"Folha de S. Paulo", 12 de maio de 1974
Mais um Cardeal em resistência
Era meu propósito comentar hoje os aspectos morais da queda do primeiro-ministro socialista Willy Brandt. Entretanto, chegou-me às mãos um documento de tal importância sobre a resistência dos católicos à política de aproximação do Santo Padre Paulo VI com os regimes comunistas, que não posso deixar de o levar ao conhecimento dos leitores. Trata-se de declarações do Emmo. Cardeal Yu Pin, Arcebispo de Nanquim, ora reitor da Universidade Católica de Taipé (Formosa). Publicou-as o boletim norte-americano "The Herald of Freedom", de 15 de fevereiro passado, em despacho da "Religious News Service".
Declarou o Purpurado àquela agência, não tomar a sério os rumores de que estariam em curso negociações entre o Vaticano e o regime comunista de Pequim. Acrescentou que "os católicos da China certamente não são simpáticos a esse tipo de atitude" e que o Vaticano não deve esperar que a China comunista modifique sua política anti-religiosa, "nem mesmo por razões de propaganda".
"Não nos agrada a sermos pacificados por outros" — aduziu Mons. Yu Pin. "Isso se chama oportunismo. Queremos permanecer fiéis aos valores perenes da justiça internacional. (...) O Vaticano pode agir de modo diverso, porém não nos comoveríamos muito com isso. Penso que é ilusória a esperança de que um diálogo com Pequim ajudaria os cristãos do continente (chinês). (...) O Vaticano nada está obtendo para os cristãos da Europa Oriental. (...) Se o Vaticano não pode proteger a religião, ele não tem muita razão para continuar no assunto. (...) Queremos permanecer fiéis ao nosso mandato, mas somos vítimas da repressão comunista. Sob tal aproximação (do Vaticano com a China comunista), nós perderíamos a nossa liberdade. Como chineses, temos que lutar por nossa liberdade."
A essas lúcidas e vigorosas observações, que lembram a "resistência em face" de São Paulo ante São Pedro (Galatas II, 11), o Prelado acrescentou a seguinte observação emocionante: "Há uma Igreja subterrânea na China. A Igreja na China sobreviverá, como os primeiros cristãos sobreviveram nas catacumbas. E isso poderia significar um verdadeiro renascimento cristão para os chineses."
O Cardeal defendeu também o direito de "lutar com armas" contra "a opressão", e conclui com esta frase empolgante: "Eu organizaria um verdadeiro exército, se pudesse, para proteger a Igreja."
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Cito estas palavras do Purpurado chinês, não só pela autoridade de quem a pronunciou, como também para ressaltar uma coincidência digna de nota.
Mons. Yu Pin tem diante de si um panorama fundamentalmente diverso daquele que está habitualmente ante nossos olhos. O Arcebispo de Nanquim tem sua atenção concentrada especialmente na China, enclausurada por uma "cortina", a de bambu. Entretanto, o modo pelo qual o Purpurado chinês considera a atual política do Vaticano em relação aos regimes comunistas coincide com a análise feita pelo Cardeal-mártir, Mons. Mindszenty, sobre a mesma política em relação aos regimes detrás da cortina de ferro. E — permita-se-nos acrescentar — com a apreciação que, em sua recente declaração "A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas / Para a TFP: omitir-se? ou resistir?" a TFP fez sobre a linha de conduta do Vaticano em relação ao Chile de Allende, à Cuba de Fidel Castro, etc. São as mais diversas partes do globo, em que a política do Vaticano suscita, em pessoas da mais indiscutível fidelidade à Santa Sé, idênticos reparos.