Catolicismo, N.° 132,
Dezembro de 1961 (www.catolicismo.com.br)
DEBATE
NA TV TUPI DE S. PAULO
CAPITALISMO
E SOCIALISMO: QUAL A POSIÇÃO DA IGREJA?
A
participação dos trabalhadores na gestão da empresa é uma exigência da natureza
humana?
As
sociedades anônimas são necessariamente instrumentos da hipocrisia e da
exploração?
DESPERTOU vivo e geral interesse na cidade de São
Paulo, o debate ocorrido na TV-4 daquela capital, no dia 24 de outubro p.p.,
entre o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e o deputado federal Sr. Paulo de Tarso
Santos, sobre o problema se o socialismo e o capitalismo são, ou não, compatíveis
com a doutrina católica.
O debate foi uma promoção da Televisão Tupi, no
programa "O Grande Juri", dirigido pelo produtor de TV Aurelio
Campos.
Na rua, 21 populares, após assistirem o programa
através de receptores colocados na Avenida São João, a alguns metros da
esquina da Avenida Duque de Caxias, foram convidados pelo repórter associado
Carlos Spera a dar o "veredicto do Grande Juri" sobre a discussão
havida.
*
VARIOS fatores de monta concorreram para conferir ao
aludido debate uma atualidade palpitante.
Antes de tudo, o tema. O Brasil, em cujo Congresso
estão prestes a se discutir "reformas de base" fortemente socialistas,
se encontra em uma encruzilhada histórica das mais graves. Ora, precisamente
neste momento, a Encíclica "Mater et Magistra", cuja imensa
repercussão nem os mais empedernidos inimigos da Igreja podem negar, veio
iluminar os problemas relativos ao socialismo com sábios e profundos
ensinamentos. O que ensinou o Papa sobre o socialismo, e mais especialmente
sobre um possível ou suposto socialismo Católico? É a pergunta que paira em todos
os lábios. A tal propósito, as opiniões se bifurcam. Elementos de projeção têm
sustentado que, falando a Encíclica em socialização, abriu vias para uma
reconciliação entre o socialismo e o Catolicismo. Esta folha se pronunciou
desde logo em sentido oposto (cfr. "Catolicismo", n.° 129, de
setembro p.p.). O termo "socialização" não existe no texto oficial
da "Mater et Magistra". Mas ele poderia estar na Encíclica — como
figura em outros documentos pontifícios — sem que daí algo se inferisse quanto
à reconciliação entre socialismo e Catolicismo. Pois "socialização"
não é palavra etimologicamente derivada de socialismo,
mas de sociedade. Aliás, o princípio
da subsidiariedade, enunciado pela "Mater et Magistra", é a quinta-essência do anti-socialismo. Por fim, a Encíclica de
João XXIII reafirma expressamente o ensinamento dos Papas anteriores sobre a
matéria. Do que se segue estar em pleno vigor a afirmação de Pio XI na
"Quadragesimo Anno", de que Catolicismo e socialismo são termos
contraditórios.
Tomado pois o vocábulo "socialismo" na
acepção que lhe dão todos os documentos pontifícios até aqui, um socialismo
católico é verdadeiro contra-senso. E só o deixará de ser no dia em que um dos
termos antagônicos — socialismo e Catolicismo — mudar de sentido. Como este último
não sofrerá jamais tal mudança, socialismo
católico só será possível a partir do momento em que se admitir que o
socialismo deixou de ser socialista. Como poderia haver um protestantismo católico no dia em que a própria palavra
"protestantismo" mudasse de significado, e o fato fosse admitido na
linguagem eclesiástica por algum documento da Santa Sé.
No sentido geral dessas idéias, o Prof. Plinio Corrêa
de Oliveira publicou no "Diário de São Paulo", no dia 7 de setembro
p.p., um artigo de larga repercussão.
O autorizado pronunciamento do Exmo.
Revmo. Sr. D. Vicente Scherer, Arcebispo de Porto Alegre (in
"Jornal. do Dia", de 17 de outubro p.p.), contra a idéia de um socialismo
cristão, também repercutiu intensamente na opinião pública.
O debate entre o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, que
nas fileiras do laicato católico é o líder inconteste da reação
anti-socialista, e o jovem ex-prefeito de Brasília, que representa uma
tendência tão oposta, tinha pois algo de simbólico que lhe deu o caráter de um
acontecimento-chave.
É claro que, pela própria natureza das coisas, o
pronunciamento popular que se seguiu não tinha, nem podia ter, um caráter de
arbitragem, mas apenas de teste da opinião pública. Nesta matéria o único juiz
supremo é o próprio Papa.
Tanto mais que, logo de início, o debate tomou urna
amplitude ainda maior que a prevista, pois o produtor do programa declarou
inesperadamente que ele envolveria também o delicado problema do capitalismo.
Esta circunstância deu ainda maior importância à discussão.
*
PUBLICAMOS aqui o texto integral do debate, anotado de
duas fitas magnéticas em nosso poder. Estas apresentam lacunas (que assinalamos
no texto) apenas nas breves passagens em que, empenhados numa discussão mais
viva, ambos os participantes falavam simultaneamente.
O leitor não terá dificuldade em concordar com a
opinião generalizada em São Paulo, de que os pronunciamentos firmes, claros,
documentados do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira contrastavam com as atitudes
evasivas ou as opiniões indisfarçavelmente erradas do Deputado Paulo de Tarso,
e de que à argumentação cerrada do primeiro, o jovem prócer pedecista não opôs
senão generalidades capazes de impressionar certas áreas eleitorais de
expressão muito mais quantitativa do que qualitativa.
Quanto ao teste, é obvio que a priori
não poderia exprimir a opinião pública em seu conjunto, mas só uma fração dela,
isto é, o público muito especial e característico que nas grandes cidades se
detém nas artérias de intenso movimento popular, às 23 horas, para assistir
durante 50 minutos um programa de televisão. Ninguém duvida de que não se
circunscreve a isto a opinião de um país de 60 milhões de habitantes...
Entretanto, ainda mesmo este teste não produziu
resultados concludentes. Incumbido de consultar os presentes, o repórter Carlos
Spera usou para isso uma fórmula que insinuava ou impunha a resposta. Com
efeito, a pergunta correta deveria ser a que o produtor
Aurelio Campos formulara no início do programa: capitalismo e socialismo — qual
deles, a seu ver, está mais perto da doutrina católica?
Incorreto, por personalizar indebitamente
a questão, seria perguntar: o Sr. concorda com o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira,
ou com o Deputado Paulo de Tarso?
O repórter Carlos Spera, o mais das vezes, não adotou
nenhuma destas fórmulas, mas outra, de caráter tendencioso: o Sr. é pró ou
contra o Sr. Paulo de Tarso? Não há quem não veja que a resposta está contida
na capciosa interrogação.
Tudo isto não obstante, os votos, como indicam as
fitas de gravador em nosso poder, somaram 7 a favor do Sr. Plinio Corrêa de
Oliveira e 14 a favor do Sr. Paulo de Tarso. O que o encarregado da apuração
parece ter ouvido mal, proclamando o resultado de 6 a 15.
*
REGISTRANDO o esplêndido triunfo alcançado pelo Prof.
Plinio Corrêa de Oliveira, de que a leitura do presente documento dá inteira
demonstração a nossos leitores, é com prazer que esta folha assinala sua
simpatia pela lealdade do gesto do Sr. Paulo de Tarso, em aceitar a discussão e
afirmar publicamente seu pensamento.
