Um grande número de peregrinações que se encaminham
a Roma, para oscular as mãos do Santo Padre Pio XI, costuma apresentar os seus protestos de “servir a Deus” com todas as suas forças. Uma peregrinação recente apresentou ao
Santo Padre as suas homenagens em fórmula um pouco diversa: em lugar de “servir a Deus” os peregrinos se comprometiam a “servir a Santa Sé”.
Estamos certos de que essa alteração produziria escândalo a muito fariseu
pintado de católico. No entanto, o Papa felicitou calorosamente os peregrinos,
dizendo-lhes que protestar “servir a
Santa Sé” é muito mais explícito do
que “servir a Deus”. Realmente, quem serve a Santa Sé,
serve a Igreja, e portanto serve Deus. Mas quem afirma servir Deus não afirma
com isto que deseja servi-lo como Ele quer ser servido, isto é, com a Igreja,
pela Igreja e na Igreja. Os protestantes pretendem servir a Deus, bem como os
ortodoxos, os maometanos, os neo-pagãos da Alemanha e
os macumbeiros do morro da Favela. Mas querem servi-Lo
a seu modo. Não basta que sirvamos a Deus, segundo nós achamos que Ele deve ser
servido. É preciso que o sirvamos como a Igreja, seu porta-voz infalível, quer
que Ele seja servido. E, assim, em uma época em que se usa e abusa de tudo,
inclusive do Santo Nome de Deus, é melhor precisar os termos, e dizermos a
verdade inteira: queremos servir ao Papa e à Igreja, pois que este é o único
modo por que devemos servir à causa de Deus.
Estas considerações me vieram à mente, lendo os
artigos dos Srs. Plínio Barreto e Plínio Salgado, um marechal do liberalismo e outro marechal do integralismo, em que ambos apelam para o “Cristianismo”, como salvação do Brasil.
Se os dois ilustres escritores
entendem por Cristianismo o Catolicismo, estamos de pleno acordo, e
regozijamo-nos com suas declarações que mostram até que ponto um espírito reto
e ilustrado, embora não seja católico, pode discernir na Igreja todos os
predicados que fazem dela a única salvação que pode esperar o Brasil.
Infelizmente, tudo, porém, nos diz
que os dois escritores pretendiam referir-se simplesmente à doutrina cristã em
geral, englobando nessa designação todas as confissões cristãs heréticas e
cismáticas.
Entendida nesta segunda acepção, o que quer dizer “Cristianismo”? Evidentemente, o conjunto de princípios religiosos aceitos por
todas as confissões cristãs. Mas, por pouco que estudemos a situação religiosa
das religiões cristãs não católicas, veremos que é absurdo pensar ainda que
existe um pan-cristianismo super-confessional.
Entre protestantes, a infiltração racionalista é tão generalizada que em um Congresso reunido
em Upsala, e que se compunha de representantes de todas as seitas
protestantes, da Igreja russa e da Igreja grega cismática, não foi possível
senão fixar um ponto de Fé único: a existência de Deus. Alguns afirmavam que
Deus é um ser pessoal, e outros que Deus é impessoal, isto é que se confunde
com a natureza. Muitos sustentavam que Cristo foi apenas um super-homem e não
um Deus, e assim por diante. De sorte que, entre os tais cristãos, nem sequer a
Divindade de Cristo e a existência de um Deus inteligente é indiscutível. Há
quem afirme que Deus é uma força irracional perfeitamente idêntica à “natureza” no sistema de certos filósofos do século passado.
Entre os cismáticos, há uma facção que aderiu ao
comunismo, e outra que combate o comunismo.
E, assim, temos cristãos comunistas, cristãos
panteístas, cristãos que não acreditam no Cristo-Deus,
e assim por diante.
À vista disto, o que é que se pode chamar “Cristianismo”? Uma vaga crença num vago Deus.
Ou os Srs. Plínio Barreto e Plínio Salgado se
resolvem a ser mais explícitos ou enquanto se referirem a “Cristianismo” como força
salvadora, estarão afirmando uma coisa inteiramente inócua, sem a menor
conseqüência na ordem concreta das coisas.
É bom que, em matéria religiosa, se resolvam ambos
a ser um pouco menos anti-liberais...
Dir-nos-á muito leitor que somos
de um rigorismo de arame farpado, capaz de afastar todas as ovelhas que
pretendam achegar-se ao aprisco.
Tanto o Sr. Plínio Barreto como o Sr. Plínio
Salgado são pessoas que chegaram à sua atual situação, de simpatizantes com o
Cristianismo, depois de um longo itinerário intelectual em que, certamente,
terão sido grandes as dificuldades e duros os caminhos. “Per Crucem ad Lucem”; é só pela Cruz, isto é, pelo sofrimento, que se
chega à verdade.
Exatamente por isto não incriminamos nem a um nem a
outro que se detenham por enquanto em um vago Cristianismo muito superior ao
indiferentismo ou ao ceticismo da maior parte dos homens de sua geração.
Nosso intuito consiste, apenas, em tornar bem claro
que, se um ou outro estudasse mais a fundo o Cristianismo e a situação
religiosa do mundo contemporâneo, certamente veria que não é de seitas cismáticas
ou de confissões heterodoxas que o Brasil pode esperar sua salvação. Rompendo
com o erro, que é o agnosticismo, que é o indiferentismo, que é o ateísmo, é
preciso que a ruptura seja total. A salvação que os dois ilustres escritores
esperam para o Brasil não lhe pode vir senão da Igreja Católica, que é a única
expressão autêntica da doutrina Cristã.
A civilização ocidental é filha da Igreja e só na
Igreja, com a Igreja e pela Igreja se há de salvar.