Folha de S. Paulo, 29 de maio de 1978
A Imagem que se partiu
Em sua brutalidade, o fato é este: o Brasil, há mais
de dois séculos, venera Nossa Senhora como sua especial padroeira. E
essa veneração se dirige a Ela sob a invocação de Imaculada Conceição
Aparecida.
Nossa Senhora Aparecida!
A exclamação acode freqüentemente ao espírito dos
brasileiros. E sobretudo nas grandes ocasiões. Pode ser o brado de uma
alma aflita que se dirige a Deus pela intercessão da Medianeira que nada
recusa aos homens, e à qual Deus, por sua vez, nada recusa. Pode
igualmente ser a exclamação de uma alma que não se contém de alegria, e
extravasa seu agradecimento aos pés da Mãe, de quem nos vêm todos os
benefícios.
A história da pequena imagem de terracota escura, com
o seu grande manto azul sobre o qual resplandecem pedras preciosas, e
cingindo à fronte a coroa de Rainha do Brasil – essa história encheria
livros. Esses livros, se fossem concebidos como eu os imaginaria,
deveriam conter não só os insignes fatos históricos que a Ela se
prendem, mas também, em opimo apêndice, as legendas que a piedade
popular a respeito deles teceu. É do amálgama de uma coisa e outra –
história séria e incontestável, e legenda graciosa – que resulta a
imagem global da Aparecida como ela existe no coração de todos os
brasileiros. – O escravo que rezava aos pés da Senhora concebida sem
pecado original, ao mesmo tempo que dele se acercava o dono inclemente,
as algemas que se rompem, o coração do amo que se comove etc.; - o
Príncipe Regente que saudava a imagem no decurso do trajeto que o levava
do Rio a São Paulo, onde iria proclamar a independência e fazer-se
imperador; - o ato do novo monarca colocando oficialmente o Brasil sob a
proteção da Virgem Imaculada Aparecida; - a coroação da imagem com a
riquíssima coroa de ouro cravejada de brilhantes, oferecida anos antes
pela princesa Isabel, coroação feita em 8 de dezembro de 1904 pelos
bispos da Província Meridional do Brasil e de outros pontos do País, em
razão do decreto do Cabido da Basílica Vaticana, aprovado por São Pio X;
- o velho Venceslau Brás, ex-presidente da República, assistindo,
piedoso, no jubileu de prata da coroação da imagem, a missa
hieraticamente celebrada por D. Duarte Leopoldo e Silva, reluzente
daquela como que majestade episcopal tão caracteristicamente dele; - a
solene proclamação do decreto do papa Pio XI, de 16 de julho de 1930,
constituindo e declarando "a Beatíssima Virgem Maria, concebida sem
mácula, sob o título de Aparecida, padroeira principal de todo o Brasil,
diante de Deus"; - a apoteótica manifestação do dia 31 de maio de 1931,
em que o episcopado nacional, diante da milagrosa imagem levada
triunfalmente ao Rio de Janeiro em trem-santuário, na presença das
maiores autoridades civis e militares e em união com todo o povo – mais
de um milhão de pessoas! Consagrou o país a Nossa Senhora da Conceição
Aparecida. E assim por diante, sem falar das curas, aos milhares.
Quantos milhares? Cegos, aleijados, paralíticos, leprosos, cardíacos,
que sei eu mais! Multidões e multidões sem conta de devotos, vindas do
Brasil inteiro, com as mães contando às criancinhas, ao voltarem para os
lares, alguma narração piedosa sobre a Santa, inventada na hora ou
ouvida da avó ou da bisavó. Bem entendido, narração enriquecida, de
geração a geração, com mais pormenores maravilhosos. Quem conta um
conto...
Tudo isso levava o Brasil inteiro a emocionar-se – e
com quanta razão – ante a pequena imagem de terracota escura, vendo nela
o sinal palpável da proteção de Nossa Senhora.
E o sinal se quebrou.
Por sua vez, essa quebra não será um sinal? Sinal de
quê?
