à pregação doutrinária explícita como principal meio para a conquista do mundo, patenteada a oportunidade, para ele, de uma ação ideológica implícita, e indicados os pontos de vulnerabilidade que, no estado de espírito de largos setores do mundo livre, podem proporcionar êxito a tal ação implícita, toca-nos precisar agora no que esta última consiste. Passamos a fazê-lo estudando a baldeação ideológica inadvertida.

 

 

Capítulo II

 

A baldeação ideológica inadvertida

 

Para focalizar com precisão em que consiste a baldeação ideológica inadvertida, cumpre antes de tudo mostrar em que se diferencia ela, enquanto método de persuasão, da atuação “clássica” de um partido comunista.

 

 

1. A técnica comunista de persuasão, clássica

 

Um partido comunista se constitui, em via de regra, com um núcleo de intelectuais ou semi-intelectuais que pelos meios bem conhecidos – isto é, pelo recrutamento individual nas universidades, nos sindicatos, nas forças armadas e em outros ambientes, por reuniões de grupos de adeptos, por conferências e discursos, pela atuação na imprensa, no rádio, na televisão, no teatro e no cinema – suscita ou explora os mais variados fatores de descontentamento e agitação. No clima assim preparado com o emprego ora da audácia, ora da cautela, o pugilo inicial de adeptos expõe, desde logo, ou a partir de certo momento, a doutrina comunista, e dela faz a apologia clara. Atraída por essa doutrinação, se constitui então uma corrente de prosélitos fanatizados. O partido está fundado. Ele suscita, estimula e recruta assim, nesta primeira fase, todos os elementos bolchevizáveis que há no meio em que age, predispostos em razão de múltiplos fatores ideológicos, morais e econômicos a aderir ao comunismo.

 

Mas a experiência prova que ao cabo de algum tempo estes êxitos iniciais, e por vezes rápidos, da técnica marxista de persuasão cessam. Recrutados em determinado ambiente os “bolchevizáveis” já ali existentes, as fileiras do partido só se vão engrossando passo a passo, à medida que o corpo social, em seu processo paulatino de deterioração ideológica, moral e econômica, vai “elaborando” outros elementos contamináveis. A propaganda comunista pode, é certo, acelerar mais ou menos esse processo de deterioração. Assim, os indivíduos assimiláveis pelo partido podem tornar-se mais numerosos. Mas eles serão habitualmente minoria. E ao mesmo tempo que o comunismo se vai enriquecendo com esses aderentes minoritários, a sua propaganda vai esbarrando em uma maioria refratária a sua ação.

 

Como conquistar esta maioria?

 

 

2. Os matizes da opinião pública e a baldeação ideológica inadvertida

 

Para responder à pergunta, é preciso ter em linha de conta que nessa maioria se devem discernir três filões: os elementos simpáticos em alguma medida ao comunismo, os elementos categoricamente hostis a este, e os vagamente hostis ao comunismo que em face dele tomam uma atitude de inércia.

 

Em relação a cada um desses filões, a estratégia comunista apresenta um aspecto peculiar:

 

* Quanto aos elementos simpáticos em parte ao comunismo, foram eles atingidos pelo proselitismo comunista, mas de modo incompleto. Do marxismo aceitam algo, e principalmente a hostilidade à Religião, à tradição, à família e à propriedade. Porém, não o levam às últimas conseqüências. São os socialistas e os progressistas de todo matiz, uns inocentes-úteis, outros cúmplices do comunismo. Aos inocentes-úteis trata este de coligar em agrupamentos esquerdistas não especificamente marxistas. Aos cúmplices, procura colocar quanto possível em postos-chave desses agrupamentos. A tais agrupamentos, utiliza como aliados na luta para a derrubada da atual ordem de coisas, e para a conquista do poder. Obtido tal resultado, esses infelizes comparsas se verão alijados, perseguidos e destruídos, se não aderirem desde logo ao partido comunista e a ele não se sujeitarem sem reservas.

 

* Quanto aos elementos categoricamente hostis ao comunismo e não raro até militantes contra ele, cumpre alvejá-los com uma ofensiva psicológica total que vise desorganizá-los, desanimá-los e reduzi-los à inação. Para isto, é especialmente útil agir contra os líderes anticomunistas. É preciso que se sintam espionados fora e até dentro de suas organizações, rodeados de traidores, divididos entre si, incompreendidos, difamados e isolados dos outros setores da opinião, afastados das posições-chave do país, e dos meios de publicidade, e de tal maneira perseguidos em suas atividades profissionais, que, bastando-lhes apenas o tempo para prover à própria subsistência, se vejam o quanto possível impedidos de atuar seriamente contra o marxismo.

 

As ameaças de vingança pessoal contra eles e suas famílias também são utilizadas não raras vezes, pelo comunismo, para impedir a ação desses bravos.

 

* Quanto aos elementos indiferentes ao problema comunista, antipáticos ao comunismo em graus diversos, mas que não chegam à hostilidade militante, são eles, por assim dizer, a maioria dentro da maioria. A esses, já que se mostram refratários a toda técnica de persuasão explícita, só existe para o comunismo um meio de atrair. É a técnica de persuasão implícita. Como é natural, para operar esta última, o partido comunista não pode mostrar-se. Ele deve escolher agentes de aparência não comunista, ou até anticomunista, que atuem nos mais diversos setores do corpo social. Quanto mais insuspeitos de comunismo parecerem, tanto mais eficazes serão. No plano da ação individual, por exemplo, um grande capitalista, um político burguês proeminente, um aristocrata ou um clérigo serão para isto de muito maior eficiência do que um pequeno burguês ou um operário.

 

Sobre este setor da opinião pública, muito podem em favor do comunismo os partidos políticos, os jornais e os outros meios de publicidade que, aparentando todas as garantias de não serem comunistas, entretanto não vêem na luta contra a seita vermelha uma necessidade contínua e de capital importância nos dias que correm.

 

Uns e outros – isto é, pessoas, partidos políticos, órgãos de publicidade –prestam ao comunismo um primeiro e precioso concurso, pelo simples fato de entreterem no setor em questão um clima de superficialidade de espírito, bem como de otimismo fácil e despreocupado no que diz respeito à ameaça comunista. Pois assim as or­ganizações anticomunistas ficam implicitamente vistas como apaixonadas e exageradas pela maior parte da opinião pública, que normalmente poderia e deveria dar-lhes apoio. E de outro lado se impede que nessa maioria, advertida da gravidade hodierna do perigo, os indiferentes passem à antipatia contra o comunismo, e os anticomunistas não militantes entrem na luta.

 

Ambos estes frutos são preciosos para o marxismo, pois lhe evitam um grande mal. Enquanto ele recruta à vontade seus quadros de militantes, penetra e articula as organizações de inocentes-úteis, e executa contra a sociedade, auxiliado por estes elementos, sua faina destruidora contínua e inexorável, a maior parte da opinião pública, que reagiria se tivesse consciência da real gravidade do perigo, fecha os olhos para ele, cruza os braços, e deixa livre curso ao adversário.

 

Tal resultado é muito considerável. Mas não basta para o comunismo. Essa maioria, ele a adormece porque não a conseguiu conquistar. Enquanto não a conquistar, ficará reduzido a progressos lentos. E se algum dia esses progressos tomarem corpo e se tornarem indisfarçáveis, haverá sempre o risco de que a maioria displicente e inadvertida se sobressalte e entre na luta.

 

Assim, não pode a seita vermelha contentar-se com exercer sobre tal setor a ação neutralizadora e anestesiante que acabamos de descrever.

 

O comunismo foi bem sucedido em fundar partidos por quase todo o mundo, em articular sob seu comando as esquerdas, em desmantelar e inutilizar incontáveis organizações anticomunistas. Ele fracassou quando quis fazer aceitar pelas maiorias sua doutrina. E é a essas maiorias que, além de neutralizar, ele precisa absolutamente persuadir, se quiser vencer em nosso século sua grande batalha.

 

Como fazê-lo? Se é esse vastíssimo setor que se trata de persuadir, obviamente é sobre ele que se trata de agir.

 

A técnica de persuasão implícita mais apropriada para o estado de espírito em que se encontra a maioria é a baldeação ideológica inadvertida.

 

 

3. O método da baldeação ideológica inadvertida: suas três intensidades e suas três fases

 

Três são os graus de intensidade possíveis, e três as fases do método da baldeação ideológica inadvertida. Como diversa pode ser a intensidade de seus efeitos.

 

Comporta esse método uma primeira fase, de caráter todo preparatório, consistente em atuar por meio do binômio medo-simpatia no sentido de dispor a uma atitude inerte e até resignada ante os progressos do comunismo setores de opinião que à vista desses progressos seriam propensos a se alarmar e a reagir. Dessa fase tratamos no capítulo anterior (item 9). Nela a baldeação ideológica inadvertida alcança o mínimo de sua intensidade.

 

Esta atinge um grau a mais na fase seguinte. Sem o perceber, o paciente da baldeação, seja ele um indivíduo, um grupo restrito, ou uma grande corrente de opinião, passa da resignação para uma atitude de expectativa já algum tanto favorável. O fruto do processo já não é negativo e preparatório, mas tem algo de positivo.

 

Por fim, quando logra transformar o simpatizante em adepto convicto, a baldeação chega à sua plena intensidade e produz seu fruto característico.

 

 

4. Definição da baldeação ideológica inadvertida, seus artifícios

 

Na sua essência, o processo da baldeação ideológica inadvertida consiste em atuar sobre o espírito de outrem, levando-o a mudar de ideologia sem que o perceba.

 

Para chegar a esse resultado, é possível lançar mão de artifícios diversos.

 

O mais das vezes, esses artifícios se reduzem ao seguinte:

 

* a – encontrar no sistema ideológico atualmente aceito pelo paciente pontos de afinidade com o sistema ideológico para o qual se deseja baldeá-lo;

 

* b – supervalorizar doutrinária e sobretudo passionalmente esses pontos de afinidade, de tal maneira que o paciente acabe por colocá-los acima de todos os outros valores ideológicos que admite;

 

* c – atenuar tanto quanto possível, na mentalidade do paciente, a adesão aos princípios doutrinários que atualmente aceita e que sejam inconciliáveis com a ideologia para a qual se quer baldeá-lo;

 

* d – despertar nele a simpatia pelos militantes e líderes da corrente ideológica para a qual será baldeado, fazendo-o ver neles soldados dos princípios supervalorizados conforme o exposto no item “b”;

 

* e – dessa simpatia passar à cooperação para fins comuns ao paciente e seus adversários doutrinários de ontem, ou quiçá para o combate a uma ideologia ou uma corrente, inimiga tanto daquele quanto destes;

 

* f – daí conduzir o paciente à convicção de que os princípios supervalorizados são mais consentâneos com a ideologia de seus novos cooperadores e irmãos de luta do que com a sua ideologia de ontem;

 

* g – a esta altura, a mentalidade do paciente estará mudada, e sua assimilação à nova ideologia não encontrará senão obstáculos secundários.

 

Ao longo de quase toda essa trajetória, ele não se dará conta de que está mudando de idéias. E, quando disto se der conta, já não se assustará com o fato. De princípio a fim, imaginará estar agindo por movimento próprio, e não advertirá que está sendo manobrado. O processo é, pois, inadvertido de dois pontos de vista:

 

– porque o paciente durante quase toda a baldeação não a percebe;

 

– porque ele não nota que essa baldeação é um fenômeno produzido nele por terceiro.

 

Por esta forma, o adversário se transforma gradualmente em simpatizante e por fim em adepto.

 

 

5. Exemplo concreto de baldeação ideológica inadvertida

 

Exemplifiquemos sumariamente, com base na tão difundida trilogia da Revolução Francesa, como uma pessoa infensa ao comunismo pode ser baldeada inadvertidamente para este.

 

“Liberdade, Igualdade, Fraternidade”: claro está que nenhuma destas palavras tem um sentido intrinsecamente mau. Sem embargo, delas facilmente se pode abusar.

 

Assim, desde que se excite ao máximo em um paciente, por meio de uma hábil propaganda, a paixão da liberdade, pode-se criar nele a apetência desordenada de um estado de coisas em que não haja poder público nem leis. A natureza humana decaída tende facilmente para tal. E os germes ideológicos legados ao mundo pela Revolução Francesa estão carregados de estímulos nesse sentido. Ora, este é também o termo em que, segundo os doutrinadores do marxismo, deve desfechar em sua fase final o Estado totalitário comunista.

 

Da exacerbação do apetite de igualdade – tão fácil dada a tendência do homem para a inveja e a revolta – resultam logicamente o ódio de toda hierarquia social e econômica, e o igualitarismo total, inerente ao regime comunista já desde a fase do capitalismo de Estado e da ditadura do proletariado.

 

Uma vez exacerbada a idéia de fraternidade, se chega ao ódio de tudo quanto separa e diferencia proporcionada e legitimamente os homens, e, pois, ao anseio da abolição de todas as pátrias, para a instauração de uma república universal: outro objetivo do comunismo.

 

Escolhemos como exemplo esses três anseios porque a nosso ver eles ocupam, na bolchevização do Ocidente, um papel capital. Exagerada a estimação destes três valores na mente de alguém, criado em torno deles um clima emocional desequilibrado, é fácil levar o paciente, de etapa em etapa, a um reformismo liberal e igualitário que, tornando-se sempre mais radical, induza primeiramente à simpatia e à cooperação com os comunistas, para chegar afinal à aceitação do próprio comunismo, tido como a realização absoluta e perfeita da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.

 

 

6. As reformas de estrutura enquanto instrumentos acessórios da baldeação ideológica inadvertida

 

Na consideração do exemplo que acabamos de dar, é fácil perceber quanto a baldeação ideológica inadvertida, que em si mesma é um processo de ação ideológica sobre a opinião pública, pode ser auxiliada pelas chamadas reformas de estrutura.

 

O liberalismo e principalmente o igualitarismo podem inspirar – e têm inspirado – leis que conduzem a uma sempre mais acentuada transformação revolucionária das instituições e da vida de vários países.

 

Sob a louvável alegação de destruir privilégios e desigualdades excessivas, pode-se ir além, e abolir, gradualmente, também privilégios legítimos e desigualdades indispensáveis à dignidade da pessoa humana e ao bem comum. À medida que o rolo compressor do igualitarismo se for tornando assim mais pesado e mais destrutivo, através das reformas socialistas e igualitárias – a reforma agrária, a reforma urbana, a reforma da empresa comercial e industrial (5) – toda a sociedade se irá avizinhando do ideal comunista. E na proporção em que com isto se habituar a opinião pública, também ela se irá tornando comunista (cf. nosso “A liberdade da Igreja no Estado comunista”, Edit. Vera Cruz, São Paulo, 7a. edição, 1965, item VI, p. 17). Como se vê, as reformas de base socialistas e confiscatórias importam em uma ação indireta sobre a opinião pública, que assim se vai comunistizando aos poucos, e inadvertidamente (6).

 

------------- (Notas) ----------------

 

(5) Não tomamos aqui as expressões “reforma agrária”, “reforma da empresa”, “reforma urbana”, em seu sentido natural e próprio, que pode significar apenas uma justa e proporcionada melhoria das condições dos trabalhadores da cidade e do campo, dos pequenos proprietários rurais, e dos inquilinos, respeitado o princípio da propriedade privada, e atendida a função social que a esta compete (cf. “Reforma Agrária-Questão de Consciência”, por D. Geraldo de Proença Sigaud, D. Antonio de Castro Mayer, Plinio Corrêa de Oliveira e Luiz Mendonça de Freitas, Edit. Vera Cruz, São Paulo, 4a. ed., 1962, pp. XIX e 9). Empregamo-las no sentido corrente, que lhes deu a demagogia, de leis que sob o pretexto de impor o exercício da função social da propriedade mutilam a esta como se o exercício adequado de uma função pudesse importar na destruição do respectivo órgão. A proteção dos trabalhadores e dos pequenos proprietários rurais, a participação dos empregados nos lucros, na gestão e na propriedade da empresa, enquanto estimulada, nos casos adequados, e não imposta por lei, a proteção dos locatários contra possíveis excessos da parte dos locadores, nada têm com as medidas confiscatórias de que acabamos de falar.

 

          (6) Não queremos afirmar com isto que cada pessoa que promove reformas desta natureza seja necessariamente comunista. O processo de baldeação ideológica é inadvertido, não só nos seus pacientes, como até por vezes em alguns dos que o levam a cabo.

-------------- (fim das notas) --------------

 

 

7. Uma objeção: incompatibilidade entre liberalismo e socialismo

 

Objetar-se-á às considerações que acabamos de fazer sobre as chamadas reformas de base, que estas últimas resultam do bafejo do socialismo. Assim sendo, como atribuir um papel ao liberalismo nessas transformações, já que o liberalismo parece ser precisamente o contrário do socialismo?

 

É bem verdade que uma ordem de coisas igualitária suporia o dirigismo, pois a liberdade produz naturalmente a desigualdade. Porém, os comunistas não vêem as coisas assim. Para eles, o dirigismo total inerente à ditadura do proletariado deve estabelecer de uma vez por todas a igualdade entre os homens. Isto alcançado, o poder político deverá desaparecer, cedendo lugar à ordem de coisas inteiramente anárquica (no sentido etimológico da palavra), na qual a plena liberdade já não engendrará desigualdades. Para os comunistas, não há senão uma incompatibilidade transitória entre a igualdade e a liberdade. Sob a ditadura do proletariado, sacrifica-se provisoriamente a liberdade para instaurar a igualdade total. Esta operação, entretanto, prepara a era anárquica em que a plena igualdade e a inteira liberdade conviverão. De sorte que em seu espírito e em sua meta o dirigismo comunista é ultraliberal. Além disso, em pleno regime capitalista, o liberalismo prepara o terreno para o comunismo no que diz respeito à família e aos bons costumes. À medida que o liberalismo moral vai abrindo campo ao divórcio, ao adultério, à revolta dos filhos e dos empregados domésticos, dissolve-se com efeito o lar. E com isto as mentalidades se vão habituando cada vez mais a uma ordem de coisas em que não existe família. Em outros termos, vão caminhando para o amor livre, inerente ao comunismo.

 

 

8. O que há de novo na baldeação ideológica inadvertida

 

Esse deslizar multiforme da sociedade ocidental e cristã, de uma posição esquerdista para outra, com rumo final para o marxismo, é um fenômeno antigo e profundo. Constitui ele, por sua própria essência, uma baldeação ideológica mais ou menos inadvertida, que essa sociedade cristã vem lamentavelmente realizando, ao longo de séculos, em direção do comunismo.

 

Nesta perspectiva, pois, o fenômeno não é novo.

 

Novo, entretanto, é o aspecto que ele assume em razão do empenho todo especial que aqui e acolá certos círculos desenvolvem para imprimir a esse processo, por meio de artifícios diversos, uma velocidade sem precedentes. Por outro lado, trata-se, agora, não mais de obter que esse deslizar se opere por etapas, do centro para a esquerda, ou de uma esquerda moderada para outra um pouco mais ousada, mas do centro ou da esquerda moderada para uma ordem de coisas que, em seu conteúdo, é categoricamente comunista. Não só, pois, pelos já referidos artifícios modernos com que é provocado, mas também enquanto drástica, próxima e até imediatamente tendente ao marxismo, enquanto marcado por uma celeridade e uma afoiteza sem precedentes, em proveito direto do comunismo, é que tal processo apresenta hoje uma nota nova, um tonus de um rubro intenso que outrora nele mal se entrevia. Nova, sobretudo, é a baldeação ideológica inadvertida enquanto, de colateral que era, se tornou preponderante na tática usada pelo comunismo com vistas à conquista ideológica do mundo (7).

 

------------- (nota) ---------------

 

(7) Exemplo frisante da eficácia desse deslizar sub-reptício de países inteiros rumo ao comunismo, mediante o emprego da baldeação ideológica inadvertida em certos setores da opinião, se encontra na Argélia, na Tunísia, e sobretudo no Egito, onde ele parece estar em vias de execução mais adiantadas. Os cerceamentos sucessivos do direito de propriedade e da livre iniciativa conduziram aquelas nações a uma ordem de coisas profundamente socialista, a qual propende cada vez mais para a extrema esquerda.