Quantos, ideologicamente afins com o vibrante deputado
pedecista, se vêm mantendo em um mutismo confuso e irritado, em lugar de dizer
de público o que têm a objetar sobre as
tomadas de posição de "Catolicismo" e seus colaboradores!
Essa circunstância dá particular valor à
afirmatividade do Sr. Paulo de Tarso, e temos prazer em o declarar aqui.
Destas considerações genéricas passemos rapidamente a
algumas observações de outra natureza.
*
O debate entre o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e o
Deputado Paulo de Tarso se dividiu em duas partes essenciais, correspondendo a
duas questões de cunho fundamentalmente doutrinário, como seja, a posição,
respectivamente, do capitalismo e do socialismo em face da doutrina católica.
Sobre ambos os problemas, a discussão — apesar da desproporção entre a evidente
exiguidade do tempo e a amplitude das questões — projetou toda a clareza
necessária. Para que disto se certifique qualquer pessoa, basta ler o texto que
dela publicamos.
Entretanto, à margem destes dois veios centrais do
debate, "Catolicismo" deseja consignar algumas notas feitas de um
ponto de vista mais especial. Ninguém ignora o prestígio político e intelectual
do Deputado Paulo de Tarso nos círculos da assim chamada esquerda católica
brasileira, da qual o ex-prefeito de Brasília, é um dos líderes mais
conhecidos. Esta folha já tem manifestado suas apreensões quanto a certas
tendências ideológicas, a um tempo extremadas sem fundamento doutrinário
consistente, que, interpretando mal o conceito de democracia cristã, circulam
em determinados meios. De uma e outra coisa se colhem exemplos frisantes na análise
atenta dos pronunciamentos do Sr. Paulo de Tarso durante o debate na TV
paulista, que nos cingimos aqui apenas ao comentário de alguns desses exemplos.
Para maior comodidade dos leitores, inserimo-lo sob a forma de Notas da
Redação — no próprio texto da discussão.
______________
DANDO INICIO ao programa, o produtor de TV Aurelio
Campos formulou a questão sobre a qual deviam versar os debates: "qual
destes dois sistemas sociais está mais
perto ou mais longe do Cristianismo: o capitalismo, ou o socialismo? Em que
ponto deve se situar a Igreja Católica com relação a esses dois pólos
opostos?”
Em seguida, passou a apresentar aos telespectadores o
Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e o Deputado Paulo de Tarso, "figuras exponenciais
do pensamento cristão — e portanto católico — brasileiro".
AURELIO CAMPOS: À minha direita, inquestionavelmente
uma das mais ativas e brilhantes penas de nossa imprensa, a serviço do
pensamento católico; um líder natural dos pontos de vista mais tradicionais da
Igreja; diretor do jornal "Catolicismo", ex-deputado federal,
professor da Universidade Católica: Dr. Plinio Corrêa de Oliveira.
Quanto ao seu oponente, preferimos usar as próprias
palavras com que, em recente entrevista, o nobre deputado se definiu:
"Aos que me pretendessem fichar como comunista, eu perguntaria e
responderia com São Paulo: Vocês são católicos?... eu também sou. Vocês têm a
confiança da Hierarquia?... eu também tenho. Vocês são bons chefes de
família?... eu também sou. Vocês têm muitos filhos?.. eu também tenho. Vocês
pertencem à burguesia?... eu também. Existe apenas uma diferença: eu não devo
fidelidade à minha classe burguesa, mas ao Cristianismo". É o Deputado
Paulo de Tarso.
(...) Meus amigos, a pergunta já foi formulada e já
conhecem os dois ilustres convidados. E eu daria, a cada um, três minutos para
que se situassem dentro da pergunta formulada.
Dou a palavra ao ilustre professor, Dr. Plinio Corrêa
de Oliveira, para que exponha o seu pensamento em síntese, dentro do tempo
determinado, a fim de definir a posição. Muito obrigado, Professor.
O PROF. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA: A posição que eu
tomo é a seguinte: o capitalismo é um regime social e econômico que, em si
mesmo, é perfeitamente consentâneo com a doutrina católica. É evidente que esse
sistema, como tudo quanto é humano, pode ter tido abusos, e abusos consideráveis.
E não só os pode ter tido, como os tem ainda em nossa época, e isso é
flagrante. Que esses abusos são responsáveis, em grande parte, pelos erros que
a doutrina católica condena, também a este respeito não há dúvida nenhuma.
Porém, de acordo com a doutrina dos Pontífices, em si mesmo considerado, e
abstração feita dos abusos que lhe são acidentais, esse regime é conforme à
doutrina católica.
Exatamente o oposto deveria eu dizer a respeito do
socialismo. O socialismo, em todas as suas variantes, em todas as suas modalidades,
é essencialmente contrario à doutrina católica, independente dos abusos a que
por acréscimo possa dar lugar nesta ou naquela parte do globo. E, nessas
condições, não vejo a possibilidade de um socialismo católico, porque, como diz
o Papa Pio XI na Encíclica «Quadragesimo Anno», Catolicismo e socialismo são
termos incompatíveis.
A razão dessa incompatibilidade deita suas raízes no
mais profundo da doutrina católica. Nós sabemos que Deus dotou o homem de
inteligência e vontade para que, de acordo com a expressão eloqüente do Papa
Leão XIII, o homem seja, de algum modo, a sua própria providência. Ora,
acontece que o homem tem portanto a liberdade de prover a tudo quanto lhe
convém, tendo apenas por limitação a ação dos grupos sociais imediatamente superiores.
Esses grupos sociais provêem ao interesse do homem naquilo em que ele não pode
agir por si mesmo, mas, por sua vez, esses grupos sociais se limitam pelo
Estado naquilo em que os grupos não são suficientes para si. Nessas condições,
a ação do Estado é uma ação supletiva do grupo social, como é...
AURELIO CAMPOS: Termine seu pensamento, Professor, por
favor: seu tempo terminou.
PCO: ...como é supletiva do indivíduo. E querer
absorver tudo no Estado é agir a contrario
sensu da doutrina católica.
AURELIO CAMPOS: Muito obrigado, Prof. Plinio Corrêa de
Oliveira. E agora, o Deputado Paulo de Tarso.
O DEP. PAULO DE TARSO: Temos um documento recente e
oficial da Igreja, a Encíclica «Mater et Magistra», como roteiro de nossas
definições. Ela condena o liberalismo e o marxismo. O marxismo, no plano
econômico, significa o comunismo, ou o socialismo que mantém fidelidade a uma
essência materialista. E o liberalismo, no plano econômico, significa o
capitalismo (1). Afirmar-se que pode haver um capitalismo abstrato consentâneo
com o Cristianismo, a meu ver só tem importância acadêmica (2). Na verdade, o capitalismo
é o materialismo prático (3), que perpetua a miséria, perpetua a fome do povo,
perpetua a injustiça. E São Tomás ensinava que a justiça está para a sociedade
como a saúde para o corpo. A Encíclica lembra que devemos sair do plano
abstrato para as aplicações concretas dos princípios nela defendidos (4).
