18 de maio de 1981
Entrevista
para a “Folha de São Paulo”
[No
artigo para a “Folha de S. Paulo” de 9
de maio de 1981, intitulado “SÊ
COERENTE...”, o Prof. Plinio comentou o fato de que “Na noite de 12 de
abril p.p., um forte clarão avermelhado, visto também com tonalidades
esverdeadas, alaranjadas e amarelo claro, iluminou o céu dos Estados Unidos. O
fenômeno foi observado em mais de dois terços do território norte-americano, na
Costa Oeste, no Meio-oeste e em todo o Sul, até o
Golfo do México. A noite ficou tão clara, que automóveis transitavam de faróis
apagados. Qual a causa do fenômeno? Nuvens luminescentes, aurora boreal?
Cientistas abalizados discutem. Quanto às auroras boreais, são raramente
visíveis ao sul do paralelo 50 e inteiramente excepcionais no paralelo 30, onde
se situa a costa Sul dos Estados Unidos, no Golfo do México. O fenômeno do dia
12 de abril foi registrado pelo Serviço Nacional de Meteorologia, pela
Administração Oceânica e Atmosférica Nacional em Boulder,
Colorado, e pela NASA (cfr. "Reporter Dispatch" de White Plains, Nova York, de 13-4-81; "Folha da Tarde" e
"Estado de Minas" de 14-4-81). Novo sinal, a ameaçar de novos
castigos uma Humanidade cuja impenitência vem afrontando Nossa Senhora de
Fátima?”
Tal artigo
deu origem à entrevista a seguir transcrita]
* *
*
“Folha de S. Paulo” - ... O Sr. fez, como se fosse uma premonição,
uma previsão de desgraças que poderiam acontecer no mundo. Então o Sr. fazia
uma relação entre a aurora boreal que foi vista em Portugal, antes da 2ª Guerra
Mundial, e que teria sido vista novamente agora nos Estados Unidos. Então eu
gostaria se o Sr. pudesse aprofundar um pouco esse tema...
Plinio Corrêa de Oliveira – (dirigindo-se ao
fotógrafo da FSP) Esse grau de luz está bom para o Sr.? Ou quer que eu levante
um pouco a veneziana?
Fotógrafo da FSP - Não.
PCO - Está bom?
Fotógrafo da FSP - Sim.
FSP - E queria que o Sr. explicasse assim para um leitor comum o
que exatamente essa teoria que o Sr. trouxe nesse artigo do dia 9 de Maio. E se
isso teria alguma relação, como algumas pessoas interpretaram no jornal [na
“Folha de S. Paulo”], com o atentado sofrido pelo Papa na semana passada. Porque
foi exatamente no dia de Nossa Senhora de Fátima [13 de maio], a que o Sr. se
referia também naquele artigo.
PCO - Exatamente, foi no dia de Nossa Senhora de Fátima.
A relação, a teoria,
por assim dizer, é a seguinte: Nossa Senhora de Fátima apareceu em 1917, aos
três pastorezinhos, na Cova da Iria... Estou falando
de pressa ou vai indo bem?
FSP - Se o Sr. pudesse dar um pouquinho mais devagar, porque eu
vou anotando tudo.
PCO - Aos três pastorzinhos na Cova
de Iria – é um local, uma localidade que hoje se chama Fátima – e Ela lhes
disse o seguinte: que o mundo estava num
estado de pecado generalizado muito grave.
Primeiro ponto.
2º ponto: o pecado é
uma ofensa a Deus e atrai a cólera dEle.
3º ponto: Ela, como
Mãe de Deus, Mãe dos homens, se empenhava em evitar isso.
Então, “a” – eu estou
esquematizando, acho que fica mais cômodo para o Sr. – a) rezava pelos homens.
Os Srs. não querem fumar? Não me incomoda nada.
FSP – Obrigado, acabei de
fumar.
PCO - Rezava pelos homens, aparecia aos postorezinhos
pedindo que o mundo se emendasse. Quer dizer, cessasse de pecar e fizesse
penitência. Os pecados eram a impiedade,
ou seja, a falta de fé. [dirigindo-se ao outro enviado da FSP]O Sr. não que
fumar? esteja à vontade. (Muito obrigado). A
impiedade e a impureza.
