Um homem, uma obra, uma gesta –
Homenagem das TFPs a Plinio Corrêa de Oliveira
Plinio
Corrêa de Oliveira
fé,
coerência, liderança e valentia
Uma
grande e luminosa realidade: o movimento católico
TUDO PARECIA PROSPERAR na Igreja de Deus entre 1928 e
1935. Transcorriam normalmente os anos do pontificado de Pio XI. Naqueles anos
crescia no Brasil uma grande e luminosa realidade, que se chamava correntemente
o movimento católico.
Movimento
católico. A expressão designava o conjunto formado pelas
diversas associações religiosas e de apostolado, inertes umas,
extraordinariamente pujantes outras. Estendiam-se de norte a sul do País,
compreendendo várias dezenas de milhares de pessoas, de ambos os sexos e de
todas as classes sociais. Dentre as de maior vitalidade, sobressaíam as
Congregações Marianas, que constituíam, no seu conjunto, o movimento mariano.
O movimento
mariano, cuja expansão começara por volta de 1925 entre os jovens
brasileiros, principalmente da média e pequena burguesia, tivera no Congresso
da Mocidade Católica, em setembro de 1928, uma de suas primeiras afirmações
triunfais.
A partir de então estendeu-se de São Paulo a todo o
Brasil o grande surto das Congregações Marianas que, em 1933, demonstrariam ser
– como se verá – uma grande força nacional.
Elas prestaram à Igreja o incomparável serviço de –
num país em que a prática da Religião era tida em geral como própria apenas
para mulheres e velhos – atrair para ela, e para as atividades apostólicas,
legiões inteiras de moços de todas as classes sociais. Essa transformação abria
novo capítulo na vida religiosa do Brasil.
Todo o movimento
católico, que pela amplitude e variedade constituía um verdadeiro mundo,
progredia unido filialmente a um Clero no qual eram
numerosas as personalidades de valor e de prestígio, e a um Episcopado de não
menor valor, coeso e profundamente venerado.
A grande figura da Hierarquia católica do Brasil de
então era D. Sebastião Leme da Silveira Cintra, Arcebispo do Rio de Janeiro, o
único Purpurado brasileiro. No Estado de São Paulo, cujo território formava uma
só Província Eclesiástica, era figura exponencial, com merecida repercussão em
todo o País, o Arcebispo Metropolitano, D. Duarte Leopoldo e Silva.
Foi nas fileiras do movimento católico de São Paulo
que se formou o primeiro núcleo de batalhadores que
daria origem, mais tarde, à TFP (1).
(1) Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, Kamikaze, “Folha de S. Paulo”, 15-2-69.
“O
movimento mariano havia crescido extraordinariamente no Estado de São Paulo:
faziam-se concentrações que eram movimentos de massa nunca vistos”.
D. Clemente José Carlos Isnard,
O.S.B., Bispo de Nova Friburgo (2).
(2) Apud Bernard
Botte, O.S.B., O
movimento litúrgico, Ed. Paulinas,
São Paulo, 1978, p. 217.
“Quando
menos se espera, um magnífico sopro suscitou no Brasil inteiro, no Centro como
no Norte, no Norte como no Sul, falanges inteiras de moços que, resolvidos a
instaurar no Brasil a paz de Cristo no Reino de Cristo, proclamam bem alto sua
resolução de morrer pela Igreja”.
“Legionário”, 1937 (3).
(3) Nº 242, 2-5-37.
“Que Deus
te preserve e te dê o posto de Chefe da geração, que te está destinado”.
Alceu Amoroso Lima (4) em carta a Plinio Corrêa de
Oliveira
(4) Alceu Amoroso Lima, que exerceu a crítica
literária sob o pseudônimo de Tristão de Athayde, foi líder católico, professor universitário e
membro da Academia Brasileira de Letras.
Na
Faculdade de Direito, o início da luta de Plinio Corrêa de Oliveira
NO LARGO DE SANTA CECÍLIA, em São Paulo, localiza-se a
Matriz do mesmo nome. Ali se reunia, aos domingos, a Congregação Mariana, em cujas fileiras, a partir de 1928, um jovem
estudante de Direito, Plinio Corrêa de Oliveira, iniciava com um grupo de
amigos sua militância católica.
Nascido em 13 de dezembro de 1908, seus pais – o
advogado João Paulo Corrêa de Oliveira e Dona Lucilia
Ribeiro Corrêa de Oliveira – pertenciam a velhas famílias da aristocracia
rural, respectivamente dos Estados de Pernambuco e de São Paulo. Por exemplo,
seu tio-avô, o Conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira, foi senador do
Império, Conselheiro de Estado, Presidente da Província de São Paulo, várias
vezes membro do Conselho de Ministros e, por fim, Primeiro-Ministro.
Foi no exercício desse cargo que, com a Princesa Isabel, ele assinou a Lei
Áurea.
O período inicial da atividade de Plinio Corrêa de
Oliveira caracterizou-se pelo apostolado individual constante: reuniões,
conferências, discursos. De início na Congregação Mariana
de Santa Cecília, mais tarde em toda a Capital e, por fim, no vasto interior de
São Paulo, bem como no Rio de Janeiro e em outros Estados.
Tal atividade não se circunscrevia entretanto aos
confins dos ambientes especificamente católicos.
Quando quartanista da tradicional Faculdade de Direito
do Largo de São Francisco, em São Paulo (tida na época como baluarte do laicismo), coordenando de início alguns congregados marianos, Plinio Corrêa de Oliveira fundou em 1929 a Ação Universitária Católica (AUC), a
qual se tornou em breve uma realidade vitoriosa da vida acadêmica de então.
A Ação
Universitária Católica, ao mesmo tempo que ia crescendo em número e
influência no Largo de São Francisco, se estendeu rapidamente, da Faculdade de
Direito para as demais escolas superiores de São Paulo (*).
(*) A AUC foi absorvida em 1938, por decisão da
autoridade eclesiástica, pelo setor correspondente da Ação Católica, isto é, a
Juventude Universitária Católica (JUC). Esta tomou itinerário ideológico
próprio, e veio a se tornar mais tarde tristemente célebre na história do
catolicismo brasileiro.
Constituiu indício expressivo desse progresso a
ocorrência de um fato do qual até se perdera a memória naquela célebre
Faculdade: na formatura de 1930, ano em que Plinio Corrêa de Oliveira colou grau,
o Santo Sacrifício da Missa foi celebrado dentro do próprio pátio interno das
Arcadas, com a prestigiosa presença de quase todo o corpo docente em trajes
talares. Elevado número de universitários comungou. Ao Evangelho pregou o
célebre Pe. Leonel Franca, S.J.
“Realmente – pensavam os que participavam do ato –
algo de profundo mudou na atmosfera da juventude paulista. E para melhor!”
Era o fruto do movimento
mariano.
“Se
os católicos
não se
tivessem congregado
para
interferir
nas
eleições de 1933,
o Brasil
estaria hoje
definitivamente
desviado
para a esquerda”.
Oswaldo Aranha
(5).
(5) Cfr. “Legionário”, nº
223, 20-12-36. Oswaldo Euclides
de Souza Aranha foi um dos mais importantes articuladores
da revolução getulista de 1930, tendo sido Ministro
da Justiça e da Fazenda no governo Getúlio Vargas. Em 1947, presidiu a
Assembléia Geral da ONU.
Plinio
Corrêa de Oliveira, deputado mais votado na Constituinte de 1934
TAL MUDANÇA no ambiente haveria de produzir seus
efeitos, de modo sensível, nos acontecimentos que se desdobravam paralelamente,
na vida do País.
No mesmo ano de 1930 estourou a Revolução que
encerrava o ciclo da “República Velha” e implantava a ditadura Vargas. O
comunismo procurava tirar vantagem da situação. O Arcebispo de São Paulo, D.
Duarte Leopoldo e Silva, em célebre mensagem ao Episcopado brasileiro em 1934,
asseverou que “a erva daninha do comunismo, trouxe-a .... a mochila de certos
próceres de 1930”(6). Luís Carlos Prestes se incorporava então à corrente
comunista.
(6) D. Duarte Leopoldo, Illuminuras, Empreza
Graphica da “Revista dos Tribunaes”,
São Paulo, 1937, p. 126.
Vários fatores (entre os quais o mais importante foi a
Revolução paulista de 1932) levaram Getúlio Vargas a convocar uma Assembléia
Constituinte.
Entrementes, criou-se em 1932 a Liga Eleitoral
Católica (LEC). A LEC era uma instituição de âmbito nacional, bafejada pelo
Episcopado.
Seu modo de atuar consistia em dirigir aos candidatos
formulários sobre a posição destes em face das chamadas “reivindicações
mínimas”, desviando daqueles que fossem infensos a essas reivindicações os
votos católicos.