Assim, eu entendo que nós devemos partir para uma
ruptura com formas arcaicas de constituições jurídicas superadas do passado,
numa verdadeira, numa autêntica revolução cristã pelo amor do próximo,
combatendo todas as injustiças da estrutura capitalista que aí está, lutando
por uma reforma agrária que permita ao homem ser proprietário da terra que
trabalha (5); lutando por uma reforma urbana que mostre que a casa deve servir
de lugar para que o homem more, e não para instrumento de renda (6); lutando
por uma reforma eleitoral que evite que ocorra o que ocorreu nas ultimas
eleições: apenas 19,14% da população nacional votaram para Presidente da
Republica. Entendo que inclusive o analfabeto deve votar (7), porque o direito
de votar é um direito natural. O homem, pelo fato de ser homem, deve ter o
direito de escolher aqueles que vão realizar o bem humano da comunidade. Acho
que devemos lutar contra a espoliação das nossas riquezas pelos grupos
econômicos internacionais (8); devemos lutar contra os abusos do poder
econômico (8) ; devemos lutar para que a educação deixe de ser um privilégio
(8), porque Cristo não morreu apenas para redimir o rico. O Sangue de Cristo
foi derramado também para libertar o pobre. E até há um certo messianismo no
Antigo Testamento que dá ênfase ao pobre. Quando João Batista perguntou ao
Cristo se Ele era o Cristo, Ele disse: «Os coxos andam, os cegos vêem e os
pobres são evangelizados». É preciso que aqueles que estão sofrendo aqueles que
estão na miséria, aqueles que estão sofrendo a injustiça, por exemplo, na
empresa econômica, sintam ao seu lado um Cristianismo adulto (9), um
Cristianismo disposto a manter a
perenidade dos seus princípios, mas disposto também a reconhecer que sua
aplicação é analógica e deve estar sujeita ao clima histórico que aí está, O
importante é que a empresa, que é o microcosmo capitalista, não seja
propriedade apenas do empresário. O lucro da empresa resulta do esforço de
muitas pessoas humanas e não pode pertencer apenas a uma só, ou a umas poucas
(10).
(1)
N. da R. — O capitalismo estaria, pois condenado doutrinariamente.
(2)
N. da R. — Modo de esquivar o debate sobre a afirmação supra. Não se compreende
como afirmação doutrinária tão grave possa não ter qualquer importância
concreta.
(3)
N. da R. — Afirmação nebulosa em matéria de importância capital. A prática da
injustiça não supõe necessariamente uma tomada de posição materialista. Se bem
que o materialismo abra caminho para todas as injustiças.
(4)
N. da R. — A partir deste momento, a questão de saber se em si o capitalismo é
anti-cristão está esquivada. Segue-se uma longa diatribe contra o capitalismo.
(5)
N. da R. — Proposição vaga e perigosa. O que significa aí «o homem»? Cada
homem? A generalidade dos homens? Neste caso se deveria desejar a abolição do
regime do salariado por inumano, o que justificaria uma “Reforma Agrária” à
Fidel Castro.
(6)
N. da R. — A proposição parece afirmar a injustiça do inquilinato, abrindo
caminho a uma «Reforma Urbana».
(7)
N. da R. — Demagogia. Como pode um analfabeto conhecer os inúmeros problemas
concernentes aos interesses nacionais? O direito de votar está condicionado ao
bem comum, e não pode ser exercido por pessoas incapacitadas para tal.
(8)
N. da R. — Objetivos bons em si. Mas que de nenhum modo colidem com a afirmação
de que um capitalismo escoimado de abusos é compatível com a doutrina da
Igreja.
(9)
N. da R. — Expressão da qual se tem usado e abusado. Quando existiu um Cristianismo
não adulto? O Cristianismo dos mártires, dos cruzados, da Contra-Reforma, de
Anchieta e Nobrega, não o era?
(10)
N. da R. — A afirmação de que a empresa pertencente a um só dono é injusta em
si colide com a doutrina enunciada por Pio XII na Radiomensagem ao
«Katholikentag» de Viena, de 14 de setembro de 1952 («Discorsi e Radiomessaggi»,
vol. XIV, p. 814).
_______________
AURELIO CAMPOS: Muito obrigado ao deputado Paulo de
Tarso. De acordo com o esquema do nosso programa, vamos conceder a cada um dos
circunstantes, dos nossos ilustres convidados, cinco minutos, para a exposição
de mais idéias em torno da tese, podendo conceder, ou não, apartes, seguindo um
remedo de regime parlamentar, digamos assim. Prof. Plinio... Prof. Plinio com a
palavra.
PCO: Nas palavras do Deputado Paulo de Tarso a
respeito do capitalismo, me parece importante fazer uma distinção: dizer que se
quer o bem do pobre, dizer que se quer a redenção do pobre, dizer que se quer
conferir o direito de voto, que se quer alfabetizar, me parece que são
afirmações que não têm nenhuma relação direta com o problema capitalismo e socialismo.
Com efeito, o regime capitalista é aquele regime em
que o capital concorre com um elemento próprio para a produção, ao lado do trabalho;
o regime capitalista é aquele em que se atribui uma parte do lucro (11) ao capital
e se atribui uma parte do lucro ao trabalho.
Parece-me absolutamente evidente que esse regime, desde
que atribua partes proporcionadas de lucros a cada uma das entidades, a cada
um dos elementos que concorrem para a produção, é um regime legitimo.
E tanto é legítimo que nós temos aqui esta afirmação de
Pio XI a respeito da legitimidade intrínseca do capitalismo: «Nosso Predecessor,
de feliz memória, em sua Encíclica se referia principalmente àquele sistema em que,
ordinariamente, uns contribuem com o capital, e outros com o trabalho, para o
comum exercício da economia, qual ele próprio definiu na frase lapidar: «nada vale
o capital sem o trabalho nem o trabalho sem o capital». Foi essa a espécie de
economia que Leão XIII procurou, com todas as veras, regular segundo as normas
da justiça. De onde se segue que, de per si, não é condenável. E, realmente, de
sua natureza não é viciosa. Se viola a reta ordem quando o capital escraviza os
operários, a classe proletária, para que os negócios e todo o regime econômico estejam
nas suas mãos e revertam em vantagem própria, sem se importar com a dignidade
humana dos operários, com a função social da economia e com a própria justiça
social e o bem comum».
Aí está feita a distinção entre os inconvenientes e os
erros do capitalismo, de um lado, a legitimidade do regime, de outro lado. Ora,
esta distinção não é uma distinção acadêmica. Ela figura com insistência nos documentos
pontifícios.
(11)
N. da R. – Isto é, do produto da empresa, como é fácil ver no contexto.
_______________
PT: V. Excia. me permite um aparte?
PCO: Pois não.
PT: Apenas para dizer a V. Excia. que o mesmo Papa Pio
XI se refere à economia capitalista dizendo que ela se tornou “horrendamente
dura, cruel e atroz”. O que importa ao povo, Professor, não é tanto o saber como
se pode, abstratamente, configurar o capitalismo (12), mas é saber que,
concretamente, na vida de cada dia, ele é horrendamente duro, cruel e atroz,
segundo o mesmo Pio XI afirmou.
(12) N. da R. — Mais uma vez,
recuo diante consideração do problema em seus termos essenciais, e insistência
sobre o acidental e ocasional.
