Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

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 "Folha de S. Paulo"

 

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11 de fevereiro de 1973 

Aplaudindo Nixon 

Em artigo de hoje, sexta feira, Gustavo Corção trata da nota injusta, contra ele bombardeada – em plena era de diálogo – pela Cúria Arquidiocesana do Rio.

Já está concluída minha colaboração semanal para a "Folha". Não quero,  contudo, que ela apareça sem um pronunciamento meu. Hei-lo em poucas palavras. Tratando o tema com a habilidade e a "verve" características de seu talento, Corção produziu uma verdadeira jóia...

E passo agora ao texto do artigo.

* * *

Elogiar é bem mais fácil do que censurar. É esta a tarefa que me cabe hoje. Tarefa, aliás, tanto mais grata quanto se trata de Nixon. Com efeito, não tenho poupado críticas – e das mais duras – à política internacional do Chefe de Estado em cujas mãos está, no plano temporal, a mais pesada parcela de responsabilidade pela defesa do Ocidente contra o comunismo. É óbvio que da imensa soma de poderes que o jogo das circunstâncias lhe pôs assim nas mãos, Richard Nixon vem fazendo uso para levar à autodemolição política o mundo que ele representa. Essa afirmação, pejada de graves censuras, eu a tenho feito reiteradas vezes.

Não obstante, é bem verdade que, no âmbito da política interna, Nixon está planejando uma série de medidas que não posso deixar de aplaudir. Faço-o com a alegria de um observador imparcial.

A revista "Time" de 5 do corrente informou quais as providências que o Presidente norte-americano estuda. A primeira é uma larga descentralização do Governo Federal, com o precioso corolário da diminuição dos programas sociais do Governo. Estes – pelo vulto que haviam tomado – vinham sendo qualificados de socialistas pela corrente conservadora da opinião norte-americana. Tal diminuição abrangerá cortes consideráveis nos gigantescos serviços de integração social dos negros e de outras minorias étnicas, nos subsídios à socialização da medicina e à construção de apartamentos pelo Estado. O plano de desenvolvimento comunitário e mais cem outros planos sofrerão reduções substanciais, avaliadas em 22 bilhões de dólares.

* * *

...Aplaudo calorosamente essas medidas.

* * *

Ao tomar conhecimento desta ampla mudança de rumo, é possível que alguns leitores, pelo contrário, se estarreçam: como pode um grande governo moderno atirar às urtigas problemas tão importantes?

Aqui está a chave da questão. Não raras vezes, um problema fica às urtigas porque o cuidado deles foi monopolizado pelo Estado. E o meio de o tirar das urtigas consiste em que o Estado o confie a outrem.

Os jornais estão cheios de notícias referentes ao fracasso dos Estados comunistas e socialistas. Até na Suécia, apresentada ainda há pouco como um modelo de prosperidade no socialismo, os problemas econômicos e sociais vão tomando vulto ameaçador. Este fato demonstra não só a incapacidade do Estado como fator exclusivo ou preponderante da solução de cada um dos problemas de um país, mas ainda, não poucas vezes, a insubstituibilidade (perdoe-me o leitor a palavra extensa e pesadona) da iniciativa privada.

A lição vale também para os Estados que não são – ou pelo menos não se consideram – socialistas. Na medida em que eles hipertrofiam suas funções, exercendo atividades que caberiam normalmente à iniciativa privada, caminham para o desastre, pois não resolvem, ou resolvem mal, muitos dos problemas a que se votam. E criam, ao mesmo tempo, problemas novos.

Retirando em parte o Governo Federal da esfera dos assuntos acima enumerados, Nixon não se desinteressa da solução deles. Pelo contrário.

Pretende o Chefe de Estado distribuir boa parte das verbas retiradas aos respectivos serviços federais, através dos Municípios. A medida é sábia, pois acaba com o gigantismo das imensas redes burocráticas centralizadas. Quanto mais local e autônomo um serviço, tanto mais humano, ágil e próximo da vida real.