As declarações anticomunistas de alguns de seus líderes não provam que as transformações por eles impostas não são comunistas nem tendem para o comunismo. Pois o caráter comunista de uma transformação decorre da natureza desta, e não do rótulo que lhe dão os políticos que a levam a cabo.

Do mesmo modo, as reformas de Nasser não deixaram de ser muito avançadamente socialistas pelo simples fato de que no Egito está proscrito o partido comunista. Seria muito infantil quem daí deduzisse que aquele país está caminhando para rumos opostos aos do comunismo.

Da utilidade da aplicação­ a essas três nações contemporâneas, do processo de baldeação ideológica inadvertida, completado e acentuado por sucessivas “reformas de base”, diz bem a relativa inércia da opinião anticomunista em face dos resultados. Nem no Egito, nem na Argélia, nem na Tunísia (falamos dos nativos), registraram-se reações da proporção das que houve em Cuba diante da bolchevização explícita e até teatral promovida por Fidel Castro. E nem a opinião mundial se impressionou tanto com os progressos do comunismo na África do Norte, quanto com a bolchevização de Cuba.

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Capítulo III

 

A palavra-talismã,

estratagema da baldeação ideológica inadvertida

 

 

Estudamos no capítulo anterior o processo da baldeação ideológica inadvertida. Passemos a considerar agora a palavra-talismã.

 

 

1. Estratagema dos mais eficazes

 

O estratagema que aqui denominamos de palavra-talismã (8) é um dos meios mais eficazes para operar a baldeação ideológica inadvertida.

 

--------- (nota) ---------

         

          (8) Como é evidente, empregamos aqui o vocábulo “talismã”, como também mais adiante o vocábulo “mágica”, em seu sentido corrente, e meramente metafórico.

--------------- (fim da nota) ------------------

 

Consiste ele, essencialmente, em empregar com uma técnica muito ardilosa certos vocábulos mais ou menos elásticos, próprios para se atuar de modo muito sui generis sobre a mente de indivíduos, grupos ou grandes coletividades.

 

 

2. Método de utilização da palavra-talismã

 

O método pelo qual se produz através da palavra-talismã a baldeação ideológica inadvertida, embora comporte necessariamente adaptações a cada caso concreto, é susceptível de ser descrito em linhas gerais.

 

Empreenderemos essa descrição, figurando para maior comodidade esse método enquanto aplicado por alguém sobre um grupo restrito de pessoas. Claro está que ele também é aplicável por uma pessoa que atue individualmente sobre outra, ou por um grupo circunscrito que atue sobre outro, mesmo muito maior.

 

A aplicação desse método se desenvolve processivamente como a seguir descreveremos.

 

 

A. Um ponto de impressionabilidade

 

Como ponto de partida, supõe o método, naqueles sobre os quais se aplicará, uma impressionabilidade especial quanto a determinado assunto.

 

* Na ordem dos problemas sociais, esse ponto de impressionabilidade será, por exemplo:

 

- Uma injustiça flagrante, como pode haver em certos privilégios de classe;

 

- Um risco particularmente temível, como o de uma revolução social;

 

- Uma desgraça presente, como a fome, ou a doença.

 

* Na ordem dos problemas ideológicos – filosóficos, religiosos, etc. – o ponto de impressionabilidade pode ser, entre outros:

 

- O infortúnio dos que estão em erro – hereges, judeus, pagãos e outros irmãos separados (9), por exemplo – e a premente necessidade que há em os esclarecer e instruir;

 

----------------- (nota) ---------------------

(9) Usamos várias vezes, ao longo do presente estudo, a expressão “irmãos separados”, hoje tão em voga. Entremeamo-la de quando em vez com as palavras “herege” e “cismático”, que em certos ambientes vão sendo sempre menos usadas. E agimos assim intencionalmente, pois “irmãos separados” é uma expressão que vai sofrendo, ela também, um uso talismânico.

Todos os homens, por haverem sido criados pelo mesmo Deus e descenderem do mesmo casal primeiro, são irmãos. A um título ainda mais nobre são irmãos os que crêem em Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, Redentor do gênero humano, e em nome dEle foram batizados. Por mais profundas e fortes que sejam as divergências entre os homens, estes títulos de fraternidade nem por isto desaparecem. Nada mais legítimo, pois, do que a qualificação de “irmãos separados”.

Dizer “legítimo” é ainda dizer pouco. A expressão, que contém uma evidente acentuação no substantivo “irmãos”, tem o mérito de dar, aos que a usam, uma consciência mais viva e atual desse sobrepairar dos vínculos fraternos acima das divisões. E a tal título constitui um fator útil para aproximações apostólicas preciosas.

Todavia, se é preciso, por vezes, acentuar que tantos homens separados de nós são nossos irmãos, não menos necessário é acentuar em outras ocasiões que esses irmãos não são irmãos quaisquer, mas pelo contrário estão de nós profundamente separados. Pois é na devida e inteira avaliação de ambos os elementos – fraternidade e separação – que está a verdade plena a respeito da situação dos não católicos em face dos católicos.

Ora, a natureza dessa separação as palavras “heresia” e “cisma” a exprimem com admirável precisão moral e canônica, trazendo à mente a autoridade magisterial e jurídica da Igreja, a enorme gravidade do erro ou da revolta contra esta, a severidade das sanções eclesiásticas e a necessidade de se precaverem os católicos do contágio dos infiéis.

Assim, rarear o uso das palavras “herege” e “cismático”, ou até suprimi-las, para só falar em “irmãos separados”, importa em uma verdadeira mutilação talismânica do alcance real dessa separação. Mutilação essa particularmente danosa em um clima infestado de irenismo e relativismo religioso, como é o nosso.

Isto nos poderia levar tão longe, que certa revista católica holandesa perguntou, com espírito, quando começaremos a proscrever a palavra “demônio” para só usar “anjo separado”.

----------------- (fim da nota) --------------------

 

- A vitória em escala local ou mundial, tida por iminente, de uma ideologia errada – o marxismo, por exemplo – com toda a cadeia de conseqüências religiosas, culturais e morais daí derivadas;

 

- O risco de, pelo embate crescente das ideologias e dos regimes opostos, se agravarem até o paroxismo da guerra termonuclear as perigosas tensões que atormentam o mundo contemporâneo.

 

 

B. Um ponto de apatia

 

No início do processo o método supõe também, naqueles a quem se aplicará, um ponto de apatia ou de desprevenção simétrico com o ponto de impressionabilidade.

 

* Na ordem dos problemas sociais, esse ponto simétrico pode ser, por exemplo:

 

- A insensibilidade ante injustiças que de nenhum modo são menos flagrantes ou menos numerosas do que as ligadas a certos privilégios merecidamente detestados. Lembremos aqui, para exemplificar, as injustiças gravíssimas e tão generalizadas, inerentes à trituração sistemática dos direitos de pessoas, famílias, grupos sociais ou regiões, levada a efeito gradualmente pela massificação das sociedades contemporâneas (ou seja, pela transformação dos povos em massa, segundo o célebre ensinamento de Pio XII na Radiomensagem do Natal de 1944 – “Discorsi e Radiomessaggi”, vol. VI, p. 239). Essa massificação pode ter lugar quer pela transformação dos costumes, quer pela ação das leis socialistas, cada vez mais numerosas nos países não comunistas, quer ainda pela implantação da chamada ditadura do proletariado naqueles em que vence o comunismo. Imolam-se assim sem mercê, em holocausto ao que muitos denominam socialização, não só peculiaridades pessoais, familiares ou regionais legítimas, que constituem valores inestimáveis, como também desigualdades culturais ou sociais proporcionadas, orgânicas, fundadas em justos motivos de ordem moral, intelectual ou patrimonial;

 

- A insensibilidade ante a consideração de que, se uma revolução social é um mal gravíssimo, habitualmente ela o é sobretudo por causa dos seus objetivos injustos e ruinosos. E que, pois, nada é mais absurdo do que querer evitar a todo custo a revolução, fazendo-a de cima para baixo e chegando assim precisamente aos objetivos injustos e ruinosos que se tratava de evitar. Em outros termos, é absurdo realizar de cima para baixo, por iniciativa dos mantenedores naturais da ordem, as “reformas” que a tática comunista quer impor de baixo para cima, de vez que isto significa, para todo o corpo social, “propter vitam, vivendi perdere causas” (Juvenal, Sat. VIII, 84);

 

- A insensibilidade ante o fato de que, se contra a fome ou a doença – aqui consideradas como males sociais – se deve fazer absolutamente tudo quanto é possível, de nenhum modo se deve tentar o impossível, o utópico, pois isto só agravaria, a prazo mais ou menos curto, esses mesmos males que se quer debelar. Em numerosos casos, são lentas as soluções profundas e duráveis de tais males. Isto não constitui motivo para as aplicar sem pressa. Cumpre pô-las em prática com redobrada solicitude, para evitar que à natural demora da cura se some o censurável retardamento ocasionado por nossa displicência. Mas há que renunciar muitas vezes ao desejo insofrido de resultados imediatos. Esse desejo nos expõe, com efeito, ao risco de preferir às soluções autênticas as panacéias violentas, e eficazes só na aparência, que a demagogia preconiza.

 

* Na ordem dos problemas ideológicos, também simetricamente, podem ser enunciados os seguintes pontos de apatia ou desprevenção:

 

- A insensibilidade ante os riscos de um zelo apostólico intemperante. Sendo a maior ventura conhecer a verdadeira Religião, por certo são de lastimar sumamente os que não a conhecem. E são de louvar os que empregam todos os meios para trazer à unidade da Fé nossos irmãos separados. Representa, pois, para nós um verdadeiro risco omitirmos por displicência ou ignorância qualquer forma de ação conducente a tal fim. Não obstante, é preciso não ser insensível a riscos que podem vir de outro lado, isto é, do ardor desordenado do apóstolo e do caráter naturalista de seus métodos. O zelo desordenado e o naturalismo podem inspirar o emprego de técnicas ilegítimas para atrair os acatólicos, como a terminologia confusa, as concessões doutrinárias implícitas ou explícitas, etc. A não considerar senão a eficiência apostólica desses maus artifícios, cumpre ponderar que os mais argutos e coerentes dentre nossos irmãos separados, longe de se deixarem embair por ardis desse gênero, os notam com cuidado. Precisamente os melhores e mais aproximáveis dentre eles estão de olhos postos sobre nós, para nos julgar segundo nossa sinceridade e nossa coerência na Fé que professamos. Só lhes poderá causar tristeza e aversão ver que, no afã de obter conversões, confiamos mais em técnicas moralmente duvidosas do que no sobrenatural. São, estes, outros tantos riscos para os quais não devemos ser insensíveis. Por fim, e sobretudo, não podemos ser indiferentes ao risco de expor a vacilações na Fé os nossos próprios irmãos católicos, persuadindo-os – a título de coexistência pacífica com os irmãos separados – a ouvir conferências e discursos, a ler livros ou participar de reuniões em que a heresia, o cisma, o ateísmo ou a corrupção moral lhes entre na alma (10). Devemos velar mais ainda pela preservação dos católicos, do que pela conversão dos infiéis. Pois na hierarquia do amor ao próximo, ninguém merece mais amor do que o irmão que participa da mesma Fé, como adverte São Paulo: “Logo, enquanto temos tempo, façamos bem a todos, mas principalmente aos irmãos na Fé” (Gal. 6, 10);

 

--------------- (Nota) ------------------

(10) Este risco não esteve ausente das preocupações do II Concílio Ecumênico do Vaticano, o qual dispôs que a tarefa de conhecer melhor o pensamento dos irmãos separados e de lhes apresentar de modo mais conveniente a nossa Fé, através de reuniões em que se trate sobretudo de questões teológicas, não toque a quaisquer católicos, mas tão somente a “pessoas verdadeiramente competentes”, sob a vigilância dos Bispos (cf. Decreto conciliar “De Oecumenismo”, de 21 de novembro de 1964, n.° 9 – AAS, vol. LVII, n.° 1, p. 98). Claro está que por “pessoas verdadeiramente competentes” se entende as que têm não só estudos bastante seguros para que possam resistir ilesas aos sofismas da heresia, como ainda o suficiente vigor na virtude teologal da Fé.

--------------- (final da nota) ---------------

 

 

- A insensibilidade ante a iliceidade da renúncia a alguns princípios supremos e impostergáveis, e da aceitação de alguns dos erros do marxismo, para evitar uma vitória total deste. A vitória do marxismo é, por certo, causa de desgraças catastróficas. O maior risco para nós não está, entretanto, em sermos vencidos por ele no plano militar ou político, mas em dobrarmos o joelho ante o vencedor. Aceitar um modus vivendi que importe na renúncia a princípios para evitar as conseqüências funestas de nossa derrota, renunciar expressa ou tacitamente ao instituto da propriedade privada, por exemplo, para obter a liberdade de culto (cf. nosso “A liberdade da Igreja no Estado comunista”, cit.) – é mil vezes mais triste do que sofrer as perseguições advindas de uma atitude nobre e santamente fiel à ortodoxia;

 

- A insensibilidade ante o risco de, no silêncio e na inércia dos cristãos, o comunismo dominar o mundo. Se os comunistas nos colocam brutalmente na alternativa de renunciarmos a combater seus erros, ou de aceitarmos o risco de uma guerra, eles nos exigem implicitamente que escolhamos entre o cumprimento de nosso dever de cristãos, ou uma verdadeira apostasia. Neste caso, é preciso dizer como São Pedro: custe o que custar, “mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (At. 5, 29).

 

 

C. Uma palavra talismã

 

Nessa posição inicial, em que o paciente, mercê da unilateralidade de seu estado de espírito, já aparece preparado para a ação psicológica que vai sofrer, o emprego de uma palavra bem escolhida pode produzir efeitos surpreendentes. É a palavra-talismã.

 

Trata-se de uma palavra cujo sentido legítimo é simpático e por vezes até nobre; comporta ela, porém, certa elasticidade. Empregando-se tal palavra tendenciosamente, começa ela a refulgir para o paciente com brilho novo, que o fascina e o leva muito mais longe do que poderia pensar.

 

Citemos alguns desses sadios e até nobres vocábulos. Torcidos, atormentados, deturpados, violentados, de vários modos, a quanto equívoco, a quanto erro, a quanto desacerto têm eles servido de rótulo! Pode-se mesmo dizer que os efeitos dessa técnica são tanto mais nocivos quanto mais digno e elevado é o conteúdo da palavra de que assim se abusa: “corruptio optimi pessima”. Entre as palavras portadoras de um conteúdo digno, assim transformadas em enganosos talismãs a serviço do erro, podem ser citadas: justiça social, ecumenismo, diálogo, paz, irenismo, coexistência, etc.

 

 

D­. …que suscita uma constelação de simpatias e fobias

 

Assim incubados por um espírito novo, cada um desses vocábulos suscita nas pessoas que se encontram no estado de espírito indicado acima, nos itens A e B, toda uma constelação de impressões e emoções, de simpatias e fobias. Esta constelação, como adiante veremos, vai orientando tais pessoas para novos rumos ideológicos: para o relativismo filosófico, o sincretismo religioso, o socialismo, a chamada política da mão estendida, a franca cooperação com o comunismo, e por fim a aceitação da doutrina marxista.

 

 

E. ...dotada de grandes qualidades publicitárias

 

Para esses rumos ideológicos a vítima do processo de baldeação vai sendo cada vez mais atraída pelo prestígio da propaganda. As palavras-talismã correspondem ao que os órgãos de publicidade reputam, em geral, moderno, simpático, atraente. Por isto, os conferencistas, oradores ou escritores, que empregam tais palavras, só por esse fato vêem aumentadas suas possibilidades de boa acolhida na imprensa, no rádio e na televisão. É este o motivo por que o radiouvinte, o telespectador, o leitor de jornal ou revista encontrará a todo propósito essas palavras, que repercutirão cada vez mais a fundo na sua alma.

 

 

F.  ...de cuja elasticidade se abusa para efeitos publicitários

 

Esse dom publicitário da palavra-talismã conduz o escritor, o orador, o conferencista à tentação de usá-la com crescente frequência, a todo propósito, e até fora de propósito. Pois assim lograrão mais facilmente fazer-se aplaudir. E, para multiplicar as oportunidades de empregar tal palavra, eles a vão utilizando em sentidos analógicos sucessivamente mais arrojados, aos quais a elasticidade natural dela se presta quase até o absurdo.

 

 

G. ...passível de ser fortemente radicalizada

 

Constituída assim para a palavra-talismã uma grande gama de aplicações, cada qual mais arrojada, as mais audaciosas entre estas, e por isto mesmo mais “vedetísticas”, vão pondo em desuso as mais moderadas, sensatas e correntes. E quem há tempos atrás aplaudiu ou usou como se fosse uma saborosa novidade a palavra-talismã com seu significado apenas um pouco deformado, passará a aplaudi-la e usá-la em sentido cada vez mais extremado, até chegar ao clímax. É o fenômeno da radicalizacão da palavra-talismã.

 

 

H. ...que opera por esta forma a baldeação ideológica inadvertida

 

A radicalização da palavra-talismã vai de per si operando a baldeação ideológica inadvertida, nos que a empregam. Pois, presos ao fascínio do vocábulo, vão eles aceitando sem mais, como ideais supremos e ardentemente professados, os significados sucessivamente mais radicais que ele vai assumindo.

 

Pari passu, esses ideais, com a força dos valores aceitos como supremos, vão produzindo no paciente da baldeação todas as mudanças de atitude interior e exterior em relação ao adversário da véspera, que descrevemos no capítulo anterior (item 4).

 

É assim que a palavra-talismã serve para desencadear e conduzir a termo o processo da baldeação ideológica inadvertida.

 

 

3. Como impedir o êxito do estratagema da palavra-talismã

 

O leitor se perguntará, naturalmente, se há um modo de impedir o êxito do estratagema que descrevemos.

 

Esse modo existe. É fácil compreendê-lo, desde que se tenham em consideração algumas características da palavra-talismã.

 

 

A. A palavra-talismã reluta em explicitar-se

 

A palavra-talismã radicalizada reluta em explicitar seu sentido. Com efeito, sua grande força está na emoção que provoca. A explicitação, atraindo para ela a atenção analítica de quem a usa ou de quem a ouve, perturbaria e impediria ipso facto a fruição sensível e imaginativa do vocábulo. A palavra-talismã, mantendo assim obstinadamente implícito seu significado, continua a ser veículo e esconderijo do seu crescente conteúdo emocional.

 

 

B. A explicitação “exorciza” a força mágica da palavra-talismã

 

A ação da palavra-talismã pode, pois, ser “exorcizada” mediante sua explicitacão. É a conseqüência do que acabamos de dizer. Compreende-se assim a utilidade do presente trabalho, que visa por à disposição dos interessados o meio de sustar, pela “exorcização” da palavra-talismã, o processo de baldeação ideológica inadvertida.

 

 

4. Ressalva quanto ao uso da palavra incubada de significa­ção talismânica

 

Supérfluo seria acrescentar que não se trata aqui de recomendar que nunca se use a palavra incubada de significação talismânica, mas simplesmente que ela seja usada só a propósito, e sempre em seu sentido natural e legítimo.

 

 

Capítulo IV

 

Um exemplo de palavra-talismã: “diálogo”

 

 

As indicações sumárias que acabamos de fazer parecerão talvez por demais abstratas. Por isto, no presente capítulo, exempleficaremos como se empregam as palavras-talismã, analisando como uma delas, a palavra “diálogo”, é utilizada para promover a baldeação ideológica inadvertida para o relativismo hegeliano e para o marxismo.

 

 

1. “Diálogo”: sentidos legítimos

 

A. O método adotado

 

Para a descrição do processo de baldeação ideológica inadvertida operado por meio dos sucessivos significados talismânicos da palavra “diálogo”, cumpre:

 

– estudar preliminarmente os sentidos naturais e le­gítimos dessa palavra;

 

– indicar em qual deles ocorre a evolução para um primeiro sentido talismânico;

 

– descrever como, a partir deste ponto inicial, e sob a ação do binômio medo-simpatia, os sucessivos sentidos talismânicos se engendram uns aos outros, e operam a baldeação ideológica inadvertida.

 

 

B. Os significados naturais e legítimos

 

a. Caráter propedêutico do seu estudo

 

Esta parte do estudo não tem senão um alcance propedêutico.