Depois, eu perdi as letras,
talvez seja C ou D.... (letra C).
C) Ela pedia além
disso que o Papa consagrasse a Rússia ao Imaculado Coração dela.
Depois, vem agora o
ponto ultra controvertido: Brito, o segredo foi
depois não é?
(Dr. PB – Sim).
É. No momento foi
isso.
(Dr. PB – O segredo
foi enunciado na aparição de julho).
Depois Ela revelou um
segredo que aquela - dos três pastores, uma sobreviveu, que é a Lúcia - devia
comunicar ao Papa e que ninguém conhece. É famoso [o assunto]. O Sr. talvez
tenha ouvido falar do famoso “segredo de Fátima”. À toda hora eu trato, é muito
discutido, ninguém sabe qual é o segredo.
FSP - Eram 3 segredos e um deles mantido em sigilo até hoje.
(Dr. PB – Duas partes
dizem que foram relevados).
Quais eram essas duas
partes?... Você querendo uma informação completa eu trouxe para os Srs. estes livrinhos que estão aí, do Dr. Antonio
Augusto Borelli Machado - é um dos dirigentes da TFP.
E aí o Sr. tem informação tudo quanto há de melhor sobre Fátima, mais
documentada, mais probo. Naturalmente eu compreendo que uma pessoa não
acredite, mas a acreditar é o que há de mais honesto. Ela é largamente
difundida às dezenas de milhares pela TFP, pelo Brasil inteiro. Os Srs. podem
levar, aí tem tudo.
FSP - Aqui conta então a história dos 3 segredos, dos dois que
foram revelados?
PCO - Tudo, tudo.
FSP - Quais eram? Eu não conheço os que foram revelados.
(Dr. PB – É que a
Rússia espalharia os seus erros pelo mundo. E esse, em 13 de Julho, não tinha
ainda o comunismo tomado conta da Rússia).
PCO - O Czar caiu depois.
(Dr. PB – E, se a
humanidade não se convertesse então viriam muitos castigos e algumas nações
desapareceriam).
PCO - Uma parte depois ficou secreta.
FSP - Ah, em conseqüência... e uma 3 ª então que só os próprios Papas
tinha conhecimento?
PCO - Exatamente não foi revelado. Aí os Srs. encontram tudo.
A conclusão de tudo
isso é a seguinte: (foi meu comentário [no
artigo do dia 9]) a impiedade e a corrupção de costumes subiram enormemente. De
fato a Rússia espalhou seus erros por toda parte.
Portanto, as condições
essenciais pedidas por Nossa Senhora não foram atendidas. E’ de se temer o
castigo. Isso é a teoria.
Agora, para abreviar,
para não tomar demais o espaço da FSP, eu não desenvolvi inteiramente [no
referido artigo], pus dentro a resposta
a uma objeção: então a 2 Guerra Mundial não foi esse castigo? Já não
estamos castigados?
Precisamente a 2ª
Guerra Mundial foi precedida por uma aurora boreal insólita. Esses fenômenos
luminosos nos Estados Unidos - aurora boreal ou não, quer dizer, a natureza
científica do fenômeno pouco importa,
tem sido muito discutido lá [nos EUA], se é aurora boreal, se é não sei
mais o que, vem uma porção de teorias científicas - seria uma espécie de bis e idem, porque anunciaria uma 2ª Guerra Mundial quando já houve
o castigo da Primeira.
FSP – Uma espécie de repetição, de video-tape
do que já aconteceu na II Guerra.
PCO – E’. Bem, eu não exprimi assim por não ter espaço, mas
está dentro do artigo.
A resposta é: por
declarações que a irmã Lúcia – eu não pus isso no artigo também - declarações
que a irmã Lúcia fez posteriormente à aparição, o castigo teria começado com a
2ª Guerra Mundial. Mas na concepção dela a Guerra Mundial começou com o Anschluss, com a anexação da Áustria pela Alemanha. O que é
uma coisa que se pode sustentar, foi o primeira extravasão do III Reich.
E esta Guerra atual
seria uma continuação da 2ª Guerra
Mundial.
Aí, naturalmente, a
gente tem que familiarizar um pouco a vista. O Sr. considera, por exemplo, a
guerra dos cem anos, a famosa guerra dos Cem Anos na Idade Média, teve
interstícios grandes, não são cem anos consecutivos de guerra. Nesta perspetiva
se compreende que esta Guerra Segunda seja vista como uma continuação...