Em novembro de 1932 instalou-se a Junta Estadual da
LEC em São Paulo. Para o cargo de Secretário, o Arcebispo D. Duarte nomeou
Plinio Corrêa de Oliveira. Na realidade, fora este que, inspirado em análoga
instituição existente na Europa, fizera chegar ao Arcebispo, bem como ao
Cardeal D. Leme, a idéia de criar tal organização no Brasil.
A 3 de maio de 1933 realizaram-se as eleições em todo
o País, para a escolha dos deputados à Constituinte. Em muitos Estados, figuras
expressivas indicadas pela Liga Eleitoral Católica foram então eleitas.
Surpresa e alegria geral no eleitorado católico: o
candidato mais votado em todo o Brasil foi um jovem congregado mariano de 24
anos, que há pouco deixara os bancos universitários (*). Indicado pela Liga
Eleitoral Católica na Chapa Única por São
Paulo Unido(**), obteve 24.017 votos. No mesmo Estado, o segundo candidato,
merecidamente célebre como jurista, literato e
político, elegeu-se com 12.483 votos.
(*) O jovem líder mariano recebera 9,5% do total dos
260.262 votos apurados. Desde a criação da Justiça Eleitoral até os dias de
hoje, há registro de apenas dois candidatos a deputado federal por São Paulo
que obtiveram mais de 9% dos votos: Plinio Corrêa de Oliveira, em 1933, e Pedro
Ventura Pomar, em 1947, este último com 11,8% do total dos votos apurados.
Abaixo destes, foram os mais votados até hoje Paulo Salim
Maluf, com 5,8% dos votos apurados (1982); Carlos Cirilo, com 5,0% (1945); e Luís Inacio
Lula da Silva (1986), com 4,2% (cfr. Dados Estatísticos do Superior Tribunal
Eleitoral; Diário Oficial, 28-3-79; Apostilas do Tribunal Regional Eleitoral –
Resumo oficial das apurações no Estado de São Paulo em 1982 e 1986).
(**) As seguintes organizações formaram a chapa única:
Partido Republicano Paulista (PRP), Partido Democrático (PD), Federação dos
Voluntários da Revolução de 32, Liga Eleitoral Católica e Associação Comercial.
“A LEC
foi a
organização
extrapartidária
que na
história do Brasil
exerceu a
maior influência
política
eleitoral”.
Paulo Brossard (8), Ministro
da Justiça
(8) “Jornal de Minas”, Belo Horizonte, 3-7-86.
Essas cinco associações se reuniram lançando a Chapa Única por São Paulo Unido, à qual
competia fazer prevalecer, na Constituição que ia ser votada, os ideais que
inspiraram em São Paulo a epopéia de 1932.
O jovem era Plinio Corrêa de Oliveira. Sua votação se
devera quase inteiramente ao apoio das entidades católicas de São Paulo.
O teste surpreendeu e impressionou de tal maneira que,
depois deste episódio, a Liga Eleitoral Católica passou a ser geralmente
reconhecida como uma das grandes forças políticas do País (7).
(7) Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, Kamikaze, “Folha
de S. Paulo”, 15-2-69.
* * *
Instalada a Constituinte em novembro de 1933,
formou-se nela uma corrente de parlamentares católicos de grande influência,
que levou a cabo a aprovação, pela Assembléia, não só das “reivindicações
mínimas” da Liga Eleitoral Católica – a indissolubilidade do vínculo conjugal,
o ensino religioso livre nas escolas públicas e a assistência religiosa
facultativa às Forças Armadas – como também de outros pontos constantes do
programa máximo da LEC: o direito de voto aos religiosos, o reconhecimento dos
efeitos civis do casamento religioso, o direito ao descanso dominical, a
faculdade de os sacerdotes prestarem o serviço militar obrigatório na condição
de capelães das tropas. Além disso, invocava-se o Nome de Deus no preâmbulo da
Constituição, pela primeira vez desde a proclamação da republica
Tão assinalado êxito atenuou em considerável medida a
fisionomia laica do Estado brasileiro.
Para a obtenção desse resultado – segundo reconheceu a
voz geral – exercera notável influência, como um dos líderes mais salientes da
bancada católica na Constituinte, o jovem deputado mariano Plinio Corrêa de
Oliveira.
* * *
Na
direção do grupo do “Legionário”
“Trata-se
de um
grupo representativo
de toda
uma linha de força
e
influência no Brasil,
fazendo
inclusive
chegar até
a Santa Sé
os `abusos
litúrgicos'
existentes
no Brasil”.
Fr. José Ariovaldo da Silva,
O.F.M. (9).
(9) O Movimento Litúrgico no Brasil – Estudo Histórico, Ed. Vozes, Petrópolis, 1983, p. 314.
PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA, a par da sua marcante
atuação na Assembléia Constituinte e no magistério, continuou a militar
ininterruptamente nas fileiras marianas.
Assumira ele, em agosto de 1933, a direção do
“Legionário”, órgão da Congregação Mariana de Santa
Cecília. Para o quadro redatorial da folha fora trazendo gradualmente elementos
de relevo do movimento mariano, dos quais alguns haveriam de ser, mais tarde,
seus colaboradores na fundação da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição,
Família e Propriedade – TFP.
Esse grupo (*) dedicou-se de corpo e alma ao
jornalismo católico.
(*) O grupo do “Legionário”, e depois o grupo de
“Catolicismo”, por muito tempo foram conhecidos como o “grupo do Plinio”. Só
depois de muitos anos, quando a TFP se institucionalizou, inteiramente, é que
essa denominação deixou de ser coerente.
Plinio Corrêa de Oliveira, além de exercer a direção,
escrevia no “Legionário” o artigo de fundo e a coluna “7 Dias em Revista”.
Fernando Furquim de Almeida era o responsável pelos artigos sobre a História da
Igreja no século XIX, e cuidava da revisão geral dos artigos. Mais tarde, José
Carlos Castilho de Andrade seria o secretário da Redação. José de Azeredo
Santos redigia os artigos de cunho sociológico. Adolpho
Lindenberg era o redator especializado em assuntos
econômicos e de política internacional. José Fernando de Camargo prestava sua
colaboração à seção Noticiário da Semana.
José Gustavo de Souza Queiroz se incumbia do “Santo do mês”.
Em pouco tempo o “Legionário” cresceu e ampliou seu
campo de influência e de ação. De quinzenário de duas folhas passou a semanário
de oito páginas; de folha paroquial, a órgão oficioso da Arquidiocese de São
Paulo.
Além de outros colaboradores, dois jovens professores
de seminário atuavam também no “Legionário”: Mons. Antonio
de Castro Mayer – Assistente Eclesiástico do jornal – e o Pe. Geraldo de
Proença Sigaud, S.V.D.
Ambos, Mons. Mayer e o Pe. Sigaud, eram apontados como
figuras proeminentes do jovem Clero brasileiro.
* * *
O “Legionário” não se destinava ao público em geral.
Ele visava esse vasto meio que constituía, dentro do grande público, o movimento católico.
A influência do jornal se estendia de norte a sul do
País, como representante qualificado do modo de pensar das forças mais jovens e
dinâmicas desse movimento.
Nuvens e oposições, o
“Legionário” as encontrou, sem dúvida, naqueles anos de sua existência. As
principais vieram de setores irritados com a campanha sem trégua nem quartel
que os redatores do jornal moviam, em conformidade com os ensinamentos e os
exemplos de Pio XI, não só contra o comunismo, mas também contra as tendências
revolucionárias freqüentemente incubadas em movimentos de centro, e mesmo em
outros que se rotulavam de extrema-direita. As
páginas do “Legionário” estão cheias da crítica cerrada que seus colaboradores
dirigiram ao fascismo e especialmente ao nazismo, bem como aos seus congêneres
em outros países, ao tempo em que esses movimentos pareciam atingir o seu
zênite. Basta dizer que o “Legionário” publicou, em 20 anos e sete meses, 2509
artigos com passagens contrárias ao nazismo e ao fascismo! (10).
(10) Ver estatística em outro local desta obra.
Entretanto, aqueles eram tempos relativamente calmos e
ativos, e – dentro de sua tradicional serenidade – também combativos. Tudo
prometia um porvir de trabalhos fecundos e de belos embates à luz do sol.
Contudo, foi precisamente então que começou a
germinar, na sombra, a inesperada tragédia do surto progressista. Também esta
haveria de marcar a fundo as décadas seguintes (11).
(11) Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, Kamikaze, “Folha
de S. Paulo”, 15-2-69.
“Composto
de pessoas
que se
entendiam
muito bem
entre si,
o grupo
[do “Legionário”]
representava
uma espécie
de ponta
de lança
contra o
movimento litúrgico.
Quem
quisesse sofrer [sic]
que
esperasse a edição
semanal de
`O Legionário',
onde podia
sempre encontrar
artigos
contra o Movimento
e suas
manifestações,
contra Maritain,
contra os
`desvios'
da Ação
Católica, etc.”