 

Para a análise exata do processo talismânico, que adiante faremos:

 

– é cômodo, para o leitor, distinguir com a maior nitidez, no conjunto dos sentidos naturais e legítimos de “diálogo”, a diferença existente entre aquele em que ocorre a primeira torção talismânica, e os demais;

 

– é proveitoso, para o leitor, ter claramente em vista os elementos que constituem esse sentido legítimo em que ocorre a primeira torção, para melhor entender as transformações que tais elementos sofrem em cada uma das etapas da radicalização talismânica.

 

 

b. Multiplicidade dos significados legítimos

 

Analisando os significados correntes da palavra que ora nos ocupa, como aliás também de outras que com ela têm certa conexão, como “dialética”, “discussão”, “polêmica”, etc., podemos verificar que se lhes atribuem significações muito diversas e às vezes até, de certo ponto de vista, contraditórias. E isso se dá tanto nos meios cultos, quanto nos de instrução mediana ou baixa. Com o passar dos anos, a carga emocional que se anexou a algumas dessas palavras veio a lhes alterar o sentido, fazendo com que pessoas de gerações diferentes as entendam de modos também diferentes. De região para região do Brasil, e com mais razão de país para país, se manifestam por vezes variações sensíveis.

 

O fenômeno, aliás, não se cinge ao uso corrente, pois na própria linguagem filosófica a palavra “dialética”, por exemplo, tem sentidos tão diversos que, segundo observa o “Vocabulaire Technique et Critique de la Philosophie” de A. Lalande (verbete “Dialectique”), não é possível empregá-la sem determinar muito precisamente qual o significado que se lhe pretende dar.

 

 

c . Como estudar esses significados

 

Para bem estudar os diversos sentidos legítimos de “diálogo”, pareceria aconselhável fazer um inventário deles, um estudo de cada qual, e um confronto com os demais.

 

Entretanto, não tendo o presente trabalho um caráter preponderantemente linguístico, afigura-se adequado proceder de modo mais breve e mais claro, pondo a lume na etimologia de “diálogo” um elemento fundamental que se encontra em todas as acepções da palavra, e fazendo, em seguida, uma classificação destas, conforme um duplo critério que adiante indicaremos.

 

Esse método nos proporciona um quadro de conjunto dos sentidos desse vocábulo, e nos permite situar em seu panorama próprio, com a precisão necessária, as acepções legítimas que serão deturpadas pelo processo talismânico.

 

 

d. Critério da classificação

 

Essa classificação dos diversos significados da palavra “diálogo” se faz:

 

– do ponto de vista do objetivo do diálogo;

 

– do ponto de vista da atitude emocional das pessoas que dialogam, da qual decorrem conseqüências para a forma do diálogo.

 

Será fácil verificar como, consideradas destes pontos de vista as modalidades de diálogo, a cada uma delas corresponde um significado do vocábulo.

 

 

e. Terminologia

 

Indicando com uma palavra complementar explicativa – para maior clareza – cada um dos significados classificados, constitui-se uma terminologia mediante a qual o leitor poderá acompanhar sem grande esforço o nosso estudo.

 

 

f. Seleção dos significados

 

É possível que alguns significados legítimos de “diálogo” não estejam incluídos na classificação. Nosso desejo não foi de os considerar todos, mas apenas aos que têm mais importância em função do critério da classificação, ou seja, da natureza mesma do diálogo.

 

 

g. Ressalva importante

 

Como facilmente se verá, não importa muito, para a intelecção de nossa tese, que o leitor prefira outro critério de classificação, ou lamente a omissão, na que adotamos, de algum outro significado de “diálogo”.

 

Com efeito, a classificação que propomos tem caráter meramente propedêutico. Nossa exposição pode ser facilmente compreendida e seguida, desde que o leitor tenha em mente as várias acepções de “diálogo” aqui explicitadas com o auxílio das palavras complementares constantes de nossa terminologia.

 

 

h. Etimologia de “diálogo”

 

Na etimologia da palavra “diálogo” se encontram os elementos para se lhe determinar o significado.

 

O vocábulo grego “diálogo” se compõe de “dia­” que importa em separação, em disjunção, e “logos”, que equivale a “verbo”. Daí o cmprego de “diálogo”, em Sócrates e Platão, para designar a forma de elaboração intelectual em que dois ou mais interlocutores, procedendo por meio de perguntas e respostas, se empenham em distinguir as coisas segundo seus gêneros (11).

 

_____________ (nota) _________

(11) A dialética, como Aristóteles a concebe, inspirada embora em Platão, não nos parece relacionada proximamente com a presente temática (cf. A. Lalande, op. cit., ibid.).

 

(fim da nota)

 

Compreende-se que, com base nessa etimologia, a palavra “diálogo”, tomada em sentido lato, tenha chegado, como registram os dicionários, a abranger nos principais idiomas do Ocidente toda e qualquer forma de interlocução (12) .

 

---------------- (nota) ----------------

          (12) Na Encíclica “Ecclesiam Suam”, Paulo VI, ao tratar do diálogo, usa a palavra latina “colloquium” (loqui cum), cujo equivalente em português, “colóquio”, também serve para designar em sentido lato toda e qualquer interlocução.

-------------------- (fim da nota ) --------------

 

 

i. Modalidades de diálogo segundo seu fim

 

No diálogo em sentido lato, há uma primeira distinção a fazer. No decurso da exposição, facilmente veremos o alcance que esta distinção apresenta. O diálogo, do ponto de vista de sua finalidade:

 

* 1 – ou é tal que os interlocutores não tencionam mudar a persuasão um do outro, o que pode dar-se:

 

- a – quando o diálogo visa a mera permuta de informações, ou o entretenimento das partes (a essa modalidade denominaremos “diálogo-entretenimento”);

 

-  b – quando visa a colaboração das partes para a investigação ou análise de assunto que ambas conhecem insuficientemente (“diálogo-investigação”);

 

* 2 – ou é tal que os interlocutores pensam de modo diverso sobre o assunto em foco, e cada qual visa, por meio de argumentos, persuadir o outro a mudar de convicção (“discussão”) (13).

 

------------------- (nota) -----------------

 

(13) Ao contrário do que se dá com a discussão e espe cialmente com o diálogo-investigação, o diálogo-entretenimento só tem uma relação longínqua com o diálogo segundo a noção platônica.

 

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j . Correspondentes diferenças de atitude emocional

 

A estes diferentes objetivos e intenções, correspondem respectivamente atitudes emocionais diversas nas pessoas que tomam parte no diálogo:

 

* 1 – quando os interlocutores não visam reciprocamente mudar as opiniões, a atitude emocional é de distensão:

 

- a – essa distensão é plena e contínua no caso do diálogo-entrerenimento;

 

- b – essa distensão também é plena no caso do diálogo-investigaç­ão; mas, como ao longo da investigação alguma divergência pode surgir acidental e transitoriamente, é possível que alguma tensão passageira surja no decurso do diálogo-investigação (14);

 

--------------- (nota) ---------------

 

(14) Se o diálogo-investigação comporta eventuais divergências, qual a consistência da distinção entre ele e a discussão? O diálogo-investigação não versa sobre tema em que os interlocutores estão em desacordo, mas sobre tema que ignoram, ao menos em parte. A divergência é nele apenas um episódio eventual e esporádico relativo a algum aspecto da investigação. A discussão tem por objeto assunto em que há desacordo, e ela comporta fundamental e continuamente o esgrimir dos argumentos.

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* 2 – no caso da discussão, a atitude emocional dos interlocutores, via de regra, tem caráter diverso: as diferenças de convicção criam entre eles uma heterogeneidade que constitui de si um obstáculo à simpatia; a argumentação, com que cada qual procura convencer o outro, pode originar facilmente um teor de relações mais ou menos parecido – conforme o caso – com uma luta.

 

Assim, o diálogo comporta duas modalidades fundamentais, que se distinguem pelo seu objetivo, e a título corolário pela atitude emocional que marca a relação dos interlocutores entre si.

 

 

k. Diálogo “lato sensu”, diálogo

“stricto sensu” e discussão

 

À modalidade de diálogo acima descrita no número 2 dos itens “i” e “j”, a palavra “discussão” (do latim “discutere”, isto é, “dis”, que indica separação, e “quatere”, agitar) é inteiramente própria.

 

Mas como designar a forma de diálogo indicada no número 1 daqueles itens? Para ela não existe vocábulo distintivo. Chama-se “diálogo” também.

 

Daí constituir-se um sentido estrito da palavra “diálogo”, designando a modalidade n.° 1 (que por sua vez compreende o diálogo-entretenimento e o diálogo-investigação), a par do sentido lato e etimológico já analisado.

 

Em face destes dois sentidos de “diálogo”, qual a posição do vocábulo “discussão”? Ele designa – como vimos – uma das modalidades do diálogo “lato sensu”. E, de outro lado, como dentro do gênero as espécies se distinguem e se opõem, “discussão” é o contrário de “diálogo” no sentido estrito.

 

 

l. Discussão-diálogo, discussão pura e simples, polêmica

 

No que diz respeito à discussão, há também distinções a fazer. Com efeito, ela comporta três graus de intensidade:

 

* 1 – A discussão pode ter um caráter extremamente sereno e cordial, de modo que, conservando embora plenamente o conteúdo de uma discussão, apresente a amenidade de forma que é própria ao diálogo “stricto sensu”. Note-se bem que, como cada interlocutor visa a mudança da persuasão do outro, estamos aqui em presença de uma discussão autêntica, e não de um diálogo em sentido estrito. E tão somente em algo de acidental, isto é, na sua forma, na suavidade de trato, que esta modalidade de discussão se assemelha ao diálogo “stricto sensu”. Assim sendo, não é apenas em sentido lato que o termo “diálogo” se aplica a este tipo de discussão. Mas também se aplica a um título particular e específico, derivado, como que por osmose ou assimilação, da mera semelhança acidental que há entre o diálogo “stricto sensu” e esta modalidade de discussão. Por isso, nós a denominaremos de “discussão-diálogo”;

 

* 2 – A discussão tem, num segundo grau de intensidade, o calor emocional comum que é inerente a uma interlocução em que cada parte quer mudar a persuasão da outra. A esta modalidade – que corresponde ao sentido corrente da palavra “discussão” – chamaremos “discussão pura e simples”;

 

* 3 – A discussão pode ter, finalmente, um calor emocional muito grande, denominando-se então “polêmica” (do grego “guerra”). Em razão de sua particular veemência, a polêmica tem em geral um caráter estrepitoso, e, quando versa sobre doutrinas, facilmente passa também para o terreno do ataque pessoal (15).

 

-------------- (nota) -------------

 

(15) É útil um confronto entre a terminologia aqui adotada e a que é usada por Paulo Vl na Encíclica “Ecclesiam Suam” (in AAS, vol. LVI, n.° 10, pp. 609-659).

A temática desse documento é bem distinta da que nos ocupa no presente trabalho. Paulo VI trata fundamentalmente de ensinar o que ele chama o diálogo da salvação, o diálogo apostólico da lgreja, mostrando principalmente suas características, suas modalidades e a imensidade de seu âmbito, o qual abrange a humanidade inteira.

Em conseqüência, a Encíclica se ocupa apenas colateralmente de certos aspectos negativos do diálogo, como por exemplo a hipótese de um diálogo com os comunistas, que ela qualifica de “bastante difícil para não dizer impossível”. Ou da inviabilidade de um diálogo quando os não católicos “o recusem em toda a linha ou simulem querer aceitá-lo”.

É também a título colateral que Paulo Vl se refere ao perigo do irenismo e do sincretismo no diálogo.

Ora, no presente estudo, o diálogo que se pretende analisar e apontar à atenção da opinião pública é precisamente o oposto. Não é o diálogo desejado pela Igreja, para atrair as almas, mas o diálogo deturpado ardilosamente pelo comunismo, para as desviar ou manter afastadas da Igreja. E é apenas a título preparatório e explicativo, que nos ocupamos do bom diálogo.

Estão no panorama da Encíclica todas as formas de interlocução entre católicos e acatólicos, e no que diz respeito à discussão pugnaz e até mesmo a polêmica, não as rejeita ela senão quando “injuriosas” e, como aliás acontece “com fleqüência”, “violentas”. Portanto, Paulo VI não exclui a boa discussão nem a boa polêmica.

Assim, no espírito da Encíclica, a interlocução, que neste estudo chamamos diálogo “lato sensu”, comporta como formas moralmente legítimas (além do diálogo de entretenimento e do diálogo de investigação, como é óbvio) as três modalidades de discussão que denominamos discussão-diálogo, discussão pura e simples, e polêmica.

No entanto, é fácil notar que Paulo VI fixa mais detidamente sua atenção sobre a discussão-diálogo, notável por sua cordialidade. E que a considera, mesmo, a que “mais genuinamente tem a natureza de diálogo”. Nesta perspectiva a discussão pura e simples e a polêmica são formas autênticas e legítimas de diálogo, se bem que menos plenas.

Tudo isto, dizêmo-lo para mostrar a harmonia entre o que afirmamos sobre o diálogo legítimo e o que ensina a Encíclica sobre o diálogo da salvação.

Várias das increpações que fazemos ao mau diálogo o diferenciam fundamentalmente do diálogo apostólico da Igreja, ensinado pela “Ecclesiam Suam”.

Assim, este último nada tem de relativista: ele visa essencialmente a conversão da parte não católica.

Também, ele não participa da ilusão irenística de que o interlocutor não católico está sempre de boa fé. A Encíclica, ao falar da possível insinceridade de certos interlocutores, da dureza dos que fecham o ouvido às tentativas de diálogo da Igreja, e dos perigos do irenismo e do sincretismo como elementos de falseamento do diálogo da salvação, não ignora que o pecado original deixou efeitos no homem.

Por fim, se a “Ecclesiam Suam” trata do irenismo apenas de passagem, não é menos certo que o rejeita explicitamente, e deixa ver as apreensões que Paulo VI sente acerca dele. De tais apreensões, aliás, não poderia ter dúvida quem, já antes da Encíclica, tivesse lido a Exortação de 12 de fevereiro de 1964 aos Párocos e Pregadores quaresmais de Roma, em que Paulo VI afirma com energia: “A espada do espírito parece [na hora presente] repousar na bainha da dúvida e do irenismo. Mas é precisamente por isto que a mensagem da verdade religiosa deve ressoar com maior vigor. Os homens ­têm necessidade de crer em quem se mostra seguro daquilo que ensina” (in “Osservatore Romano”, edição hebdomadária em francês, de 21 de fevereiro de 1964).

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m. Quadro esquemático dos sentidos legítimos de “diálogo”

 

Podemos sintetizar no esquema seguinte todas essas noções sobre os diversos significados de “diálogo”:

 

DIÁLOGO NO SENTIDO LATO E ETIMOLÓGICO – Indica qualquer tipo de interlocução

 

DIÁLOGO NO SENTIDO ESTRITO – Interlocução em que cada parte não visa mudar a persuasão da outra. Atitude emocional de distensão.

 

DIÁLOGO-ENTRETENIMENTO – Visa informar, distrair, etc. Atitude emocional de distensão plena e contínua.

 

DIÁLOGO-INVESTIGAÇÃO – Visa investigar, estudar, analisar. Habitualmente, atitude emocional de distensão. São, entretanto, possíveis tensões acidentais e transitórias.

 

 

 DISCUSSÃO – Interlocução em que cada parte visa mudar a persuasão da outra. É o oposto do diálogo no sentido estrito. Atitude emocional que facilmente será de luta.

 

DISCUSSÃO–DIÁLOGO – Calor emocional menor do que o corrente. Quanto ao conteúdo, é autenticamente uma discussão, pois visa mudar a persuasão do interlocutor. So’ se denomina “diálogo” devido à semelhança acidental (amenidade de forma) que tem com o diálogo em sentido estrito.

 

DISCUSSÃO PURA E SIMPLES – Calor emocional corrente, isto é, o grau comum de pugnacidade que é inerente a uma interlocução em que cada parte deseja mudar a persuasão da outra.

 

DISCUSSÃO-POLÊMICA, ou apenas “polêmica” – Calor emocional invulgar, isto é, particular veemência e caráter estrepitoso.

 

 

n. Traço comum aos vários sentidos de “diálogo”

 

Exceto – como é óbvio – quando tomada em sentido lato, a palavra “diálogo” apresenta nas suas várias aplicações uma nota de harmonia, de concórdia, de paz.

 

Essa nota é inerente ao diálogo “stricto sensu”, isto é, ao diálogo-entretenimento e ao diálogo-investigação, aos quais é própria uma atitude emocional de inteira distensão.

 

E, como vimos, é só na medida em que a nota de harmonia esteja presente de modo notável em uma discussão, que esta poderá ser chamada, por assimilação, de “diálogo”, constituindo-se assim a discussão-diálogo. Por mais amena que seja, nunca uma discussão-diálogo será essencialmente um diálogo “stricto sensu”, porque é inerente a toda e qualquer discussão uma nota de pugnacidade.

 

 

C. A pugnacidade nas diversas modalidades de discussão

 

Qual a natureza dessa nota de pugnacidade? Intelectual, quando se trata de um esgrimir de argumentos com que cada parte visa persuadir a outra a, segundo a fórmula de São Remígio, “queimar o que adorou e adorar o que queimou”. Volitiva e emocional, quando ao embate das idéias se soma o calor do entrechoque das vontades, e a estridência dos modos de sentir díspares.

 

 

D. Têm a discussão pura e simples e a polêmica um caráter pejorativo?

 

Essa nota de pugnacidade intelectual, volitiva ou emocional constitui um mal em si? Têm a discussão pura e simples e a polêmica um caráter pejorativo? Cumpre responder à pergunta, pois é a partir da má solução que muitos lhe dão, que se desenvolve o estratagema da palavra-talismã “diálogo” .

 

Não nos ocuparemos do problema da liceidade da nota de pugnacidade na discussão-diálogo, onde ela é como que imperceptível.

 

Vejamos, primeiramente, o que diz respeito à discussão pura e simples.

 

a. Relação do problema com o pecado original

 

Em si, os entrechoques de ordem ideológica, volitiva ou emocional são frutos do pecado original. Desejável seria que entre os homens jamais houvesse dissensões, discussões ou lutas.

 

Posto porém o pecado original, é legítima e proveitosa a discussão pura e simples? Em princípio, sim.

 

 

b. A lógica, meio de conquistar a verdade e o bem

 

Com efeito, desde que se admita a existência objetiva da verdade e do erro, do bem e do mal, e a idoneidade da lógica para conduzir o homem ao conhecimento da verdade e tirá-lo das armadilhas do erro, para o levar a amar o bem e afastá-lo das garras do mal, é forçoso reconhecer o proveito dessa modalidade de discussão. Pois por meio dela uma pessoa pode fazer a outra o maior dos benefícios, que é de a tirar do erro e do mal e de lhe dar a posse da verdade e do bem.

 

 

c. A influência dos fatores emocionais

 

Mas, dirá alguém, a discussão pura e simples não deve ser sempre fria e apática, no sentido etimológico do termo?

 

Não pensamos assim. Todo homem tem um natural apego a suas convicções. E, por isto, em geral só abre mão delas a contragosto. Tal apego é ainda muito acentuado pelo fato de que certas convicções dão origem logicamente a todo um conjunto de hábitos, a todo um modo de ser, a todo um gênero de vida, e mudá-las acarreta para o homem a necessidade de aceitar, em certos pontos sensíveis, dolorosas transformações. Movido pelo amor nobre, ordenado e forte que tem à verdade e ao bem, ou pelo miserável, tormentoso e violento amor que tem ao erro e ao mal, ele não se porta, ao discutir, como uma mera e fria máquina de raciocinar. Por isso mesmo que é homem, ao discutir ele se engaja inteiro, não só com todos os recursos de sua inteligência, como também com todo o vigor de sua vontade e o calor de suas paixões boas ou más.

 

Assim engajada, a discussão pura e simples, ainda que conserve sempre o primado do raciocínio, do qual lhe vem sua principal razão de ser e o melhor de sua dignidade, não consiste na mera argumentação. Por um incontestável direito da virtude, como por uma interferência freqüente do pecado, é explicável que ela se apresente muitas vezes com uma nota saliente de combatividade emocional.

