Um dos fenômenos curiosos que nossa época vai
assistir - e prometem ser tantos - é sem dúvida a transformação da fisionomia
dos chefes de Estado. Os reis da velha geração, Afonso XIII, Jorge V, Víctor Manuel, Alberto I, etc., tinham uma fisionomia moral uniforme: elegância
meticulosa, grandes uniformes constelados de condecorações, um sorriso
invariável nos lábios, e uma atitude convencionalmente discreta, através da
qual não filtrava nem um único pensamento, para gáudio dos primeiros ministros.
Em uma época em que os monarcas eram bonecos de palha, cada vez mais
imobilizados pelas restrições constitucionais, parece que o ofício de figura de
proa deixou um selo indelével na fisionomia dos que o praticavam. E os reis
europeus davam geralmente a dolorosa impressão de bonecos bem nutridos e bem
vestidos, capazes de servir de elegantes “marionetes” aos ministérios que a
opinião pública lhes impunha.
O aparecimento das ditaduras européias transformou,
porém, o gosto estético dos nossos contemporâneos, no que se refere a chefes de
Estado. Ninguém mais, em nossos dias, teria admiração pela rústica simplicidade
de um Pedro II, passeando tranqüilamente na Quinta da Boa Vista com uma
calça de brim e um fraque usado. As multidões, hoje em dia, exigem cenários
imponentes, chefes autoritários, governantes aguerridos, capazes de lhes
inspirar confiança, pela ousadia dos seus gestos e pelo feitio despótico de seu
temperamento.
Se Mussolini despisse as
vistosas fardas que enverga, para se trajar como um pequeno burguês, se Hitler abandonasse sua
indumentária semi-militar e o decoro imponente das manifestações nazistas, para
se trajar com a deselegância plebéia do Sr. Leon Blum,
estaria comprometido seu prestígio. A bonomia, a simplicidade, a docilidade, e
principalmente a nulidade são atributos que ninguém mais louva em um chefe de
Estado.
Por esta razão, os monarcas da nova geração se têm
assinalado por atitudes profundamente diferentes das de seus pais. Eduardo VIII tem simplificado
sensivelmente o cerimonial da corte britânica, que Jorge V mantinha intacto, ou
quase intacto. Cremos, porém, que se trate aí de uma medida de mera economia.
Na realidade, o soberano britânico já se tem manifestado muito mais cioso de
suas prerrogativas políticas, do que seu velho pai. Todos os seus gestos
indicam seu propósito de participar ativamente dos negócios públicos de seu
Império, e de ser, na realidade, o chefe da Nação, e não o boneco que esta
aciona como quer. Em matéria de política internacional, ninguém ignora sua
inclinação pela Alemanha. Nem todos os políticos ingleses são favoráveis a essa
orientação do soberano. Ele, porém, tem feito prevalecer mais de uma vez seu
ponto de vista e, quando lhe parece difícil guiar eficientemente seus
embaixadores, toma ele próprio o avião, e vai negociar diretamente com as potências
interessadas. Foi o que fez com as potências balcânicas, enquanto todo o mundo
o supunha entregue a uma inocente pescaria. E, depois, repetiu o mesmo em
Viena, assegurando embora, aos repórteres, que sua presença na capital
austríaca era devida tão-somente a um tratamento de ouvidos que queria fazer
com um famoso especialista residente na cidade imperial.
Outro soberano que promete seguir os trilhos dos
modernos ditadores é Leopoldo III. Seu recente e sensacional discurso sobre a situação
política da Bélgica perante uma
possível conflagração européia, foi uma peça modelar de firmeza e prudência
política. Nada, no documento, indicava um Rei acionado pelos partidos
políticos. Seu discurso foi uma definição pessoal de suas atitudes e de suas
condições. A Bélgica teria de se conformar com elas porque o Rei assim o
queria. Alberto I foi um homem de
grande fibra moral. Mas os preconceitos liberais nunca lhe permitiram fazer uso
de linguagem tão autoritária. O conde de Paris parece ter o vivo
desejo de intervir diretamente na política francesa. Ele não parece disposto a
seguir a linha de conduta sóbria e discreta de seu pai, o Duque de Guise. Pelo contrário, parece que ele quer expor pessoalmente,
intervir pessoalmente, dirigir pessoalmente, e, se possível, reinar em nome
próprio e nunca em nome de parlamentos.
Ainda hoje, o “Legionário” publica
uma fotografia do herdeiro carlista ao trono
espanhol. Seu porte não lembra em nada o débil Afonso XIII. Pelo contrário,
parece um moço disposto a lutar com a
mesma energia com que Isabel, a Católica, consolidou seu trono.
Otto de Habsburg também tem mostrado
seu pulso forte com mais vivacidade, até, do que seus colegas.
Enquanto os monarcas evoluem, assim, para o tipo
ditatorial com o quais tomarão uma fisionomia moral muito parecida com a de
Luís XIV, parece que os presidentes da República, na Europa, tomam ares cada
vez mais democráticos, para não dizer coisa pior.
O Sr. Lebrun, sob este ponto de vista, ainda é tolerável. Mas o
Presidente do Conselho de Ministros da França, Sr. Blum,
é de uma deselegância, de um desalinhavamento, de uma
trivialidade física digna de enrubescer as águas do Sena, em que se espelharam
Luís XIV e a grande Mademoiselle.
Aliás, não é só o Sr. Blum que está nestas condições.
Quase todos os chefes de partido - os da esquerda, é claro - da França têm um
físico que não deixa a menor dúvida sobre sua origem (...).
Quanto ao Sr. Azaña, o presidente da Suíça, o da Polônia, o da Tcheco-Eslováquia, embora um pouco menos desalinhavados,
não estão longe do tipo (...) do Sr. Blum.
É curioso observar que, na eventualidade de uma
guerra mundial, as repúblicas francesa, polonesa, tcheco-eslovaca e russa (e
também a espanhola, se o Sr. Azaña vencer) ficarão
constituindo um bloco inimigo do grupo monárquico-ditatorial, hostil ao qual só
ficará a Inglaterra.
Dos chefes de Estado, que grupo
vencerá? O dos “sans-culotte” ou dos Napoleões?