D. Clemente José Carlos Isnard,
O.S.B., Bispo de Nova Friburgo (12).
(12) Apud Bernard Botte, O.S.B., op. cit., p. 221.
No ano da
Intentona Comunista, os primeiros sintomas do vírus do progressismo
EM 1935, explodia em Natal, Recife e Rio a Intentona
Comunista. Na calada da noite, oficiais e soldados de nossas Forças Armadas
foram assassinados por elementos comunistas infiltrados em quartéis daquelas
cidades. Crimes de sangue e de traição, que indignaram profundamente a opinião
nacional.
Enquanto o comunismo internacional vibrava contra a
Nação esse golpe violento e dramático, o progressismo aportava em nossa Pátria
para infiltrar, de modo discreto e subtil, os meios católicos.
Com efeito, a partir de 1935 aproximadamente,
começaram a chegar ao Brasil as lufadas cheias de vitalidade de alguns grandes
movimentos – de si mesmo excelentes – que caracterizavam o surto religioso da
Europa no primeiro pós-guerra. Neles, entretanto, achava-se incubado o vírus de
uma mentalidade discrepante da boa doutrina. E com as lufadas do bem vieram os
germes do mal.
Tal mentalidade era dominada pela obsessão de
conciliar a Igreja com o mundo neopagão, por meio de
uma nova formulação do Dogma e da Moral, de uma reforma das leis eclesiásticas,
da liturgia, do modo de ser, enfim, da Igreja. Era já o progressismo que
despontava veladamente.
* * *
Esses germes deitaram suas primeiras raízes em setores
religiosos do Brasil, no período 1935-1943.
Surdamente a fermentação progressista se foi
generalizando, sobretudo em dois campos: na Ação
Católica e no movimento litúrgico.
Empenhando-se a fundo por uma modernização ambígua e
ao mesmo tempo exagerada, propondo de cambulhada iniciativas excelentes,
iniciativas discutíveis e outras péssimas (fazendo, em geral, das iniciativas
excelentes ou das discutíveis, pretexto para as péssimas), tal fermentação
alimentava tendências que desaguariam mais tarde no progressismo e no “esquerdismo
católico”.
No movimento litúrgico, esses pendores conduziam ao solapamento do princípio hierárquico e dos ensinamentos da
Igreja sobre o Sacramento da Ordem, identificando e nivelando de algum modo o
Sacerdote celebrante com o simples fiel. Induziam também à subestima dos atos
de piedade particular, em nome de uma mal entendida oração “oficial” e
“comunitária”. Convidavam a uma atitude reticente em relação à devoção ao
Sagrado Coração de Jesus, à comunhão fora da Missa. Disseminavam frieza e reservas
face à devoção a Nossa Senhora, aos Santos e às imagens. Apresentavam como
decrépitas formas de piedade como o Rosário e a Via-Sacra,
e escolas de espiritualidade tradicionais como a de Santo Inácio de Loyola, de Santo Afonso de Ligório
etc. Qualificavam de desatualizadas certas normas da ascese clássica, como a
fuga das ocasiões de pecado, o combate às paixões desordenadas etc.
Na Ação Católica,
essas tendências se manifestavam pelo solapamento
gradual do princípio de autoridade na Igreja, e pela afirmação da virtual
independência dos leigos em relação ao Clero. Sob o pretexto de levar “o
Cristo” a todos os ambientes, recomendavam a freqüência a lugares então
reprovados por todos os moralistas católicos. Pela negação das desigualdades
harmônicas entre as classes sociais e pelo favorecimento
da luta de classes incipiente, abriam caminho para o “esquerdismo católico”.
Traços comuns existiam nos dois movimentos: o igualitarismo, isto é, a tendência a um
nivelamento antinatural na Igreja e no Estado; o liberalismo, no caso, a obsessão por
ajustar a Igreja às transformações continuamente mais extremadas do mundo neopagão; horror ao esforço, ao sacrifício e à ascese (13).
(13) Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, Como
ruiu a Pirâmide de Queops, “Folha de S.
Paulo”, 8-2-69.
Desde seus primeiros sintomas, acompanhava-se
detidamente, nas reuniões de redação do “Legionário”, o aparecimento e
desenvolvimento dessa infiltração. Via-se com apreensão que doutrinas estranhas
eram inoculadas por Sacerdotes, Religiosas e leigos recém-chegados da Europa –
especialmente os provenientes da JOC belga – em áreas facilmente fanatizáveis
da Ação Católica Brasileira.
Tal apreensão se refletia forçosamente nas páginas
vivas e combativas do “Legionário”.
O semanário foi sutilmente
atacado pela corrente inovadora por ser o porta-voz característico de uma
mentalidade que as novas tendências queriam remover, para a substituir pela que
hoje tão correntemente se vê em meios católicos. Uma campanha surda começou
então contra o “Legionário” e seus redatores, minando as posições de influência
que estes ocupavam no movimento católico.
“Foi no
Brasil
e mais
precisamente na JUC
[Juventude
Universitária
Católica],
no início
dos anos 60,
que muitas
das intuições
do que
constituiria
mais tarde
a Teologia
da Libertação
latino-americana
começaram
a concretizar-se”.
Pe. Gustavo Gutiérrez (16).
(16) Apud Luis Alberto Gómez de Souza, A JUC: os estudantes católicos e a política,
Ed. Vozes, Petrópolis, 1984, 259 pp., p. 9. A JUC era
uma das organizações em que se subdividia a Ação Católica brasileira. A
“Teologia da Libertação” deita raízes, portanto, na JUC dos anos 60, da mesma
forma como esta deu continuidade à JUC dos anos 30 e 40, cujos desvios já
vinham sendo denunciados pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. É de se notar
que o Pe. Gustavo Gutierrez (Peru) é considerado um
dos pais da “Teologia da Libertação”, e um de seus principais corifeus.
Primeiro
golpe vitorioso contra o progressismo: “Em defesa da Ação Católica”
ERA PRECISO ENFRENTAR o perigo nascente. As
circunstâncias formaram em Plinio Corrêa de Oliveira a convicção de que, na
tempestade que se armava dentro da Igreja, alguém deveria assumir o trágico
papel de pára-raio. Um livro, consagrado à exposição
e à refutação dos novos erros, escrito naquela circunstância, poderia causar um
“estouro” próprio a alertar as almas bem intencionadas, mas desavisadas,
de sorte que a expansão do mal ficasse, se não eliminada, pelo menos
circunscrita a uma pequena área. Pois seria difícil que o erro não tragasse
aqueles cujo espírito já estava profundamente preparado para lhe dar adesão.
A publicação desse livro seria como um gesto de kamikaze, que
tanto poderia acarretar a liquidação do progressismo nascente, quanto expor a
incompreensões e críticas apaixonadas o grupo do “Legionário”, comprometendo a
fundo sua influência nos meios católicos (14).
(14) Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, Kamikaze, “Folha
de S. Paulo”, 15-2-69; Eloi de Magalhães Taveiro, Para
evitar as prescrições da História, “Catolicismo”, nº 150, de junho de 1963.
E assim, com sóbrio mas prestigioso prefácio do então
Núncio Apostólico, o futuro Cardeal D. Bento Aloisi Masella, e com o Imprimatur
de Mons. Antonio de Castro Mayer (por mandato do
Arcebispo de S. Paulo, D. José Gaspar de Affonseca e
Silva), saiu em junho de 1943 o “livro-bomba” Em
defesa da Ação Católica (15). Plinio Corrêa de Oliveira publicava-o
na qualidade de Presidente da Junta Arquidiocesana da Ação Católica paulista.
(15) Ed. Ave Maria, S. Paulo, 384 pp.
* * *
O livro provocou desde logo muito alvoroço nos meios
católicos. Sua edição de 2.500 exemplares – considerável para a época,
tratando-se de um livro doutrinário – esgotou-se rapidamente. Aplausos
entusiásticos de uns, e a irritação exaltada de outros, seguida de ameaças: “O
livro será condenado pela Igreja!”
Arcebispos e Bispos, membros do Clero e do laicato
tomavam partido, pró e contra a obra. Às mãos do autor chegaram, nesse tempo,
numerosas cartas de apoio, entre as quais vinte de membros do Episcopado e uma
do Provincial da Companhia de Jesus no Brasil Central (18).
(18) D. Helvécio Gomes de Oliveira, Arcebispo de Mariana; D. Atico Eusébio da Rocha, Arcebispo de Curitiba; D. João Becker, Arcebispo de Porto Alegre; D. Joaquim Domingues de Oliveira, Arcebispo de Florianópolis; D. Antonio Augusto de Assis, Arcebispo-Bispo
de Jaboticabal; D. Otaviano
Pereira de Albuquerque, Arcebispo-Bispo de Campos; D.