 

Desse modo, se é verdade que em certas circunstâncias a discussão pura e simples se dignifica revestindo-se de uma nobre e superior serenidade, há outras ocasiões em que ela só tem a lucrar se iluminada pelo fogo do zelo da verdade e do bem.

 

 

d. Fatores de persuasão colaterais à argumentação

 

Muito naturalmente, o espírito humano começa por vezes a perceber a veracidade de uma tese, achando-a amável, ou achando-a bela. Como entre a bondade, a beleza e a verdade há uma reversibilidade profunda, o amor facilita muitas vezes a percepção da verdade. E a força de persuasão da pessoa que discute não está só no raciocínio, mas em todo o seu modo de ser e de falar, que não raro pode deixar ver a beleza ou a bondade da causa que ela sustenta. Ora, no louvar o bem e o belo entra naturalmente um fator emocional que facilmente leva a discussão pura e simples a crescer em ardor, chegando por vezes até a polêmica.

 

 

e. Legitimidade da ira na discussão pura e simples

 

Mas, dir-se-á, os argumentos acima abrem as portas à ira, que jamais pode penetrar na interlocução.

 

Vimos há pouco que as paixões do homem têm um lugar legítimo no embate das idéias. Do ponto de vista moral, isto facilmente se explica, pois de si nenhuma paixão é má: todas são indiferentes, e podem influenciar legitimamente a discussão pura e simples desde que não sejam intemperantes. A ira não é senão uma dessas paixões. E, dentro dos limites da temperança, pode muito bem comunicar sua marca específica ao embate das idéias. Aliás, acrescente-se, a ira santa contra o erro e o mal, em lugar de turvar a perspicácia do espírito, em muitos casos a aumenta, e com isto concorre para a lucidez da discussão pura e simples (16) .

 

-------------- (nota) ------------

(16) Veja-se, nesse sentido, o que ensina São Tomás de Aquino, Sum. Theol., 2-2, q. 158, a. 1.

------------- (fim da nota) ----------

 

f. O contraste e a pugnacidade, necessários para demonstrar a verdade

 

Mostrar quanto uma tese é verdadeira, boa e bela, é tarefa, muitas vezes, árdua. Falamos há pouco dos efeitos do pecado original, dos hábitos e das paixões no espírito humano, bem como das crises que certas mudanças de opinião podem acarretar para o homem. No vértice de crises tais, este então hesita. A contradição entre as idéias cuja veracidade entrevê, e a vida que leva, lhe parece insuportável. A famosa alternativa formulada por Paul Bourget (17) se lhe depara no caminho: conformará suas idéias com seus atos, ou seus atos com suas idéias?

 

 

----------------- (nota) ----------------

(17) “Il faut vivre comme on pense, sinon, tôt ou tard, on finit par penser comme on a vécu” – Paul Bourget, “Le démon de midi”, Librairie Plon, Paris, 1914, vol. II, p. 375.

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Claro está que, em situações tão tenebrosas e dolorosas, há que lançar mão de todos os recursos de argumentação realmente convincentes. E um deles é sem dúvida o contraste.

 

Ensina São Tomás que um dos motivos por que Deus permite o erro e o mal é para que pelo contraste melhor ressalte o esplendor da verdade e do bem (18). No discutir, de forma nenhuma é lícito desdenhar o contraste, esse recurso do Divino Pedagogo, tão precioso que nos planos da Providência de algum modo compensa os inúmeros inconvenientes da existência do erro e do mal neste mundo. Ora, como fazer valer o contraste, senão pela denúncia aberta e categórica de tudo quanto o erro tem de falso, e o mal de censurável? Não basta pois louvar a verdade e o bem. É legítimo, na discussão pura e simples, desenvolver em toda a medida do cabível a nota da pugnacidade. Assim se legitima o ataque tanto às idéias falsas quanto às pessoas.

 

------------ (nota) ----------

 

          (18) “As demais coisas, e sobretudo as inferiores, ordenam-se ao bem do homem como a seu próprio fim. Se nada de mau existisse nas coisas, o bem do homem seria grandemente diminuído­ tanto no que diz respeito ao conhecimento, quanto ao desejo ou amor do bem. Pois pela comparação com o mal conhece-se melhor o bem, e quando sofremos alguns males, desejamos o bem mais ardentemente: como os enfermos conhecem melhor do que ninguém quão boa é a saúde, e também a desejam com mais ardor do que as pessoas sãs. Por isso a Providência Divina não exclui totalmente das coisas o mal” – São Tomás de Aquino, C. Gent., III, 71.

 

------------ (fim da nota) -----------

 

 

…quer no que se refere às idéias

 

Ataque às idéias falsas, em primeiro lugar: mostrando o que elas têm de errôneo, de contraditório, de imoral, produz-se um impacto salutar no ânimo de quem as professa. Todo um conjunto de preconceitos e apegos desordenados pode resultar abalado com isto. E, assim, a luz da verdade, o bom odor da virtude, podem penetrar até a pobre alma ainda há pouco inteiramente encarcerada no erro.

 

 

…quer no que se refere às pessoas

 

Ataque às pessoas, em segundo lugar. Quando esse ataque é feito de maneira a mostrar na pessoa atacada tão somente o erro e o pecado em que se acha, sem se estender inutilmente a outros pontos, pode-se abrir os seus olhos para o estado em que se encontra, convidando-a eficazmente a voltar à verdade e ao bem. E, se o ataque tem lugar em presença de terceiros, não só se neutraliza junto a estes o efeito do escândalo, como se consegue aumentar, por via de contraste, o amor deles à verdade e ao bem. É óbvio que tais ataques só se legitimam quando realmente necessários, e se devem fazer segundo as regras da justiça e da caridade, de forma que, por mais que sejam claros e vão ao fundo das coisas, não espezinhem na pessoa atacada sua dignidade de homem, e eventualmente de cristão.

 

Ataques deste gênero, feitos no momento adequado, e com linguagem digna, têm produzido ao longo da História um grande bem, ainda quando voltados contra os poderosos da terra, habituados a serem tratados com especial respeito. Grande bem por vezes para as pessoas visadas, e sempre notável edificação para o povo. São célebres, por exemplo, os ataques do Profeta Natan contra David, de Santo Ambrósio contra o Imperador Teodósio, de São Gregório VII contra Henrique IV, ou de Pio VII contra Napoleão. Quantas e quão sazonadas graças daí se seguiram, quer no sentido de afastar as almas do erro e do mal, quer no de as atrair para a verdade e o bem! Mudam-se os tempos, mas a ordem profunda das coisas não se muda. Mesmo os déspotas totalitários de nosso século, embora certamente mais intratáveis do que os potentados de outrora, não são tais que se possa asseverar que ataques desse gênero jamais lhes serão de proveito.

 

 

g. Artificialidade da abolição da discussão pura e simples

 

Como já foi dito, a discussão pura e simples não é um mero entrechoque de argumentos. Sob algum aspecto é um entrechoque de personalidades. Há nela um contacto de alma a alma, em que por meio da insistência, da repetição (que Napoleão considerava a melhor figura de retórica), da atração de um contendor para outro, ou da repulsa, uma verdadeira influência se exerce de parte a parte. O jogo de tais fatores ainda mais contribui para dar a esta modalidade de interlocução uma real semelhança com um torneio, e até com uma luta.

 

Todas estas considerações fazem ver que a discussão pura e simples corresponde a necessidades naturais e profundas do convívio humano. E que proscrevê-la para reduzir as formas deste convívio ao mero diálogo em sentido estrito (ou à discussão-diálogo) seria artificialidade grave e perigosa.

 

 

h . Artificialidade, causa de confusão e de luta

 

Perigosa, dizemos, pois que o é toda artificialidade. Com efeito, as forças da natureza violentadas e expulsas voltam com redobrado vigor. Disse-o Horácio de forma lapidar: “Naturam expelles furca, tamen usque recurret” (Epist., I, 10, 24). Não receando, por um mal compreendido amor à concórdia, cair no artificial, abre-se mão de um meio indispensável, no convívio humano, para a elucidação da verdade. Com isto, desliza-se para a confusão, a qual é um dos fatores mais sinistros e profundos de perturbações, querelas e lutas prolongadas, inextricáveis e carregadas de ódio. Como se sabe, nada prejudica mais a verdadeira paz, que é a tranqüilidade da ordem (cf. Santo Agostinho, De Civ. Dei, XIX, c. 13), do que o se apagarem entre os homens a verdade e o bem, fundamentos únicos dessa mesma ordem. Quem nega a liceidade da discussão pura e simples, imaginando talvez trabalhar para a concórdia, implanta de fato o reino da discórdia.

 

 

i. A discussão pura e simples não arruína a caridade?

 

Ao ler estas considerações, mais de um leitor, influenciado pelo irenismo corrente em nossos dias, sentirá subir do fundo de sua alma uma apreensão: não haverá imprudência de nossa parte no elogio da discussão pura e simples, que aqui fazemos? Ainda que tenhamos razão na ordem abstrata dos princípios, tal é a facilidade com que se pode abusar dessa modalidade de interlocução, que melhor seria proscrevê-la de todo. “Abusus non tollit usum”, respondemos com o velho brocardo jurídico. Se a discussão pura e simples é lícita em si, e tem uma função específica na ordem natural das coisas, ocupa por isto mesmo um lugar nos planos da Providência. “Tempus tacendi, et tempus loquendi” (Eccle. 3, 7): aplicando o princípio da Escritura, podemos dizer que há ocasiões em que é oportuno não discutir, mas outras em que se tem o direito e até a indeclinável obrigação de o fazer. Foi do que nos deu exemplo o Divino Mestre (cf. Jo. 8 e ss.). E por isto, abuso pior do que discutir por vezes mal, é não discutir absolutamente nunca.

 

Apresentar a discussão pura e simples, por medida de prudência, como sempre ilícita, sempre perigosa, sempre nociva às almas, constitui verdadeira escamoteação doutrinária.

 

Se quem deve discutir é um católico, há nesta escamoteação, ademais, o sintoma de um acentuado naturalismo. Pois se discutir é para ele um direito ou até um dever, como admitir que lhe seja impossível, com a abundância das graças que a Igreja dispensa, fazê-lo segundo os princípios da justiça e da caridade? Não vale mais para ele o “omnia possum in eo qui me confortat” (Filip. 4,13)?

 

 

j. Conseqüência: a discussão pura e simples não tem caráter necessariamente pejorativo

 

Não. É inadmissível condenar em tese a discussão pura e simples, e atribuir-lhe um caráter necessariamente pejorativo.

 

 

k. Tampouco a polêmica tem necessariamente caráter pejorativo

 

Tudo quanto dissemos da discussão pura e simples, vale também para a polêmica. Esta possui, no mais alto grau, a pugnacidade inerente àquela, e por isto – quando má – pode ter em grau superlativo tudo quanto as exacerbações da discussão pura e simples têm de censurável.

 

Por análogo motivo, também, a polêmica, quando boa, tem em grau excelso todas as qualidades inerentes à discussão pura e simples bem conduzida (19). Foi o que tivemos ocasião de sustentar mais extensamente em livro intitulado “Em Defesa da Ação Católica” (Editora Ave Maria, São Paulo, 1943), o qual foi objeto, em 1949, de uma expressiva carta de louvor, escrita em nome do Papa Pio XII pelo então Substituto da Secretaria de Estado, Monsenhor João Batista Montini, hoje Paulo VI.

 

---------------- (nota) ---------------

 

( 19 ) Diga-se de passagem que a condenação da discussão pura e simples e da polêmica conduz à rejeição da apologética. A má apologética é como que a sósia da má discussão e da má polêmica. Aquela é o apriorismo, a unilateralidade, o desregramento passional no elogiar ou defender algo. Como estas o são no vituperar ou atacar alguma coisa. Mas a boa apologética é a irmã da boa discussão e da boa polêmica. Por isto mesmo, a defesa da apologética se há de fazer “mutatis mutandis”, exatamente nos mesmos termos que a da discussão pura e simples e da polêmica.

Por sua vez a má hagiografia é a transposição da má apologética para o plano da historiografia religiosa. Por isto não raro se vê empregada a palavra em sentido pejorativo, como se toda hagiografia não fosse senão uma lenda edificante sem valor histórico, uma espécie de conto de fadas cristão. É fácil ver que a defesa da boa hagiografia deve fazer-se com argumentos análogos aos da defesa da boa apologética, da boa discussão e da boa polêmica, das quais é ela uma nobre irmã.

--------------- (fim da nota) -----------------

 

A quem causar estranheza o que afirmamos da boa polêmica, lembraremos simplesmente que, por evidente disposição da Providência para o bem das almas, o Espírito Santo suscitou na Igreja polemistas eminentes, que gozam da honra dos altares, e cujas obras constituem lídima glória da Igreja e da cultura cristã. Mencionemos, entre tantos outros, São Jerônimo, Santo Agostinho, São Bernardo, São Francisco de Sales.

 

 

l. A discussão pura e simples, a polêmica e a opinão pública

 

Não poderíamos dar por encerradas essas considerações sem fazer uma observação sobre a verdadeira dimensão dos problemas suscitados a propósito da discussão pura e simples e da polêmica. Em geral, trata-se desses problemas tomando em consideração unicamente os interlocutores que discutem ou polemizam. Na realidade, quando por seu tema a discussão pura e simples e a polêmica interessam a muitas possoas, e se fazem com publicidade adequada, elas têm um alcance social, pois provocam entre os que delas tomam conhecimento uma miríade de controvérsias congêneres. A amplitude do fenômeno pode chegar à formação, no seio da sociedade, de duas ou mais correntes de opinião. Do vozerio confuso das disputas individuais vão emergindo então, em um campo e em outro, vozes mais altas, mais ricas de pensamento e mais carregadas de força de expressão, que por sua vez travam entre si controvérsias de grande porte. Em umas e outras se compendia, se define, adquire maior densidade de pensamento, toma vôo e é levado a suas últimas conseqüências tudo quanto nos vários campos se vai afirmando.

 

Assim, as correntes de opinião se defrontam e se exprimem como que em diversas gamas, e, travadas pelos grandes, as discussões e as polêmicas por sua vez repercutem sobre os pequenos novamente, os inspiram e orientam.

 

Na sua forma mais ilustre, e historicamente mais importante, a discussão pura e simples e a polêmica se encetam, se desenvolvem e se desfecham aos olhos de multidões sobre as quais exercem uma ação rectrix do maior alcance. E em função dessas multidões alcançam sua plena dimensão.

 

Tudo isso considerado, já se vê que a estratégia apostólica não pode ser concebida e executada apenas com vistas à pessoa ou a corrente de opinião restrita com que o católico discute, mas ainda em relação ao público por vezes imenso, que acompanha como espectador interessado a discussão pura e simples ou a polêmica. Ora, se o uso da discussão sumamente amena (discussão-diálogo) pode convir freqüentemente para atrair e persuadir o outro interlocutor, as legítimas exigências de alma do público imporão às vezes que se refute e fustigue com veemência o erro e o mal. Pois em determinadas circunstâncias haveria risco de que uma inoportuna serenidade dos defensores da boa causa produzisse no público uma verdadeira atonia do senso católico, ou da sensibilidade moral. E nisto há um argumento a mais para provar que a discussão pura e simples e a polêmica são, em certos casos, indispensáveis.

 

É instrutiva neste sentido a luta duas vezes milenar da Igreja contra os sistemas religiosos e filosóficos que lhe são opostos. Nessa luta, o diálogo vem comportando, com intensidade maior ou menor, a discussão pura e simples e a polêmica, tomando-se em consideração essas conveniências não só no nível dos contactos individuais, como no de grupos, de nações, ou de todo o gênero humano.

 

 

m. A discussão pura e simples, a polêmica e o caráter militante da Igreja

 

A proscrição sistemática de toda discussão pura e simples e de toda polêmica, e a redução de todos os contactos de parte a parte a meras discussões-diálogos (isto é, discussões sumamente serenas e cordiais), teriam para a Igreja conseqüências de uma importância que nunca seria suficiente acentuar.

 

Tais diálogos jamais bastariam a todas as necessidades táticas da Igreja Militante. Com efeito, algo de autenticamente militante, no sentido forte da palavra, é inerente ao “inimicitias ponam” (Gen. 3, 15) e à condição terrena da Igreja. Jamais deixará Ela de ter diante de si inimigos – no próprio e verdadeiro sentido da palavra – inspirados por uma hostilidade que vai, conforme o caso, desde a simples antipatia até o auge do ódio. Esses inimigos jamais serão tão somente meras idéias abstratas, meros fatores sociais ou econômicos adversos: serão também homens de carne e osso, que constituirão até o fim do mundo a raça da Serpente (20). E a Esposa de Cristo jamais poderá deixar de os combater.

 

------------------ (nota) -------------------

(20) “Uma única inimizade Deus promoveu e estabeleceu, inimizade irreconciliável, que não só há de durar, mas aumentar até ao fim: a inimizade entre Maria, sua digna Mãe, e o demônio entre os filhos e servos da santíssima Virgem e os filhos e sequazes de Lúcífer (...)”; “Deus não pôs somente inimizade mas inimizades, e não somente entre Maria e o demônio, mas também entre a posteridade da santíssima Virgem e a posteridade do demônio. Quer dizer, Deus estabeleceu inimizades, antipatias e ódios secretos entre os verdadeiros filhos e servos da santíssima Virgem e os filhos e escravos do demônio. Não há entre eles a menor sombra de amor, nem correspondência íntima existe entre uns e outros. Os filhos de Belial, os escravos de Satã, os amigos do mundo (pois é a mesma coisa) sempre perseguiram até hoje e perseguirão no futuro aqueles que pertencem à santíssima Virgem, como outrora Caim perseguiu seu irmão Abel, e Esaú, seu irmão Jacó, figurando os réprobos e os predestinados” – São Luís Maria Grignion de Montfort, “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, Edit. Vozes Ltda., Petrópolis, 3.a edição, 1946, pp. 54 e 56, n.°s 52 e 54.

------------ (fim da nota) -------------

 

 

Não quer isto dizer que em cada pessoa ou instituição não católica a Igreja só deva ver um inimigo. Mas é utópico imaginar que Ela encontre, em alguma época histórica, dentre os que são alheios a seu grêmio, apenas homens cheios de simpatia, que a interroguem sorridentes sobre um ou outro ponto para o qual não encontram explicação, e que de sorriso em sorriso, sem maiores complicações, acabem sempre por se converter.

 

Levaria, aliás, muito longe o utopismo quem, neste século de campos de concentração, e de cortinas de ferro, de bambu ou do que seja, imaginasse que é só gente tão desprevenida e risonha que a Igreja tem diante de si.

 

De resto, essa simples discriminação dos não católicos em duas categorias, uma dos adversários, outra dos que poderíamos chamar os ignorantes benévolos, carece de consistência. Na realidade, entre os não católicos, são poucos os que levam ao extremo o ódio à Igreja, como os que são isentos de qualquer antipatia em relação a Ela. A maior parte pertence simultaneamente, e em proporções variáveis ao infinito, a ambas as categorias aludidas, de forma que a benevolência, a antipatia e a ignorância se mesclam em cada qual de um modo peculiar, no que diz respeito à Igreja. E isto leva necessariamente cada católico a usar, em proporções também diversas ao infinito, a linguagem própria dos vários tipos de interlocução. O zelo industrioso não consiste aqui em excluir qualquer deles, mas em utilizar a cada um, combinando-o ou não com os outros, se e na medida em que o caso concreto o exigir.

 

 

2. A fermentação emocional irenista

 

Cumpre situar em seu contexto ideológico e em seu quadro psicológico próprio a tendência irenista (21) que, a propósito dos vários sentidos das palavras “diálogo” e “discussão”, vimos analisando.