FSP - Como o Sr. veria a correlação de forças dessa continuidade
da 2ª guerra Mundial?
PCO - Como é que começaria a 3ª Guerra Mundial?
FSP – Exato.
PCO – Ela não prevê. Nem eu trato disso no artigo. Realmente
não sei como é.
FSP - O atentado sofrido pelo presidente Reagan nos Estados Unidos
e pelo Papa na semana passada, isso teria alguma relação com a continuidade
dessa história?
PCO - Eu não tive isso em vista quando escrevi, porque eu
ignorava, não me passou pela cabeça o atentado ao João Paulo II.
(Dr. PB – O artigo foi
dias antes).
PCO - Eu entreguei na FSP um bom número de dias antes, o artigo
ficou uma semana na FSP sem ser publicado, depois... É até uma coisa engraçada.
Mandei até retirar o artigo porque eu fiquei com medo que ele fosse tido como
alusão, se fizessem alusões à situação interna do Brasil. Eu não quero me meter
em política brasileira. E aí o Frias Filho disse que ia sair no dia seguinte. “Ah
bom, se é para sair no dia seguinte, publique”. Ele publicou.
FSP - O Sr. diz a situação política interna teria alguma relação,
a questão das bombas...
PCO - É, exatamente, falava de calamidades, etc., etc. De
repente interpretam como... E eu não quero me meter na política interna
brasileira. Então mandei tirar o artigo, mas como o Frias disse que estava já
composto, etc., [disse-lhe] Está bom, então publique.
FSP - É que é tão grande o número de colaboradores da FSP que é
uma verdadeira fila, 2 ou 3 artigos por dia.
PCO – Pois è. Compreendo bem.
FSP - A FSP tem mais de 60 colaboradores.
PCO - Eu não vou tomar café, Amadeu. Você não toma Brito?
(Dr
PB – Já tomei)
PCO - Mas acaba sendo que “a posteriori” pode-se fazer uma
pergunta: por que, por exemplo, tomar só o atentado do Reagan e Fátima, a
aproximação dos fatos é um pouco forçada. Mas uma vez que houve, depois do
atentado contra o Reagan, o atentado contra João Paulo II, cabe perguntar sobre
atentado de João Paulo II e, por conexão, sobre o atentado contra Reagan. Cabe
perguntar.
FSP - E o Sr. que resposta daria à essa questão?
PCO - A resposta é essa: esses atentados tiveram causas
próximas, específicas que nós do público ignoramos. Não foram suficientemente
investigadas. Ou ainda não foram publicadas, eu não sei.
Mas o estado geral de
desordem, de tensão, de descontentamento do mundo inteiro, de algum modo se
reflete nesses atentados. E, esse descontentamento e essa desordem podem ser
vistos como efeitos da impiedade e da corrupção moral.
Agora, no que diz
respeito a João Paulo II, ao atentado contra João Paulo II, eu noto um nexo
especial com Fátima no seguinte... o Sr. me fez uma pergunta genérica, dos dois
atentados, não é? Eu respondi genericamente. Trato agora especificamente do Papa,
não é?
FSP - Sim.
PCO - É o seguinte: antes do atentado muitas pessoas não o
tomavam a sério levados por uma espécie de otimismo geral: “é improvável...”
Não tomavam a sério o aviso de Fátima levados por um otimismo geral: “essas
coisas não acontecem, desastres assim não há, etc.”
Agora, o atentado
traumatizou, a justo título, o mundo inteiro. São incontáveis os que se dizem a
si próprios que nunca pensaram que as coisas fossem tão longe.
O atentado lhes fez
que nós vivemos em dias excepcionais e que se nós não tivermos ouvidos abertos
para a mensagem de Fátima bem pode ser que sejamos surpreendidos pelas punições
previstas por Nossa Senhora.
FSP - E é nesse sentido que o atentado ao Papa poderia significar
um aviso de alguma coisa ainda mais grave que estaria para acontecer no mundo que
seria a continuidade da 2ª Guerra Mundial?
PCO - Até lá não vou, até um aviso não. Porque Deus não
encarregaria um bandido de executar um
crime para exprimir um aviso dEle. Isso não. Deus permite isto, mas não ordena,
não dispõe isso.