Alberto José Gonçalves, Arcebispo-Bispo de Ribeirão
Preto; D. José Maurício da Rocha, Bispo de Bragança Paulista; D. Henrique Cesar Fernandes Mourão, Bispo de Cafelândia; D. Antonio dos
Santos, Bispo de Assis; D. Frei Luís de Santana, Bispo de Botucatu;
D. Manuel da Silveira D'Elboux, Bispo-Auxiliar
de Ribeirão Preto (depois Arcebispo de Curitiba); D. Ernesto de Paula, Bispo de
Jacarezinho (hoje Bispo Titular de Gerocesarea); D. Otávio Chagas de Miranda, Bispo de Pouso
Alegre; D. Frei Daniel Hostin, Bispo de Lajes; D. Juvencio de Brito, Bispo de Caetité;
D. Francisco de Assis Pires, Bispo de Crato; D. Florencio Sisino Vieira, Bispo de
Amargosa; D. Severino Vieira, Bispo de Piauí; D. Frei
Germano Vega Campón, Bispo-Prelado de Jataí; também o Pe. L. Riou,
S.J., Provincial da Companhia de Jesus no Brasil Central.
“A Ação
Católica
começa a
desenvolver
uma
personalidade própria
em 1950,
quando
adota o modelo
organizacional
francês.
É a partir
deste momento
que
servirá de ponto
de partida
para
o
comprometimento social
dos seus
militantes.
Os
adversários
desse
comprometimento, bem como das tendências
para um
igualitarismo
e um neo-modernismo
(tendências
que há
muito tempo tinham
observado
na Ação Católica),
com ela
romperam em 1943.
O
porta-voz da ruptura é
Plinio
Corrêa de Oliveira
e as
razões do grupo
são
apresentadas em seu livro
`Em Defesa
da Ação Católica' “.
Marcio Moreira
Alves (17).
(17) A Igreja e
a Política no Brasil, prefácio de Frei Betto, Ed.
Brasiliense, São Paulo, 1979, 268 pp., p. 228.
Deputado federal pelo extinto Estado de Guanabara, Marcio
Moreira Alves esteve na origem de grave crise político-institucional
em 1968 quando, por ocasião da Semana da Pátria, proferiu discurso considerado
subversivo. Exilou-se voluntariamente na Europa, a partir desse ano.
Na grande maioria sonolenta – a qual, em razão da
ingenuidade de uns e da modorra de outros, preferia que tais problemas não
vissem a luz do dia – o livro causou grande perplexidade. A essas pessoas, Em defesa da Ação Católica parecia por
demais categórico. Não dissentiam de sua doutrina, mas consideravam-no
inoportuno. Reputavam inexistente ou insignificante o mal que o livro
denunciava.
Mas, ao mesmo tempo, embora perplexa e desagradada,
essa mesma maioria ia despertando para a realidade, e começava a olhar com
desconfiança o progressismo nascente. E ipso facto escapava à sua influência nefasta.
A partir desse momento, a corrente progressista
continuou a caminhar, mas isolada e sem máscaras. Numerosos ambientes, de norte
a sul do Brasil, lhe fecharam as portas. O progressismo passou a conquistar
apenas, aqui e acolá, no laicato, pequenos punhados de arditi que simpatizavam com a sua
verdadeira face (*).
(*) Pouco depois da publicação do Em defesa da Ação Católica, apareceu a Encíclica Mystici Corporis Christi (1943), seguida da Mediator Dei (1947) e da Constituição Apostólica Bis saeculari die
(1948). No seu conjunto, esses três documentos de Pio XII enunciavam, refutavam
e condenavam os principais erros sobre que versava o livro.
Em 1950, a Sagrada Congregação dos Seminários e
Estudos Universitários, da Santa Sé, enviou carta aos Bispos do Brasil, alertando-os
para a necessidade de vigilância na formação dos futuros Sacerdotes. Um
historiador eclesiástico (Fr. José Ariovaldo da
Silva, O.F.M., O Movimento Litúrgico no Brasil, p. 336) atribui essa tomada de
atitude da Santa Sé à atuação da corrente ligada ao “Legionário”. Diz ele: “Tão
influentes eram seus membros, tão fortemente soaram a trombeta de alarme, que a
própria Santa Sé resolveu intervir através da Congregação dos Seminários”. O autor procura estabelecer “coincidências entre vários conteúdos do documento
e os conteúdos de acusações contra os chamados 'liturgicistas'
no período anterior à 'Mediator Dei”' (p. 317).
Haveria portanto “coincidências” entre as denúncias da corrente ligada ao
“Legionário” e o documento da Santa Sé que é posterior a elas.
Tal foi o efeito de Em defesa da Ação Católica no laicato e no Clero tradicional, que a
corrente progressista ficou reduzida de momento a um pequeno conglomerado de
grupelhos. Entretanto o livro de Plinio Corrêa de Oliveira foi posto de
quarentena na maior parte dos Seminários e Noviciados. Assim, no Clero jovem, a
penetração progressista continuou a ser feita em larga medida. Deste Clero, bem
como de setores estudantis e operários da Ação Católica, também infiltrados,
sairiam os líderes religiosos e leigos que, por sua vez, formariam a vanguarda
religiosa da subversão janguista, que eclodiria vinte
anos depois (19).
(19) Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, A
Igreja ante a escalada da ameaça comunista – Apelo aos Bispos Silenciosos,
Editora Vera Cruz, São Paulo, 4ª ed., 1977, pp. 43 a 53.
* * *
Cabe aqui um parêntese.
Mais ou menos a partir de 1937, o filósofo francês Jacques Maritain começou a
exercer, sobretudo em certos setores da Ação Católica Brasileira, uma
influência deletéria. Ele preconizava que os católicos aceitassem a “política
da mão estendida”, que lhes era então oferecida pelos comunistas. Tal
oferecimento teve boa acolhida na corrente progressista brasileira. Essa foi a
origem, no Brasil, dos primeiros núcleos da chamada “esquerda católica”, da
liderança esquerdista da Democracia Cristã etc. (20).
(20) Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, A Igreja ante a escalada da ameaça comunista
– Apelo aos Bispos Silenciosos, Editora Vera Cruz, São Paulo, 4ª ed., 1977,
pp. 37 a 46.
Contra a influência maritainista
ergueu-se o “Legionário”, por meio de várias intervenções de responsabilidade
da Redação, especialmente o artigo Os
“direitos humanos” e o Legionário, publicado nos dias 6 e 13 de
fevereiro de 1944.
No Rio, a principal figura da reação contra a
influência de Maritain foi o culto e intrépido
jesuíta Pe. Arlindo Vieira, a quem “Legionário”
franqueou suas páginas. No mesmo sentido se salientaram também – entre outros –
o jornalista Osório Lopes, do semanário católico “A União”, o jornalista Antonio Guedes de Holanda, do semanário “A Cruz”, e o
polemista Mesquita Pimentel, da revista “Vozes de Petrópolis”. Em Recife, sobressaía o pensador Pe. Antonio Ciríaco Fernandes S.J., à
testa do dinâmico grupo de jovens da revista “Fronteiras”, que o brilho
intelectual de Manoel Lubambo, um de seus membros
dotara de fama nos meios culturais de todo o País.
“D. Pedrosa,
Abade do
Mosteiro
de São
Bento,
logo
advertiu Dom Motta
a respeito
do problema
`Plinio
Corrêa de Oliveira'
e o grupo
ligado a
seu livro
`Em Defesa
da Ação Católica'”.
D. Polycarpo Amstalden, O.S.B. (21).
(21) Apud Fr. José Ariovaldo da Silva, O.F.M., op. cit., p. 352.
Estouro
e ostracismo
AS CONSEQÜÊNCIAS já esperadas do arrojado passo dado
com a publicação de Em defesa da Ação
Católica, começaram a cair sobre os membros do grupo do “Legionário” como
uma cascata de catástrofes.
Dos arraiais progressistas soprou contra esse grupo um
tufão de diz-que-diz, de detrações e de calúnias, todas elas verbais, vagas e
desacompanhadas de provas. O número de paróquias em que se vendia o
“Legionário” começou a diminuir a olhos vistos.
Ao vazio externo que assim se ia formando,
seguiram-se, no campo interno, as defecções: certo número de redatores,
acadêmicos ainda muito jovens, aturdidos por tão violenta embora surda
campanha, abandonou o jornal.
O vendaval não cessou aí.
Plinio Corrêa de Oliveira, personalidade católica
amplamente acatada, passou a ser uma das figuras mais controvertidas nos meios
da intelligentsia
da Igreja, não sem desfavorável efeito sobre a massa dos fiéis em geral. Pouco
depois da publicação do livro, perdeu ele seu cargo de Presidente da Junta
Arquidiocesana da Ação Católica.