_______________
PCO: Se V. Excia. concorda na afirmação de que, em
tese, o regime capitalista é legítimo... (ambos falam ao mesmo tempo) ...o povo,
uma porção de vezes, tem ouvido falar que esse regime tem se prestado a abusos,
e a Igreja de tal maneira se tem pronunciado contra esses abusos, que o povo
não pode ter dúvidas a esse respeito. Mas importa ao povo saber que ele deve
corrigir os abusos mas não deve condenar o regime em si, que o regime em si é
justo, para que o povo mesmo saiba regular a situação, assim como o Papa procurou
regulá-la também. Nós não podemos dizer que os pontos de moral, os pontos de
doutrina católica têm interesse meramente acadêmico. Eles regem, Deputado Paulo
de Tarso, a opinião pública. E a opinião pública se governa por princípios.
PT: Professor, a opinião de Pio XI aí está: “horrendamente
duro, cruel e atroz”.
PCO: Pois não. Mas não em si, Deputado...
PT: Mas como existe historicamente.
PCO: Não, como existe concretamente. E, realmente, as coisas
como existem concretamente devem ser corrigidas pelo gênio superior da
civilização cristã. Mas não devem ser abolidas. Porque o que está, exatamente,
na índole da Igreja é salvar tudo quanto pode ser salvo e não destruir
inconsideradamente aquilo que existe.
De mais a mais, Deputado Paulo de Tarso (uma vez que
eu estou com a palavra nos meus dez minutos), V. Excia. me permita que
acrescente o seguinte: o regime capitalista, no que se diferencia,
concretamente, do regime da propriedade privada?
PT: V. Excia. está perguntando a mim, ou está se
perguntando?
PCO: Não, eu estou me perguntando, mas terei prazer em
ouvir a sua resposta depois.
Eu pergunto, então, no que é que o regime capitalista
se diferencia da propriedade privada? V. Excia. me permita que lhe diga que li
vários pronunciamentos seus pelos jornais, pelas revistas, a respeito do
assunto capitalismo, e esta é uma questão que me ficou no fundo do espírito.
Porque V. Excia. fala com freqüência a respeito do capitalismo, mas eu gostaria
de saber o que seria o regime de propriedade privada que não tivesse uma certa característica
de capitalismo, nas condições atuais da economia. Assim, falar contra o
capitalismo como sendo duro, como sendo atroz, etc., etc. — e ele o é, per accidens, infelizmente, e todos aqueles que lutam contra
essas atrocidades têm toda a minha solidariedade — assim, falar contra esse
regime mas não ressalvar a propriedade privada dos bens de produção...
PT: Mas, Professor...
PCO: ...isso me parece...
PT: Mas, Professor, os que divergem do capitalismo não
divergem da propriedade privada; não divergem da propriedade privada em
absoluto.
PCO: Em matéria de meios de produção?
PT: Os meios de produção, quando instrumentos de
trabalho, devem ser propriedade privada.
PCO: O que V. Excia. chama «instrumento de trabalho»,
no caso?...
PT: O sr. quer ver... (ambos falam ao mesmo tempo)
...O que nós não queremos é que o bem de produção seja instrumento de opressão.
PCO: V. Excia. me permita; V. Excia. me permita
concluir, porque eu estou com a palavra. O regime capitalista pode ser considerado
aquele em que por algum lado, ao menos em seu aspecto industrial, o capital,
representado pela máquina, pertence a alguém. que não é aquele que trabalha.
Agora, isto é uma coisa que eu considero legítima; eu considero que as
afirmações de que a participação dos operários nos lucros, na direção da
empresa, etc., é obrigatória, eu considero isso uma coisa contrária à doutrina católica.
Por exemplo, a afirmação que eu li num documento de V.
Excia., e eu gostaria que V. Excia. me ratificasse isso para saber se é verdade
ou não: V. Excia. considera que devem ser expropriados os bens das sociedades anônimas,
para nelas se estabelecer obrigatoriamente a participação dos operários nos
lucros e na direção da empresa?... Eu considero isto contrário à doutrina católica.
O que eu digo é uma coisa muito diferente: é que a
participação pode ser algo de desejável, algo de estimável, digno de ser promovido,
pois não. Mas ir ao ponto de desapropriar indústrias, de desapropriar
conjuntos econômicos, só porque são sociedades anônimas e para que nelas se
estabeleça a participação dos lucros compulsoriamente?... Eu não vejo,
Deputado Paulo de Tarso, onde é que isso pode ter caído das Encíclicas.
AURELIO CAMPOS: Professor... O Deputado Paulo de
Tarso tem cinco minutos, podendo apartear o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira.
PT: V. Excia., ao me acusar, divergiu, a meu ver, de
um texto da própria Encíclica «Mater et Magistra», que eu passo a ler: «É de
notar por último que o exercício da responsabilidade por parte dos empregados
dos organismos produtivos, não só corresponde às exigências legítimas próprias
da natureza humana — próprias da natureza humana — mas está também de
harmonia com o progresso histórico em matéria econômica, social e política».
A mesma Encíclica mostra que a empresa deve tender,
para a comunidade, e que o contrato de salário deve ser mitigado pelo contrato
de sociedade.
PCO: Mas o que se chama aqui «comunidade» não é
participação nos lucros.
PT: Não, eu estou dizendo outra coisa... (ambos falam
ao mesmo tempo) ...Eu estou com a palavra. V. Excia. me permita. V. Excia. me
perguntou onde encontrei o direito natural do operário à participação na
responsabilidade da empresa. É o item 90 da Encíclica, tradução da Vozes...
PCO: Não foi a pergunta!
PT: ... da Encíclica «Mater et Magistra»
PCO: Não foi. Eu falei contra a obrigatoriedade só,
(ambos falam ao mesmo tempo).
PT: V. Excia.
me permita, Professor. É exigência própria da natureza. Se é exigência própria
da natureza, decorre da natureza, é um direito natural porque decorre da natureza
(13).
Mas eu gostaria de tomar uma definição de capitalismo
isenta, desapaixonada, de um técnico: François Perrou. Definiu o capitalismo como sistema econômico que
tem na empresa privada a sua instituição principal e, como finalidade, o lucro
da empresa. Então, todo o sistema econômico funciona para que a empresa dê
lucro. Se a empresa der lucro, tudo funciona regularmente, porque o livre jogo
das leis econômicas acabará promovendo a prosperidade de toda a comunidade.
Ora, o que vemos no Brasil, por exemplo, é que os lucros das empresas estão aumentando
e o povo está aguardando que o livre jogo das leis econômicas promova a sua
prosperidade.
Eu li, hoje ainda, um trabalho do Sr. Celso Furtado,
no qual ele demonstra que o salário real na indústria e na agricultura não
aumentou nos últimos anos no Brasil. O que aumentou foi o salário nominal. Na
verdade, o capitalismo é o sistema que funciona para o empresário (14), quando
nós, cristãos, devemos desejar a economia para o homem, a economia do gênero
humano.
V. Excia. concorda comigo na tese de São Tomás de que
os bens foram destinados pela Providência a todos os homens, e não apenas aos
capitalistas, não apenas aos privilegiados, não apenas aos empresários.
(13)
N. da R. — Se a participação na gestão fosse uma exigência da natureza humana,
seria obrigatória. Ora, segundo afirmou Pio XII (Radiomensagem ao
«Katholikentag» de Viena, de 14 de setembro de 1952 — «Discorsi e Radiomessaggi»,
vol. XIV, p. 314), não o é.
O tópico da Encíclica «Mater et Magistra» citado
acima pelo Sr. Paulo de Tarso, na tradução da Editora Vozes, tem a seguinte
redação na edição oficial da «Acta Apostolicae Sedis» (vol. 53, p.
