Catolicismo, Dezembro de 1983 (www.catolicismo.com.br)

 

"Catolicismo" reproduz, para seus leitores, a entrevista do Presidente do Conselho Nacional da TFP ao jornal "Edição Mineira", de 5/12/83

 

O PROF. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA FALA SOBRE A ATUALIDADE BRASILEIRA

 

n Que força o Sr. atribui à esquerda no Brasil, e onde é especialmente forte?

SE POR ESQUERDA se devem entender as correntes cujo pensamento é esquerdista tanto nas cúpulas como nas bases, creio que a esquerda no Brasil é muito fraca. Bem entendi­do, existe o PCB e o PC do B. Mencionando os dois partidos, entretanto, não reconheço a auten­ticidade desta distinção. Ela presta ao comunismo — globalmente considerado — o serviço de permitir que os intelectuais façam propaganda ideológica à vontade e comodamente, ao passo que, de outro lado, os agitadores e mazorqueiros a serviço do comunismo fazem toda espécie de perturbação da ordem. Sem embargo, a repressão a estes últimos não prejudica os intelectuais, pois o PCB e o PC do B não se confundem.

Além do PCB e do PC do B, existem, em certos setores da opinião pública brasileira, laivos mais ou menos imprecisos de socialismo. Há mais ou menos por toda parte, mas notadamente na camada de nível sócio-econômico mais alto, a ilu­são de que o socialismo constitui uma tendência rumo a uma política sócio-econômica voltada a favorecer as classes necessitadas. Enquanto tal, mereceria ele alguma simpatia. E, naturalmente, também alguma desconfiança, porque as próprias pessoas que são levadas a interpretar deste modo benévolo a palavra "socialismo", têm o receio de que — a par desse desejo de beneficiar as classes pobres — os socialistas abriguem na alma o desejo de inverter a ordem social. E é por esta mesma razão que, embora os laivos de socialismo sejam, sob algum ponto de vista, generalizados, entretanto o socialismo progride pouco. Muitos dos que simpatizam com ele... dele desconfiam.

Além disto, há partidos que se dizem mais ou menos socialistas, ou mais ou menos esquerdistas: que densidade de esquerdismo e de socialismo real apresentam? Sou inclinado a pensar que é uma densidade muito pequena. Suas bases eleitorais não têm sentido socialista. São levadas aos respectivos partidos por amizades pessoais, por preferências individuais a favor deste ou daquele candidato etc. Entre as próprias cúpulas partidárias, a tendência para dar um colorido socialista ao partido exprime muitas vezes o desejo de obter o apoio dos meios de comunicação social. Nestes, sim, a influência comunista e socialista é bastante grande. E, afirmar-se socialista, com prudente moderação, é abrir para si as portas de numerosos jornais, rádios e TVs. Combater o socialismo ou o comunismo é, pelo contrário, fechar essas portas.

Como o Sr. vê, o socialismo e o comunismo são, deste ponto de vista, poderosos. Eles têm sobretudo apoios preciosos em dispositivos cha­ves de formação da opinião pública. Mas, por mais que os grandes órgãos de comunicação social façam propaganda socialista, o grosso da opinião pública se conserva céptica em relação a ela. Se, portanto, o comunismo e o socialismo têm no Brasil alguma capacidade de influenciar e de agir — e isto eu não nego — tal capacidade provém de outra fonte. Isto é, da chamada "esquerda católica". Esta, sim, é bastante genera­lizada no Clero. E, com o apoio bem menos eficaz de setores da alta burguesia e dos círculos da chamada "intelligentzia" nacional, a "esquerda católica” constitui uma alavanca bastante grande. Mas que só tem verdadeira influência popular em razão do prestígio eclesiástico, imensamente maior do que o dos lideres de salão ou de livraria.

n Muitos no Brasil consideram a Igreja Católica a força mais ativa no cenário nacional. Como é notório, ela se dividiu em várias correntes que se combatem, o que a impede de se manifestar univocamente. Os católicos, em boa parte, não sabem bem a quem seguir. O Sr. pensa que um grande encontro das lideranças católicas para um debate público de suas posições, seria benéfico? Pelo menos, ajudaria a esclarecer posições?