O atentado significa
um estado de desordem, pode ser visto como expressão de um estado de desordem,
o qual estado de desordem, por sua vez... Até, para dizer melhor, pode ser
visto como expressão da profundidade de um estado de desordem, a qual, por sua
vez, pode originar as guerras e outras catástrofes previstas em Fátima.
FSP - O Sr. tinha falado antes que não gostaria de falar sobre
política interna do Brasil. Mas se fizermos uma análise assim mais... digamos,
houve três atentados que abalaram o mundo esse ano. No caso brasileiro, além
dos dois já citados, o atentado do Rio Centro, não é? Como é que o Sr. situaria
o Brasil diante deste contexto mundial? Nós estamos colocados de que maneira
diante desse conflito, dessa desordem? o Sr. disse que é geral, é mundial; como
o Sr. veria o nosso país, hoje, dentro deste quadro?
O estado atual do
Brasil participa de agitação do mundo.
A atual agitação brasileira
participa da agitação mundial. E, como tal, ela está integrada no conjunto de
fatores que podem ocasionar uma expansão ainda maior dos erros do comunismo no
mundo, bem como tensões e agitações das mais variadas ordens, dentro do
panorama descrito por Nossa Senhora em Fátima.
Agora, um dado que o Sr.
porá ou não porá na entrevista, conforme interesse, mas que é preciso notar:
qual é a autenticidade da mensagem de Nossa Senhora a esses três pastores?
Então só porque três criancinhas aparecem contando que uma Senhora lhes disse isso,
faz-se esse movimento todo? Qual é a autenticidade? O que prova que essas
criaturas não fantasiaram, não sonharam, etc.?
As aparições de Fátima,
o livro do meu amigo Antonio Augusto Borelli Machado, que eu acabo de dar aos Srs., explica isso
perfeitamente bem. As mensagens foram sempre dadas às três criancinhas e
estiveram presentes multidões. E durante as mensagens deram-se fenômenos
meteorológicos dos mais importantes. O livro do Borelli
descreve isso “per longum et latum”,
com documentação do tempo, muito bem apanhado, etc., o movimento do sol no céu,
modificações de cores, movimentos do sol como que caindo em relação à terra.
Tem fotografia no livro. E vistas não só no lugarejo Fátima, mas em várias
cidades dos arredores. Portanto é um fato. Agora, também marcante é que as
crianças não podiam ter idéia de que o comunismo ia subir na Rússia.
(Dr. PB- Elas não
sabiam o que era Rússia).
PCO - E não sabiam o que era Papa. Tão criancinhas que perguntaram quem era o Papa
para o vigário.
O Sr. me faria gosto se
citasse o livro do Borelli, na entrevista.
FSP – Perfeito.
PCO - É um amigo muito benemérito e eu gostaria que o livro
dele tivesse esse realce.
FSP - No caso do Brasil, o Sr. poderia citar casos concretos, o
que está acontecendo no Brasil que prova o acerto das revelações de Fátima? Os
castigos que poderiam acontecer no mundo e particularmente no Brasil, neste
século. Porque há uma continuidade em tudo isso, como o Sr. diz desde o início,
os fatos não surgem assim de uma hora para a outra, é todo um processo. Que
exemplos teriam hoje no Brasil dessa degradação de costumes, de impiedade, como
é que o Sr. vê assim, citando fatos concretos, no Brasil de hoje?
PCO - Eu não poderia dizer, realmente, porque para entrar nos
fatos da vida pública, da vida política, eu não quereria. A TFP é uma
organização extra- partidária. E ela só intervém na vida pública no que toca à
defesa dos princípios fundamentais da civilização cristã.
Nós tomamos como
critério de julgamento os 10 Mandamentos da lei de Deus. Se nós confrontarmos
os costumes em vigor em 1917 no Brasil com os que estão em vigor hoje, veremos
que... Vamos dizer se os de 1917 os transgrediam com uma amplitude ou gravidade
igual a “x”, hoje é igual a “x” multiplicado por “x”. De um lado.
De outro lado, o divórcio,
a implantação do divórcio no Brasil marca bem o distanciamento dos costumes
sociais em relação aos Mandamentos.