424):
«Commemorandum denique est, quae
graviora usque munera in variis
societatibus bonis gignendis hodie opificibus deferri optantur, ea non
solum cum hominis natura apte componi, sed
etiam cum oeconomicis, socialibus ac civilibus progredentis
aetatis rationibus omnino congruere».
A tradução correta é esta (cf. «Catolicismo», n.° 129,
de setembro de 1961):
«Finalmente, é preciso recordar que se deseja hoje em
dia, em várias empresas produtoras, associar os operários a responsabilidades
até das maiores, e isto não apenas concorda plenamente com a natureza humana,
mas é inteiramente conforme à evolução econômica, social e política».
Isto posto, vê-se que o texto da Editora Vozes vai
muito além do que afirma o Papa. Uma
coisa é estar conforme o direito natural, outra é ser exigido pelo direito
natural. As três formas de governo, monarquia, aristocracia e democracia, por
exemplo, são conformes ao direito natural. Constitui entretanto um erro afirmar
que qualquer delas é exigida pelo direito natural.
(14)
N. da R. — Capitalismo é o sistema em que parte do produto da empresa toca aos
que trabalham, e parte aos proprietários dos instrumentos de produção. O
Deputado Paulo de Tarso confunde sempre este conceito com o do mau capitalismo.
_______________
PCO: Sem dúvida.
PT: Nesse sentido eu sou mais a favor da propriedade
privada do que aqueles que defendem a propriedade privada apenas para o
capitalista. Porque o que eu quero não é acabar com a propriedade privada, mas
fazer com que todos sejam proprietários (15), Professor, todos, porque todos
têm direito.
(15)
N. da R. — Se se trata de acabar com o regime
capitalista para que todos sejam proprietários, a conseqüência é que os operários
devem necessariamente ser coproprietários de todas
as empresas. Ora, tal copropriedade, lícita e até desejável
em certos casos, não pode ser considerada obrigatória em nome da doutrina católica,
como ensinou Pio XII (Radiomensagem ao «Katholikentag» de Viena, de 14 de
setembro de 1952 — «Discorsi e Radiomessaggi», vol. XIV, p. 314).
_______________
PCO: V. Excia. quer acabar com o capitalismo para
instituir o que?
PT: Para instituir uma ordem social cristã justa.
PCO: Quer dizer qual?
PT: Perfeitamente. V. Excia. veio ao encontro do meu
pensamento. A tese fundamental é esta: a destinação providencial dos bens
materiais. Todos os bens foram criados, por Deus, para todos os homens, sem
exceção, todos os homens... (e V. Excia., no seu livro, diverge dessa
afirmação, afirmando que muitos trabalhadores...)
PCO: Não, não, isso não é verdade, isso não é o que eu
digo, Excia. Estou com meu, livro aqui. Em que pagina é? Faça-me o favor...
PT: Ah! pois não! Vou ler. É pagina... 114.
PCO: Pois não. O que é que está aí?
PT: «Por fim cumpre lembrar que nas condições
concretas da vida terrena não só haverá sempre pessoas que, sem terem qualquer
propriedade – sem terem qualquer propriedade — precisarão viver
exclusivamente do seu trabalho, como outras que necessitarão da caridade para
subsistir». Esta tese é que eu considero contrária à essência da mensagem,
Professor.
PCO: Então, o Sr. diz que haverá uma ocasião em que a
caridade cristã não terá mais com que se exercer? O que é a palavra do
Evangelho: «Pauperes semper
habetis vobiscum»?
PT: Ah! mas não miseráveis. A miséria distingue-se da
pobreza porque... (ambos falam ao mesmo tempo).
PCO: Mas «pauper», «pobre»,
não é aquele a quem falta alguma coisa?
PT: E quando a Encíclica «Mater et Magistra» sustenta
que o direito ao uso dos bens materiais, que o direito ao uso dos bens
materiais – (recusando um aparte:) V. Excia. me permita, porque estou com a
palavra — é o mais importante de todos os direitos econômicos, superior,
inclusive, à propriedade privada?
PCO: É evidente, e está afirmado em meu livro mil
vezes.
PT: Não, no livro de V. Excia. não vi isto com essa
clareza...
PCO: Ah! perdão!!... V. Excia. me permita dizer...
(ambos falam ao mesmo. tempo).
PT: V. Excia. me permita, porque eu estou com a
palavra. A Encíclica sustenta que o direito ao uso dos bens materiais é o mais
importante de todos os direitos econômicos, superior, inclusive, à propriedade
privada. Isso significa que na ordem social pela qual eu luto... Eu luto por
uma ordem social justa, única na qual pode haver a paz, que é o fruto da
justiça. A justiça é dar a cada um o que é seu. Nós podemos discutir interminavelmente
sobre o «seu» de cada um; mas sabemos que cada um tem direito aos bens necessários
e convenientes à vida humana (16). E por que todos não têm bens necessários?
Porque muitos têm supérfluo. Não existe direito natural ao supérfluo. Existe
direito natural ao necessário para matar a fome...
(16)
N. da R. — Mas isto é bem diverso de que afirmar que cada homem em particular
tem o direito estrito de ser proprietário de algo.
_______________
PCO: O que V. Excia. considera como bem supérfluo?
PT: Aqueles que não têm ligação com as necessidades
primárias da pessoa humana (17).
(17)
N. da R. — O necessário para o homem pode não se cingir apenas às suas
necessidades primárias enquanto homem, mas estar também condicionado à posição
social que ele ocupa. Ensinou-o Leão XIII: «Ninguém certamente é obrigado a
aliviar o próximo privando-se do seu necessário ou do de sua família; nem mesmo
a nada suprimir do que as conveniências ou a decência impõem à sua pessoa:
«Ninguém, com efeito, deve viver de um modo que não convenha ao seu estado»
(São Tomás, Suma Teológica, IIa. IIae.,
q. 32, a. 6, c.)» — Encíclica Rerum Novarum», de
15 de maio de 1891. — Editora Vozes Ltda., p. 18).
_______________
PCO: Primárias só não, mas... (ambos falam ao mesmo tempo).
PT: Os bens supérfluos existem, estão aí e são a causa
da miséria. A miséria não está no plano da Providência. Deus não criou o homem
para viver na miséria. Porque...
PCO: V. Excia. diz que a causa da miséria está na
concentração dos bens? Isto mudado, a miséria cessaria?...
PT: A miséria é a privação de bens necessários para
que o homem possa viver como homem. O direito do rico ao seu iate não é o mesmo
direito do pobre ao seu barracão. O direito
do rico ao seu iate não é o mesmo direito do operário à sua bicicleta; — porque
um é o necessário e conveniente, e outro
é o supérfluo. Existe a miséria, Professor, porque existe o supérfluo, e a
revolução cristã deve lutar por uma ordem social justa, procurando vencer a miséria,
que pode ser vencida sobretudo nesta hora histórica, em que tanto se
desenvolveu a técnica e a ciência, que podem ser colocadas a serviço
dessa luta contra a miséria, e não a
serviço do armamentismo, ou a serviço de outras finalidades menos humanas.
AURELIO CAMPOS: Continuemos o debate. Cinco minutos
ao Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, que poderá conceder, ou não, os apartes
solicitados pelo seu oponente.