 

----------- (nota) ----------------

 

          (21 ) Entendemos aqui a palavra “irenismo”, não no sentido de amor temperante à verdadeira paz, porém no de amor desregrado de uma paz obtida custe o que custar, com prejuízo de princípios, de direitos adquiridos, etc. Em suma, de uma paz inautêntica. De tal irenismo diz Pio XII na Encíclica “Humani Generis”, de 12 de agosto de 1950: “Existe também outro perigo, que é tanto mais grave quanto se oculta sob a capa de virtude. Muitos há que, deplorando a discórdia do gênero humano e a confusão reinante nos espíritos, bem como levados por imprudente zelo das almas, são impelidos vigorosamente por um ardente desejo de romper as barreiras que separam entre si as pessoas retas e honradas; e abraçam um “irenismo” tal que, pondo de lado as questões que dividem os homens, pretendem não somente combater em união de forças contra o ateísmo avassalador senão também conciliar opiniões contrárias, mesmo no campo dogmático. (...) Se tais pessoas não pretendessem mais do que acomodar melhor, com alguma renovação, o ensino eclesiástico e seus métodos às condições e necessidades atuais, quase não haveria razão para temores; contudo, alguns, arrebatados por imprudente “irenismo”, parecem considerar como óbice ao restabelecimento da unidade fraterna justamente aquilo que se fundamenta nas leis e princípios legados por Cristo e nas instituições por Ele fundadas, ou o que constitui a defesa e o sustentáculo da integridade da fé. Se isto ruísse, unir-se-iam todas as coisas, sim, mas somente para a perdição” (Disc. e Radiomess., vol. XII, p. 498). Desse irenismo também fala em termos expressivos Paulo VI no tópico da Exortação aos Párocos e Pregadores quaresmais de Roma, reproduzido na nota 15, deste capítulo.

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A. Uma ordem de coisas evoluída e paradisíaca: a “era da boa vontade”

 

Que utopias, que estados emocionais singulares são capazes de levar alguém a admitir como desejável e possível uma nova ordem de coisas, uma era que se poderia chamar da boa vontade, em que os homens já não discutiriam nem polemizariam entre si?

 

Tal ordem de coisas suporia que o gênero humano, superados por uma extensa evolução os efeitos do pecado original, e constando por isto mesmo tão somente de homens de boa vontade, pudesse inaugurar um estilo de convivência em que os desacordos, se os houvesse, fossem eliminados pela ação elucidativa de contactos sem pugnacidade. 

 

 

B. A era da boa vontade, o utopismo anarquista inerente ao comunismo, e a república universal

 

Suposta tal “evolução” da humanidade, do estágio atual para essa era da boa vontade, seus efeitos não se cingiriam apenas à esfera da convivência privada, mas transbordariam logicamente para a esfera jurídica e até política. Homens que não erram nem intelectual nem moralmente, ou nos quais o erro é tão ligeiro que uma elucidação cordial os põe logo no justo caminho, têm necessariamente uma vida política sem atritos nem fricções. As revoluções são entre eles impossíveis, e os crimes também. Uma nova perspectiva nas relações jurídicas se abre a partir dessas divagações. E, de conseqüência em conseqüência, na última fímbria do horizonte aparece, em rigor de lógica, um tal adelgaçamento das funções da lei e da justiça, que o Poder Público fica reduzido a um âmbito meramente administrativo, e transformado mais ou menos em uma cooperativa. E a ordem de coisas anárquica e cooperativista sonhada pelo comunismo como ideal posterior à ditadura do proletariado.

 

Por uma análoga concatenação de conseqüências, que se seguem inelutavelmente umas às outras, a evolução humana haveria de projetar seus efeitos em uma esfera de convivência ainda mais alta, ou seja, a da convivência das nações entre si. As rivalidades de interesses e as tensões de caráter ideológico desapareceriam da vida internacional. A própria ONU morreria por desnecessária. Uma supercooperativa conjugaria no plano mundial os esforços dos povos, como cooperativas menores o fariam no plano nacional. Seria uma maneira anárquica de república universal.

 

E assim em todas as formas de relações entre indivíduos e entre povos a concórdia reinaria, absolutamente inalterável, sobre a terra regenerada e habitada tão somente por homens de boa vontade.

 

Não simplifiquemos excessivamente as coisas. O diálogo, na era da boa vontade, e sobretudo em seu limiar, quando algo ainda restasse da era anterior, por vezes não seria fácil nem curto. Exigiria, não raro, de parte e de outra, uma grande paciência. Mas a certeza do resultado final positivo daria ânimo aos homens para desemaranhar paulatina e pacificamente todos os equívocos e confusões, e para suportar as aborrecidas delongas inerentes a essa tarefa.

 

 

C. O irenismo religioso na era da boa vontade

 

O irenismo religioso seria uma das conseqüências mais importantes da instauração da era da boa vontade. A discussão em suas várias espécies – a fortiori as expedições guerreiras e religiosas como as cruzadas – deveriam nela ser proscritas como intrinsecamente más, e sob o mais pesado opróbrio, deixando lugar exclusivamente às demais modalidades de interlocução, que seriam a única forma lícita de contacto entre as diferentes religiões.

 

 

D. Irenismo, ecumenismo e modernismo

 

É impossível não sentir aflorando aos lábios, a esta altura do estudo do irenismo, a palavra “ecumenismo”, tão freqüentemente empregada quando se fala do diálogo.

 

Convém distinguir desde logo duas formas de ecumenismo. Uma procura – com o fim de encaminhar as almas ao único redil do único Pastor – reduzir quanto possível as discussões puras e simples e as polêmicas, em favor da discussão-diálogo e das outras formas de interlocução. Tal ecumenismo tem ampla base em numerosos documentos pontifícios, especialmente de João XXIII e Paulo VI. Mas outra modalidade de ecumenismo vai além, e procura extirpar das relações da Religião Católica com as outras religiões todo e qualquer caráter militante (cf. nota 21, deste capítulo).

 

Esse ecumenismo extremado tem um fundo evidente de relativismo ou sincretismo religioso, cuja condenação se encontra em dois documentos de São Pio X, a Encíclica “Pascendi” contra o modernismo e a Carta Apostólica “Notre Charge Apostolique” contra o “Sillon”.

 

 

E. Outras formas de irenismo ideológico

 

O que aqui dizemos do irenismo religioso facilmente se transpõe, mutatis mutandis, ao irenismo quando aplicado a assuntos filosóficos ou ideológicos de qualquer outra natureza.

 

 

F. Irenismo, relativismo e hegelianismo

 

Como se vê, o irenismo, em suas múltiplas formas, conduz logicamente ao relativismo.

 

De fato, a apetência exacerbada da concórdia unânime, onímoda, universal e definitiva entre todos os homens, leva ao desejo de subestimar o alcance dos pontos de divergência entre eles. Dessa subestima se chega facilmente, como adiante veremos de modo mais detido, a uma posição relativista, que, para suprimir as divergências, acaba por considerar relativo o valor de todas as opiniões, e por negar que qualquer delas seja objetivamente verdadeira ou objetivamente falsa.

 

Esse relativismo total é mais negativo do que afirmativo. Ele nega todos os outros sistemas, porém ainda não oferece uma concepção positiva do homem, da vida e do universo. O impulso irenístico não se poderia contentar com isto. Tendendo a chegar, por seu natural dinamismo, ao extremo de si mesmo, ele toma o caráter hegeliano. Ou seja, concebe a marcha do pensamento, e aliás também a da História, como movida pela eterna fricção de doutrinas ou de forças ao mesmo tempo relativamente verdadeiras e relativamente falsas. Dessa fricção da tese com a antítese nasceria por via de superação uma nova “verdade” relativa, a qual por sua vez entraria em fricção com outra, dando origem a mais uma síntese, e assim por diante, indefinidamente. – Este o termo final do longo itinerário que, iniciado no simples irenismo, levando esse mesmo irenismo de requinte em requinte, chega ao relativismo e por fim ao hegelianismo.

 

 

G. Colaboração com o escol dos irmãos separados na luta contra o relativismo irenista

 

 Cabe, a esta altura, uma observação. O ecumenismo extremado produz não só entre os católicos como também entre os irmãos separados, sejam eles cismáticos, hereges ou outros quaisquer, uma confusão trágica, por certo uma das mais trágicas de nosso século tão cheio de confusões.

 

Não há hoje com efeito maior perigo, no terreno religioso, do que o relativismo. Ameaça ele todas as religiões, e contra ele devem lutar tanto o genuíno católico, quanto qualquer irmão separado que professe seriamente sua própria religião. E tal luta – vista sob este angulo – só pode ser levada a efeito por um esforço de cada qual para manter o sentido natural e próprio de sua crença, contra as interpretações relativistas que a deformam e solapam. O aliado do verdadeiro católico, nessa luta, será por exemplo o judeu ou o muçulmano que não deixe pairar a menor dúvida, não só sobre o que nos une, como sobre o que nos separa. É a partir desta tomada de atitude que o relativismo pode ser expulso de todos os campos em que procura entrar. Como é só a partir dela que a interlocução, em suas várias modalidades, inclusive a discussão pura e simples e a polêmica, pode contribuir para levar os espíritos à unidade. As boas contas fazem os bons amigos, diz um provérbio. Só a clareza no pensar e no exprimir o que se pensa, conduz verdadeiramente à unidade.

 

O ecumenismo exacerbado, tendendo a que cada qual procure ocultar ou subestimar os verdadeiros pontos de discrepância em relação aos outros, induz a um regime de “maquillage”, que só pode favorecer o relativismo, isto é, o poderoso inimigo comum de todas as religiões.

 

 

H. Irenismo, diálogo e utopismo evolucionista

 

A dissolução do Estado, em sua forma atual, e da ONU, a substituição deles por um regime anarco-cooperativista universal, em cujo ápice se encontraria uma supercooperativa mundial, a conseqüente impossibilidade de guerras (e, portanto, a inutilidade de forças armadas), o ecumenismo exacerbado, o relativismo religioso e o irenismo são pois corolários de um mesmo princípio comum: o da evolução da natureza humana, promovida para o estágio da boa vontade, em que morre a discussão em todas as suas formas, e os homens só praticam entre si o diálogo.

 

Apresentada assim em seu contexto ideológico a tendência irenista que procura impor-se através do diálogo talismânico, parece supérfluo apontar as doutrinas em que se apóia essa tendência, de tal maneira são elas conhecidas. Trata-se do utopismo, do qual se notam traços em tantas culturas ao longo da História, e que irrompeu no Ocidente, com particular vigor, depois da Idade Média. De Morus e Campanella até os socialistas utópicos do século passado, o itinerário é fácil de descrever, e já tem sido inúmeras vezes descrito (22).

 

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(22) Poderia a palavra-talismã “diálogo” – em um futuro mais remoto – levar os que a usam a uma posição religiosa gnóstico-platônica na qual os interlocutores, pelo uso do verbo, procurariam despertar reciprocamente as reminiscências do passado anterior à queda? Não há dúvida de que, na palavra “diálogo”, há elementos utilizáveis para essa passagem de Hegel para Platão. “Habent sua fata libelli”, diz o provérbio. “Habent sua fata verba”, diríamos da palavra em geral. Especialmente da palavra-talismã. “Qui vivra verra”. É difícil ir aqui além de conjeturas.

-------------- (fim da nota) ------------

 

 

I. Importância dos aspectos emocionais do utopismo irenístico

 

Certamente importa muito ao presente estudo analisar o estado emocional correlato com esse utopismo, pois – como veremos – o comunismo, para operar a derrocada do mundo ocidental, explora no irenismo, mais do que as próprias idéias em que este se baseia, o estado emocional de que ele vive.

 

O homem, criado para o paraíso terrestre, e para um estado de integridade que perdeu em razão do pecado, sente no mais profundo de si mesmo uma viva apetência para essas condições, das quais, segundo o plano divino, jamais se deveria ter afastado. Essa apetência é muito explicável, pois cada ser, em virtude do amor legítimo que tem a si mesmo, ama o seu próprio bem.

 

Acresce que o termo final de todas as aspirações do homem, convidado por Deus a superior destino, nem sequer está na integridade de sua natureza, ou no paraíso terrestre, mas sim na felicidade perfeita e perene do Paraíso celeste.

 

A tendência para o que genericamente poderíamos chamar, talvez com alguma impropriedade, o paradisíaco, palpita, pois, como uma força estuante e insopitável, no fundo de cada homem. Essa força nele se faz sentir a todo momento, se bem que em graus e formas diversas, e se mescla, ora consciente ora inconscientemente, em tudo quanto ele apetece, pensa ou quer.

 

Orientada pela fé, elevada pela graça, desenvolvida segundo as normas da moral católica, essa apetência do paradisíaco constitui uma força indispensável e fundamental para a dignificação do homem em todos os seus aspectos. Ela o convida a elevar e modelar sua alma e a melhorar quanto possível as condições de sua existência terrena, e sobretudo ela o convida a aspirar ao Céu e a nele pensar com freqüência. Entretanto, nem por isso deixa o católico de compreender que, como tão bem ensina a parábola do joio e do trigo (cf. Mat. 13, 24-30), o erro, o mal e, em conseqüência, a dor, embora possam ser circunscritos, não são extirpáveis deste mundo. Esta vida tem um fundamental sentido de prova, de luta e de expiação, que o fiel sabe ser conforme a altíssimos desígnios da sabedoria, justiça e bondade de Deus. O fim último do homem, sua felicidade gloriosa, completa e perene só está no Céu.

 

 

J. A revolta, elemento emocional típico do utopista irênico

 

Porque assim pensa, o católico verdadeiro é o contrário do utopista. Este, alheio à luz da fé, considera o erro, o mal e a dor como contingências absurdas da existência humana, que o indignam. É natural ao homem revoltar-se contra esta tríade de adversários, pensa ele. E, como o utopista não toma em consideração a existência de outra vida, é levado a julgar evidente, forçoso, indiscutível que se pode acabar por eliminar a dor, o mal e o erro. Pois do contrário deveria admitir que a própria ordem do ser é absurda. Nisto está essencialmente o fundamento de sua utopia. É explicável que para o utopista a vida não possa ter normalmente um sentido legítimo de luta, de prova e de expiação, mas só de paz macia e regalada. Ele é, assim, e por definição, pacifista “à outrance”, ultra-ecumênico, ultra-irênico. E nenhum de seus sonhos teria coerência interna, nenhum seria capaz de o satisfazer inteiramente, se não incluísse a supressão de todas as lutas e de todas as controvérsias.

 

Bem entendido, o paraíso terreno de base científica e técnica sonhado pelo utopismo comporta a satisfação das paixões humanas, não apenas no que elas têm de temperante e legítimo, mas ainda no que têm de mais tempestuoso, desregrado e ilegítimo. Pois a mortificação das paixões é incompatível com esse “paradisismo”.

 

Entre as paixões desordenadas, o orgulho e a sensualidade ocupam um lugar proeminente. Eles marcam o utopista com duas notas principais: o desejo de ser supremo em sua esfera, não aceitando sequer um Deus transcendente, e a tendência a uma plena liberdade na satisfação de todos os instintos e apetências desregradas.

 

O utopista, porque crê só nesta vida, julga inerente à natureza das coisas a possibilidade de obter deste mundo toda a satisfação que seu ser apetece. Espera ele conseguir efetivamente tal satisfação por meio de seus esforços. É o mundano por excelência, pois põe neste mundo todas as suas esperanças (23).

 

 

------------- (nota) ------------

(23 ) Bem se vê que a palavra “mundano” não é aplicada aqui no sentido corrente, de pessoa excessivamente afeita à vida de sociedade elegante, requintada, e tantas vezes frívola. A frivolidade é sempre um mal. A elegância e o requinte em si são louváveis, e se o frívolo é um dos tipos do mundano em nosso sentido da palavra, o elegante e requintado podem não o ser.

----------- (fim da nota) ------------

 

 

K. O utopismo irenístico, traço comum entre o mundano burguês e o mundano proletário

 

E nisto precisamente os mundanos, sejam eles burgueses ou proletários, têm um denominador comum.

 

O burguês mundano espera conseguir para si mesmo, por sua fortuna, por sua posição social, por sua influência política, a plena independência, a estabilidade e o prazer, em última análise o paraíso terreno que o seu utopismo lhe promete.

 

O proletário mundano espera conseguir o mesmo, ou tornando-se burguês ou criando para todos os homens – entre os quais, bem no centro, ele próprio – um micro-paraíso realizado nas condições menos brilhantes, mas ainda assim bastante apetecíveis, de uma sociedade igualitária. Nessa sociedade, o proletariado seria dono de tudo, e os vestígios do que fora o poder do Estado ficariam transferidos a um organismo com a consistência cartilaginosa de uma mera cooperativa. No paraíso igualitário e cooperativista o proletário seria independente, dotado de condições de vida estáveis e alegres, e isso, de algum modo, mais ainda do que o é agora um burguês.

 

 

L. O binômio medo-simpatia opera no mundano burguês

 

Bem sabemos como o utopismo do proletário mundano, quando inebriado pelo comunismo, o leva a ver com ódio o paraíso do burguês, do qual ele está excluído.

 

Por seu lado, como vê o burguês mundano a perspectiva de um paraíso operário? Habituado a seus bens, deles não quer abrir mão. Entretanto, extenuado pela luta de classes, com medo das perspectivas de guerras, revoluções, saques e morticínios, horas há em que lhe sorri como mal menor a possibilidade de se integrar pacificamente, e salvando quiçá algumas pequenas vantagens, no paraíso proletário. E depois, pensa ele, quem sabe se esse paraíso consegue, ao contrário da sociedade burguesa, eliminar o erro, o mal e a dor? Compensaria talvez renunciar às vantagens de que ora desfruto, reflete ainda o burguês mundano, para entrar em um mundo onde ninguém estivesse sujeito a esse tríplice jugo. Ninguém... nem ele próprio que, nos intervalos entre seus negócios e seus prazeres, se sente tão vulnerável pela doença e pelos riscos de toda ordem.

 

E então, com todo o ímpeto de sua apetência de um paraíso na terra, o burguês mundano começa a descobrir em si uma fibra socialista e a entrever possibilidades de pacto com o comunismo. Surge nele um sentimento pacifista em relação a este terrível adversário. O diálogo irênico lhe sorri… A par do medo, começa a atuar nele a simpatia.

 

 

M. O binômio medo-simpatia prepara o mundano burguês para a baldeação ideológica inadvertida

 

Ao comunismo, ao qual importa soberanamente minar por dentro a sociedade burguesa, seria impossível fazer da imensa maioria dos burgueses mundanos discípulos convictos de Marx. As teses e os argumentos deste profeta das trevas são áridos, confusos, rebarbativos, e o burguês mundano não gosta de se deter nem de se aprofundar em nada. Ademais, a ideologia marxista choca frontalmente todos os seus hábitos mentais e interesses pessoais. E a ele não agradam nem choques, nem sacrifícios.

 

Mas os dirigentes comunistas mundiais estão longe de ignorar o estado emocional em que atualmente se encontram tantos e tantos burgueses mundanos.

 

Esse estado é eminentemente explorável em favor do comunismo pelo binomio medo-simpatia. Com isto fica o burguês mundano preparado para a baldeação ideológica, que o levará – como veremos – através da palavra “diálogo”, repetida sob mil e mil formas, a se tornar comunista sem o perceber, ou pelo menos a adotar em face do comunismo posições entreguistas que abrirão a este as portas da cidadela.

 

 

3. “Diálogo”: sentidos talismânicos

 

A. Pontos de impressionabilidade e de apatia, no espírito mundano: quadro psicológico em que atuará a palavra-talismã

 

Caracterizado o mundanismo irenístico como atrás o fizemos, é fácil ver os pontos de impressionabilidade e de apatia que existem em um irenista, ainda mesmo quando apenas em germe, e que tão útil o tornam para a baldeação ideológica inadvertida:

 

* 1.° ponto de impressionabilidade: as contendas, as rixas, as guerras são de si um grave mal, que é preciso a todo custo eliminar, com tendências a inaugurar a era da boa vontade e da paz;

 

* 2.° ponto de impressionabilidade: para isto, é mister a todo preço fazer cessar as controvérsias, substituindo-as pelo diálogo irenista;

 

* 1.° ponto de apatia: essa paz a todo custo é obtenível? para a implantar, não serão necessários meios drásticos, que representem um mal ainda maior?

         

          * 2.° ponto de apatia: a abolição das controvérsias não cria o caos ideológico e moral? não representa a vitória do relativismo? não multiplica, pois, os fatores de discórdia e de guerra? não desorganiza a opinião pública? não tende a desfigurar o caráter militante da Santa Igreja? etc.

 

          Às perguntas que constituem os pontos de apatia, o espírito picado pela mosca do irenismo tende a nem responder. Simplista, açodado e irritadiço como o é todo espírito utópico, o irenista não é capaz, por assim dizer, de desviar sua atenção dos pontos de impressionabilidade, e se irrita com quem o queira obrigar a detê-la nos pontos de apatia.