A extensão da
limitação da natalidade; noutro campo, sócio- econômico, a socialização não só de
metade do parque industrial brasileiro mas socialização progressiva por
impostos gigantescos; a concentração de populações, parte das quais gravemente
carentes, em centros urbanos hipertrofiados quando o nosso país tem abundância
de terras devolutas que deveriam ser povoadas; os recursos quase inesgotáveis
do mar, insuficientemente aproveitados para manter a população etc.
Nós temos um quadro
que causa preocupações profundas, porque se o quadro é morboso
por vários lados, doentil por vários lados, esse
gênero de doenças o comunismo as infecciona, agrava-as e nutre-se delas. Nós
somos aproximados da frase de Fátima: “o comunismo espalhará seus erros”.
E aqui está o nexo
entre uma coisa e outra.
FSP - No caso da Itália, um outro fator também. O Sr. falou em
controle de natalidade: lá a questão do
aborto, parece que foi votado ontem.
PCO - É Lastimável. Tanto mais que a Itália é um país, por
si, de emigração. Se no período que antecedeu a emigração os italianos tivessem
praticado o aborto, que enormes riquezas decorrentes do fluxo imigratório
teriam sido tiradas ao Brasil, Argentina, sobretudo, um pouquinho no Uruguai...
Quer dizer, não tem espaço, aborta?! Não! Não tem espaço, emigra!
FSP – Dr. Plinio, uma coisa que não entendo é o seguinte: que o
caso do aborto na Itália podia ser um dos motivos do castigo, previsto por
Fátima; mas o caso que não consigo entender é como é que o próprio Papa seria
castigado por isso, no caso do atentado. Essa ligação é que não consigo
entender. Porque o Papa todos os domingos fazia uma campanha contra a
legalização do aborto na Itália. Exatamente no momento em que seria votado o
aborto ele é vítima de atentado. Quer dizer, o castigo atinge o próprio Papa.
Essa questão é que não consigo entender.
PCO - Mas é que o Sr. está se colocando num ponto
de vista, está aceitando como liquida uma coisa que eu não aceitei, na pergunta
que eu lhe fiz: é que esse castigo tenha sido ordenado por Deus. Eu disse o
contrário: esse castigo resulta de circunstâncias gerais que Nossa Senhora em
Fátima denunciou como más. Dessa corrupção sai como uma bolha de dentro de um
pântano, entre outras coisas, o crime contra o Papa.
FSP - No caso o Papa seria apenas instrumento de uma coisa que
atingiu a humanidade.
PCO - É, ele é uma das vítimas.
FSP - Contra a humanidade, atingindo o Papa toda a humanidade era
atingida, nesse sentido.
PCO - Mas ainda: assim como a humanidade é atingida em mil
pontos, o Papa, que é um membro
muitíssimo insigne da humanidade, também foi atingido. Quer dizer, não foi Deus
que mandou o criminoso castigar o Papa, não se trata disso. E’ como uma
epidemia. Uma epidemia é um castigo. Morre durante a epidemia o Papa - vamos
imaginar. Não quer dizer que a epidemia foi desfechada contra o Papa. Aqui
também. Uma onde crimes. Um crime desses pega o Papa. Isso não quer dizer que a
morte do Papa tenha sido ordenada diretamente em castigo. Quer dizer que um
fato, que é de si fruto de uma desordem
e a desordem é um castigo do mal, é um fruto e um castigo do mal, então atingiu
vários homens, entre outros um homem insigne, eminente como o Papa.
FSP – E que está dentro de um contexto universal e do terrorismo.
PCO - O terrorismo.
FSP - Tudo é terrorismo.
PCO - Tudo é terrorismo.
FSP - A violência que existe no mundo hoje, qual é a análise que a
TFP, que o Sr. faz dessa questão de terrorismo, partindo desse exemplo do
Brasil, [com] mais de cem atentados terroristas que aconteceram nos últimos 2
anos? O que se pode fazer contra isso e qual é a posição de vocês diante desse
fato? E que é universal, mas que atinge muito a nossa terra.
PCO - Quer dizer, a nossa posição não responde à seguinte
pergunta: quais são os autores desse terrorismo? é um ator só? ou são vários
autores? E que relações esses autores tem uns os outros? Não atinge essa
resposta porque nós não temos senão as notícias de jornais, os jornais não dão
base porque não há! As polícias ou não tem ou não revelam o que se passa.
