10 de dezembro de 1981
Entrevista para a revista “Isto É”
a respeito da publicação da Mensagem
sobre o socialismo autogestionário
Plinio
Corrêa de Oliveira – ...entrevista para repórter que
vem aqui, tira a entrevista e publica pedacinhos ou não publica nada.
“Isto É”
– Não, não... Isso é um absurdo. Eu só Não posso assumir o compromisso com o
Sr. de publicar tudo o que o Sr. disser. Depende de uma questão de limitação de
espaço...
PCO – Não.
I.E. – Não, a íntegra que a gente publica é sempre
fiel a tudo que o entrevistado disser.
PCO – Sei.
I.E. – Agora todo o que o Sr disser...
PCO – Ah, isto Não tem perigo; eu falo pouco.
I.E. – Perfeito. Então tá.
PCO – Então ponha a sua pergunta.
I.E. – A pergunta inicial seria sobre essa campanha
publicitária da TFP. Qual é a razão dessa campanha e o que ela pretende atingir?
PCO – A razão da campanha está declarada na própria
Mensagem que foi publicada no jornal “Washington Post”
e no jornal “Frankfurter Allgemeine
Zeitung”. Trata-se de uma Mensagem das 13 TFPs que
existem na América e na Europa à opinião pública ocidental. Ela quer esclarecer
o mundo a respeito da verdadeira fisionomia do socialismo autogestionário. Ela
mostra que este socialismo Não constitui algo de essencialmente interno do
comunismo, mas que representa a meta para onde o comunismo deverá chegar
segundo a doutrina de Karl Marx. O comunismo é,
portanto, uma etapa para chegar à autogestão. Mitterrand tenta atingir essa meta
diretamente sem passar pela etapa comunista.
Agora, a razão dessa campanha: Não se trata de uma
campanha propriamente dita movida contra algo; é de esclarecimento da opinião pública.
Por que esclarecê-la? Porque, na França, a opinião pública Não socialista e Não
comunista ignora em geral o verdadeiro sentido do socialismo, interpreta-o como
sendo uma versão benigna do esquerdismo. Esta mesma impressão existe nos países
ocidentais que Não são a França. E faz parte do programa de Mitterrand e do
Partido Socialista (PS) difundir a autogestão para o mundo inteiro. Por isso
mesmo também vai ficando moda aqui, lá e acolá um homem público, um pensador,
um escritor começar a dizer-se autogestionário.
I.E. – Isto no Brasil ocorre também?
PCO – Também.
I.E. – De que maneira...
PCO – Há declarações de mais de um político brasileiro...
I.E. – Por exemplo um deles?
PCO – Não tenho aqui. Tenho arquivado. Não me lembro de
memória.
I.E. – De algum partido especificamente?
PCO – É, eu não me lembro. Eu precisaria ver. Se
soubesse que os Srs. viriam agora eu teria arranjado. Mas enfim eu tenho isso
arquivado, que se dizem partidários do socialismo autogestionário etc.
Eu quero crer que eles não aprofundaram o estudo do
socialismo autogestionário, do contrário não seriam partidários. Mas nós temos
que esclarecer a opinião pública a este respeito. Há uma ofensiva mundial que
Mitterrand já começou intervindo na Nicarágua e El Salvador, nós devemos reagir
com um esclarecimento mundial também.
I.E. – O Sr. acha que ele chegaria com suas intenções atingir
o Brasil também?
PCO – Em vários lugares do Brasil, as Comunidades
Eclesiais de Base (CEBs) estão levando a efeito a realização das chamadas “chácaras
autogestionárias” que são uma aplicação do princípio autogestionário de
Mitterrand.
I.E. – A Igreja, no caso...
PCO – Pelo menos a corrente da Igreja que apoia o
socialismo autogestionário.
I.E. – Em quais lugares do Brasil especificamente em
que isso se dá?
PCO – Aqui também: no momento eu não tenho. Eu tenho a
documentação, mas não tenho à mão.
I.E. – Uma coisa que me causa curiosidade: o gasto foi
astronomico dessa campanha publicitária. Queria saber
de onde saiu esse dinheiro. Foi da TFP ou tem ajuda de outras organizações?