 

Com isto, torna-se propenso a aceitar todas as seqüelas do irenismo, ainda mesmo aquelas que mais repudiaria – o modernismo, o comunismo – antes de se formarem em seu espírito aqueles pontos de impressionabilidade.

 

Para não nos atermos senão às controvérsias e ao diálogo irênico, a solução verdadeira do problema que preocupa o nosso irenista consistiria em reconhecer a impossibilidade de uma concórdia ideológica absoluta e eterna entre os homens, e a necessidade de assentar o bom convívio sobre bases realizáveis. Para isto, entre outras coisas cuidaria ele de evitar um e outro excesso, isto é, tanto a omissão da discussão-diálogo nos casos indicados, quanto a omissão da discussão pura e simples ou da polêmica quando oportunas, e se empenharia em reprimir essas modalidades de discussão quando a qualquer título fossem censuráveis. Mas, sob a ação dos pontos de impressionabilidade, e sem reação nos pontos de apatia, o irenista, já sôfrego mesmo quando apenas em germe, está pronto para se entregar a toda sorte de pensamentos, sensações e ações unilaterais, só aderindo às soluções que lhe lisonjeiam os pontos de impressionabilidade.

 

Começa assim a produzir seus efeitos sobre ele a palavra-talismã.

 

 

B. Multiplicidade de efeitos da palavra-talismã

 

A palavra-talismã “diálogo” é tão rica em efeitos, que, para os estudarmos adequadamente, devemos classificá-los em dois grupos:

 

– os efeitos diretos, por ela produzidos sobre a mentalidade das pessoas a quem fascina;

 

– um processo pelo qual a mentalidade assim transformada e a palavra-talismã “diálogo”, radicalizando-se mutuamente e servindo-se do diálogo como instrumento, conduzem os “dialogantes” ao relativismo hegeliano.

 

 

C. Efeitos diretos da palavra-talismã

 

Consideremos antes o primeiro grupo de efeitos. São eles em número de cinco.

 

a. Primeiro efeito – O diálogo resolve tudo

 

Sobre o irenista preparado como mostramos acima (item A), começa a agir a palavra-talismã. Falaram-lhe de diálogo. Segundo observa, esse termo é empregado em um sentido novo e muito especial, só indiretamente relacionado com o significado corrente. A palavra “diálogo” reluz assim a seus olhos com um conteúdo que tem algo de moderno e elegante. As pessoas em evidência a utilizam como se fosse uma fórmula nova para mudar convicções, simples, irresistível. Não dialogar é proceder de maneira retrógrada no campo ideológico, em plena era atômica. Dialogar é estar em dia, é assinalar-se como eficiente e moderno. E o irenista se põe então a pensar: o diálogo resolve todos os problemas. Nada de discussões, nem de polêmicas; é preciso unicamente dialogar com os que pensam de outra maneira, sejam eles até comunistas. O diálogo, pela afabilidade que o caracteriza, tem o condão de desarmar todas as prevenções. Ele assegura a quem o usa a glória de persuadir todos os opositores.

 

 

b. Segundo efeito – Uma constelação de impressões e emoções unilaterais

 

Com base tanto no receio unilateral e obsessivo de agastar os opositores pela discussão e pela polêmica, como na certeza de que pelo diálogo não há quem não se convença, nosso paciente chega a formar pari passu toda uma constelação de impressões e emoções unilaterais, das quais não mencionaremos senão algumas. São as que se referem ao católico que discute ou polemiza. Segundo o irenista, tal católico emprega métodos de apostolado anacrônicos e contraproducentes. Assim age por ser irascível, bilioso, vingativo, por não ter caridade para com os que jazem no erro. Trata-os com uma severidade injusta e nociva, e em última análise é o verdadeiro culpado de permanecerem eles fora do redil.

 

 

Ódio aos católicos mais ardorosos

 

Esta impressão unilateral cria uma emoção, uma antipatia contra o apologeta ou o polemista católico, a qual pode chegar até o ódio. Tal antipatia, por proceder do pressuposto de que toda controvérsia ideológica é má, envolve ipso facto e indistintamente todos os que discutem ou polemizam, quer o façam devida quer indevidamente.

 

Por absurdo que seja, o apologeta ou polemista começa a ser visto com ódio por seu irmão na Fé. Cada vez mais ele vai parecendo a este um católico sectário e descaridoso, e seu “erro” o único para o qual não há mercê. É o tremendo “erro” de ser “ultracatólico”. Contra a pessoa acusada de tal erro todas as armas parecem lícitas, a campanha de silêncio, o ostracismo, a difamação, os insultos. E para documentar as acusações que se lhe fazem, tudo vale: os indícios mais tênues e mais vagos e até os simples boatos servem de prova. Para ela, verdadeiro pária da sociedade a caminho da utopia, e para mais ninguém, está definitivamente vedado participar do diálogo.

 

Faz-se assim em escala sempre maior a dizimação, na Igreja Militante, dos mais ardorosos dentre os seus filhos, ou seja, dos mais abnegados, dos mais coerentes, dos mais perspicazes, dos mais valentes.

 

Não é necessário encarecer quanto lucram com isto os adversários dEla.

 

 

Admiração e confiança incondicionais para os que estão fora da Igreja

 

Esta dizimação coincide com uma admiração e uma confiança crescentes para com os que estão fora da Igreja. Não é raro que esses sentimentos se transformem num “complexo” capaz de chegar a um incondicionalismo categórico. O que aliás é lógico. Pois se todos os nossos irmãos separados se podem converter mediante sorrisos, é porque, em última análise, só alguns equívocos e alguns ressentimentos os mantêm afastados de nós. Sua boa vontade é plena e sem jaça.

 

Quando se pratica retamente o diálogo com os que estão fora da Igreja, cumpre ter em mente quer o que nos separa deles, quer o que nos une. E, com a destreza da caridade, é preciso saber tirar partido do que nos une, para criar, na medida do possível, um ambiente de cordialidade ao tratar, de maneira objetiva e com tacto, do que nos separa.

 

Mas no clima irênico a preocupação do “dialogante” católico é outra. Ele só vê o que o une aos de fora, e nada do que o separa deles. Assim, espera tudo da coexistência e das concessões, e nada da luta. Sua tática é pois ingênua, mole e entreguista em relação aos que estão fora do redil. Sua intransigência, sua energia e sua desconfiança são só para os que, dentro da Igreja, resistem ao clima irênico.

 

 

c. Terceiro efeito – Simpatia e notoriedade decorrentes da ressonância publicitária da palavra “diálogo”

 

Se por força desta constelação de impressões e emoções, o apóstolo que discute ou polemiza é odiado e vilipendiado, ao mesmo tempo o modo por que é visto habitualmente pelo público o apóstolo do diálogo irênico é diametralmente oposto.

 

Como, hoje talvez mais do que nunca, o público é sôfrego de tudo quanto lhe possa favorecer o otimismo e os anseios de tranqüilidade e bem-estar, está ele predisposto a admirar enfaticamente o apóstolo irenista.

 

O homem mediano julga ver nele uma inteligência dúctil e lúcida, que lhe permite discernir até o fundo o mal da discussão e da polêmica, e as possibilidades apostólicas inesgotáveis do diálogo. Benévolo e afável, o “dialogante” irênico dá a impressão de ser dotado de uma simpatia irresistível e quase mágica. Moderno, ele se apresenta como perfeito e ágil conhecedor das táticas de apostolado mais recentes, e destro portanto no manejo do diálogo. Em uma palavra, nada lhe falta para parecer perfeitamente simpático. Alegre, jovial, prenuncia um porvir róseo, preparado por uma sucessão de êxitos fáceis e inebriantes.

 

A simpatia e o otimismo abrem para nosso “dialogante” as portas da notoriedade. Tem-se prazer em falar dele, em repetir suas palavras, em elogiar suas ações. Ele parece ter o dom de resolver com um sorriso questões das mais intrincadas, de dissipar como se fosse um sol, com simples colóquios, os preconceitos e os rancores mais inveterados. Por isto, ele fica situado naturalmente no centro dos acontecimentos, no ponto de convergência de todas as atenções. A imprensa, o rádio, a televisão de bom grado o põem em evidência, certos assim de agradar ao público.

 

 

d. Quarto efeito – Desperta-se a miragem da era da boa vontade

 

Tudo isto vai abrindo assim, no espírito da pessoa sujeita ao processo que estudamos, horizontes indefinidos. Na fímbria deles se levanta uma miragem a que já aludimos neste capítulo (item 2, A a C). Miragem em geral muito imprecisa, é certo, mas quão radiosa e atraente: a da era da boa vontade, isto é, de uma ordem de coisas “evoluída” em que a simpatia, e a plenitude desta que é o amor, não só seriam capazes de desarmar todas as contendas, mas de as prevenir. De as prevenir, sim, pela eliminação de suas causas psicológicas, e também de suas causas institucionais. Oh, quanto ganhariam a concórdia e a paz com a supressão daquilo por que os homens vêm lutando há milênios – pátrias, interesses nacionais, bens de fortuna, prestígio de classe, atributos de mando. Oh, se o amor acabasse por eliminar as palavras “meu” e “teu” para as substituir à maneira de superação, pela palavra “nosso”, afinal reinaria a paz entre os homens, desapareceriam as guerras, os crimes, as penas e os cárceres. O Poder Público não passaria mais de uma imensa cooperativa de atuações espontâneas e harmônicas em prol da prosperidade, da cultura e da saúde. O completo bem-estar terreno das sociedades seria a meta única de todos os esforços dos homens na era da boa vontade.

 

Esta miragem, cuja afinidade com o mito anarquista inerente ao marxismo já apontamos (item 2, B), dotada, como dissemos (item 2, I), de todo o poder de sugestão correspondente aos mais profundos anelos do homem, é de molde a despertar em almas incontáveis uma emoção deliciosa, que as empolga inteiras, e da qual, à maneira de um tóxico, elas não querem de modo algum desprender-se.

 

Daí o revestir-se a palavra “diálogo”, quando utilizada nesta perspectiva, de cintilações particularmente mágicas e fascinantes. Como um verdadeiro talismã, comunica ela automaticamente seu prestígio e seu brilho aos que a usam.

 

 

e. Quinto efeito – A propensão a abusar da elasticidade da palavra “diálogo”

 

Desses vários fatores psicológicos advém uma tentação, sempre mais acentuada, de exagerar a natural elasticidade do vocábulo em questão.

 

Realmente, se com o emprego de uma palavra se consegue determinado efeito, tanto maior será este quanto mais se empregue aquela.

 

Daí a propensão de usar a palavra “diálogo” a todo propósito. O uso dela pode tornar-se quase um vício, de sorte que uma entrevista, um artigo, um discurso não parecerão completos se não contiverem uma referência ao diálogo.

 

 

D. Efeitos indiretos e reflexos da palavra-talismã

 

Passemos agora ao segundo grupo de efeitos.

 

Neles, a fermentação psicológica produzida pela palavra-talismã repercute sobre esta, e reciprocamente.

 

Tal interação, que importa em um processo de mútua radicalização, reflete por sua vez sobre o próprio modo de conduzir o diálogo.

 

Se imaginarmos dois “dialogantes” em que essa interação ocorra, veremos que irão mudando paulatinamente não só as sucessivas maneiras de dialogar, mas o próprio conteúdo do diálogo.

 

Em seu conjunto, tudo isto leva os “dialogantes”, por várias fases, do irenismo ao relativismo hegeliano.

 

 

a. Primeiro efeito – A radicalização da palavra “diálogo”: sentidos talismânicos novos e mais radicais

 

Como se dá a influência dessa fermentação psicológica sobre o vocábulo?

 

Quem procurar subir aos altos firmamentos da celebridade nas asas da palavra “diálogo”, não tardará a perceber que as aplicações diversas desta última têm rendimento de popularidade desigual. Algumas vezes, ela é empregada com pouco fruto. Aparecerá opaca, ao público. Outras vezes, o talismã brilhará a todos os olhos e agirá com plena intensidade.

 

Este fato, em via de regra, o explorador da palavra-talismã – como aliás também o público – o sentirá sem o poder explicitar. Em conseqüência, será levado a preferir umas aplicações dela a outras. E, se tiver algum talento, irá forçando a natural elasticidade do vocábulo, de maneira a multiplicar os empregos mais fascinantes e rendosos.

 

Qual a razão por que em umas aplicações o talismã se revela mais irradiante que em outras? Qual este pólo de máxima refulgência com o qual, manipulado assim pelos virtuoses dessa lingüística, ele tende a se identificar?

 

A força de irradiação, por assim dizer imanente na palavra-talismã “diálogo”, se faz sentir mais quando esta é empregada de maneira a insinuar ser verdadeiro, desejável, viável, o mito de que há pouco falamos, do amor sentimental, regenerador e coletivista imaginado como força organizativa de um mundo novo. Este mito é o pólo para o qual a palavra-talismã tende. O diálogo, no último e mais recôndito de seus significados mágicos, é a linguagem desse amor.

 

Nas diversas etapas desse caminhar para o sentido último, a palavra “diálogo” evolui de maneira a se identificar sempre mais com ele.

 

 

b. Segundo efeito – As quatro fases do processo rumo ao relativismo hegeliano

 

Assim descrita, de modo geral, a interação entre a emoção irenística e a palavra-talismã, consideremos as várias fases pelas quais, ao longo dessa interação, se vão modificando processivamente as formas e conteúdos da interlocução entre pessoas de convicções opostas e, correspondentemente, o significado da palavra-talismã.

 

Antes de se iniciar o processo, tais interlocutores desejam reciprocamente convencer um ao outro, por meio de argumentos.

 

O objetivo fundamental de cada uma das partes é, assim, conquistar a outra para a verdade. Por esta via realizarão elas entre si um bem precioso, que é a unidade. Uma unidade que se apresenta legitimamente como fruto da verdade, e que portanto não pode ser concebida nem almejada senão mediante a posse da verdade.

 

 

Primeira fase – Hipertrofia da cordialidade na discussão-diálogo: a palavra-talismã nasce

 

Imaginemos que nos interlocutores assim dispostos para a discussão se note, entretanto, uma fermentação emocional irenística. Essa fermentação, que preludia o aparecimento da palavra-talismã “diálogo”, consiste numa apetência emocional veemente de concórdia universal dos espíritos, e de paz em todos os campos das relações humanas.

 

Esta apetência é de tal natureza, que só se sentirá saciada quando os interlocutores tiverem chegado, afinal, a uma concepção inteiramente irênica e relativista do homem, da vida e do cosmos.

 

Assim, do ponto de vista emocional, os interlocutores em questão já estão ganhos potencialmente pelo irenismo para a causa do relativismo, e, como veremos, para o mais radical dos relativismos, que é o relativismo hegeliano.

 

Contudo, se do ponto de vista emocional isto é real, do ponto de vista das idéias ainda não o é.

 

Os participantes da interlocução ainda admitem a existência de uma verdade objetiva na qual cada um deles supõe encontrar-se, e de um erro objetivo no qual reputa estar o outro.

 

No que concerne ao tema controvertido, logicamente só pode haver para eles um teor de relações, que é a discussão.

 

Esta, ainda quando muito amável, tem inviscerada uma nota de pugnacidade. Ora, esta nota discrepa fortemente do estado emocional dos interlocutores.

 

Há, pois, um conflito entre o proceder imposto pela lógica – a discussão – e o estilo de relações que as pessoas em foco gostariam de manter entre si. Nasce daí uma primeira modificação nesse estilo de relações.

 

Sem mesmo se darem conta disso, as partes mais desejam a unidade do que a verdade.

 

Em conseqüência dessas disposições emocionais, cada uma delas é conduzida a achar que a outra está sempre de boa fé. O êxito de seu esforço de persuasão lhe parece depender apenas da eliminação de ressentimentos da outra.

 

Por isso, recusam ambas a discussão pura e simples, bem como a polêmica, e só concebem a discussão sob a forma requintadamente suave da discussão-diálogo. Mas esta forma contém ainda um elemento de pugnacidade, que desagrada à emotividade irenística.

 

Esta última deturpa, em conseqüência, o sentido da discussão-diálogo, sobrevalorizando a nota de cordialidade, e subestimando a de pugnacidade. Acentua-se então a deturpação inicial do estilo de relações entre as partes.

 

A discussão-diálogo já não visa principalmente obter a verdade, e só por meio dela a unidade. Mas visa sobretudo a unidade por meio da cordialidade de relações entre os interlocutores. E só secundariamente a conquista da verdade através da argumentação.

 

A palavra “diálogo” sofre então a primeira torção. Passa a designar a discussão-diálogo irenisticamente concebida. Fica assim habitada por um sentido ireno-talismânico, que reluz com todos os atrativos do mito irenístico.

 

O diálogo-talismã (isto é, a discussão-diálogo deturpada) passa a ser o diálogo por antonomásia.

 

* EXEMPLO CONCRETO:  Para facilitar ao leitor o estudo do processo de deturpação talismânica da palavra “diálogo”, considerado em abstrato, acompanhá-lo-emos de um exemplo concreto. A enunciação de cada fase do processo in abstracto será seguida da descrição da correspondente fase do exemplo in concreto.

 

Imaginemos um tomista e um existencialista que sejam colegas em uma universidade, e a esse título tenham freqüentes ocasiões para discutir sobre suas divergências filosóficas, bem como para investigar juntos matérias não correlatas com essas divergências, e ainda para manter as demais relações sociais costumeiras entre colegas.

 

Quanto às divergências que entre eles existem, o tomista se sabe com a verdade e a razão. O existencialista discorda da posição tomista. Cada qual quer persuadir o outro, e o meio normal para isto se lhes afigura a discussão.

 

Imaginemos que, no empenho de convencer a outra parte, o tomista seja movido não só por um legítimo intuito de apostolado, mas por uma ardente apetência irenística de união.

 

Tal desejo, em determinado momento, toma a dianteira sobre as razões de zelo, e nosso tomista, na sua discussão com o existencialista, começa a desejar mais a unidade do que a verdade.

 

Esta inversão de objetivos produz em seu modo de ver o colega uma conseqüência imediata. Candidamente, ele se afigurará que este último está apegado à sua doutrina por um mero equívoco, bem como por ressentimentos contra o tomismo – e em última análise contra a Igreja. Para o interlocutor picado pela mosca do irenismo, a outra parte se porta sempre na discussão como se, concebida sem pecado original, fosse incapaz de um apego desordenado e vicioso ao erro.

 

Daí, uma repercussão da tendência irênica sobre o procedimento do tomista. Se o principal obstáculo para que o existencialista aceite a verdade é o ressentimento, o mais importante, na discussão, é evitar que esse ressentimento se mantenha ou até se agrave. Seu interlocutor repudiará pois como perigosas e até injustas quer a discussão pura e simples, quer a polêmica, e só aceitará, no trato dos assuntos controvertidos, a discussão-diálogo.

 

Nesta última, ele visará principalmente a unidade, e apenas secundariamente a verdade.

 

A esse tipo de discussão, ele chamará de diálogo, para insinuar que é tão despido de pugnacidade como o diálogo-investigação ou o diálogo-entretenimento.

 

Nasce assim a palavra-talismã “diálogo”, transbordante de cordialidade pacifista. Ela designa a primeira forma de relações irenísticas entre os interlocutores em questão, e refulge com as múltiplas seduções do mito pacifista, acentuando em nosso tomista as ardências do prurido irênico, e atraindo-o para novas mudanças em seu modo de encarar o diálogo talismânico e de o pôr em prática.

 

 

Segunda fase – A cordialidade irenística invade o diálogo-entretenimento e o diálogo-investigação: a palavra-talismã amplia seu sentido

 

A palavra-talismã, assim constituída na primeira fase, repercute sobre a fermentação emocional irenística, e essa fermentação assim acrescida imprimirá à palavra-talismã um sentido novo e mais amplo. Nisto consiste a segunda fase.

 

O interlocutor irenista, empolgado pelo conteúdo recôndito da palavra-talismã, que é o mito irênico, a vai usando a todo propósito como um joguete com o qual tanto mais se encanta quanto mais com ele brinca.