Em fevereiro de 1945, Mons. Antonio
de Castro Mayer – que dera o imprimatur
ao livro Em defesa da Ação Católica e
o apoiara – passou, de Vigário Geral da Arquidiocese, para simples Vigário-Ecônomo da Paróquia de São José do Belém.
Em março de 1946, o Pe. Geraldo de Proença Sigaud,
também destacado propugnador do livro, foi removido
para a longínqua Espanha.
Os demais redatores que continuaram fiéis a Em defesa da Ação Católica foram todos eles
perdendo seus cargos no movimento católico.
Circunstâncias de naturezas diversas levaram a que não
continuassem na tribuna que lhes restava: o “Legionário”. Em dezembro de 1947
cessavam sua colaboração ao jornal.
A noite densa de um ostracismo pesado, completo,
intérmino, baixou sobre os remanescentes – apenas nove – do ex-grupo
do “Legionário”: Adolpho Lindenberg,
Fernando Furquim de Almeida, José de Azeredo Santos, José Benedicto
Pacheco Salles, José Carlos Castilho de Andrade, José
Fernando de Camargo, José Gonzaga de Arruda, Paulo Barros
de Ulhôa Cintra, além, evidentemente, de Plinio
Corrêa de Oliveira. O abandono e o olvido envolveram-nos quando estavam ainda
na força da idade e da ação: o mais velho tinha 39 anos, e o mais novo, 22 (*).
(*) José Gustavo de Souza Queiroz falecera em 8 de
março de 1946. Deixara ele quase concluída a tradução das famosas Cartas
sobre a Inquisição espanhola, de Joseph
de Maistre. Mãos amigas terminaram o pouco que
faltava da tradução, e esta foi editada pelas “Leituras Católicas de Dom
Bosco”, nº 712, de setembro de 1949, com uma nota
biográfica de 26 páginas sobre o tradutor, escrita por Plinio Corrêa de
Oliveira.
Era este o sacrifício previsto e
aceito de antemão.
* * *
Entretanto, o pequeno grupo não se dispersou. Em
fevereiro de 1945 havia se fixado em uma pequena sede – três salas e uma
cozinha – no andar térreo da Rua Martim Francisco, nº 665, no Bairro de Santa Cecília. Aí, em torno da mesma
imagem de Nossa Senhora Auxiliadora que os acompanhara desde os primórdios, na
sede da Congregação Mariana de Santa Cecília, na Rua
Imaculada Conceição, reuniam-se os antigos colaboradores do “Legionário” todas
as noites, sem exceção.
Um convívio fraterno e cordial marcava o ambiente. Os
membros do grupo recordavam sem amargura nem orgulho as lutas e a imolação dos
dias idos. Analisavam de modo preocupado a deterioração discreta e implacável
da situação religiosa no Brasil e no mundo, bem como o avanço inexorável do
socialismo e do comunismo no cenário nacional e internacional. Faziam em comum
diversos estudos doutrinários. Rezavam. Ao mesmo tempo procuravam crescer na
devoção à Santíssima Virgem, segundo o método da perfeita devoção a Nossa
Senhora, ensinado por São Luís Maria Grignion de Montfort. As aparições e a
mensagem de Nossa Senhora em Fátima, em 1917, cujo verdadeiro alcance começava
então a ser divulgado pelo mundo, eram objeto de aprofundamento mais atento e
da sua mais calorosa adesão.
* * *
“O
esquecimento
e o olvido
nos envolveram
quando
ainda
estávamos
na flor da idade:
era este o
sacrifício previsto
e
consentido.
Mas o
progressismo nascente
recebeu um
golpe
de que até
hoje não se refez”.
Plinio Corrêa de Oliveira (22)
(22) Plinio Corrêa de Oliveira, Kamikaze, “Folha de S. Paulo”,
15-2-69.
Durou três anos completos este período de ostracismo.
Mas três anos que traziam consigo os tristes sintomas de um estado definitivo e
sem remédio. Um grupo de líderes que cumprira sua missão, sobrevivera aos
embates, mas ficara sobrando. Assim se apresentava a esses jovens a situação na
qual se encontravam, e da qual não sabiam quando, nem de que modo, a
Providência os tiraria.
Na realidade, nessa “catacumba” faziam uma longa e recolhida
vigília de armas para outras lutas em prol da mesma causa. Era assim que a
Providência os conduzia.
Com efeito, nesse período multiplicavam-se as
condições propícias para se unirem ainda mais, uns aos outros, os membros do
pequeno grupo. Dado o reduzido número de amigos postos em convivência
quotidiana em torno dos mais altos ideais, formou-se entre eles uma tal coesão
no pensar, no sentir e no agir, que elevou o grupo à condição de uma verdadeira
família de almas.
Desta família de almas, que futuramente se
desenvolveria muito, é que ia nascer, quase duas décadas depois, a Sociedade
Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade.
“Explanaste
e
defendeste
com
penetração e clareza
a Ação
Católica,
da qual
possuís
um
conhecimento completo,
e à qual
tens
grande
apreço ....
(a)
J. B. Montini,
Substituto”
[Secretaria de Estado de Sua
Santidade Pio XII].
No
ostracismo e na penumbra, a Providência intervém
NUM DIA DE JANEIRO DE 1947, Plinio Corrêa de Oliveira
chegou à sede da Rua Martim Francisco deixando
transparecer na fisionomia especial regozijo. Tinha uma notícia a comunicar aos
amigos: um vespertino havia noticiado que Pio XII elegera Bispo de Jacarezinho o Pe. Sigaud!
– Como? O quê? A alegria era grande, mas a dúvida
ainda maior. O Pe. Sigaud estava na Espanha, e era difícil obter dele uma
confirmação.
Voltaria, então? Sim, voltaria. Sobre os destroços do
naufrágio, uma luz se acendia, a brilhar na noite do ostracismo dos membros do
pequeno grupo.
Contra toda a expectativa, outra grande surpresa os
aguardava no ano seguinte.
Assim a recorda Plinio Corrêa de Oliveira, em um de
seus artigos na “Folha de S. Paulo”:
“Ao chegar eu, numa noite de março de 1948, à nossa
`catacumba', um amigo me esperava à porta, efervescente de júbilo. O Cônego
Mayer .... acabava de nos comunicar pelo telefone sua nomeação para Bispo-Coadjutor de Campos. É inútil dizer com que exultação
fomos no mesmo instante felicitá-lo” (23).
(23) Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, Nasce
a TFP, “Folha de S. Paulo”, 22-2-69.
Sucessão de fatos de significado iniludível: dois
Sacerdotes, afastados do centro dos acontecimentos pelo apoio que haviam dado
ao livro Em defesa da Ação Católica e
ao grupo do “Legionário”, e em conseqüência da luta que desenvolviam contra a
infiltração esquerdista e progressista nos meios católicos, eram honrados pela
clara manifestação de confiança da Santa Sé, com sua elevação ao Episcopado,
uma em seguida à outra!
Uma reparação? – perguntava-se nos meios católicos.
Muitos eram os que o afirmavam.
* * *
Essas duas surpresas não foram as únicas. Exatamente
um ano depois, um grande amigo do grupo, o Carmelita Frei Jerônimo
van Hintem, entregava a
Plinio Corrêa de Oliveira a seguinte carta da Santa Sé, vinda por meio da Cúria
Generalícia de sua Ordem, e escrita em latim:
“Palácio do Vaticano, 26 de fevereiro de 1949.
Preclaro Senhor,
Levado por tua dedicação e piedade filial, ofereceste
ao Santo Padre o livro “Em defesa da Ação Católica”, em cujo trabalho revelaste
aprimorado cuidado e aturada diligência.
Sua Santidade regozija-se contigo porque explanaste e
defendeste com penetração e clareza a Ação Católica, da qual possuis um
conhecimento completo, e à qual tens grande apreço, de tal modo que se tornou
claro para todos quão importante é estudar e promover tal forma auxiliar do
apostolado hierárquico.
O Augusto Pontífice de todo coração faz votos que
deste teu trabalho resultem ricos e sazonados frutos, e colhas não pequenas nem
poucas consolações. E como penhor de que assim seja, te concede a Bênção
Apostólica.
Entrementes, com a devida consideração, me declaro teu
muito devotado,
(a) J. B. Montini,
Substituto”
O signatário, Substituto da Secretaria de Estado da
Santa Sé, seria o futuro Paulo VI. E a carta, oficial, era dirigida ao Dr.
Plinio Corrêa de Oliveira. Nela, Pio XII louvava e recomendava o livro do kamikaze! Desta
vez tudo se tornava cristalino.
Tudo... exceto a conduta de certos meios
progressistas.
Ouvida a voz de Roma, era de se esperar que a calota
de gelo e de incompreensão derretesse. Que Plinio Corrêa de Oliveira e seus
amigos recuperassem, nos meios em que eram hostilizados, a convivência e a
estima que os cercavam outrora.