Então, qual é nosso
ponto de vista?
É outro. A TFP
uruguaia escreveu um livro como se chamava o livro mesmo, Brito? Eu posso mandar
ao Sr., eu não me lembro o título do livro aqui [“Izquierdismo
en la Iglesia:
“compañero de ruta” del comunismo en la larga aventura de los fracasos y de las metamorfosis”, 1976]. Mas ela escreveu um livro muito bem
pensado cuja tese é: o terrorismo Tupamaro foi um
artifício de guerra psicológica revolucionária - para usar a expressão
americana – da psywar,
para fazer caminhar no público uruguaio a aceitação do comunismo. O fundo de
quadro de tese é que as guerrilhas na América do Sul também foram artifícios da
psywar, com
um fim, em última análise, propagandístico.
Se o Sr. quiser,
portanto, uma “show-war” como artifício da psywar.
Agora se se admite isso, nasce a pergunta: o terrorismo não será
também artifício da “show-war”? Mas não passa de uma
pergunta, nós não temos dados para afirmar.
FSP - Parece que depois dos Tupamaros no
Uruguai, Montoneros
na Argentina, guerrilheiros no Brasil, esses movimentos de luta armada
de esquerda parece que foram contidos pelos regimes militares na América
Latina. E o que se nota hoje, no caso específico do Brasil, pelos menos todas
as evidências são essas, é que já não se
trata de grupos armados de esquerda mas seriam grupos de direita insatisfeitos
com a abertura política no Brasil. E que toda a grande imprensa...evidentemente
não há provas como o Sr. mesmo disse, ninguém foi preso ainda, não foi esclarecido nenhum atentado. Mas as
evidências são essas na medida em que os alvos, geralmente, tem sido alvos da
oposição política ou membros do clero progressista, entidades de esquerda que
são atingidas pelo terrorismo. Enquanto que antes, no início dos anos 70, na
década de 70, os alvos eram o Exército, entidades mais conservadoras. Me parece
que houve uma inversão nisso, no Brasil. O Sr. encontra com isso? O Sr. pensa
que esse é um raciocínio correto?
PCO - Eu não acho que haja elementos para fazer uma...
FSP - Os terroristas de hoje seriam fundamentalmente diferentes e
os objetivos, dos da década passada.
PCO - Visando até finalidades diversas.
FSP - Exatamente.
PCO – Na minha opinião pessoal nada disso foi demonstrado. E
eu sou muito céptico a esse respeito
porque vejo de permeio a suspeita inteiramente infundada e tola,
veiculada de cá e de lá, de que a TFP teria ligação com isto. Agora eu vejo que
isso é totalmente falsa essa acusação de que a TFP tem adestramentos para
violência e tem armamentos, que seria
portanto propensa, pelo menos, ao terrorismo. Não tem nem sequer semelhança de
fundamento. Tanto é que um ou outro indício que se tem pretendido alegar nesse sentido é fraudulento.
Há anos que de vez em quando sai essa cantilena. Eu me lembro que uma vez se
publicou - para dar assim uma aparência de verdade - a fotografia da uma de
nossas sedes, com um longo muro, no alto do qual tem uma caixa d’água. E a
idéia era para dar a impressão que por detrás dessa caixa d’água - não estava
dito - mas (insinuado) era uma torre de comando, de observação. E o muro, um
longo muro sem portão, portanto misterioso...
FSP – Esse tipo de coisas já é antigo; recentemente não tem havido
nada a esse respeito.
PCO - Não, não, acusações sim. Ainda outro dia houve um caso;
de vez enquanto quando metem pelo meio entre as organizações que estariam
promovendo esse terrorismo, estaria a TFP. Terrorismo dito de direita.
Então, esse terreno,
com esse tal muro, “in concreto”, é um terreno que
tem duas de suas faces tomadas por uma
tela de arame, não tem muro nem nada, é todo visível. O repórter fotografou o
muro do outro lado e esqueceu de dizer que o terreno é todo visível. Está vendo
que é artifício banal...
FSP – Por que a TFP fundamentalmente condena qualquer tipo de
violência, de terrorismo, venha de onde vier.
PCO - Qualquer tipo, não pratica.