PCO – O dinheiro não saiu da TFP, nem há UMA TFP, nem
há UMA TFP em cena. São 13 TFPs autônomas, administrativa, juridicamente,
economicamente. Essas TFPs vão pedindo contribuições a vários doadores e é com
isto que se paga.
I.E. – E tem algum doador especial que deu o maior
volume de contribuição?
PCO – É muito difícil responder porque varia de acordo
com a TFP, cada TFP tem os seus doadores. Eu não estou habilitado a falar em
nome de outras TFPs.
I.E. – No Brasil, então...
PCO – No Brasil, há vários doadores.
I.E. – Mas qual deles?
PCO – O nome dos doadores eu não vou dar. Não vou dar
porque não tem propósito...
I.E. – Mas são empresas particulares ou é o povo de
maneira geral?
PCO – São vários particulares. Não estamos pedindo
dinheiro na rua. São várias pessoas.
I.E. – Até onde pretende chegar essa campanha? Em
quantos jornais vai sair?
PCO – É muito difícil dizer. Na medida em que nós
sintamos que o público está bem informado. E, de outro lado, que as
possibilidades econômicas permitam, nós levaremos a campanha. Nós vamos tocando
na medida em que a campanha interesse e apareçam novos doadores.
I.E. – Até hoje gastou-se quanto nessa campanha?
PCO – Também não estou habilitado a dizer. A TFP
brasileira ainda não fez nenhum gasto nisto até agora. Não publicou nada.
I.E. – A brasileira não?
PCO – Não.
I.E. – Mas saiu publicado com a sua assinatura, não é?
PCO – Ah! Sim. Eu sou o autor desse estudo.
I.E. – Quanto tempo o Sr. demorou para fazer esse
estudo?
PCO – Assim, no meio de minhas ocupações, não é o
tempo total, sem ocupar o dia inteiro, no meio de minhas ocupações foi uns 3 ou
4 meses, não é Fernando?
(Sr. Fernando Antunes – É, eu creio que sim)
PCO – É, uns 3 ou 4 meses.
I.E. – Que o Sr. demorou para fazer o texto?
PCO – Para fazer o texto.
I.E. – De quantas laudas ele se compõe?
PCO – (voltando-se ao Sr. FA) De quantas laudas ele se
compõe?
(Sr. FA – Não sei de memória)
PCO – O Sr. pode ter uma idéia... o Sr. já não viu?
I.E. – Eu ainda não vi. Está chegando para nós amanhã
dos Estados Unidos, o “Washington Post”.
PCO – Ah! Ah! É. O Sr. pode calcular por lá o número.
I.E. – O Sr. continua produzindo muito artigos como
este?
PCO – Quer dizer, este estudo é um estudo de fôlego,
que exige muita leitura. Evidentemente eu só produzo de quando em quando. Eu
normalmente colaboro para a “Folha de S. Paulo”, de modo até assíduo, e faço
conferencias, reuniões...
I.E. – O Sr. continua produzindo como nunca?
PCO – “Como nunca” eu não poderia dizer. Toda vida
produzi muito. Como sempre...
I.E. – Como sempre.
PCO – É.
I.E. – Quais são seus planos para os próximos meses ou
para o próximo ano? O Sr. tem algum plano especial em termos de produção literária?
PCO – Não, não. Em geral, a minha produção é calculada
de acordo com as circunstâncias. E os livros que eu escrevo são livros sempre
tomando em consideração fatos de momento; (eles) tem um “arrière-fond”
doutrinário necessário para tratar bem da matéria, para tratar largamente da
matéria, mas são sempre provocados por algum fato de momento. De maneira que há
ocasiões em que escrevo muitos livros, depois paro.
I.E. – No momento, no Brasil, como o Sr. vê a situação
atual? A situação política atual do Brasil? As eleições de 82...
PCO – Eu a vejo da seguinte maneira: infelizmente,
muita superficialidade nos conceitos, muita irreflexão nas atitudes, o que não eqüivale
a dizer que tudo não é senão superficialidade e irreflexão. Não chego até lá,
mas há muito.
I.E. – De parte de quem essa posição?
PCO – Em geral, das pessoas cuja opinião ressoa.
I.E. – Por exemplo do governo?