DESDE QUE esse encontro seja bem orde­nado, e se realize com a seriedade e o méto­do necessários, sou entusiasta dele. Já tive ocasião de propor um encontro desses em mais de um artigo na "Folha de S. Paulo". Como o Sr. sabe, os artigos que escrevo para esse matutino são reproduzidos em vários outros órgãos da im­prensa nacional. Dos elementos da "esquerda católica" não tive a menor repercussão favorável. Em rigor, isto deveria causar estranheza, porque a "esquerda católica" se gaba de favorecer todas as manifestações livres da opinião. Não posso compreender como, precisamente no relacionamento entre católicos, ela não se manifeste também propensa a tal. Na Europa é tradição que os intelectuais católicos, não só clérigos como leigos, se reunam periodicamente para debate dos grandes temas nacionais, debaixo do ponto de vista católico.

Concordo com os que pensam que a Igreja é hoje uma das forças mais atuantes do cenário nacional. Mas sou obrigado a dizer que, infeliz­mente, a "esquerda católica" é atuante de modo todo particular, porque ela dispõe de meios de ação relevantes. São os que passam pelas mãos da CNBB.

n Como o Sr. sabe, Dr. Plinio, a TFP é muito discutida e combatida. Qual o papel dela no Bra­sil contemporâneo?

MEU CARO, NÃO sei porque o Sr. só diz que ela é muito discutida e combatida, não acrescenta que ela é muito aplaudida. A realidade descrita pelo Sr. seria, assim, mais completa. Aliás, não se pode ser muito discutido nem muito combatido, quando não se é muito aplaudido. Pois numa atmosfera de rejeição unânime, a discussão morre e o silêncio cobre aquele que é rejeitado. Como o Sr. bem diz, se há uma coisa que não cerca a TFP é o silêncio. Logo, em torno dela há também aplausos. Ainda que, a outros títulos, isso não fosse óbvio, pelas suas palavras se chegaria a tal conclusão.

O que faz a TFP no Brasil atual? Todo mundo o vê. Ela é uma entidade cívica que luta contra o socialismo e o comunismo no campo temporal, inspirando-se na doutrina católica tradicional do Supremo Magistério. Os sócios e cooperadores da TFP são todos católicos. Estou certo de que ela presta assim considerável serviço à civilização cristã em nosso País.

Quais são os setores em que a TFP é mais combatida, quais os setores em que é mais aplaudida?

Paradoxalmente, o setor social em que ela é mais combatida — no qual, entretanto, tem também preciosas amizades — é a alta burguesia. Na burguesia média, o número de amigos é maior, o número de adversários é menor. Na pequena burguesia e no operariado, a TFP é especial­mente benquista. E a expansão que fazemos no setor operário é considerável.

Registro com alegria toda especial que a TFP vai se expandindo extraordinariamente na juven­tude, especialmente entre os jovens muito jovens.

O Sr. me perguntará qual a eficácia da ação da TFP. É ela um antídoto especifico contra a ação da "esquerda católica", pelo próprio fato de com­bater o socialismo e o comunismo com base na doutrina católica. Creio que além do grande núme­ro de pessoas que aplaudem a TFP e que a apoiam — realizamos agora um Encontro de Correspon­dentes e Simpatizantes da TFP, residentes em 85 cidades de 13 Unidades da Federação, e no encer­ramento desse Encontro tivemos um compareci­mento de mais de 1.500 pessoas — é preciso notar o efeito da atitude da TFP junto à grande massa dos católicos, os quais, sem seguirem a TFP, pelo menos ficam com os olhos abertos para a "esquerda católica" e se mantêm esquivos em rela­ção à propaganda dela.

n Como resumiria a luta de sua vida e o sentido que ela tem a seus olhos?

QUANDO COMECEI minha vida pública, eu era estudante da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. O ambiente que encontrei era de tal maneira laico que parecia não haver, no meio estudantil de São Paulo, qualquer possibilidade de apostolado.