FSP - E condena os que praticam.
PCO - Condena.
FSP - Para finalizar, Dr. Plinio, diante deste quadro todo
conturbado que existe hoje no Brasil e no mundo, qual é a posição de vocês? Qual
é a solução, qual o trabalho que vocês fazem para mudar isso? Qual é a saída diante deste quadro?
PCO - Nossa atuação não visa fazer tudo para mudar tudo. Ninguém
é capaz disso.
(Dr. PB – Traz o livro
da TFP Uruguaia).
FSP - O Sr. estava dizendo: nossa atuação visa fazer tudo para
mudar tudo.
PCO - Não é esse nosso empenho. Então vem sugestões para nós:
por que não cuidamos do problema do menor? Por que não cuidamos de sei lá do que... da ação social, etc. Simplesmente
porque outros fazem, outros devem fazer.
Nós não podemos nos incumbir disso tudo.
Nós somos uma
componente de um esforço geral, não podemos absorver esse esforço geral, não
podemos arcar com ele.
Agora qual é o nosso
ponto?
Nós partimos da
convicção de que a difusão de erros
contrários a doutrina social ensinada pela Igreja prejudica a fundo
qualquer solução que se queira dar a qualquer problema sócio-econômico.
Reciprocamente, a
difusão da doutrina positiva, com seus acertos, favorece a fundo. Nós temos
agido no sentido de combater, no plano ideológico, esses erros, e difundir as
suas verdades. É, portanto, uma organização essencialmente doutrinária.
Agora, ela tem um
aspecto caritativo em caravanas que nós temos por todo o País, caravanas de
jovens. Eles costumam visitar hospitais, orfanatos, favelas, levando auxílios ora
materiais, ora sobretudo de caráter espiritual: rosários, medalhas e outras
coisas assim... conselho, uma boa palavra, uma conversa com um doente, etc.
Meu caro, o Sr. está
indo muito além de Fátima, hein?
FSP - É ...
PCO - A folha vai publicar tudo isso?
FSP - Um assunto puxa o outro...
PCO – A FSP vai publicar tudo isso?
FSP - É o seguinte Doutor Plínio: eu escrevo a entrevista toda,
depois aí depende do espaço do jornal. Às vezes a gente escreve 10 laudas e sáem 5 ou 4...
PCO - O Sr. não tem receio que o Sr. esteja tomando muita
nota...
FSP - Não...
PCO - E que depois estejamos perdendo nosso tempo, não?
FSP - Não, não. Eu acho que repórter tem que perguntar tudo, um
assunto vai puxando o outro, a gente tem que escrever e tentar publicar tudo.
PCO - Sobre a TFP eu dei ao meu amigo Casoy,
ao Frias, ao filho do Frias, etc., um livro que publica a história da TFP. Foi
publicado a coisa de um ano atrás, mais
ou menos, e contém tudo isso. Possivelmente esteja lá pela biblioteca da FSP. Mas, em todo caso, eu
estou respondendo de muito bom grado às suas perguntas, estão sendo feitas de
modo muito simpático, mas eu me reservo, se a coisa não sair inteiramente na
linha que a FSP publique uma retificação amistosa...
FSP – Claro!
PCO - Porque essas matérias são muito delicadas.
FSP – Porque ninguém é infalível. Quer dizer às vezes o repórter entende
mal uma frase e sai...
PCO - Não em matérias muito delicadas, por exemplo a questão
de que o crime contra João Paulo II não foi mandado por Deus, ele foi alvo de
uma situação que atinge muitas pessoas, como uma epidemia poderia atingir, é um
pensamento que é necessário estar bem preciso para não entrar em contradição
com a própria doutrina católica.
FSP – O que eu posso sugerir ao jornal é que antes de publicar a matéria que submetam ao Sr. para ver se está
correta.
PCO - É um bom procedimento entre amigos.
Mas o Sr. querendo me
perguntar mais algo esto a sua disposição.
FSP - Não, eu acho que todas as perguntas que eu gostaria de fazer
eu fiz).
PCO - Está muito bom.
FSP - Dr. Plinio,
muito obrigado.
PCO - Tive gosto em
vê-lo.
FSP - Muito obrigado.
PCO - (Ao outro
repórter). Muito gosto, passe bem.
(Até logo).