Folha de S. Paulo, 21 de maio de 1972
A
agenda
Tal é
o entrelaçamento das confrontações ideológicas, políticas ou econômicas
no mundo hodierno, que, por vezes, fatos desenrolados fora de um país
podem afetar mais a existência dele do que de outros - ainda que
importantes - ocorridos dentro dele.
Assim, se bem que se tenham verificado ultimamente no Brasil alguns
acontecimentos que convidam com grande força de atração a um comentário
- a expulsão do Pe. Comblin é um deles - tenho preferido analisar com
meus leitores acontecimentos internacionais dos quais depende, no que há
de mais essencial, o futuro do mundo. E, pois, o de nosso País.
E por
isto trato hoje das conversações que se iniciarão agora em Moscou. Nelas
Nixon bem poderá jogar com Brejnev os destinos das nações e dos
indivíduos. Sim, meu caro leitor, do seu destino pessoal, como do meu. E
no que tem de mais alto como até no que tem de mais íntimo e miúdo. Tudo
pode ser afetado, desde nosso direito a crer e professar a verdadeira
Fé, até a qualidade do dentifrício ou do sabonete que usamos.
*
* *
Começo por manifestar minha perplexidade ante o vago e fluido das
notícias oficiais sobre a agenda das negociações. A alma de toda
negociação é a agenda. Ora, pelo menos até o momento em que escrevo -
isto é, sexta-feira cedo - sobre ela o que se tem dito é quase nada. -
Por que isto?
Procurei, então, conjeturar, de mim para comigo, qual seria tal agenda.
E para esse fim adotei um método simples e seguro. Quando dois chefes de
Estado confabulam, seu objetivo natural e primeiro é resolver os
problemas que afetam as boas relações entre ambos os países. Feita a
lista desses problemas, estaria - pelo menos em boa parte - composta a
agenda.
Não
levando em conta senão o que todos conhecemos, isto é, o publicado pela
imprensa, eis a lista que consegui fazer:
I -
Limitação das armas atômicas e convencionais. Com seu formidável poderio
industrial, os EUA têm possibilidade de se armar indefinidamente. Por
isto, a Rússia quer obter um compromisso de que os EUA não se armem
ainda mais. Ao mesmo tempo, ela continua a progredir na sua produção de
armamento atômico, e embora se disponha a aceitar, por sua vez, o
compromisso de se deter no surto armamentista, recusa qualquer
fiscalização a tal respeito. - Como sair desta, para Nixon, sem irritar
os russos, e correr assim o risco de uma súbita agressão atômica contra
seu país?
II -
A Rússia deseja formar uma federação pan-européia dos Urais até Lisboa.
O corolário dessa federação seria a retirada das tropas norte-americanas
sediadas na Europa. Aceita pelos EUA a proposta, as nações do Ocidente
europeu ficariam impotentes para conter uma ofensiva maciça -
psico-ideológica e militar - eventualmente desfechada pelo gigante
russo. A garantia única contra tal perigo seria a promessa soviética de
que essa ofensiva não seria realizada. Se Nixon aceitar como válida a
promessa, entrega virtualmente a Europa à Rússia. Se a rejeita, corre o
risco de imergir novamente o mundo na guerra fria, antecâmara da guerra
quente. - O que fazer?
III -
A Rússia se queixa do desnível entre suas condições econômicas e as do
Ocidente. E deixa entrever que, se receber poderosa ajuda técnica e
financeira ocidental - pública ou privada - seu ressentimento contra o
Ocidente baixará de nível. O que afasta o risco da guerra. Mas, ao mesmo
tempo, se a Rússia crescer em prosperidade poderá aplacar o
descontentamento interno e, paralelamente, equipar-se melhor para a
guerra. Se Nixon rejeitar as aspirações russas, enfurece o inimigo; se
as aceitar, fortalece-o. - O que fazer?
IV -
Ainda para aplacar seus ressentimentos, a Rússia sugere que a Europa
Ocidental lhe sirva de mercado consumidor de certos produtos básicos,
que ela pode fornecer. Gás de petróleo, por exemplo. Se, por eventual
sugestão de Nixon, a Europa Ocidental aceitar, ela terá que romper com
os atuais mercados que a fornecem, e assim desorganizar a economia de
várias nações amigas e aliadas. Se, pelo contrário, ela rejeitar a
proposta russa, nascerá nova tensão internacional, com risco de guerra.
- À vista disto, o que fará Nixon?