PCO – Eu não excluiria.
I.E. – Há uma pobreza ideológica?
PCO – Que há uma pobreza nas publicações de ordem
ideológica, há. Acredito que há na cabeça dos homens mais inteligência do que
aparece no que escrevem. Agora, por que é? É o caso de perguntar para eles.
I.E. – E a ameaça comunista continua existindo no País?
PCO – A grande ameaça, o grande perigo comunista está
na evolução da “esquerda católica” cada vez mais para a esquerda. Acho que o
socialismo autogestionário representa uma fórmula propagandística
que facilmente pode entusiasmar os meios católicos de esquerda.
I.E. – Certo. O regime atual como vem se desenvolvendo
favorece a proliferação do que o Sr. chamaria de “praga” comunista?
PCO – Favorece não. Eu não acredito. Eu acho que a
repressão movida no regime anterior foi uma repressão que não produziu nenhuma
utilidade do ponto de vista ideológico. Ela pode ter desarticulado conspirações,
mas ela não impediu que o esquerdismo entrasse pelas universidades, pelos
jornais, pelo ensino em geral, não só pelas universidades, e largamente se
difundisse pelo País. De maneira que eu não vejo que o esquerdismo tenha muito
mais liberdade de movimentos na difusão doutrinária do que tinha no tempo da
chamada ditadura quando as livrarias comunistas estavam abarrotadas literalmente
de livros que se vendiam a preços evidentemente inferiores à produção.
I.E. – Está certo. O Sr. acha que não há muita
diferença não da ditadura para agora?
PCO – Não... Acho que do ponto de vista ideológico não
há nenhuma.
I.E. – Nenhuma. O Sr. acha isto prejudicial?
PCO – Não, não. Eu estou dizendo o contrário. Acho que
do ponto de vista ideológico tanto faz. É contrário ao prejudicial.
I.E. – Ah, ah.
PCO – Quer dizer, do ponto de vista da conspiração
material etc., eu acho que a ditadura pode ter atrapalhado ao comunismo. Do
ponto de vista da difusão ideológica, eu acho que foi inócua.
I.E. – Inócua?
PCO – É .
I.E. – O Sr. teria uma fórmula para sugerir de futuro
político para o País?
PCO – Não porque não adianta eu sugerir uma fórmula no
ar; eu tenho que sugerir uma fórmula aceitável, quer dizer, que tenha
possibilidade de ser aceita. E esta deveria resultar de um debate ideológico de
nível alto que não está havendo.
I.E. – Perfeito.
PCO – De maneira que do ponto de vista doutrinário, o
País está no ar.
I.E. – Portanto o Sr. acha que não há uma definição
tanto ideológica, tanto por parte do Governo como da oposição?
PCO – Não, não há.
I.E. – O Sr. acha isto prejudicial?
PCO – Esta indefinição é prejudicial. Eu sou a favor
de debates sérios, amplos, largos...
I.E. – De fundo ideológico também...
PCO – De fundo doutrinário-prático: que se estudem as
condições econômicas do País, que se dêem informações ao País a respeito das
circunstâncias reais. Por exemplo a questão das terras devolutas: o que é que o
Brasil tem exatamente de terras devolutas ou não tem? Agora, segundo lugar:
quais são as dificuldades efetivas para se transferir para as zonas de terras
devolutas, em condições humanas a população da cidade que estaria sobrando?
Quais são as estatísticas efetivas que nos dizem bem qual é a população que está
sobrando com o desemprego de uma cidade ou não está? Ninguém tem dados
positivos a esse respeito. Eu andei procurando e não consegui.
I.E. – Não conseguiu?
PCO – Não consegui. Lei do Inquilinato: a CNBB vai
agora reunir-se em Itaici para tratar de reforma urbana. Eu receio que saia um
documento tão superficial quanto o que fizeram sobre a Instrução Pastoral sobre
a Terra e a reforma agrária. Quer dizer, sem dados... Tudo se resolve assim no
ar...
I.E. – Com relação às eleições especificamente, o Sr.
tem uma opinião própria a respeito disto? O Sr. acha que é o momento do País
votar e escolher os seus governadores, os seus prefeitos?