 

As relações entre pessoas separadas uma da outra por um ponto de divergência não se cifram a essa divergência. Elas podem comportar legitimamente diálogos de investigação sobre outras matérias, e diálogos de entretenimento sobre outras ainda. Estas formas de relações podem ter, também legitimamente, uma repercussão favorável sobre a discussão-diálogo, na medida em que contribuam para evitar que esta última seja prejudicada por ressentimentos e antipatias pessoais, infelizmente sempre fáceis de nascer.

 

À vista disso, os interlocutores irenistas são levados a modificar em sentido irênico seus diálogos de investigação e entretenimento, estendendo até estes o significado talismânico incubado, na fase anterior, na discussão-diálogo.

 

Importa mostrar agora em que consiste a deturpação irenística dos diálogos de entretenimento e investigação.

 

Neles, os interlocutores irenistas passam a subestimar o fim natural de entreter e investigar, e a sobrestimar irenisticamente o fator cordialidade. Dessa forma, o diálogo é por eles conduzido principalmente para obter uma intensa calefação afetiva, passando a servir o entretenimento e a investigação como meros pretextos.

 

Essa calefação, esperam eles com vistas a persuadir, exercerá sobre o ponto de divergência uma ação unificante e sincretista mais útil do que a permuta de argumentos, mesmo quando feita na suavidade da discussão-diálogo irenística, pois esta ainda conserva resíduos de pugnacidade.

 

Como o irenista exagera cada vez mais a importância do fator cordialidade para obter a persuasão, ele é levado a confiar cada vez mais no diálogo-entretenimento e no diálogo-investigação, e a discussão-diálogo passa a lhe parecer inteiramente secundária, e até perigosa e molesta.

 

A esta modificação no teor das relações entre os interlocutores irênicos corresponde uma nova etapa da palavra-talismã “diálogo”.

 

Como o elemento mais dinâmico do significado desta última é irenístico, ela se estende da discussão-diálogo irenista para as duas outras formas “irenistizadas” de interlocução.

 

Assim, a palavra-talismã passa a abranger todas as formas de relações entre os interlocutores, susceptíveis de impregnação irenística.

 

Em outros termos, fora da influência irenista, o diálogo-investigação e o diálogo-entretenimento podem ser vistos como formas de relação instrumentais da discussão-diálogo, capazes de assegurar o bom andamento desta. Mas sob a influência do irenismo esta ordem de valores se inverte. O diálogo-entretenimento e o diálogo-investigação começam a ser encarados como os elementos propulsores da ação suasória. A discussão-diálogo passa a ter um papel secundário, instrumental, mas instrumental molesto.

 

A palavra-talismã “diálogo” abrangendo, nesta nova hierarquia de valores, as três mencionadas formas de interlocução (discussão-diálogo, diálogo-investigação e diálogo-entretenimento), começa a espicaçar ainda mais as apetências irenísticas, e assim dá origem à terceira fase.

 

 

* EXEMPLO CONCRETO: Sob o signo do irenismo esporeado pela palavra-talismã “diálogo”, ao nosso tomista apetece estender o fermento irênico às outras formas de suas relações com o existencialista. Até aqui, essas outras formas (diálogo-entretenimento e diálogo-investigação) lhe pareciam extrínsecas à controvérsia doutrinária, e capazes de exercer em relação a esta apenas uma função instrumental: o trato cordial de assuntos alheios à controvérsia contribuía para mantê-la em uma atmosfera serena e elevada.

 

O tomista irênico se põe então a ver as coisas de outra maneira. As ocasiões para investigação ou entretenimento lhe parecem não ter mais apenas seu fim natural. Desejoso de produzir em seu interlocutor a cobiçada desmobilização emocional, essas ocasiões passam a não ser para ele senão mero pretexto para alimentar e acrescer no existencialista o prurido irênico, e o anelo supremo e incondicional de unidade.

 

Assim, todas as formas de interlocução susceptíveis de impregnação irênica (diálogo-entretenimento, diálogo-investigação, discussão-diálogo) acabam sendo englobadas sob o signo do irenismo.

 

Entretanto, a discussão-diálogo, por ser menos própria para a calefação irenística, e até perigosa por sua pugnacidade, vem a perder seu papel principal. Na medida em que dissipa equívocos doutrinários, ela acaba tendo uma função instrumental molesta e perigosa, num conjunto de relações cuja nota tônica está em calefazer a cordialidade.

 

Nosso tomista, sentindo e vendo assim as coisas, continua a dialogar. Mas o diálogo, para ele, quanto se diferencia do que era na fase anterior! Para essa obra de calefação, ele evita quanto possível a controvérsia com o existencialista e deita todo o seu empenho em focalizar com as luzes de uma insistência infatigável e de uma minúcia que se compraz nos mais insignificantes pormenores, o que entre tomismo e existencialismo há de comum... o que se lhe afigura serem os “aspectos existencialistas do tomismo”. Ele procura assim ornar com uma flâmula kierkegaardiana o austero hábito do Aquinate, e alinhar a este na coorte dos admiradores que Kierkegaard teve já antes mesmo de nascer.

 

Engenhoso, o tomista irênico compreende que uma inimizade comum é por vezes o melhor cimento de uma amizade precária e nascente. Ele procurará atacar, com mais fogo do que o fazem os mais ardorosos existencialistas, qualquer veio de “essencialismo” que encontre neste ou naquele filósofo. Nessa “cruzada” sem cruz, por certo ele não é irenista no que diz respeito ao “essencialismo” em qualquer de seus graus, modos ou facetas, mas é para fazer irenismo em relação ao existencialismo.

 

Um medo lhe fica. É de que o existencialista o suspeite de conivência com alguns malfadados irmãos de tomismo que combatem o existencialismo. Por isso investe contra estes como contra “essencialistas” dos mais perigosos.

 

Artes do diálogo talismânico nesta segunda fase...

 

A palavra-talismã “diálogo” passou, pois, a designar o conjunto dos diálogos irenísticos, com preponderância dos diálogos de entretenimento e de investigação sobre a discussão-diálogo.

 

 

Terceira fase – A cordialidade irenística desfecha em relativismo: a palavra-talismã assume sentido inteiramente relativista

 

As duas fases anteriores transcorreram sob o signo do irenismo. A terceira já é nitidamente relativista.

 

Até aqui, sob a pressão do irenismo, o objetivo da interlocução vinha sendo cada vez mais a unidade e cada vez menos a verdade. Na presente etapa, o anelo de unidade leva os interlocutores a saltar sobre suas divergências para obter esta última. Para isso, passam a considerar que não há de parte a parte verdade absoluta nem erro objetivo. Tudo é relativo.

 

Em conseqüência, o teor de relações entre eles se modifica.

 

A partir do relativismo, a verdadeira discussão é impossível; quando tratam da matéria até aqui controvertida, os interlocutores, pelo próprio fato de o fazerem sob o signo do relativismo, já não estão procedendo a uma autêntica discussão.

 

Como muitas vezes esta passagem do simples irenismo para o relativismo é inadvertida, é possível que as partes imaginem estar discutindo, e chamem sua interlocução de discussão. Na realidade, a discussão-diálogo deixou propriamente de existir. Dela subsistem apenas as divergências acidentais e transitórias que, como vimos (cap. IV, 1, B, j), são inerentes ao diálogo-investigação.

 

Esta mudança relativista nas relações entre os interlocutores determina uma nova torção na palavra-talismã “diálogo”. A carga desta, de simplesmente irenista, passa a ser relativista; por isso, ela deixa de incluir a discussão-diálogo, para abranger apenas o diálogo-entretenimento e o diálogo-investigação.

 

Cada vez mais próxima do mito da era da boa vontade, ela se torna sempre mais aliciante e refulgente para os irenistas relativistas. Ela comunica ardências sempre maiores à apetência de unidade, e prepara assim a fase seguinte.

 

 

* EXEMPLO CONCRETO: Impelido de requinte em requinte nas vias do irenismo pela palavra-talismã, nosso tomista, em sua faina de dialogar, dá mais um passo.

 

Começa a lhe parecer agora que são inconsistentes as divergências doutrinárias, que na fase anterior já ele tanto subestimara em benefício dos pontos de convergência. Em todas elas, põe-se a ver vislumbres de verdade e de erro de parte a parte. As diferenças estariam mais nas fórmulas do que no conteúdo. Em última análise, uma mesma “verdade” global, toda ela relativa, e presente residualmente nas mais opostas formulações, seria o substrato de uma realidade vária, e indefinidamente mutável.

 

De lupa em punho, nosso irenista começa a procurar textos de São Tomás que, tomados isoladamente, pareçam justificar seu relativismo. Ele já não é tomista senão porque tem a esperança ou a ilusão de encontrar prenúncios de Kierkegaard em São Tomás. Na realidade, de tomismo nada lhe resta. Sem se dar conta talvez do que ocorre em sua mente, ele é um relativista convicto.

 

Essa mudança interior é seguida de uma modificação no teor de suas relações com o existencialista. Vemo-lo eliminar, nesta terceira fase em que o irenismo deságua no relativismo, a discussão-diálogo, que na fase anterior lhe pesava como a bola e a corrente de ferro no p­é do forçado. As relações com o existencialista se reduzem ao diálogo-entretenimento e ao diálogo-investigação irenísticos.

 

Talvez este tomista que já não é tomista chame ainda de discussão essas formas de interlocução que já nada têm de comum com a discussão.

 

A palavra-talismã “diálogo”, designando em cada estágio as relações irenísticas como nele se praticam, não abrange mais a discussão-diálogo, e compreende só os dois outros tipos de diálogo irenístico, estes mesmos impregnados de concepções relativistas.

 

Dialogar talismânicamente é pois, nesta fase, praticar um relativismo radical. A euforia de dialogar, o prestígio talismânico do diálogo irênico-relativista, excitando ainda mais em nosso tomista os pruridos irenistas, preparam-no agora para a quarta fase.

 

 

Quarta fase – O relativismo irenista se estrutura em termos de hegelianismo: a palavra-talismã assume o sentido do “ludus” hegeliano

 

Assim como o relativismo não é o contrário do irenismo, mas uma plenitude deste, assim também o relativismo vai receber nesta fase um enriquecimento que não é o contrário dele, e até lhe confere a plenitude. Os interlocutores, ávidos de levar o relativismo às suas últimas conseqüências, já não se contentam com um relativismo puramente negativo, que vise apenas corroer e destruir os conceitos de verdade objetiva e de erro objetivo. Pois o que é meramente negativo repugna à natureza humana. Passando ao plano positivo, eles desejam estruturar toda uma visão relativista do homem, da sociedade e do universo.

 

A verdade, já anteriormente aceita como algo de relativo, passa a ser vista nesta fase como o produto de uma eterna dialética.

 

Depois de ter assumido o caráter de mero entretenimento e investigação, o diálogo começa a ser praticado como um “ludus” no qual ambas as partes admitem que, à força de dialogar, se operará entre elas uma decantação da verdade, como pela fricção da tese e da antítese se chega à síntese. Nasce assim o último estágio da deturpação talismânica da palavra “diálogo”. É o estágio hegeliano. É bem de se ver que, atuada assim por homens de boa vontade, impregnada do mito irenístico, a fricção da tese com a antítese será fundamentalmente um “ludus” cordial. E tanto mais cordial quanto mais se vá desenrolando em lances sucessivos.

 

A fricção entre a tese e a antítese poderá assumir por vezes a forma da discussão pura e simples ou até da polêmica. Não lhes terá a substância, pois não pressupõe um antagonismo absoluto entre a verdade e o erro, entre o bem e o mal. E portanto o diálogo irenístico já não visa mudar a persuasão de nenhuma das partes, mas operar a elevação de ambas para uma “verdade” de plano superior (24).

 

------------- (nota) --------------

(24) Poder-se-ia dizer que, na fase hegeliana, todas as formas de interlocução entre pessoas de posição ideológica diferente (portanto o diálogo-entretenimento, o diálogo-investigação, a discussão-diálogo, a discussão pura e simples, e a polêmica) continuam a existir na aparência, mas se reduzem na realidade a meras formas do “ludus” hegeliano?

A se responder pela afirmativa, seria preciso, em rigor de lógica, insistir em que cada uma destas modalidades de interlocução, enquanto incubada de um sentido lúdico, tem uma semelhança extrínseca com a mesma modalidade tomada em seu sentido legítimo (cf. cap. IV, 1, B ) .

Isto admitido, não vemos nenhum obstáculo para responder afirmativamente à pergunta acima. Mas a análise destas perspectivas mais extensas pediria trabalho à parte.

------------ (fim da nota) --------------------

 

 

* EXEMPLO CONCRETO: O tomista irênico que figuramos como exemplo não pode, em seu ardor, contentar-se com um relativismo meramente negativo. Ele procura estruturar uma dinâmica interna que explique as relações entre as mil formulações opostas nas quais, segundo lhe parece, habita a “verdade”.

 

Sobretudo, apetece-lhe encontrar nessas relações algo que tenda para a eliminação das oposições, rumo à unidade.

 

Essa eliminação, ele não a pode conceber como a conceberia antes do início do processo talismânico, enquanto sendo a condenação, fundada em raciocínio, de todas as formulações, exceto uma, proclamada a única inteiramente verdadeira.

 

 De outro lado, ele está em presença de um fato palpável: é que essas formulações opostas se acham entre si em um estado de fricção contínua e irremediável.

 

Irremediável? Ou será precisamente esta fricção o remédio? Nosso tomista se compraz em responder que sim. Da fricção das “verdades” relativas opostas, nasceria por via de superação uma síntese, e da universal fricção das teses e das antíteses, gerando sempre sínteses que por novas fricções com formulações antitéticas dariam em novas sínteses, se originaria um grandioso processo de universal destilação das “verdades”, e da “verdade”.

 

Bem entendido, ao contrário do proceder “antipático” e “discriminatório” do tomismo medieval, nessa destilação nada se condenaria, e nada se excluiria. Tudo seria fraternal e amorosamente assumido na produção das sucessivas sínteses.

 

O tomismo, ele próprio, nosso tomista irênico o vê agora como uma das formulações da “verdade”, a contribuir, com perfumosos incensos doutrinários, para esse processo de composição ideológica universal.

 

Tomista, ele talvez ainda se imagine. Talvez ainda se entregue à tarefa de mutilar a obra de São Tomás, arrancando dela, com arbitrariedade violenta, os fragmentos que lhe sirvam para apresentar ao século XX um “new look” do Aquinate, que é o Doutor Comum visto ao revés.

 

Na realidade, não é difícil perceber que, sob o fascínio do mito irênico, e voando nas asas da palavra-talismã, nosso tomista se transformou em um genuíno hegeliano, revestido de ligeira tintura tomista.

 

Que surpresa teria ele no início do processo se tivesse podido imaginar que ao cabo de uma evolução inadvertida, guiado pela palavra-talismã “diálogo”, como por uma estrela do mal, haveria de chegar ao hegelianismo! A esse hegelianismo que, antes, ele repudiava como o contrário de tudo quanto em filosofia reconhecia por verdadeiro!

 

 

Quadro esquemático das quatro fases da deturpação talismânica da palavra “diálogo”

 

(vide no final do presente arquivo)

 

 

 

Conclusão

 

 

Se considerarmos sumariamente os elementos principais do que ficou exposto neste trabalho, a conclusão emergirá com clareza e facilidade: o comunismo é o grande beneficiário da baldeação ideológica inadvertida e do emprego das palavras-talismã, especialmente da palavra-talismã “diálogo”.

 

Igualmente se patenteará que essa imensa manobra comunista é susceptível de ser inutilizada pelo simples fato de que alguém a desvende aos olhos da opinião pública.

 

 

1. A palavra-­talismã “diálogo” e o comunisno

 

Como se sabe, o marxismo, abandonando embora o caráter idealista do hegelianismo, conservou-lhe a essência dialética. A marcha ascensional da evolução da matéria se opera, segundo Marx, através da tese, da antítese e da síntese, tal como para Hegel se dava a evolução do espírito.

 

Isto posto, é oportuno perguntar aqui qual a vantagem auferida pelo comunismo com a baldeação ideológica inadvertida efetuada pela palavra-talismã “diálogo” sob o influxo do binômio medo-simpatia.

 

Seria exagerado dizer que a vítima dessa palavra-talismã, pelo próprio fato de aceitar inadvertidamente uma filosofia dialética, se torna materialista.

 

Sem embargo, várias e importantes são as vantagens obtidas pelo comunismo com essa baldeação:

 

* A aceitação de uma filosofia relativista importa em uma ruptura consciente ou subconsciente com a Fé, e prepara a alma para a profissão explícita do ateísmo;

 

* A aceitação de uma filosofia que constitui a pedra de ângulo do comunismo, prepara por sua vez a alma para a adesão expressa a este último;

 

* O comunismo não pode aceitar a coexistência com quem, ao contrário dele, professa uma filosofia baseada no reconhecimento da verdade e do bem como valores absolutos, imutáveis, transcendentes, existentes de um modo perfeito na essência divina. Ao invés, ele, que do diálogo entre a tese e a antítese só espera a síntese, não pode deixar de augurar bons resultados do diálogo com o católico relativista, que admite a doutrina da Igreja como uma “verdade” relativa, uma tese em atitude dialética diante da antítese comunista, rumo à síntese superior. Esta posição é tanto mais aceitável pelo comunismo, quanto se sabe – e há pouco já o dissemos – que ele não se tem em conta de verdade última e definitiva e se considera apenas um momento dentro da eterna dialética da matéria;

 

* Passando para o campo propriamente religioso, temos que o diálogo irênico, favorecendo o interconfessionalismo, debilita todas as religiões e as lança em um estado de confusão absoluta. Dada a fundamental importância que tem para o marxismo o aniquilamento de todas as religiões, fácil é compreender quanto este efeito importa à vitória do comunismo internacional.

 

Essa preparação para o comunismo, operada pela palavra-talismã “diálogo”, na realidade concreta só excepcionalmente redundará em mera preparação. A afinidade produz a simpatia, e a simpatia inclina à adesão. Esta adesão é tanto mais fácil, quanto a opinião pública contemporânea está saturada por um onímodo e inteligente sistema de incitamentos e atrações a favor do comunismo.

 

 

2. Ecumenismo, irenismo e comunismo

 

Claro está – importa repeti-lo (cf. cap. IV, 2, D) – que a palavra “ecumenismo” tem, de si, um sentido excelente.

 

No entanto, ela é susceptível também de um significado irênico. Admitidas todas as religiões como “verdades” relativas, postas entre si num diálogo hegeliano, o ecumenismo toma o aspecto de uma marcha dialética de todas elas para uma religião única e universal, integrada sinteticamente pelos fragmentos de verdade presentes em cada uma, e despojada das escórias das contradições atualmente existentes.

 

Visto assim, o ecumenismo é uma imensa preparação de todas as religiões, feita através do diálogo hegeliano, para, uma vez unificadas, entrarem em ulterior diálogo com a antítese comunista.

 

 

3. Diálogo, relativismo dialético e coexistência pacífica com o comunismo

 

Enquanto com os verdadeiros católicos o comunismo só pode coexistir em luta (cf. o interessante artigo do Revmo. Pe. Giuseppe De Rosa, S. J., intitulado “L'impossibile dialogo tra cattolici e comunisti”, na “Civiltà Cattolica”, Roma, n.° de 17 de outubro de 1964, pp. 110-123), a coexistência dele com as religiões que aceitem o relativismo dialético pode muito autenticamente ser pacífica. Pois o seu diálogo com elas nada tem de pugnaz, e apresenta apenas o caráter de colaboração.

 

 

4. Diálogo, irenismo e perseguição religiosa

 

O fato de o comunismo aceitar a coexistência pacífica com as várias religiões que se lhe opõem, indica porventura estar encerrado o período das perseguições religiosas?

 

Em rigor de lógica, não. O comunismo admitirá tal coexistência com as religiões ou os grupos religiosos que, colocando-se em posição hegeliana, aquiesçam em com ele dialogar numa base relativista. Nisto sua atitude parece nova, porém a novidade se nos afigura não estar nele, senão em certas correntes religiosas cuja posição em face do relativismo se vai tornando cada vez mais débil e conivente. O comunismo perseguia as religiões quando elas o combatiam. É coerente, de sua parte, deixar de combater aquelas que se mostram dispostas a entabular com ele o diálogo relativista em um clima de coexistência pacífica.

 

Estas asserções têm interessantes confirmações nos fatos.