Engano. A voz do Vigário de Cristo se levantara em
vão. A calota de gelo não se derreteria. Sob o bafejo de elementos
progressistas, persistiu o mutismo frio e implacável que cercava o grupo de ex-redatores do “Legionário”. E o ostracismo continuou...
(24).
(24) Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, Nasce a TFP, “Folha de S. Paulo”,
22-2-69.
Não obstante, paralelamente a essas lutas, perplexidades e vitórias, um acontecimento de outra ordem
sobreveio.
__________________________________________________
A TFP e o nazi-fascismo...
Um teste
de permeabilidade à verdade conhecida como tal
O FATO de a TFP ser oposta ao nazi-fascismo
é um dos mais comprovados da história da entidade. Afirmar desenvoltamente o
contrário representa, portanto, uma negação da verdade conhecida como tal.
Como explicar que certos opositores, sem embargo da
indiscutível clareza das provas que a TFP apresenta a tal respeito, insitam tanto em lançar contra a TFP essa pecha?
A resposta é simples. Entra em ação no espírito deles
uma forma de fanatismo da qual pouco se fala, mas que existe, e até largamente
difundida. É o fanatismo anti-TFP. Ou seja, muitos
dos adversários da entidade levam sua oposição a um fanatismo até frenético. E
é prova palpável disto a insistência com que repetem, de modo infatigável, sua
acusação de que a TFP foi ou ainda é nazi-fascista.
Para se esclarecer a esse respeito, basta que o leitor
considere as seguintes estatísticas abaixo publicadas, inéditas até o momento.
Elas demonstram ad nauseam que
aqueles que hoje dirigem a TFP, e em primeiro lugar o Presidente de seu
Conselho Nacional, Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, desde tempos dos mais
remotos foram contrários ao nazismo e ao fascismo. Julgue portanto o leitor
qual a performance anti-nazi-fascista do ilustre líder católico e de outros
dirigentes da entidade:
Artigos
contrários ao nazismo e ao fascismo
I – Escritos pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira no
“Legionário” (1929-1947), no “Catolicismo” (1951-1982) e na “Folha de S. Paulo”
(1968-1982): 477 (*)
II – Escritos por diversos autores em órgãos ligados
ao Prof. Plinio Corrêa de Oliveira (**):
“Legionário” – 2.489 artigos
“Catolicismo” – 49 artigos
Total: 2.538 artigos
Serão muitas as instituições nacionais ou as
personalidades brasileiras que podem reivindicar tal desempenho?
* * *
Pormenor importante: hoje é fácil ser contra o nazi-fascismo. Mas, antes da II Guerra Mundial, e mesmo ao
longo desta, um número muito grande de pessoas, em nosso País como em todo o
mundo, era simpático aos regimes que vigoravam na Alemanha e na Itália.
Inclusive nas fileiras do Clero. Pois bem: os dirigentes da TFP os combateram
também nos anos 30 e 40, o que lhes acarretou inúmeros dissabores, comparados
pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, na época, a uma verdadeira via crucis.
Dissabores esses que só terminaram com a derrota final
do nazismo, em 1945. Eis suas palavras textuais: “A derrocada final do
totalitarismo marca, para nós, o término de uma longa e dolorosa campanha, na
qual fomos obrigados aos mais duros sacrifícios, para esclarecer a opinião
católica sobre o tremendo perigo que ameaçava a Igreja. De 1933 a 1942, a vida
do `Legionário' foi, a este respeito, uma verdadeira via crucis, ao longo da qual não houve
provação que nos fosse poupada. De 1942 a 1945, a luta, menos ostensiva e menos
direta, não deixou entretanto de se fazer veladamente” (“Legionário”,
13-5-45).
Onde estavam, nesses anos críticos, muitos dos atuais
adversários da TFP? É uma pergunta que, de passagem, não pode deixar de ser
feita.
* * *
Voltando ao teste de permeabilidade à verdade
conhecida como tal: se, feita a leitura das estatísticas supra, o eventual objetante não se convencer e continuar a repetir, com
idêntica desinibição, que a TFP é nazi-fascista,
então se fica verdadeiramente sem saber como qualificá-lo, e se ele é
suscetível de mudar alguma de suas opiniões à vista de argumentos sólidos.
(*) 447 no Legionário,
6 em Catolicismo e 24 na Folha de S. Paulo.
(**) O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira foi o
redator-chefe do “Legionário” de 12-10-29 a 8-12-29, e seu diretor de 6-8-33 a
28-12-47. É o principal colaborador de “Catolicismo”, desde sua fundação até
hoje.
__________________________________________________
O
“Grupo da Martim”
O PE. WALTER MARIAUX era um Jesuíta que impressionava:
alto, corpulento, decidido, inteligência rútila, personalidade marcante.
Por ser antinazista de
destaque, fora forçado a deixar a Alemanha. Depois de exercer em Roma, durante
vários anos, o cargo de Diretor do Secretariado Mundial das Congregações
Marianas, aportou ao Brasil, ainda em plena guerra. Em São Paulo quis conhecer
pessoalmente a Plinio Corrêa de Oliveira, pois em Roma era leitor assíduo de
seus artigos no “Legionário”, e muito ouvira falar dele. Era o início de uma
amizade que iria se aprofundar.
Radicando-se em São Paulo, o Pe. Mariaux
dedicou-se, no Colégio São Luís, à Congregação Mariana
que, sob sua direção, se tornou numerosa e pujante. Os princípios em que o
filho de Santo Inácio se baseava eram muito afins aos defendidos pelo antigo
“Legionário”. A ação dele não podia agradar aos influentes círculos
progressistas de São Paulo. Mas o jesuíta prosseguia eficientemente em seu
apostolado.
Em 1949, entretanto, o Pe. Mariaux
foi mandado de volta à Europa, por seus superiores. Parte dos congregados marianos que tão dedicadamente formara bateu às portas da
Rua Martim Francisco, nº
665. Cerca de dez dentre eles pediram então ao Prof. Plinio Corrêa de Oliveira
que os aceitasse em seu grupo.
Pouco depois se agregaram a estes outros jovens, que
com os antigos redatores do “Legionário” passaram a constituir, todos, um só
grupo (25).
(25) Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, Nasce a TFP, “Folha de S. Paulo”,
22-2-69.
Haveriam de permanecer nas fileiras da TFP, ao longo
de múltiplas e duras lides, Caio Vidigal Xavier da Silveira, Celso da Costa
Carvalho Vidigal, Eduardo de Barros Brotero, Fábio Vidigal Xavier da Silveira (falecido), Luiz
Nazareno de Assumpção Filho, Paulo Corrêa de Brito Filho, Plinio Vidigal Xavier
da Silveira e Sergio Antonio
Brotero Lefèvre.
Dentre esses elementos, destacava-se um rapaz que só
não ingressou mais tarde na TFP por ter seguido a nobre trilha do Sacerdócio.
Referimo-nos ao hoje Cônego José Luiz Marinho Villac,
valoroso amigo a quem a TFP muito deve.
Em agosto de 1948, o antigo grupo do “Legionário” se
transferira para a Rua Vieira de Carvalho, nº 27, 6º
andar, conservando porém a sede da Rua Martim
Francisco. Nesta se instalaram os elementos provenientes da Congregação Mariana do Colégio São Luís e os que a eles se haviam
incorporado. Assim, desde então, os dois grupos passaram a ser conhecidos, na
linguagem interna, respectivamente como “Grupo da Vieira” e “Grupo da Martim”.
Mais tarde, em 1952, o “Grupo da Vieira” passou a
ocupar também o 7º andar do mesmo prédio, onde instalou um auditório para
reuniões.
“A
trajetória
da militância católica de Plinio
ao longo
deste período
(1930 a
1980)
colocou em
evidência
as
contradições da Igreja [sic]
no mundo
moderno”.
Lizânias de Souza
Lima (26).
(26) Departamento de História da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – Dissertação
de Mestrado, 1984, p. 19.
Do
“Legionário” a “Catolicismo”, rumo à TFP
EM JANEIRO DE 1951, D. Antonio
de Castro Mayer fundou em Campos o mensário de cultura “Catolicismo”(*).
Editado sob sua égide, tinha como Diretor o Pe. Antonio
Ribeiro do Rosário, Sacerdote do Clero campista.
Por delegação de D. Castro Mayer e do Pe. Antonio Rosário, entretanto, todo o trabalho de redação ficou
aos cuidados do grupo, e era realizado em São Paulo sob a competente propulsão
de José Carlos Castilho de Andrade.