PCO: Antes de tudo, me parece necessário ressaltar uma
coisa: é que não se está aqui fazendo, de minha parte, uma defesa dos direitos
dos ricos contra os pobres. Não existe esta dissociação fundamental dos
interesses, dos direitos dos ricos e dos pobres, compreendidas as coisas dentro
do pensamento, da doutrina católica. E por que? O que a doutrina católica
estabelece é que deve haver ricos e pobres, desde que se entenda por pobre
aquele que tem as condições suficientes para viver digna e seguramente consigo
e com sua família, mas que não tem outra coisa além disso. A existência de
alguns mais ricos significa apenas a harmonia e a complementação
do corpo social. E, reiteradamente, nos documentos pontifícios vêm a afirmação
de que, por isso, as classes sociais e as classes econômicas não estão necessariamente
em luta entre si, mas devem viver numa cooperação harmônica. O que, contudo,
no momento se pleiteia não é, absolutamente, o statu quo para o pobre.
Isto seria um verdadeiro absurdo, e não creio que haja uma só pessoa de bom
senso, para não falar numa pessoa de bom coração, que pleiteie um statu quo
para massas inteiras que estão imersas na miséria. Mas, uma coisa é pleitear
esse statu quo que ninguém pleiteia, outra coisa é chegar ao extremo de
desejar uma transformação que não tome em consideração os direitos naturais de
todo o corpo social, a necessidade de haver classes diferenciadas, a necessidade
de haver diferenças até de fortunas,
como elemento para a harmonia da vida social. E assim, fazendo essas afirmações, eu não estou
tomando a defesa do uns contra outros, mas estou fazendo a afirmação da
necessidade de que todo o corpo social prospere na harmonia, que se procure
desenvolver ambas as classes sociais, e não se procure jogar uma classe social
contra a outra. Eu devo dizer, a este respeito, que vi uma afirmação do Sr.
Deputado Paulo de Tarso de que nós, hoje em dia, podemos considerar que o
socialismo (e vamos passar para o socialismo, Deputado, que é o elemento
principal de nossa discussão de hoje à noite), que o socialismo é compatível
com a doutrina católica.
PT: V. Excia. leu isto em que jornal?
PCO: Ah! em vários lugares. Inclusive V. Excia. pediu
que fosse dado o título de Partido Socialista Cristão, em carta à direção do PDC
[Partido Democrata Cristão] brasileiro.
PT: Mas uma coisa é pleitear uma terminologia para a doutrina
social cristã; e outra coisa é afirmar-se a compatibilidade do socialismo
materialista com o Cristianismo (ambos falam ao mesmo tempo).
PCO: V. Excia. introduziu em sua resposta a palavra
«materialista». Eu pergunto se há um socialismo não materialista. E se esse
socialismo não materialista é compatível com a doutrina católica. Eu digo que
não.
PT: V. Excia. quer que eu responda agora, ou que
responda depois?
PCO: V. Excia., por favor, responda depois, para eu
poder acabar meu pensamento agora. Eu digo o seguinte: que passar dessas invectivas
contra abusos reais do capitalismo, para favorecer a afirmação de que a doutrina
socialista é compatível com o Cristianismo, me parece um absurdo.
O Sr. Deputado. Paulo de Tarso afirma que ao
materialismo socialista ele não apoia. Eu sei bem. Mas o Papa Pio XI declara
que há uma incompatibilidade completa entre socialismo e Catolicismo, inclusive
quanto à palavra «socialismo». E esse trecho...
PT: A expressão contra a palavra não está na Encíclica
«Quadragesimo Anno» e V. Excia. sabe disso (18).
(18)
N. da R. — A Encíclica «Quadragesimo Anno» de Pio XI diz textualmente:
«Socialismo religioso, socialismo cristão exprimem conceitos contraditórios;
ninguém pode, ao mesmo tempo, ser bom católico e usar com veracidade o nome de
socialista» (A.A.S., vol. 23, p. 216).
_______________
PCO: Não, eu não sei. Eu tenho aqui a Encíclica...
(ambos falam. ao mesmo tempo).
PT: ...está se referindo ao seu clima histórico.
PCO: Não, ele não diz isto. Ele diz, simplesmente,
que socialismo e Catolicismo são termos que se excluem.
PT: E1e afirmava numa época em que só havia o socialismo
materialista.
PCO: Não, é o contrario. Ele fala precisamente a
respeito do socialismo e mostra que o socialismo evoluiu muito e tomou matizes
tais, que em muitos de seus aspectos até poderia parecer compatível com a doutrina
católica. E ele diz expressamente. Ele diz que o socialismo, nesses seus
aspectos mais brandos, «tende para as verdades que a civilização cristã sempre
solenemente ensinou...»
PT: V. Excia. poderia dar uma enfasezinha
neste pedaço, Professor, por gentileza?
PCO: Ah! com muito gosto.
PT: Faça o favor.
PCO: O socialismo, em seus aspectos mais brandos —
agora começam as aspas — «tende...»
PT: «Tende, tende»...
PCO: «...para as verdades que a civilização cristã
sempre solenemente ensinou...»
PT: Muito obrigado a V. Excia.
PCO: «...e delas, em certa maneira, se aproxima,
porquanto é inegável que suas reivindicações concordam muitíssimas vezes...»
PT: Ah! «Muitíssimas»...
PCO: «...com as reclamações dos católicos que
trabalham na reforma social».
PT: Minha memória não está falhando.
PCO: Agora ele acrescenta: «Tão justos desejos e
reivindicações em nada se opõe às verdades cristãs»; mas, ele diz adiante que os termos socialismo
e Catolicismo são termos absolutamente contrários.
Ele diz que o socialismo concebe a sociedade de um modo completamente avesso às
verdades cristãs. Concebe a sociedade: não é filosofia só, é a sociedade. Como
pode haver um socialismo cristão, não vejo.
AURELIO CAMPOS: Agora o Deputado Paulo de Tarso tem
cinco minutos, podendo conceder os apartes solicitados pelo Prof. Plinio Corrêa
de Oliveira.
PT: A ocorrência histórica de socialismos
materialistas não deve impedir a existência de uma ordem social cristã que, a
meu ver, pode chamar-se socialismo cristão. Mas é um problema de
terminologia...
PCO: ...muito importante.
PT: V. Excia. me permita. Depois da Encíclica «Mater
et Magistra»...
PCO: E eu lamento que, exatamente, uma terminologia errada
vá viciando completamente o sentido da Encíclica.
PT: E qual é a opinião de V. Excia. sobre
socialização?
PCO: Minha opinião sobre socialização começa por aí
que é um vocábulo que não está na Encíclica «Mater et Magistra».
PT: Aí V. Excia. está enganado.
PCO: Ah! não. V. Excia. quer se dar ao trabalho de ver
aqui...
PT: . V. Excia. vai me dar licença, senão meu tempo
vai se escoar.
PCO: Pois não...
PT: Eu tenho aqui a tradução da Editora Vozes com imprimatur
por comissão especial do Sr. Bispo de Petropolis.
PCO: E eu tenho a «Acta Apostolicae Sedis».
PT: Tenho a tradução da «Mater et Magistra» da Ação Católica
Brasileira.
PCO: Tenho a edição oficial. V. Excia. quer examinar?
PT: Agora, o que V. Excia. quer ignorar é que o
Cardeal Tardini, Secretario de Estado de Sua Santidade João XXIII, enviou uma carta
à Semana Social da França, de Grenoble, sustentando
o termo «socialização» e usando expressões que estão decalcadas na Encíclica.
V. Excia. acha que a Ação Católica foi leviana ao usar a expressão «socialização»?
PCO: Não, é evidente.