Inscrevi-me aos 20 anos no Movimento Ma­riano que então começava sua grande expansão. E, a partir desse momento, iniciei uma luta dentro da própria Faculdade de Direito a favor do apos­tolado católico. Fundamos um movimento cha­mado Ação Universitária Católica, que foi o pri­meiro movimento católico universitário constituí­do naquela época em São Paulo. Quando termi­nei meu curso, tive a alegria de conseguir que ali se rezasse a Missa de formatura, e no próprio pátio da Faculdade. Foi pregador o grande inte­lectual católico Pe. Leonel Franca. Na atmosfera da Faculdade de Direito, uma brecha estava aberta em favor da causa católica.

No começo dos anos 40, a nota dominante de minha ação se alterou. Em vez de ser exclusi­vamente voltada para os que não são católicos, ela mudou, porque fui posto diante da realidade brutal da penetração do progressismo e do esquerdismo nos meios católicos. Dei-me conta imediatamente de que a salvaguarda do futuro do Brasil estava nas mãos daqueles que lutassem para que os meios católicos não se deixassem envolver por essas duas más tendências. E então, escrevendo o livro "Em Defesa da Ação Cató­lica", rompi fogo, dentro do movimento católico, contra o esquerdismo filosófico-teológico, como contra o esquerdismo sócio-econômico. Minha luta, de lá para cá, tem sido uma defesa da opi­nião católica contra a investida, ora aberta ora velada, dessas correntes de opinião.

n Tem discordâncias com o rumo tomado pela Revolução de 64? O que esperava dela?

ANALISO AQUI a Revolução de 64 do ponto de vista dessa luta contra a infiltra­ção esquerdista na Igreja. Acho que a Re­volução criou alguns óbices dessa infiltração, aplicando a Lei de Segurança Nacional — nem sempre com inteira justiça e senso de oportuni­dade — a eclesiásticos e civis que procuravam atuar em nome do pensamento católico. Entre­tanto, não me parece que ela, sequer de longe, tenha cumprido sua missão nesse sentido. Expli­co-me.

A Revolução de 64 não deveria ter tido uma ação ideológica apenas negativa, mas também positiva. Ela deveria ter aberto os olhos do povo brasileiro para os males e os riscos do socialismo, que proximamente conduz ao comunismo. Pelo contrário, a Revolução, nesta perspectiva, foi inteiramente a-ideológica. Ela adotou o princípio, com o qual não concordo, de que estabelecer a prosperidade é extinguir o socialismo. O grande achado da Revolução, em matéria de anti-socia­lismo, foi o chamado "milagre brasileiro". Hoje esse "milagre" está no chão, e a obra da Revo­lução contra o socialismo resulta frustra. Mais ainda, pelo enorme apoio dado à estatização, a Revolução, em vários de seus aspectos, tomou uma significação nitidamente socialista.

n E a abertura? Está satisfeito com ela ou pre­feriria o regime fechado?

TAMBÉM SOBRE isso já tive ocasião de escrever mais de um artigo na "Folha de S. Paulo". A TFP não tem posição tomada em matéria de regimes políticos. Assim, ela colabo­raria com uma ditadura que preservasse de fato o Brasil contra o perigo socialista e comunista; como também colaboraria com a abertura, desde que esta se fizesse em termos adequados. Na reali­dade, estamos tendo uma abertura cada vez mais acentuada, mas não me parece que as forças políticas que conduzem o processo de abertura o este­jam conduzindo bem. Elas em nada estimulam a manifestação das tendências autênticas da popu­lação, e por isso existe um abismo entre os partidos políticos de todos os matizes, e o sentir efetivo dos eleitores. A maior prova disso é, a meu ver, a obrigatoriedade do voto. Num país onde os partidos políticos representem o povo, o voto não precisa ser obrigatório: todo mundo vai votar espontaneamente. Quando o voto é obrigatório, é porque as chapas de candidatos não agradam ao povo. O que seria das eleições no Brasil se o voto não fosse obrigatório? Elas expirariam por falta de gente que a elas comparecesse.

Enquanto a abertura se deixar inquinar por esse erro considerável, não creio que ela corres­ponda a sua própria finalidade.

n Em 1933, o Sr. foi o constituinte federal mais jovem e mais votado no Brasil. 50 anos depois acha a proposta de uma nova Constituinte e eleição diretas para a Presidência da República, propugnada por importantes setores políticos, uma saída para a crise em que o País vive?