(*) D. Antonio de Castro
Mayer, hoje Bispo emérito de Campos, distinguiu a TFP com sua valiosa
cooperação, no período que medeia entre 1960 e 1982. Nesse ano, S. Excia. se
distanciou desta Sociedade por meio de carteio. Neste, S. Exa.
alegou motivos aos quais o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, Presidente do
Conselho Nacional da entidade, respondeu com o devido respeito, em cartas de
31-10-82 e 7-11-82. Fatos públicos supervenientes vincaram ainda mais, de parte
a parte, este distanciamento.
O presente esclarecimento é dado com o único propósito
de não criar no espírito do leitor a impressão – que seria inexata – de que o
Prelado ainda colabora com a TFP.
De momento é tão-só o que cumpre a esta última dizer.
O Dr. José Carlos Castilho de Andrade dera os
primeiros passos no campo do jornalismo já no tempo do “Legionário”, do qual
fora secretário de Redação. A ele coube a coordenação do corpo de redatores de
“Catolicismo”. Indicava temas para os artigos e se incumbia pessoalmente da
revisão, feita sempre com esmerado desvelo e competência. Auxiliado por uma
pequena equipe, cuidava ainda da paginação do mensário. Esta constante e
eficiente colaboração, prestou-a ele a “Catolicismo” por mais de duas décadas.
Assumiu depois o cargo de Vice-Presidente da
Diretoria Administrativa e Financeira Nacional (DAFN) da TFP, o qual exerceu
até sua morte, ocorrida em junho de 1988.
O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, além de colaborador
insubstituível, era o inspirador e orientador mais destacado dos que
trabalhavam no jornal. Seus artigos davam a clave de “Catolicismo”. De sua
autoria era a seção – não assinada – Ambientes,
Costumes, Civilizações. Por meio da análise de quadros, pinturas,
fotografias, desenhos, trajes, esculturas etc., a seção punha em relevo os
valores da civilização cristã e fustigava, por via de contraste, os desatinos
da “civilização” neopagã, cuja implantação atinge um
auge nos dias atuais. Esta seção marcava de tal modo o mensário, que muitos
leitores chegavam a confessar que, ao receber o jornal, iam direto à página de Ambientes,
Costumes, Civilizações. Só depois de a lerem com sofreguidão, é que
passavam às demais seções do jornal.
Dentre os demais colaboradores – em geral pessoas dos
“Grupos da Vieira e da Martim” – cumpre destacar
ainda o Prof. Fernando Furquim de Almeida, de cuja autoria era a secção Os católicos franceses
no século XIX, que mais tarde passou a se chamar Calicem Domini biberunt,
destinada a realçar a perpétua luta dos católicos fiéis contra a infiltração da
heresia, ao longo da História bimilenar da Igreja. O
Dr. Adolpho Lindenberg
escrevia comentários lúcidos e concisos, referentes à política internacional. A
seção Nova et Vetera
competia ao saudoso Dr. José de Azeredo Santos, a cuja pena fértil
“Catolicismo” deveu também artigos sobre os mais variados temas, publicados sob
o pseudônimo de Cunha Alvarenga ou C. A. de Araújo Viana.
O agente geral do jornal para os Estados do Sul do
Brasil era o Prof. Antonio Ablas
Filho, conceituado médico e líder católico radicado em Santos, que uma profunda
simpatia ligara ao grupo do “Legionário”, e cuja amizade se estreitava ainda
mais com essa preciosa colaboração para “Catolicismo”, que só cessou em 1960,
quando prematuramente veio a falecer. Pouco antes, em maio de 1958, recebera as
insígnias de Comendador da Ordem Eqüestre de São Silvestre Papa, a ele conferidas
pelo Santo Padre Pio XII.
*
* *
No Brasil eram numerosos os amigos do antigo grupo do
“Legionário” que a detração progressista não convencera. Apenas dispersara e
desalentara. Entre estes, o primeiro número de “Catolicismo” se divulgou com
celeridade. Com o lançamento do jornal, recobravam ânimo e se rearticulavam para a ação.
Aos poucos, o número de leitores novos foi também
aumentando. E o jornal começou a contar com assinantes em quase todo o Brasil,
irradiando sua influência por este País de dimensões continentais.
O setor da opinião a que se destinava “Catolicismo”
era videntemente
o público católico em geral. O mensário tinha como objetivo alertar e estimular
esse mesmo público na luta contra os fatores de deterioração religiosa, moral e
cultural do neopaganismo contemporâneo. E
principalmente promover a reação contra o progressismo e o “esquerdismo
católico” (27).
(27) Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, Nasce a TFP, “Folha de S. Paulo”,
22-2-69.
Desde que o jornal foi lançado, os “Grupos da Vieira e
da Martim”, constituindo um só todo, começaram a ser
chamados, por amigos e adversários, de “grupo de `Catolicismo””.
A grande
repercussão da “Carta Pastoral sobre problemas do apostolado moderno”
EM 1953, D. Antonio de
Castro Mayer vibrou um golpe contra o progressismo, publicando a Carta Pastoral sobre problemas do apostolado
moderno. Ditada por um espírito lúcido e previdente, nela se retomava, de
modo ampliado e com exposição adaptada às novas circunstâncias, a temática do Em defesa da Ação Católica. A Carta
Pastoral, cujas duas edições brasileiras se esgotaram rapidamente, alcançou
considerável repercussão no Exterior. Para isso concorreu notavelmente a
difusão feita pela Agência de “Catolicismo” do Rio de Janeiro, que montou
naquela cidade um stand
durante o XXXVI Congresso Eucarístico Internacional (julho de 1955). A Pastoral
foi sucessivamente editada na Itália, França, Espanha, Canadá e Argentina.
Vitoriosa
expansão de “Catolicismo”
ENQUANTO ISSO, continuava o crescimento do “Grupo de
Catolicismo”. A fundação do mensário trouxera condições propícias ao
recrutamento de novos cooperadores.
Os membros do “Grupo de Catolicismo” uniram esforços
na tarefa de expansão do mensário
Realizaram viagens, percorrendo vários centros do País, onde mantinham contatos,
organizavam reuniões, expunham as doutrinas e objetivos propugnados pelo
jornal.
Ficava assim aberto caminho, em muitas mentes jovens,
para a obra de formação católica em profundidade, que a assídua leitura de
“Catolicismo” iria realizar.
Aqui e acolá, a adesão ia além dos simples aplausos.
Em 1953, no Rio, em Belo Horizonte e em Campos, começaram a se aglutinar muitos
desses jovens para o estudo das teses defendidas pelo jornal. Alugaram sedes em
cada uma dessas cidades, servindo como ponto de encontro para as reuniões
feitas entre eles, e para as atividades de propaganda de “Catolicismo”. Um
convívio assíduo de tais elementos propiciou assim a formação dos primeiros
núcleos de propagandistas fora de São Paulo.
O mesmo aconteceu em capitais como Porto Alegre (em
1953) e Fortaleza (em 1954). Posteriormente formaram-se “grupos” em Salvador
(1954), em Curitiba (1958), em Florianópolis (1959) e, consecutivamente,
em diversas cidades do Interior de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Tais núcleos eram freqüentemente visitados por membros
do “Grupo de Catolicismo” de São Paulo, que lhes ministravam palestras e
orientavam as linhas gerais de suas atividades.
A partir de 1956, o Prof. Orlando Fedeli, jovem
professor secundário, começou a trazer para o grupo de São Paulo numerosa safra
de cooperadores.
Até então os membros do “Grupo de Catolicismo”
pertenciam, na sua maior parte, a tradicionais famílias paulistas. Os elementos
atraídos pelo Prof. Orlando Fedeli eram oriundos, em geral, da média ou da pequena
burguesia, muitos deles filhos da imigração: descendentes de italianos,
espanhóis, sírios, japoneses, alemães e outros. Alugou-se uma sede onde eles se
reuniam, à Rua Aureliano Coutinho,
nº 23. Formou-se desta maneira o “Grupo da Aureliano”.
Mais ou menos na mesma ocasião, constituiu-se também
em São Paulo um grupo de jovens, quase todos alunos do Colégio São Luís,
remanescentes da influência que lá deixaram os antigos congregados do Pe. Walter Mariaux. Esse grupo também
alugou uma sede, primeiramente na Rua Martim
Francisco, nº 518, depois na Rua Aureliano
Coutinho, nº 258. Esta
última foi batizada de “Alcácer” (28). Entre os componentes desse “grupo” se
destacavam, por seu fervor religioso e por sua dedicação, dois jovens cujos
nomes têm um natural e brilhante relevo, pois se relacionam a fundo com lances
da História pátria que os brasileiros entranhadamente
amam. Chamam-se eles D. Luiz de Orleans e Bragança, atual Chefe da Casa
Imperial brasileira, e seu irmão D. Bertrand de Orleans e Bragança, Príncipe
Imperial do Brasil, os quais, em caráter estritamente apolítico,
vêm dando à TFP sua mais contínua e valiosa abnegação.
(28) Em lembrança do Alcácer do Sal, onde se realizou
uma das batalhas da Reconquista em Portugal.