PCO – Se é o momento de votar? Seria o momento de
votar, desde que ele seja bem esclarecido e bem informado. Eu não vejo nem as informações
opulentas, amplas, fáceis, colocadas ao alcance do homem-da-rua, nem vejo os
esclarecimentos, as análises e fartas que dêem segurança.
I.E. – Então, o Sr. acha que não seria o momento hoje?
PCO – Ah! Eu acho que é o momento se andarem depressa,
se trabalharem. Pode ser perfeitamente o momento. Depende da utilização que
façam do tempo. Aliás, há mais de um ano que eu venho escrevendo pela “Folha”
pedindo isto: debates sérios, etc.
I.E. – Com relação à entidade...
PCO – Estamos andando depressa, heim? Ah! Ah!
I.E. – Para concluir o mais rápido possível. Com
relação à TFP: como é que é o momento atual dela? O Sr. considera que está em
ascensão, está numa grande fase ou ela está numa crise, não sei...
PCO – Crise não há nenhuma, graças a Deus.
I.E. – E como o Sr. define o momento atual da TFP? Ela
parece que está um pouco na rua, está mais recolhida. Seria isto?
PCO – Não, não, não. A TFP sempre esteve igualmente na
rua. Ela acaba de colocar, de vender no Brasil – e vender na rua – duas edições
do livro de minha autoria e do economista Carlos del
Campo...
I.E. – Como se chama?
PCO – “Sou católico: posso ser contra a Reforma Agrária?”
Quantos exemplares foram vendidos até agora Fernando?
(FAA – 22 mil)
PCO – O Sr. sabe que colocar 22 mil exemplares no
Brasil não é brincadeira, de um livro todo doutrinário.
I.E. – Vendido de mão em mão?
PCO – Vendido de mão em mão. Na rua.
I.E. – Esse dinheiro teria ido para a campanha essa
divulgada pelos jornais (contra o socialismo autogestionário)?
PCO – Para essa campanha geral (de difusão da referida
Mensagem sobre o socialismo autogestionário)?
I.E. – É.
PCO – Isso é uma questão contábil... ah! Ah! Ah! Eu me
espanto – o Sr. me permita uma estranheza – é o seguinte: é só sair essa notícia
que a TFP está fazendo essa campanha (de difusão da Mensagem), vem uma zoeira:
“De onde vem o dinheiro?” Eu pergunto: por que não perguntam de onde vem o
dinheiro do Partido Comunista? De onde é que vem o dinheiro de tanto partido
político que existe por aí? Do partido de Mitterrand, por que ninguém pergunta
de onde vem o dinheiro?
Depois, eu não compreendo o alcance dessa pergunta.
Porque, para ser franco, a pergunta ilide o assunto: ou o conteúdo da Mensagem
é benfazejo, verdadeiro, bom ou não é. Se o é, quem não aparece é, em todo
caso, benfeitores desinteressados que não querem aparecer...
I.E. – Certo.
PCO – Se é má, a gente deve dizer que documenta mal,
que a Mensagem está errada e não correr atrás do dinheiro. Aí, então, quem
espalha isto anda mal. Mas vem-se logo insinuando: “quem é que paga isto?” Como
se isto fosse uma coisa malfazeja. Isso é uma coisa benfazeja! Discutam
primeiro este ponto. Antes mesmo da TFP publicar essa Mensagem na imprensa
brasileira – ela deve ser publicada na “Folha”, eu já disse aqui...
(FAA – No dia 17)
PCO – No dia 17.
I.E. – Integralmente?
PCO – Ah! Integralmente, integralmente.
I.E. – Como anúncio pago?
PCO – Como anúncio pago, como matéria paga.
I.E. – Dia 17 agora?
PCO – Agora. 17 de dezembro.
I.E. – Na “Folha de S. Paulo”?
PCO – Na “Folha de S. Paulo” sim Sr.
I.E. – Vai ser o único veículo que vai publicar?
PCO – Não. Ah! Ah!
I.E. – Quais são os outros?
PCO – Eu só tenho tratado firme com a “Folha”.
I.E. – No “Estadão” (“O Estado de S. Paulo”) não sai?
PCO – Eu não tratei com mais ninguém.
I.E. – Agora, por que o ataque a Mitterrand...