Ademais, Nixon convocará, sem dúvida, os grandes órgãos da iniciativa privada para que liderem, na esfera própria, um esforço comum das miríades de órgãos privados menores, dos grupos sociais e das famílias, e se entreguem generosamente à solução daquelas magnas questões. Isto não é atirar os problemas às urtigas, mas pô-los nas mãos adequadas.

* * *

Vejo à distância o sorriso cheio de desdém de alguns leitores, à vista deste programa. De antemão prevêem divisão das opiniões, incerteza dos rumos e dispersão dos esforços. Para eles, a iniciativa privada é, em qualquer Estado, o grande doente. Confiar-lhe algo parece-lhes uma loucura. Seu sonho de felicidade coletiva se enuncia em termos de uma legislação opulenta, ideada e executada unicamente por técnicos de altíssimo bordo, por meio de imensas redes de repartições públicas ou de órgãos para-estatais. Naturalmente, evitam de fixar os olhos sobre o reverso da medalha, que é o acarneiramento de um povo inteiro, de dentro do qual não brota qualquer movimento espontâneo de vitalidade. Estado vivo governando um povo morto ou amortecido: tal é a verdadeira fisionomia de um país socialista, ou das zonas socializadas dos países não socialistas que estão na vanguarda do Ocidente.

A nação fica assim transformada numa triste e dócil “matière à gouvernement”, feita para ser docilmente feliz, como lhe mandam, e pagar exatissimamente os impostos que lhe cobram. Está à vista de todos o resultado da realização desses planos que nunca deveriam ter saído da esfera etérea das utopias.

O alegre resultado da política que Nixon se propõe inaugurar é bem diverso. Ele mesmo o formulou nesta frase pitoresca e feliz: "Já é mais que tempo de tirar o Governo das costas e dos bolsos dos norte-americanos".

* * *

Longe de mim afirmar que a esfera privada não precise ser estimulada, esclarecida e apoiada pela ação do Estado. Ou que não cabe a este uma função da mais alta importância no conjunto dos assuntos temporais. Importaria isto em negar a própria soberania nacional! Limito-me a dizer que à esfera privada cabe uma tarefa importante e essencial, na qual é estritamente insubstituível.

Quando o equilíbrio se instaura adequadamente nas relações entre uma e outra esfera, o país tem um povo autêntico. Quando o Estado exorbita de suas funções, o povo tende a desaparecer, para se transformar numa estrutura sem características nacionais, sem iniciativa, sem estruturas próprias. O povo se transforma em massa. Se massifica.

Ilustro este comentário com um dos mais belos e profundos textos de Pio XII:

"O Estado não contém em si e não reúne mecanicamente num dado território uma aglomeração amorfa de indivíduos. Ele é, na realidade deve ser, a unidade orgânica e organizadora de um verdadeiro povo.

"Povo e multidão amorfa, ou como se costuma dizer "massa", são dois conceitos diversos. O povo vive e se move por vida própria; a massa é de si inerte, e não pode ser movida senão por fora. O povo vive da plenitude da vida dos homens que a compõem, cada um dos quais – em seu próprio posto e a seu próprio modo – é uma pessoa consciente das próprias responsabilidades e das próprias convicções. A massa, ao invés, espera o impulso de fora, fácil joguete nas mãos de quem quer que desfrute seus instintos ou impressões, pronta a seguir, vez por vez, hoje esta, amanhã aquela bandeira. Da exuberância de vida de um verdadeiro povo a vida se difunde, abundante, rica, no Estado e em todos os seus órgãos, infundindo-lhes com vigor incessantemente renovado a consciência da própria responsabilidade, o verdadeiro senso do bem comum. Da força elementar da massa, habilmente manejada e utilizada, o Estado pode também servir-se: nas mãos ambiciosas de um só ou de vários que as tendências egoísticas tenham agrupado artificialmente, o mesmo Estado pode, com o apoio da massa, reduzida a não mais que uma simples máquina, impor seu arbítrio à parte melhor do verdadeiro povo: em consequência, o interesse comum fica gravemente e por largo tempo atingido e a ferida é bem frequentemente de cura difícil" (Pio XII, Radiomensagem de Natal de 1944, "Discorsi e Radiomessaggi", vol. VI, págs. 238-239).


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