Dos jovens do “Grupo da Aureliano”
e do “Grupo do Alcácer”, os que não se entregaram diretamente a afazeres
profissionais diversos entraram, em sua maior parte, na histórica Faculdade de
Direito do Largo São Francisco ou em outras Faculdades, onde tiveram, em favor
dos ideais da tradição, da família e da propriedade, uma brilhante atuação.
O “Grupo de Catolicismo”, desenvolvendo-se, refletia
assim a pluralidade de camadas sociais e de etnias da São Paulo
industrializada. Passava-se da fase germinativa para
a da franca expansão.
Conferências,
congressos, viagens
TAL SURTO LEVOU o “Grupo de Catolicismo” a promover
anualmente em São Paulo, a partir de 1953, Semanas de Estudo, que
proporcionavam fervor acrescido, maior firmeza e maior coesão doutrinária aos
agentes e propagandistas do jornal nos diversos Estados do Brasil.
Na preparação de tais Semanas empenhava-se uma
comissão composta de membros do “Grupo de Catolicismo” da cidade de São Paulo.
Com o correr do tempo, tal comissão foi se estruturando e ampliando seu raio de
ação, e passou a dar assistência não apenas às Semanas de Estudo, mas também
aos diversos grupos de São Paulo e aos demais do Brasil. Assim nasceu a
chamada Comissão do Movimento.
Entrementes, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e
membros dos “Grupos da Vieira e da Martim” encetavam
viagens ao Exterior, percorrendo países da Europa e nações de origem hispânica
da América do Sul. Foi o ponto de partida de contatos cordiais com pessoas e
associações anticomunistas do mundo inteiro.
Tais contatos ampliaram-se mais tarde, quando o “Grupo
de Catolicismo” montou na Cidade Eterna um secretariado, com o fim de conhecer
de perto o desenrolar das sessões do Concílio Vaticano II.
Era forçoso constituir um setor para coordenar essas
relações. Tal setor tomou o nome de Comissão de Contatos com o Exterior.
Como fruto de todo esse trabalho, realizou-se em 1961
um encontro que marcou época no grupo: o Congresso
Latino-Americano de Catolicismo, mais conhecido
nos círculos da TFP como o “Congresso de Serra Negra”, por causa do nome da
estância hidromineral no qual este se reuniu. Para o
certame concorreram cerca de 350 participantes brasileiros. Estavam também
presentes vinte hispano-americanos de várias nações: eram as primeiras sementes
de uma vasta floração de TFPs que, a partir de 1967, nasceriam além de nossas
fronteiras.
A partir de então, devido ao grande número de
participantes, não eram mais praticáveis Semanas de Estudo congregando todos os
agentes e propagandistas de “Catolicismo”.
Pensou-se em novas fórmulas: a promoção de Semanas de Estudo
Regionais e de Programas Especiais de Formação, em São Paulo e outras capitais.
Numerosos encontros dessa natureza se realizaram seguidamente, propiciando
coordenação de esforços e afervoramento.
* * *
Seria ilusão pensar que esse crescimento do “Grupo de
Catolicismo” transcorreu em céu sereno, em atmosfera de happy-end. Ele custou “sangue,
suor e lágrimas”. Reveses inesperados, incompreensões, preocupações de toda
ordem, defecções desoladoras, marcaram essa trajetória ascensional.
Plinio
Corrêa de Oliveira publica “Revolução e Contra-Revolução”
“Este
livro
é um
catecismo
da
Contra-Revolução.
A história
registrou
catecismos
revolucionários
no
passado:
Mein Kampf de
Adolph Hitler,
Das Kapital de Karl
Marx
e o Catecismo Revolucionário
de Netchaev.
Mas nunca
houve um livro
como
este”.
John Steinbacher (29).
(29) Prefácio para a primeira edição norte-americana
da obra. Educator
Publications, Fullerton, 1972, p. 7.
O DESENVOLVIMENTO que havia alcançado o “Grupo de
Catolicismo” pedia, aos olhos do público, uma definição clara e concatenada de
seus fins e dos meios e métodos que propunha usar para atingi-los.
Em 1959, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira escreveu o
ensaio Revolução
e Contra-Revolução, publicado em primeira mão no mensário
“Catolicismo” (nº 100, abril de 1959). O memorável
estudo constituiu um marco para todos os membros do “Grupo de Catolicismo”,
pois viram consubstanciados os traços essenciais de seu ideário, e a visão
panorâmica da luta que levavam a cabo.
Ali o adversário era apontado: a Revolução, isto é, o processo já cinco vezes secular que vem
destruindo a Cristandade, desde o declínio da Idade Média até nossos dias. Eram
também analisadas, do ponto de vista teológico e filosófico tomista,
as causas profundas do fenômeno, os agentes que o promovem, os elementos
essenciais da doutrina que o inspira, a importância respectiva dos vários
terrenos em que ele se passa, o vigor de seu dinamismo, o mecanismo de sua
expansão.
E ainda eram estudados os pontos simétricos referentes
à Contra-Revolução, isto é, o processo que se deve opor à Revolução, e suas condições de vitória
(Ver: Livros publicados por várias TFPs
nº 1).
Revolução
e Contra-Revolução logo se transformou em livro de
cabeceira dos membros do “Grupo de Catolicismo”, e de todos aqueles que mais
tarde ingressaram não apenas na vasta família de almas da TFP brasileira, mas
também das demais TFPs e entidades afins espalhadas pelo mundo.
Surge,
enfim, a TFP, realização de um sonho de Plinio Corrêa de Oliveira
Tradição,
Família,
Propriedade:
“a reunião
desses três termos
não se
deve ao acaso ....
trata-se
de bloco coerente
que se
aceita ou se rejeita,
mas cujos
elementos
não se
pode separar ....
As novas
comunidades
não podem
nascer e subsistir
senão
ultrapassando (sic)
a família,
a
propriedade privada
e a
tradição”.
Max Delespesse (30).
(30) Tradition, Famille, Propriété:
Jésus et la triple contestation, Fleurus-Novalis,
Paris-Ottawa, 1972, 200 pp., pp. 7-8.
COM A PUBLICAÇÃO de Revolução e Contra-Revolução, estava tudo preparado para o passo
decisivo que mudaria a fisionomia do “Grupo de Catolicismo”, conferindo feição
jurídica a essa família de almas que se formara pouco a pouco, organicamente:
em julho de 1960 fundava-se a SOCIEDADE BRASILEIRA DE DEFESA DA TRADIÇÃO,
FAMÍLIA E PROPRIEDADE – TFP.
Esta Sociedade teve, pois, como sócios fundadores e
diretores, membros do “Grupo de Catolicismo”. Seu surgimento assinalaria, para
todos os amigos que o idealismo, a desventura, a fidelidade e as recentes
alegrias haviam tão intimamente unido numa só alma, o início de outra fase de
sua luta.
*
* *
Na narração que segue, a história de Plinio Corrêa de
Oliveira e a da TFP brasileira se confundem. E isto de tal maneira, que cada
palavra, cada letra deste livro faz parte, a títulos diversos mas muito
realmente, da gesta daquele sem o qual a TFP brasileira, e em algum sentido
também as demais TFPs, não existiriam.
Qualquer observador pode notar que todas as
realizações que trazem o cunho das TFPs, grandes ou pequenas, possuem um estilo
inconfundível e criam uma atmosfera moral de extraordinária elevação. Sente-se
que há uma afinidade que se comunica de alma a alma, até as últimas capilaridades dessa grande árvore. Ora, essa afinidade –
não há quem o possa negar – está alicerçada na palavra e no exemplo de Plinio
Corrêa de Oliveira.
A substância, o estilo, o élan da TFP brasileira são a própria substância, o estilo e o élan de Plinio Corrêa de Oliveira. O que
analogamente também se pode dizer, mutatis mutandis, das outras TFPs em expansão pelos cinco
continentes, das quais o insigne filho da Santa Igreja é inspirador.
Aí está, pois, uma forma superior de paternidade,
normalmente característica dos fundadores das grandes correntes de pensamento e
de ação ou das grandes instituições religiosas e temporais.
Vem a propósito lembrar um episódio da vida do
Bem-aventurado Dom Nuno Álvares Pereira, Condestável
de Portugal.
Perguntaram-lhe, depois da batalha de Aljubarrota, como uma tão diminuta tropa conseguira vencer
um tão mais numeroso exército do adversário. Ao que o guerreiro, bom conhecedor
da alma de seu povo, deu esta resposta: nosso Rei venceu porque seu exército
não é de soldados, é um exército de filhos.
Afirmação análoga se pode fazer das TFPs. E é
exatamente por essa razão que seus sócios e cooperadores levam a dedicação e o
destemor ao ponto de participarem intensamente da grande gesta global que é o
objeto deste livro.