PCO – Espere um pouquinho. Mas vamos ao caso: eu nem
sequer publiquei uma palavra sobre isso no Brasil e começa uma série de jornais
a perguntar: “De onde vem o dinheiro? De onde vem o dinheiro? De onde vem o
dinheiro?” É uma pergunta de segunda ordem...
I.E. – É.
PCO – Porque a pergunta capital é se a Mensagem é
verdadeira, se ela é benfazeja para o interesse público... Se ela o é, por que essa
pergunta? Se ela não é, comece a provar que não é. Uma pergunta que não se faz
a respeito de ninguém e começa a fazer com insistência a nosso respeito. Em
segundo lugar, fazem sem entrar no âmago da matéria. Por que não fazem
perguntas ideológicas? Aqui fica um convite a “Isto É”. Eu vou publicar isto (a
Mensagem) na “Folha”, “Isto É” que me ponha perguntas doutrinárias ou práticas
sobre a Mensagem. Eu atenderei com muito gosto. Porque essa é que é a coisa!
I.E. – Nós não fizemos porque ainda não recebemos o
texto, não é?...
PCO - É...
I.E. – Nós não fizemos porque ainda não tivemos o
texto...
PCO – É...
I.E. Seria possível nos fornecer uma cópia?
PCO – Os Srs. me pegaram aqui na rua. Os srs., aliás,
passaram por cima da.... faz parte também da tarefa do repórter. Vamos abrir a minha
casa com boa vontade, achando graça na habilidade com a qual vocês passaram por
cima do Colombo (secretário do Serviço de Imprensa da TFP). Mas não deixa de
ser...
I.E. – Agradeço muito a cortesia que o Sr. nos fez.
PCO – Não deixa de ser verdade que eu não tenho os
elementos aqui.
I.E. – Perfeito. Agora, eu gostaria de um comentário
do Sr porque o Mitterrand, no último momento? O Sr. acha que ele é tão
importante assim que precise de uma campanha de esclarecimento público contra
essa política que ele pretende?
PCO – Não, não. A pergunta não vai bem ao ponto. A
partir do momento em que ele foi eleito, tornou-se necessário. O documento ficou pronto nesse
momento. A partir do momento em que foi eleito, tornou-se necessário. Pouco
depois de ele eleito, algum tempo depois... não sei um mês, dois meses, eu não
tenho boa memória, comecei a cogitar nisso. Mas isso não se faz da noite para o
dia. É um documento trabalhosissimo.
I.E. – Quantas horas por dia o Sr. trabalhou nisso?
PCO – Também muito desigualmente porque levo uma vida
muito desigual. Às vezes eu fui para o interior e ali redigi algumas partes,
outras vezes trabalhei aqui. Então muito desigualmente.
I.E. – Mas foi um trabalho diário?
PCO – Quase diário pelo menos.
I.E. – Gostaria de um comentário seu sobre a sua vida
privada: como o Sr. está vivendo hoje? com que idade o Sr. está? como o Sr. está
de saúde?
PCO – Ah! Ah! Ah! Ah! Tenho que passar até por um
boletim médico... é engraçado... Eu devo fazer 73 anos neste mês e me sinto...
I.E. – E faz sessenta anos de vida de TFP?
PCO – Eu entrei com 20 anos no Movimento Católico,
portanto em 1928. De lá para cá tenho atuado na vida pública continuamente.
I.E. – E atualmente?
PCO – Atualmente eu sou o Presidente do Conselho Nacional
da TFP, fui o Fundador da TFP, fundei há 20 anos atrás a TFP...
I.E. – Conselho Nacional, não é?
PCO – Conselho Nacional. Sou o Presidente. E consagro
minha vida a isso. Escrevo para jornais, faço conferências, reuniões...
I.E. – Com quantos membros tem a TFP hoje no Brasil?
PCO – A TFP tem mais ou menos... passa de mil membros,
entre sócios e cooperadores. Os sócios propriamente são um número menor. Agora
nós temos em cerca de umas 300 cidades brasileiras Correspondentes que fazem
propaganda, tomam contato, são simpatizantes...
I.E – E no mundo?