 

Não é outra, a nosso ver, a razão por que o comunismo polonês apóia o grupo “Pax”.

 

As pessoas que integram este último, afirmando-se embora católicas, aquiescem em colaborar com o regime comunista, para a construção do mundo socialista. Assim, insinuam que o pensamento social da Igreja evoluiu, e comporta presentemente em relação ao socialismo uma flexibilidade que não tinha antes. Ora, se o pensamento da Igreja é capaz de evoluir em matéria social, pode evoluir também em qualquer outro ponto. A posição do grupo “Pax” contém uma confissão implícita de relativismo, que visa a apresentar ao público a doutrina católica como mutável em todos os aspectos. Aceitando, ademais, o diálogo irenístico com os comunistas, “Pax” acaba por se mostrar um instrumento todo voltado a promover a difusão do relativismo nos meios católicos da infeliz Polônia.

 

Esse sentido relativista se nota também no rumoroso livro “Il Dialogo alla Prova” (a cura di Mario Gozzini, “Mezzo Secolo”, Vallecchi Editore, Firenze, 1964), no qual mais de um colaborador deixa entrever que, do ponto de vista do diálogo, os homens não se dividem em grupos ideológicos, mas em duas grandes categorias supra-ideológicas. Uns são os que – nos vários quadrantes doutrinários – sensíveis ao diálogo, e capazes de o praticar, caminham para a coexistência pacífica e a síntese. Esses são os bons. Os outros são insensíveis aos atrativos do diálogo, e se obstinam na mera controvérsia de caráter “dogmático” e portanto sem cunho relativista. Esses são os ruins, os duros, os intransigentes.

 

Não é preciso ter muita perspicácia política para perceber que para os ruins não haverá as delícias da coexistência pacífica, mas os inflexíveis rigores da mais feroz perseguição.

 

 

5. O pacífismo irenista e o diálogo

 

Quando nascidos do solo da utopia irênica, os vocábulos “diálogo” e “coexistência” formam com a palavra “paz” um só anel. A paz irênica não se reduz à mera inexistência de guerras termonucleares ou convencionais, de revoluções ou guerrilhas. Ela contém uma doutrina, ela é um estilo de vida não só pública como privada, em que todos os elementos de atrito foram substituídos por uma coexistência cordial e dialética da tese com a antítese, numa contínua colaboração para preparar a síntese.

 

O diálogo irenista é a aplicação direta dessa doutrina, a linguagem desse estilo de vida, e o instrumento dessa colaboração (25).

 

----------------- (nota) ----------------

(25) Uma vítima da palavra-talismã “diálogo”, ao ler todas estas considerações, não deixará de perguntar se o autor, tão infenso ao irenismo, é indiferente ao perigo de uma hecatombe termonuclear.

Esta pergunta é, de si, um insulto, pois só um louco ou um desalmado pode ser indiferente a tal perigo.

Um católico que não o receie com todas as veras da alma, não tem sinceridade em sua fé. Na realidade, não será senão um fariseu.

Porém, para um católico sincero, há um mal ainda mais grave do que a guerra: é o pecado. Santo Agostinho torna bem claro este pensamento: “O que há a recriminar na guerra? Será o fato de que nela se matam homens destinados a morrer todos um dia, a fim de que os vencedores possam viver em paz? Fazer tal censura à guerra seria coisa de pusilânimes, não de homens religiosos. O que se increpa, a justo título, nas guerras é o desejo de causar dano, a crueldade da vingança, um ânimo implacável e inimigo de toda paz, a ferocidade das represálias, a paixão do domínio, e outros sentimentos semelhantes” (Cont. Faust., XXII, 74 – PL 42, 447) . Se estes são os pecados em que a guerra pode induzir os homens, muito mais grave ainda é o pecado ao qual, nas presentes circunstâncias, os pode levar o irenismo. Pois é a apostasia, que, enquanto atenta contra a fé, raiz de todas as virtudes, é o mais grave dos pecados.

Se a condição para ser preservada a paz consiste em que os filhos da Igreja aceitem uma concepção relativista da Religião – cavilosamente introduzida neles pela palavra-talismã “diálogo” e outras congêneres – e uma civilização socialista, então é preciso reconhecer francamente que para o gênero humano se põe a alternativa entre obedecer a Deus que nos manda crer no que revelou, ou aos déspotas comunistas que, acenando com a bomba de hidrogênio, nos mandam recusar a Revelação. E, diante desta alternativa, não há, mais uma vez, como duvidar: “importa mais obedecer a Deus do que aos homens”­, como adverte o Príncipe dos Apóstolos (At. 5, 29 ).

Na realidade, porém, negamos que a opção diante da qual se encontra a humanidade seja a apostasia ou a destruição atômica. Há de um lado o preceito divino e de outro lado a ameaça comunista, por certo. Mas o perigo da hecatombe termonuclear será maior se desobedecermos a Deus do que se desobedecermos aos déspotas de Moscou ou Pequim.

Pois se a opinião pública, dominada pelo binômio medo-simpatia, e intoxicada pelas palavras-talismã do irenismo, entre as quais “diálogo”, aceitar uma concepção relativista e hegeliana da Religião, imporá inevitavelmente que as nações não comunistas aceitem em termos de coexistência, e para salvar a paz, a generalização do comunismo no mundo.

Esse pecado supremo, pelo próprio fato de ser cometido por nações e não apenas por indivíduos, está sujeito à Justiça Divina de modo muito especial.

Com efeito, enquanto os pecados dos indivíduos podem ser punidos neste mundo ou no outro, o mesmo não se dá com os pecados das nações. Estas, como diz Santo Agostinho, não podendo ser recompensadas nem castigadas na outra vida, recebem aqui mesmo o prêmio de suas boas ações e a punição de seus crimes.

A um pecado supremo dos países corresponde, pois, em termos de justiça, uma punição suprema neste mundo. E esta bem pode ser a catástrofe termonuclear.

Assim, mais perigo há de uma tal catástrofe na apostasia do que na fidelidade.

Esta afirmação ainda melhor se provará se não considerarmos só a pena, mas também o prêmio. As nações fiéis à Lei de Deus devem receber nesta terra a justa recompensa. Nada, pois, é mais próprio a atrair para um povo a proteção e o favor de Deus­ mesmo no que diz respeito aos bens desta vida, do que a fidelidade heróica em face do perigo termonuclear. Esta fidelidade é o meio por excelência para afastar tal perigo.

------------ (fim da nota) --------------------

 

 

 6. Constelação de palavras-talismã “baldeadoras

 

“Diálogo”, “coexistência”, “paz”, enquanto vocábulos-talismã, são usados aqui e acolá em acepções por vezes enigmáticas. Mas, se interpretados em um sentido evolucionista e hegeliano, o cunho enigmático se dissipa, e esses termos talismânicos passam a ser claros, de contornos precisos, e perfeitamente congruentes entre si.

 

Isto nos põe em presença, já agora, da ação baldeadora não de uma só palavra, “diálogo”, mas de toda uma constelação de palavras-talismã afins.

 

Constituída a partir de elucubrações irenistas sobre as relações entre católicos e não católicos, essa constelação conduz a um relativismo de sabor hegeliano e marxista.

 

 

7. O diálogo e a via italiana do comunismo

 

Consideramos, até aqui, o diálogo como um instrumento da baldeação ideológica inadvertida.

 

Antes de encerrar nosso estudo, é o caso de perguntar se, paralelamente com essa baldeação, o comunismo internacional não tem em mira alguma operação política de grande envergadura, ajustada ao problema que expusemos no início deste trabalho, isto é, ao malogro mundial do seu proselitismo explícito.

 

Neste caso, a importância da baldeação ideológica inadvertida se tornaria ainda mais patente para o leitor.

 

Se considerarmos a linha de conduta assumida pelo Partido Comunista Italiano, no que diz respeito à política interna da Península, encontraremos certos fatos que conduziriam a uma resposta em sentido afirmativo.

 

O PCI tentou por muito tempo destruir a religião por uma campanha violenta e desabrida. Depois da segunda guerra mundial, à vista da influência eleitoral avassaladora da opinião católica, ele foi mudando gradualmente de atitude, e hoje em dia seus representantes mais qualificados afirmam que, se os católicos concordarem em colaborar na edificação de uma economia socialista, eles por seu lado estarão dispostos a admitir a religião como um fator válido da revolução social, e a dar à Igreja inteira liberdade de culto. Nestes termos ficaria estabelecida a coexistência pacífica com a Igreja, e o ateísmo comunista entraria em regime de diálogo irênico com a Religião Católica, à procura de uma nova síntese. O livro “Il Dialogo alla Prova”, há pouco citado (item 4, supra), contém nesse sentido textos importantes. Também o aludido artigo do Revmo. Pe. Giuseppe De Rosa, S. J. (“L'impossibile dialogo tra cattolici e comunisti”, in “La Civiltà Cattolica”, cit. no item 3, supra) transcreve interessantes documentos comunistas que deixam transparecer o reconhecimento da atual indestrutibilidade da Religião Católica na Itália, e sugerem o diálogo e a coexistência pacífica entre católicos e comunistas daquele país.

 

Por oposição à chamada via russa (isto é, a via de luta ideológica e perseguição policial, seguida de modo quase contínuo na Rússia), se delineia assim uma via italiana, inspirada pelo senso oportunista do comunismo, e formulada em termos de irenismo, diálogo relativista e coexistência.

 

Documento fundamental da linha russa seria o famoso relatório Ilytchev (discurso pronunciado pelo presidente da Comissão Ideológica da Comissão Central do Partido Comunista russo, em 26 de novembro de 1963, na reunião ampliada da mesma Comissão Ideológica). O documento principal da linha italiana seria o não menos famoso memorial de agosto de 1964, do falecido secretário geral do PCI, Palmiro Togliatti, sobre o relatório Ilytchev.

 

A via italiana do comunismo tem afinidade com a política de contemporização em face da Igreja e de inteiro apoio ao movimento “Pax”, seguida pelo ditador comunista polonês Gomulka. A homogeneidade religiosa da Polônia cria para o comunismo, naquele país, problemas análogos aos que teria um governo bolchevista na Itália.

 

Em última análise, a via italiana deixa ver a esperança dos comunistas de que, premidos pelo binômio medo-simpatia, os católicos da Península em grande número aceitem uma velada apostasia, para evitar a perseguição.

 

Não cremos que numa nação como a Itália essa manobra logre resultado junto à grande maioria. Mas, já que os comunistas nela depositam esperanças para o caso italiano, cabe perguntar se também não esperam algo dela para outros países católicos, para o Brasil e as nações irmãs da América Latina, por exemplo.

 

Ampliando a pergunta, indagamos se para países filiados a outras religiões o comunismo não tem em vista análoga manobra.

 

Tudo nos faz conjeturar que sim, e nisto está a nosso ver um dos aspectos mais atuais da matéria tratada neste estudo.

 

 

8. Utilidade do presente trabalho: a possibilidade de “exorcisar” a palavra-talismã, inutilizando o estratagema comunista

 

Como dissemos no início deste estudo, os setores não comunistas da opinião pública mundial se acham numa situação psicológica contraditória.

 

Na medida em que olham o comunismo de frente claramente explicitado, o repelem por fidelidade a todo um conjunto de valores que eles ainda admitem, valores estes procedentes do bom senso universal, ou do legado cristão.

 

Mas, se observam o comunismo de esguelha, isto é apenas nas suas manifestações diluídas e implícitas, eles o vão aceitando gradualmente mais e mais. Movem-nos para isto o mito irenístico e o binômio medo-simpatia.

 

Se, pois, para o comunismo o essencial é manter velado na palavra-talismã o sentido último do mito, por análoga razão a vítima deste também reluta em explicitá-lo.

 

Para a maior parte das pessoas, o mito, lembrado e insinuado na palavra “diálogo”, e cuja sedução é a como que eletricidade de que esta se acha carregada, só é atraente quando se mantém impreciso, difuso, envolto nas névoas da poesia. Como é belo sonhar vagamente com uma concórdia definitiva e completa em todos os campos em que os homens tenham relações entre si! Explicitar esse sonho, procurar estudá-lo, seria matá-lo (cf. cap. III, 3). E ademais, para que explicitar? Para que entender? Mitos assim são muito menos feitos para serem compreendidos do que degustados. O fumante de ópio em geral não se interessa pela composição química deste. Ele não quer entender mas sentir o ópio.

 

Para “exorcizar” a palavra-talismã e inutilizar seu efeito mágico, importa antes de tudo descobrir, na pluralidade dos sentidos que ela tem, o mito que nela se incuba.

 

Tudo quanto existe tende a se manifestar. Na mente dos seus entusiastas, o mito existe. Tendo cerradas diante de si as avenidas da explicitação, ele se manifesta com o máximo de sua intensidade e clareza, como já dissemos, incubado nos matizes mais radicais da palavra-talismã “diálogo”. E assim, mesmo quando se obstina em permanecer implícito, o mito pode ser detectado, caracterizado e por fim posto a nu por um observador ciente das regras próprias a esse labor.

 

O processo para se descobrir o mito consiste em considerar a palavra-talismã em seus sentidos mais aplaudidos e irradiantes, e compará-los com os sentidos sucessivamente menos mágicos, até o sentido inocente e trivial; constituída assim a gama comparativa que contém significados míticos e não míticos, verificar por contraste entre os primeiros e os segundos qual o conteúdo recôndito da palavra que transparece nas aplicações míticas e radicais desta. No caso do termo “diálogo”, emergirá sempre da comparação o irenismo. À medida que na gama dos significados a palavra vai perdendo sua força talismânica, ver-se-á que o conteúdo irênico decresce. No uso trivial, este conteúdo não existe. O mito irênico, relativista e hegeliano é, pois, a força mágica da palavra-talismã “diálogo”.

 

Em outros termos, o método dessa pesquisa se parece com uma experiência de ótica, na qual o olho humano tivesse diante de si uma tela translúcida, e além da tela um foco de luz. Quanto mais próximo o foco, mais luminosa a tela. Quanto mais distante aquele, tanto menos luminosa esta. Tal experiência provaria que a luz não está imanente na tela, mas procede do foco móvel por detrás dela.

 

Analogamente, podemos dizer que a palavra “diálogo” irradia uma luz que não nasce dela, mas de um mito colocado por detrás. Quanto mais próxima do mito, mais luminosa a palavra. E quanto mais distante, tanto mais opaca.

 

Uma vez posto a nu o mito pelo observador, pode este, divulgando seu achado, “exorcizar” a palavra-talismã. Pois, explicitando o mito, proporcionará ele aos pacientes da baldeação ideológica inadvertida os meios para abrirem os olhos à ação que sobre eles se exerce, para se darem conta dos rumos aos quais ela conduz, e para se defenderem contra ela.

 

Explicitado o mito, estará anulado o quebranto. A natural repulsa ao comunismo, das pessoas assim alertadas, agirá então, e a manobra comunista ficará frustrada.

 

Contribuir para dar às vítimas desse processo o meio de defesa eficaz, é o objetivo com que este trabalho foi escrito.

 

* * *

 

Rogamos a Nossa Senhora de Fátima que receba como filial homenagem de amor este estudo, e Se digne de o utilizar, como instrumento insignificante embora, para a realização da grande promessa que fez ao mundo na Cova da Iria:

 

“POR FIM O MEU IMACULADO CORAÇÃO TRIUNFARÁ”.

 

 

Caixa de texto:  

 

Quadro esquemático

 

das quatro fases da deturpação talismânica

da palavra  “diálogo”

(Cap. IV, 3, D, b.)

 

 

 

1a. FASE

PENETRAÇÃO IRENÍSTICA

 

2a. FASE

EXPANSÃO IRENÍSTICA

3a. FASE

TRIUNFO IRENÍSTICO:

                                                                                 RELATIVISMO

4a. FASE

APOGEU IRENÍSTICO-

RELATIVISTA:

HEGELIANISMO

 

GRAUS DE  INTENSIDADE DA EMOÇÃO

IRENÍSTICA

A cordialidade irenística se arvora em fator complementar indispensável à persuasão.

 

A cordialidade irenística passa a fator preponderante da persuasão.

 

A cordialidade irenística se erige em fator exclusivo da persuasão.

 

A cordialidade irenístico-relativista se estrutura como “ludus” hegeliano.

 

 

REPERCUSSÃO DA EMOÇÃO

IRENÍSTICA NAS RELAÇÕES ENTRE OS INTERLOCUTORES

 

Na discussão-diálogo se exagera a cordialidade. A polêmica e a discussão pura e simples ficam proscritas.

 

A cordialidade irenística contagia o diálogo-investigação e o diálogo-entretenimento. Estes se tornam preponderantes: a discussão é apenas tolerada.

 

O diálogo-investigação e o diálogo-entretenimento passam a ser as únicas formas de diálogo admitidas. A discussão-diálogo é proscrita.

 

O diálogo passa a ser concebido como o jogo hegeliano da tese, da antítese e da síntese.

REPERCUSSÃO DA EMOÇÃO

IRENÍSTICA NO OBJETIVO DA INTERLOCUÇÃO

 

É a contragosto que o interlocutor irenista ainda admite que há uma verdade e um erro objetivos, que é preciso convencer o outro interlocutor, e que a unidade é apenas um fruto do esforço de persuasão.

 

O interlocutor irenista ainda admite que há uma verdade e um erro objetivos, e que é preciso convencer; entretanto, passa a considerar que o fim supremo da interlocução não é a verdade mas a unidade.

O interlocutor irenista passa a admitir que não há verdades nem erros objetivos (relativismo), pelo que não é necessário convencer para obter a unidade.

O interlocutor irenista passa a sustentar que pelo “ludus” hegeliano das “verdades” relativas, a unidade se afirma e progride.

REPERCUSSÃO DA EMOÇÃO

IRENÍSTICA NA EXPLICITAÇÃO DO MITO IRENISTA

Primeira explicitação do mito: todos os homens são bem intencionados; as dissensões resultam sempre de ressentimentos ou equívocos.

Segunda explicitação do mito: tal é a boa vontade dos homens, que os equívocos doutrinários quase não têm importância; o principal é desmobilizar os ressentimentos.

Terceira explicitação do mito: o homem de boa vontade toma consciência de que os equívocos doutrinários são inconsistentes. A verdade é relativa; a cordialidade só por si realiza a uniáo completa.

Explicitação total do mito: para os homens de boa vontade, pela fricção amistosa das “verdades” relativas se obtém o progresso na unidade e na verdade.

REPERCUSSÃO DA EMOÇÃO

IRENÍSTICA NO CONTEÚDO DA PALAVRA-TALISMÃ

"DIÁLOGO”

Surge a palavra-talismã “diálogo”, designando por antonomásia a discussão-diálogo irênica.

A palavra-talismã “diálogo” se estende ao diálogo-entretenimento embebidos de irenismo; e quase não  inclui mais a discussão-diálogo.                               The talismanic word "dialogue" is extended to dialogue‑investigation and dialogue‑entertainment steeped in irenicism; argument‑dialogue is prac­tically excluded.

A palavra-talismã “diálogo”  passa a abranger apenas o diálogo-investigação e o diálogo-entretenimento, postos em base inteiramente relativista. Exclui a discussão-diálogo.

A palavra-talismã “diálogo”  passa a indicar a fricção lúdica da tese e da antítese, para a destilação da síntese.

REPERCUSSÃO DA PALAVRA-TALISMÃ

"DIÁLOGO” NA INTENSIDADE DA EMOÇÃO

IRENÍSTICA

O uso da palavra “diálogo”, carregada de significado mítico-irenista e de eficácia talismãnica, agrava por sua vez a emoção irenística e prepara assim a fase seguinte.

O uso da palavra “diálogo”, carregada de significado mítico-irenista e de eficácia talismânica, agrava ainda mais a emoção irenística e prepara assim a fase seguinte.       The talismanic word "dialogue" is extended to dialogue‑investigation and dialogue‑entertainment steeped in irenicism; argument‑dialogue is prac­tically excluded.

O uso da palavra “diálogo”, carregada de significado mítico-irenista e de eficácia talismânica, mais uma vez agrava a emoção irenística e prepara assim a fase seguinte.

A interação ao infinito da palavra-talismã “diálogo” e da emoção irenística influencia o processo hegeliano de modo que ele se desenvolva numa atmosfera não só sincretista, mas de cordialidade crescente.

 


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