Os debates travados recentemente na Câmara dos
Deputados revelam a enorme desorientação que, em matéria de repressão ao
comunismo, reina entre os nossos políticos. Essa desorientação se manifestou
não apenas no seio da minoria parlamentar, mas ainda nas fileiras da maioria.
Em geral, os deputados da maioria sustentaram que o
perigo comunista era, agora, mais premente do que nunca. E não houve uma só voz
que se erguesse para lhes perguntar simplesmente duas coisas muito comezinhas:
1) que uso fez o Governo das prerrogativas
excepcionalíssimas de que está investido, para reprimir o comunismo? Como
explicar que, depois de 15 meses de regime especial, o comunismo não só se
conserve incólume, mas apresente pujança maior do que em 1935?
2) se o perigo comunista continua tão premente,
como explicar que tanto a polícia quanto o Tribunal de Segurança estejam
adotando uma linha de conduta cada vez mais tolerante em relação aos
conspiradores de 1935?
O comunismo ataca e fere de morte o instituto da
família e a propriedade individual. É o inimigo n.º 1 da Religião. Em uma
Câmara de mais de 200 membros, é de supor-se que a Religião e a propriedade
individual e a família tenham defensores numerosos. No entanto, nenhuma voz se
levantou para formular essas duas perguntas da máxima importância. Não somente
silenciaram os burgueses, mas os integralistas e, dor
suprema, até os católicos!
Os representantes da minoria, porém, não foram
menos contraditórios e menos cegos. Em geral, negaram a prorrogação do estado
de guerra. O Sr. Seabra, no entanto, deu o brado de alarme contra o crescente
perigo comunista. Outros membros da minoria são de seu parecer. Mas ninguém vê
que se o perigo cresce, a repressão também deve crescer, e que o grande dever
da hora presente não consiste em corroer as prerrogativas governamentais, mas
em impor que o Governo se sirva delas eficientemente, para a vitória da
civilização.
Infelizmente, porém, entre nós católicos, a
confusão não é menor. Seria interessante, para demonstrá-lo, fazer um “test”. O “test”
consistiria em perguntar aos católicos de maior projeção nas fileiras do
laicato, o que pensam em matéria de comunismo. Se acham o perigo grave, ou não.
Se o consideram próximo ou remoto. Se o consideram fruto de nossas condições
sociais, ou resultante de exploração estrangeira. E sobre o modo mais eficiente
para a sua repressão e prevenção.
Estamos absolutamente certos de que esse inquérito
produziria as maiores surpresas, demonstrando que, unidos embora nas questões
doutrinárias, os católicos divergem imensamente entre si na apreciação da
situação concreta a que devem aplicar tais princípios.
Não quer isto dizer que haja correntes de
pensamento muito diversas entre os católicos militantes. O que há - DURA
VERITAS, SED VERITAS - é um verdadeiro caos. Impressões colhidas a esmo,
ressentindo-se da imperfeição própria aos observadores que consideram tudo do
ponto de vista do ambiente social em que vivem, idéias gerais muito pouco
precisas, etc., etc. E, com isto, a maior disparidade no modo de conceber a
ação concreta, necessária para que, no terreno cívico, a atividade dos
católicos seja mais eficiente.
O resultado desta situação é fácil
de se prever. Desde que condições ou circunstâncias “h” obriguem os católicos a
se definir em matéria em que o Episcopado não queira nem deva envolver-se, eles
não terão um ponto de acordo no terreno prático. Acertarão vagas diretrizes
doutrinárias. Lamentar-se-ão, resmungarão e, no momento de se coordenarem,
divergirão.
Para corrigir esta situação que se
choca fundamentalmente com todos os princípios admitidos em matéria de Ação
Social Católica, cumpre que os católicos tratem de se esclarecer.
Nas magistrais conferências que realizou nesta
capital o Rev.mo Pe. Paul Dabin disse que é
indispensável, para a Ação Católica, “conhecer cientificamente o terreno em que
age”. Com isto, quis o emérito Jesuíta significar que a Ação Católica deveria
conhecer perfeitamente bem as condições políticas e sociais em que se
desenvolve. E que o cuidado na formação desse conhecimento deveria ser tal que
não deveriam ser desdenhados os processos mais delicados da ciência, para obter
resultados satisfatórios.
Essa verdade é de simples bom senso. Qual o general
que presume ganhar uma batalha sem conhecer perfeitamente bem o terreno? Qual o
médico que pretende receitar remédios com acerto sem conhecer exatamente o
doente? Se a Ação Católica é um exército, e se a doutrina da Igreja é uma
medicina, por que motivo há de ser ministrada esta ou deve ser dirigido aquele
com menos inteligência e menos profundeza de vistas do que as coisas meramente
humanas?
Concretizando, depois de muitas e muitas reflexões,
chegamos à conclusão de que constitui “CONDITIO
SINE QUA NON” da precisão e da eficiência da Ação Católica, em matéria social,
a organização de um aparelhamento controlador das
questões sociais em São Paulo. Uma organização que possa dizer, com precisão,
se em São Paulo há ou não há propaganda comunista, se essa propaganda fere de
preferência os intelectuais ou os operários, se processa com agitadores
estrangeiros ou já encontra favor entre os nacionais, se ela tem entrada fácil
nos ambientes militares e escolares, se ela mantém afinidades com (...) o
espiritismo, o protestantismo, ET COMITANTE CATERVA.
Muitas questões aqui feitas, para os que têm hábito
de observar os acontecimentos com “esprit de finesse”, podem
desde já ser respondidas afirmativamente. Outras deverão ser objeto de estudo
mais acurado.
Mas enquanto não conhecermos as proporções exatas,
as forças e os métodos dos exércitos que nos combatem, enquanto não soubermos
com toda a precisão quais os pontos vulneráveis em que estamos sendo
combatidos, do que nos serve todo o resto?