RESPOSTA ESTÁ prejulgada no item anterior. Se, a propósito da Constituinte, os partidos políticos, os meios de comu­nicação social e a CNBB encontrarem meios de fazer exprimir todas as correntes de pensamento do Brasil autêntico, talvez uma Constituinte seja um caminho. Pelo menos pode evitar o pior. Mas, se for para eleger uma Constituinte tão inautêntica quanto são inautênticos os partidos políticos correntes, então não vejo nisso solução para nada.

n Como o Sr. está vendo a crise econômica no Brasil e as últimas medidas tomadas pelo gover­no? Tem proposta para resolução dela?

NAO SOU ESPECIALISTA em matéria econômica. Minha contribuição neste as­sunto tem se cifrado a um ponto que, aliás, reputo de importância: o brasileiro médio não possui os dados necessários para formar um juízo a respeito de nossa situação econômica e das causas verdadeiras que empurraram nosso País, rico, a esta situação de pobreza. Eu mesmo tenho tido, com órgãos públicos, correspondência abso­lutamente sintomática neste sentido. Enquanto o brasileiro mediano não tiver opiniões formadas sobre a crise econômica e suas causas, o Brasil será manipulado por tecnocratas. E não me parece que na mera tecnocracia haja uma solução possível para nossos problemas. Para que o Brasil autêntico se represente em matéria econômica, é preciso que ele conheça qual é, autenticamente, a sua economia. E isso o brasileiro médio não conhece.

n Que acha da atuação dos governadores Franco Montoro, Leonel Brizola e Tancredo Neves, no atual momento político nacional?

COMPREENDO QUE, na perspectiva do momento político em que foram eleitos esses três governadores, podem ser objeto de uma pergunta global sobre sua atuação. Na realidade, me parece que hoje isto simplificaria excessivamente o quadro, pois enquanto vejo o governador Brizola caminhar resolutamente para a esquerda, e o governador Montoro tomar, face aos avanços da esquerda, atitude abstencionista e ineficaz, a atuação do governador Tancredo Neves é muito mais cauta, E por isto não creio que possa ser vista como um elemento componen­te da política dos governadores de São Paulo e do Rio. Eu seria propenso a vê-lo mais como um ele­mento intermediário entre os governadores Brizo­la e Montoro, de um lado, e o governador Jair Soares, do Rio Grande do Sul, cuja atuação me parece muito apreciável.

n Para terminar, o que pensa do conservadoris­mo mineiro? E, na sua opinião, qual a imagem que a Minas de hoje projeta no Brasil?

CONSIDERO o conservadorismo mineiro uma grande força. E profundamente simpá­tica. Mas afetada por aquela mesma letar­gia que prejudica tantas outras correntes sadias de nosso País. Os mineiros conservadores deveriam falar mais, agir mais, tornar mais quente a sua presença no cenário nacional. Com isto não estou nem um pouco pedindo que abandonem a pro­verbial discrição do mineiro em matéria política. Estou tão-só pedindo que, dentro dessa discrição, façam muito mais do que estão fazendo.

A imagem que Minas projeta no cenário nacional é, a meu ver, tríplice, debaixo desse ponto de vista. Antes de tudo, Minas é tida ainda como o grande bastião do conservantismo brasi­leiro. Mas, de outro lado, também há uma certa decepção dos conservadores do Brasil inteiro, porque a esperança que deitavam nos conserva­dores mineiros parece algum tanto comprometi­da, se eles não se puserem a agir desde já. Por fim, não deixa de ser verdade que as condições que cercaram a eleição do governador Tancredo Neves ainda deixam manter uma tal ou qual interrogação a respeito dele em Minas e fora de Minas. Qual será a atitude dele, na sucessão dos meses e dos anos, em face do conservantismo de seu Estado? A resposta a essa pergunta condi­ciona outra: qual será a atitude dos conserva­dores mineiros face a ele?

São perguntas delicadas, que só a um filho de Minas tocaria o direito de responder.