V - A
Rússia tem para com os EUA, uma dívida de guerra ainda não paga. - O que
fará Nixon? Deixará esse dinheiro aquecendo o bolso desse agressivo
devedor? Neste caso, não se desmoralizará ao cobrar dívidas de nações
aliadas? E se não as cobrar, para onde irá a economia norte-americana? -
A solução para os EUA consistiria, pois em cobrar da Rússia essas
dívidas. Mas isto, por sua vez poderá enfurecer a nação caloteira e
ameaçar ipso facto a paz do mundo. - Como agir?
VI -
A presença militar russa no Mediterrâneo é uma ameaça para toda a Europa
Ocidental. Ora, a Rússia não só exige essa presença, como a amplia
continuamente. E, ademais, quer expulsar daquele mar a marinha
norte-americana. Se firmar pé, a tensão internacional pode agravar-se
singularmente, e o conflito árabe-israelense - por exemplo - poderá
tomar características trágicas. Se Nixon ceder, terá perdido a Europa, e
os EUA se verão reduzidos a enfrentar, em condições já então precárias,
uma nova ameaça russa. - Isto posto, o que fazer?
VII -
Do Oceano Indico retirou-se a Inglaterra deixando um vazio que a Rússia
vai preenchendo inexoravelmente. A Índia vai sendo transformada em um
dominion soviético, e as jazidas petrolíferas do Irã vão ficando cada
vez mais ao alcance da garra russa. - Para Nixon, então o que fazer?
Resistir, com risco de caminhar para uma guerra? Ou ceder, aceitando uma
dramática perda de terreno em todas aquelas vastas, ricas e populosas
paragens?
VIII
- No Vietnã, todo o mundo vê o que se passa. É preciso ser cego para não
perceber que a Rússia quer assenhorear-se, a todo o custo, da Indochina.
Se Nixon resistir, mais cedo ou mais tarde arrebentará a guerra. Se não
resistir, entregará à Rússia uma posição-chave no mundo. Neste caso,
Formosa e a Coréia do Sul hoje, o Japão e a Austrália amanhã,
sentindo-se abandonados pelos EUA, serão arrastados a colocar no governo
homens de esquerda, que conduzam uma política de aproximação com a
Rússia.
- Se
Nixon aceitar isto, a que ficarão reduzidos os EUA? Se não aceitar,
expõe ele entretanto os EUA ao risco de guerra.
IX -
Por meio de suas embaixadas e consulados em todo o mundo livre, dos
partidos comunistas e para-comunistas, dos inocentes-úteis
(discutivelmente inocentes, indiscutivelmente úteis) de toda espécie,
como socialistas, progressistas, constestatários, hippies, etc., a
Rússia promove metodicamente a espionagem e a subversão em todo o mundo,
e nos próprios EUA. Cuba é uma garra russa pronta a enfiar-se na carne
viva da América do Norte. O Chile é outra garra já metida na América do
Sul. Os países livres resistem a custo, a esta ação subversiva. Se Nixon
pedir a cessação dessas atividades - que constituem obviamente um início
de guerra revolucionária mundial - obviamente nada obterá, pois a
Revolução mundial está na essência do comunismo. Se ele ameaçar de usar
idênticos métodos na Rússia, sabe que não será tomado a sério. Pois seus
agentes terão de enfrentar uma ditadura policialesca implacável. E,
ademais, a Rússia poderá encolerizar-se e soltar inopinadamente um
“dilúvio atômico” sobre duas ou três grandes cidades norte-americanas. -
Como então fará Nixon, sair-se desta?
X -
Seria impossível não mencionar ainda o problema China-Rússia. A se tomar
inteiramente a sério - e eu não a tomo - a existência de uma cisão
autêntica entre os dois “grandes” do comunismo, a Rússia, tão disposta à
aventura da guerra a propósito de outras questões, não se lançará à
mesma aventura, desde que perceba que Pequim está realmente no jogo de
Washington? Diante disto, o que resta a Nixon fazer?
*
* *
Ao
terminar a leitura desta agenda, o leitor se sentirá deprimido e com dor
de cabeça. Pois a situação faz lembrar a fábula do lobo e do cordeiro.
Só que, no caso presente, o papel de cordeiro é representado pela nação
mais forte, à qual tocaria o papel de lobo. E faz de lobo a nação mais
fraca, que deveria agir como cordeiro. Quase se poderia dizer que é a
fábula do lobinho e do cordeirão.
-
Como explicar esse paradoxo, ao mesmo tempo incompreensível e dramático?
Aonde nos
conduzirá ele?
Esperemos para
ver...