PCO – No mundo, não tenho estatísticas exatas. É muito
desigual. A TFP norte-americana é muito
grande, a TFP – vamos dizer – equatoriana é bem menor, varia muito. Algumas são
mais recentes, se desenvolveram menos; outras são mais antigas, se
desenvolveram mais. O Sr. deveria ter um livro chamado “Meio século de epopéia
anticomunista”. Ali o Sr. tem todos os dados.
I.E. – Está atualizado ainda hoje?
PCO – Está, está, pelo menos em linhas gerais está.
I.E. – Além desta campanha – é a última pergunta
realmente...
PCO – Ah! Ah! Ah!
I.E. – Além da campanha contra o Mitterrand, qual a próxima
atividade da TFP no Brasil?
PCO – Depende das reações...
I.E. – Ele já está tendo reações?
PCO – Ah! Muitas. Eu tenho procurado me comunicar com
o nosso “bureau” em Paris, com o escritório da TFP
parisiense, com o “bureau” que temos em Roma, com a
TFP norte-americana... é uma impossibilidade! Os telefones vergam. Eles tomaram
telefones suplementares para atender às chamadas, às interpelações, etc., etc.,
de toda ordem.
I.E. – Alguma ameaça, algum atentado?
PCO – Ameaça, não. Não me consta pelo menos. Se
houvesse eu saberia.
I.E. – Que tipo de reação está havendo então? De
solidariedade?
PCO – As que eu conheço, as que eu conheço são
incipientes. O Sr. precisa pensar que isto (a Mensagem) saiu anteontem – as que
eu conheço são ou reações de apoio, ou umas reações contra são notícias de
jornal do gênero das que saíram algumas aqui no Brasil. Quer dizer, ilidindo a
questão e procurando apresentar a questão... Um jornal do Brasil, eu não quero
dar o nome, que declara: “TFP ataca a França”... Um disparate. O ataque não é à
França; é contra a doutrina do partido político prevalente na França. Esse
mesmo jornal, se a gente dissesse que um ataque ao PDS no Brasil dissesse que é
um ataque ao Brasil, protestaria. É uma exploração. É desse gênero... Por
enquanto é tudo quanto há de... – no Brasil e fora do Brasil – tudo quanto há
de mais soez. Mas eu espero que apareçam réplicas e ataques de mais porte, de
mais idoneidade.
Bem, meu caro, eu suponho que o Sr. esteja atendido
fartamente, não é? Eu estou com hora marcada...
I.E. – Perfeito. Eu lhe agradeço muito. Muito obrigado
igualmente. A conversa foi tão atraente que eu gostaria de ter uma outra...
PCO – Isso é muito amável, é muito amável, muito amável.
Eu gostaria de estar habilitado a lhes oferecer ao menos um cafezinho, mas não
estou com nada preparado para isso.
I.E. – Então, eu gostaria de pedir desde já então: a
partir do momento em que for publicado na “Folha de S. Paulo”, nós voltássemos
a conversar sobre a natureza...
PCO – Desde que seja sobre a matéria intrínseca e não coizinhas: se eu tive em vista tal homem e se isso... Essas
coisas... fuxico, não.
I.E. – Perfeito.
PCO – O artigo que eu publico na “Folha” amanhã – mas
aí é como colaborador – tem exatamente como título “Autogestão e fuxico”.
Porque a respeito da autogestão só o que tem saído por enquanto é fuxico.
(FAA – “Autogestão, dedo e fuxico”).
PCO – “Autogestão, dedo e fuxico”. Eu faço alusão
àquele dito engraçado dos estudantes da Sorbonne que há certas pessoas a quem a
gente, mostrando a lua com o dedo, olha para o dedo e não olha para a lua. Então,
eu digo: a gente trata de um tema doutrinário, eles olham para a pessoa e não
olham para a doutrina. Vamos tratar de doutrina, vamos tratar de coisa elevada.
Vamos deixar de fuxico.
I.E. – Ah, ah. Perfeito.
Bom, desculpe-me incomodá-lo.
PCO – Não Sr., me deu prazer.
I.E. – De novo, muito obrigado.
PCO – Espero que a coisa (entrevista) saia sem
fuxico... (risos) Passe bem.
I.E. – Igualmente. E boa sorte na sua campanha.
PCO – Obrigado.