PT: V. Excia. acha que o Bispo de Petropolis
não devia ter dado o imprimatur? V. Excia. acha que o Cardeal Tardini
usou de uma expressão que não devia usar? (O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira
pede licença para um aparte). V. Excia. me permita. V. Excia. vai ter cinco
minutos para falar depois.
Inclusive a expressão «socialização» já estava em Pio
XII como sinônimo de...
PCO: ...e em vários documentos. Isto é conhecido por
qualquer estudante de documentos pontifícios. V. Excia. pensa que eu não
conheço isto? que não estou a par desses documentos? Faça-me o favor!
PT: O que eu quero é que.... (falam ao mesmo tempo) o
que eu quero dizer, Professor, é o seguinte: a posição é que é importante.
PCO: Posição do que?
PT: Nós temos que construir uma ordem social cristã
sob o primado da justiça, que seja capaz de vencer a miséria, e que...
PCO: Isto todos sabem e com isto estou de pleno
acordo.
PT: Não, não. V. Excia. acha que o lucro deve ser da
empresa privada...
PCO: Não disse isso.
PT: ...do empresário.
PCO: Só da empresa, não. Que a empresa deve ter uma
parte do lucro, mas que, evidentemente, também o operário deve ter um salário
proporcionado...
PT: Salário é outra coisa.
PCO: Ah!
PT: Mas o operário deve participar do lucro, ou não?
(Falam ao mesmo tempo).
PCO: Eu acho que em certos casos é desejável, mas não
se impõe em rigor de justiça.
PT: E a participação na gestão?
PCO: Idem.
PT: E a participação na propriedade?
PCO: Perfeitamente; a mesma coisa.
PT: Bom, como a Encíclica «Mater et Magistra» diz que
nós devemos tender para a comunidade...
PCO: Pio XII...
PT: Mas V. Excia. sabe que o Papa João XXIII fala que
nós devemos tender para a comunidade, que a empresa deve tender para a
comunidade.
PCO: Mas comunidade não é isso. Como V. Excia. prova
que comunidade seja isso? Communitas é o grupo
intermediário...
PT: Comunidade, Professor, é uma associação de
pessoas, na qual... na qual os direitos das pessoas são defendidos.
PCO: Não, comunidade não é isso.
PT: A meu ver é isso. Professor, a meu ver, o ponto
focal... V. Excia. me permita, eu vou concluir. A meu ver, o ponto focal das
nossas divergências é o seguinte: eu acho que as coisas foram criadas por Deus
para o homem, e não para o grupo, ou para o empresário, ou para o Estado, como
quer o comunismo.
PCO: Isto eu também acho.
PT: ....e acho que devemos realizar uma revolução
cristã contra o privilégio, contra o supérfluo, que está na base das iniquidade,
das atrocidades e das crueldades da atual estrutura social.
PCO: V. Excia. quer me dizer o que entende por supérfluo?
V. Excia. acha que é preciso dividir todos os bens por igual entre todos?
PT: Não, eu não sustentei isto; o que eu acho é que os
homens... (ambos falam ao mesmo tempo). Eu vou definir: os homens têm
diferenças, pelo simples fato de serem homens; mas têm também uma igualdade
fundamental que vem da sua natureza humana...
PCO: Sim, perfeitamente.
PT: Essa igualdade existe, em todos, mas não como V.
Excia. diz no livro, que muitos não vão ser proprietários nunca, que muitos vão
ter que depender da caridade, não!... E, aliás, Leão XIII...
PCO: Vão ter
que depender pela miséria das coisas. Como a doença: não desejo que haja
doenças, mas doenças haverá até o fim do mundo.
PT: V. Excia. me permita. Olhe como esse trecho de Pio
XI vem a calhar sobre este ponto: «Com tal estado de coisas facilmente se
resignavam (estava descrevendo o século XIX), se resignavam os que, nadando em
riquezas, o supunham efeito inevitável das leis econômicas. E por isso, que se
deixasse a caridade com o cuidado de socorrer os miseráveis, como se a caridade
houvesse de cobrir essas violações à justiça, que os legisladores toleravam...»
(ambos falam ao mesmo tempo) ... eu acho que é uma exigência da justiça.
PCO: Perfeitamente!
PT: O pobre, o miserável, aquele que está no submundo
de hoje, que vem sendo perpetuado pela estrutura «atroz, cruel, horrenda», de
Pio XI, este deve ter direito ao mínimo indispensável para viver humanamente,
não por caridade, como se pensava na Idade Média (19), mas por justiça.
(19)
N. da R. — O velho preconceito anticlerical do século
XIX em relação à Idade Média, da qual Leão XIII entretanto disse: «Tempo houve
em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência
da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições,
os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade
civil. Então a Religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida
no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao
favor dos príncipes e à proteção legítima dos magistrados. Então o Sacerdócio
e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta
amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos
superiores a toda expectativa, frutos cuja memória subsiste e subsistirá,
consignada como está em inúmeros documentos que artificio algum dos adversários
poderá corromper ou obscurecer» (Encíclica «Immortale
Dei», de 19 de novembro de 1885. — Editora Vozes Ltda., p. 15).
_______________
PCO: V. Excia. não respondeu à minha pergunta: o que é
o supérfluo? Eu quero saber o que é o supérfluo. O que é o supérfluo?
PT: O supérfluo é aquilo que não está ligado às
necessidades do homem, e portanto não é nem bem necessário, nem bem conveniente...
É tudo aquilo que...
PCO: Então (ambos falam ao mesmo tempo)... pode-se
dividir tudo por igual, no momento? Ou não?
PT: Não, não; eu acho que deve haver uma igualdade
fundamental e todos os homens devem ter...
PCO: Então, o que vem a ser esse supérfluo? Há uma
igualdade fundamental e, depois, há uma desigualdade fundamental. Onde se
detém essas desigualdades (20) ?
_______________
(20)
N. da R. — Como se verá, a resposta esquiva inteiramente essa pergunta
incisiva.
_______________
PT: V. Excia. quer que eu de o supérfluo? O supérfluo
é a empresa fora da escala humana, é a sociedade anônima brutal que, pela
acumulação de capitais, pela composição de várias empresas numa só, de tal
maneira se engrandece que sai da escala humana. E eu digo que o direito dessas
sociedades a seu patrimônio não é de direito natural (21).
_______________
(21)
N. da R. — Uma das mais graves afirmações do Deputado Paulo de Tarso. Chamamos
simplesmente a atenção do leitor para ela, porque dispensa comentários.
_______________
PCO: Por que?
PT: Porque a sociedade não tem natureza humana, não
tem natureza humana...
PCO: Oh! V. Excia. dizer que
a sociedade não tem natureza humana!.. E por que não tem?
PT: Não, não tem. Nem nome tem.
PCO: Como não tem?
PT: Direito natural é o que decorre da natureza
humana... (falam ao mesmo tempo).
PCO: E V.
Excia. conhece algum tratadista católico — tenha a bondade de me citar — que
diga quer a sociedade anônima não tem direito à propriedade? (ambos talam ao
mesmo tempo).
PT: ...O homem tem direito à comida, pelo fato de ser
homem. Sociedade anônima não sente fome, sociedade anônima não sente fome, a
não ser a fome do lucro.
PCO: Esta é uma afirmação...