A julgar pelas narrações da imprensa, os pormenores
do fato ocorrido estão envoltos em mistério. Vistos em conjunto, os
noticiários da imprensa se contradizem em pontos importantes. Nenhum,
por exemplo, nos inteirou, de modo satisfatoriamente preciso, sobre o
grau de imputabilidade criminal do autor do sacrilégio, nem sobre o modo
concreto por que se deu o crime, nem ainda sobre as verdadeiras lesões
sofridas pela imagem. Da fronte venerável desta há de ter rolado ao chão
a coroa. Que foi feito dela? Foi esmagada? Danificada? Conserva-se
integra? Sobre tudo isto as notícias publicadas pela imprensa nada
revelaram. De sorte que nosso público habitualmente informado com inútil
luxo de pormenores acerca de qualquer crime do gênero dos que entram na
triste rotina das grandes cidades contemporâneas, entretanto pouco sabe
desse sacrilégio trágico que marca a fundo a História de Aparecida, a
História religiosa do Brasil, e por isto, pura e simplesmente a História
do Brasil.
Ora, esses pormenores poderiam ajudar a indagação
sobre o sentido profundo do que ali ocorreu.
Amigos meus que conversaram há dias com altíssima
personalidade eclesiástica dela ouviram que os sacrilégio teria relação
com a aprovação do divórcio no Brasil.
A hipótese faz pensar. Talvez, entristecida a fundo
pela promulgação do divórcio. Nossa Senhora, ao permitir o crime, tenha
querido fazer ver ao povo brasileiro seu desagrado pelo fato. Seria bem
isso? Sem dúvida, a introdução do divórcio foi um gravíssimo pecado
coletivo cometido pela nação brasileira. Poder-se-ia ponderar,
entretanto, que o ato representa muito mais um pecado do Estado do que
da Nação. Pois o povo brasileiro desdenhou olimpicamente o "presente"
que o Estado brasileiro lhe fez; está patente, hoje em dia, que ninguém
quer se divorciar.
Mas há dois aspectos pelos quais a aprovação do
divórcio pode ser relacionada com o crime sacrílego. De um lado, se o
divórcio foi aprovado, é porque a resistência contra o mesmo foi
insuficiente. A Nação dormitava quando o sr. N. Carneiro era aclamado
aos brados, pelo plenário do Congresso e por uma minoria que abarrotava
as galerias, logo depois da aprovação da lei. Essa soneira em hora tão
grave exprime, por sua vez, uma flagrante falta de zelo. Pois não nos
basta não fazer uso da lei. Se não a queríamos, por que não a impedimos?
Por sua vez, ainda, como não reconhecer nesse
censurável indiferentismo, não um estado de espírito de momento, mas uma
atitude de alma resultante de efeitos ainda muito mais profundos? Quando
a moralidade das modas decai assustadoramente, quando os costumes
sociais se degradam a todo momento e a limitação da natalidade,
praticada por meios condenados pela Igreja, vai ganhando proporções
assustadoras, prepara-se o caldo de cultura para o comunismo.
Este, embuçado em criptocomunismos, eurocomunismos,
socialismos e outros disfarces ideológicos, vai avançando. Como não
reconhecer nisto um complexo de circunstâncias nas quais se insere, com
toda a naturalidade o divórcio?
E, isto dito, como não lembrar a profecia de Nossa
Senhora, feita em Fátima pouco depois da queda do tzarismo?
Eis as palavras dEla: "Se atenderem a meus pedidos, a
Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo
mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão
martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão
aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará".
É impossível não perguntar se existe uma relação
entre essa trágica e materna previsão, desatendida pelo mundo ao longo
dos últimos sessenta anos, e a também trágica ocorrência da Aparecida.
Não será esta um eco daquela?
Um eco destinado especialmente ao Brasil, pois que
entre nós, e contra a Imagem de nossa Padroeira, o crime se deu.
Especialmente para o Brasil, sim; exclusivamente para
o Brasil quiçá não. Pois nosso país é o que tem hoje em dia a maior
população católica do globo. E Aparecida é, depois de Guadalupe, o
santuário mariano de maior afluxo de peregrinos em todo o orbe. Pelo
que, quanto aqui ocorra em matéria de devoção marial, tem um significado
para o mundo inteiro.
Muitos dirão que a ilação entre Fátima e Aparecida
não pode ser afirmada, por falta de provas cabais. Não entro aqui na
análise da questão. Pergunto simplesmente se há quem se sinta com base
para negá-la...