PT: Eu distingo a natureza humana, Professor, das
empresas anônimas, de capitais. Berdiaeff dizia que o
capitalismo transformou as relações entre os homens em relações entre coisas.
V. Excia. sabe que a sociedade anônima não é uma sociedade de pessoas; a
sociedade anônima é a sociedade de alguns poucos que procuram misturar
capitalismo com Cristianismo para perpetuar seus privilégios. Mas, felizmente,
o Cristianismo acordou para a divergência fundamental entre capitalismo e
Cristianismo, assim como já havia acordado para a divergência entre Cristianismo
e comunismo. Nós precisamos superar os dois, em nome de uma linha afirmativa
e criadora.
AURELIO CAMPOS: Muito obrigado aos ilustres oponentes
deste nosso Grande Juri. E devo lembrar aos srs. telespectadores que, dentro de
alguns instantes, Carlos Spera, com a nossa reportagem volante, irá fazer a consulta
à opinião pública.
Eu peço ao Prof. Plinio Corrêa de Oliveira que, sem
aceitar apartes, numa síntese, termine o seu pensamento dentro do tempo de
dois minutos, para encerrar a sua participarão.
PCO: Termino, com muito prazer, dizendo o seguinte:
que a sociedade anônima não é, necessariamente, imensa; não é, necessariamente,
Moloch; que há sociedades anônimas Molochs, que há sociedades anônimas inumanas,
quem não o sabe? Mas há sociedades anônimas que não o são. E eu acho extremamente
perigoso para um país quando legisladores, quando homens de responsabilidade
começam a não admitir mais a distinção entre aquilo que é mau per accidens e aquilo que é mau em si; a eliminar toda
sociedade anônima, declarar que uma sociedade anônima (às vezes de capital
reduzido, em que um espolio se transformou para melhor gerir os seus
interesses) deve terminar e que perde seu direito natural porque se transforma
de uma comunidade de pessoas numa suposta comunidade de coisas.
Depois, a afirmação do Sr. Deputado Paulo de Tarso de
que a sociedade anônima não é uma sociedade de pessoas! A sociedade anônima,
sobretudo quando tem títulos nominais, é uma sociedade anônima de pessoas. Ela
é anônima apenas porque não tem nomes individuais; mas os nomes de seus acionistas
estão publicados em catálogos, estão publicados por toda parte. Eu não sei, verdadeiramente,
como se pode afirmar dessa maneira que a sociedade anônima não tem direito
natural, com a postergação de tudo quanto se afirma em matéria de doutrina católica!
Eu gostaria de encerrar esta parte relativa ao
socialismo, lendo este trecho da «Quadragesimo Anno», que eu tirei diretamente
da «Acta Apostolicae Sedis» (a qual «Acta Apostolicae Sedis» está aqui),
quer dizer, é do órgão oficial do Vaticano. Diz ela: «Já que o socialismo, como
todos os erros, comporta algo de verdade — o que os Sumos Pontífices jamais
negaram — no entanto funda a doutrina sobre a sociedade humana, que lhe é
peculiar, em fundamento que destoa do verdadeiro Cristianismo. Socialismo
religioso, socialismo cristão exprimem conceitos contraditórios; ninguém pode,
ao mesmo tempo, ser bom católico e usar com veracidade o nome de socialista».
V. Excia. diz, Sr. Deputado Paulo de Tarso, que os católicos
acordaram. Acordaram para entender bem
que é preciso adotar com todo o calor as reivindicações operarias, que é preciso
fazer face aos abusos do capitalismo, mas salvando os princípios fundamentais
da civilização cristã, em vez de dar as mãos, por confusão de linguagem, por
confusão de rótulos que seja, àquele que é o pior dos inimigos da Religião Católica,
em nossos dias, que é, precisamente, o socialismo.
AURELIO CAMPOS: Muito obrigado ao Prof. Plinio Corrêa
de Oliveira. Três minutos ao Deputado Paulo de Tarso para apresentar suas
conclusões, antes que se pronuncie o Grande
Juri, num lugar qualquer da cidade.
PT: Eu não defenderia nunca o comunismo, que é o ateísmo
filosófico; e não defenderia nunca o capitalismo, não defenderia nunca o
capitalismo, que é o ateísmo pratico, militante. O que me importa não é saber
o que é o capitalismo abstrato (22); o que me importa é saber que o capitalismo
é causa da miséria que aí está, é causa da injustiça que aí está, o capitalismo
levou – porque resume todo o resultado do sistema econômico na prosperidade do empresário
– levou a classe media a se proletarizar, o proletário a passar para o nível de
miséria, e os miseráveis a um submundo que cada vez aumenta mais pelo subemprego,
pela impossibilidade de trabalhar, e pela impossibilidade de ver respeitado um mínimo
de dignidade da pessoa humana.
D. José Tavora disse, em
Recife, que a doutrina social cristã nunca poderia concordar com a sociedade
dividida em dois compartimentos estanques: um, dos ricos, que, cada vez mais
aumentam a acumulação de riquezas nas suas mãos, e o outro, o dos que estão na
miséria, o dos que não têm o mínimo indispensável para viver humanamente. Dizer
a um miserável que ele é livre, é rir da miséria dele; dizer ao faminto que ele
é livre, é menosprezar o sofrimento dele, porque o faminto é o escravo da fome.
(22)
N. da R. — Ainda uma vez, evita o Deputado Paulo de Tarso entrar no âmago do
problema: como querer pronunciar-se sobre a liceidade
do capitalismo em face da doutrina católica, sem se importar com os aspectos teóricos
da questão?
_______________
PCO: A liberdade é para ser escravo como na Rússia.
PT: Eu não defendi a Rússia. Defendem a Rússia aqueles
que mantêm uma estrutura iníqua que é o caldo de cultura do comunismo.
PCO: A sua posição sobre o socialismo favorece a Rússia.
PT: O comunismo vive das iniquidades do capitalismo.
PCO: Tenha... (falam ao mesmo tempo).
PT: V. Excia. não pode apartear. Eu nunca pensei que
eu ia recomendar prudência a V. Excia. neste debate. Eu concluo dizendo o seguinte:
que a injustiça, que aí está, a miséria que aí está, na verdade existem porque
não existe justiça na distribuição das coisas que Deus criou para o homem. E termino
dizendo o seguinte: a liberdade que nós desejamos para toda pessoa humana é uma
vitória sobre o egoísmo. E não o egoísmo
exato, absolutizado, cada indivíduo preocupado apenas com a sua prosperidade,
como o liberalismo ensinava: que cada um devia ter inclusive a sua moral
independente.
Nós temos uma vocação comunitária; nós não podemos
chegar a Deus sem passar pelo nosso próximo, sem passar pelo proletário. A
historia da Igreja é a história da transcendência, que é o caminho para Deus, é
a história da imanência, que é o amor do próximo.
Eu termino dizendo o seguinte: que todos esses miseráveis
que aí estão nos vão julgar. E quando Cristo, na parusia do Juízo Final,
disser: «Eu tive fome e não Me destes de comer, Eu tive sêde e não Me destes de
beber», nós vamos perguntar: mas quando ocorreu isto? E Ele vai dizer: cada
vez que a estrutura perpetuou a miséria, a fome, a iniquidade, e os cristãos
se omitiram, era a Mim que estava sendo feita a injustiça.
AURELIO CAMPOS: Muito obrigado ao Deputado Paulo de
Tarso.
O repórter Carlos Spera passou, então, a tomar os
votos do povo que assistia o programa na rua.