Não é nossa intenção tratar, neste artigo, da
sucessão presidencial, estabelecendo um cotejo, sob o ponto de vista católico,
entre os candidatos que se apresentam para disputar a suprema magistratura da
República. Queremos tão somente, à margem dos acontecimentos e sem tomar
posição neles, fazer um comentário que se relaciona com os mais altos
interesses da vida política do Brasil.
Há duas espécies de atitudes perante a política: a
de ator e a de espectador. Atores são todos os que, direta ou indiretamente,
cooperam na preparação dos acontecimentos políticos de que o Brasil está sendo
teatro. Uns desempenham o papel de figuras centrais da tragédia - ou da
comédia, se quiserem - representando os papéis mais importantes. Outros, são
meros comparsas que passam rapidamente pelo palco, para desempenhar uma missão
pequena e obscura. Finalmente outros nem aparecem no palco. São os inúmeros
empregados que, nos bastidores, levantam o pano, acendem as luzes e cooperam
para a manutenção da ordem nas “coulisses”. Na vida política, esta categoria de gente é
representada pelos políticos de 3ª importância, que querem furiosamente algum
emprego ou alguma pequena suserania municipal e que, sem aparecer no cenário da
política, não deixam de ter certa influência, nos bastidores, sobre o curso da
representação.
Espectadores são os que não tem interesses pessoais
relacionados com a política e que, portanto, não cooperam com a representação
da trági-comédia. Assistem de longe e do alto. Não
lhes preocupa, de maneira nenhuma, o formigar das rivalidades e o choque das vaidades nos bastidores. Só o que lhes desperta interesse é
a representação correta da peça e a fiel interpretação dos papéis de cada ator.
Não nos interessam, neste artigo, os primeiros.
Estão com as vistas deslumbradas pela claridade do palco, e com a atenção
monopolizada pelos acontecimentos da cena. São incapazes de vislumbrar o que
sente o público distante que, na meia obscuridade, os contempla... e os julga.
O que nos interessa sobremaneira são os
espectadores. Porque eles, afinal de contas, são o Brasil. E os atores
do palco não são em geral senão inofensivas marionetes que oscilam do
centro para a direita ou para a esquerda, não ao sabor de convicções que lhes
faltam, mas ao impulso de dedos quer calçados ora com luvas verdes, vão
desenvolvendo gradualmente um jogo que pode parecer moderno, mas que na
realidade é muito velho.
Que atitude vem tomando este
público em matéria de sucessão presidencial? A dizer com franqueza, a primeira
impressão que se nota em todos os brasileiros imparciais é de
asco. Não asco pela pessoa dos candidatos, a quem não queremos negar
qualidades. Mas de asco profundo pela instabilidade das atitudes políticas,
pela incoerência flagrante e despudorada entre atitudes da maior parte de seus
sequazes, hoje, ontem e anteontem. A bem dizer, serão pouquíssimas as correntes
políticas que não se encontram, agora, em uma situação que condenariam
formalmente há dois ou há três anos atrás. Se, no calor da Revolução de 30 ou
de 32, um profeta tivesse descrito de antemão as variações que sofreriam as
alianças e as hostilidades que então existiam, todo o mundo se teria rido dele,
acoimando-o de louco. Porque absolutamente não pareceria possível a ninguém que
os políticos brasileiros - sobre os quais já não havia, entretanto, grandes
ilusões - dessem a seus ressentimentos e a suas
simpatias a inconsistencia, a mutabilidade a futilidade de brigas de
meninas de colégio; que fossem tão pequeninos na vaidade e tão imensos na
ambição, tão corajosos na ganância e tão tímidos no cumprimento do dever.
Esta nota dolorosa não é privativa de uma das
corrente políticas. Encontra-se, pelo contrário, em quase todas. A tal ponto
que um vespertino desta capital já chegou a proclamar que, realmente, a
corrente política que ele defende é incoerente, porque a política brasileira é
feita de incoerências, mas que a incoerência de seus adversários não é menor.
No que tem toda a razão.
Qual é o resultado de tudo isto? Não é difícil
percebê-lo: agonizam nossas instituições, desprestigiam-se os princípios que
até ontem eram convicção política unânime (boa ou má, não vem a pelo
discuti-lo) dos brasileiros, e decaem irremediavelmente no conceito público
quase todos os homens da geração passada, que o Brasil vinha, se não admirando,
ao menos tolerando na administração do
País.
Como conseqüência deste formidável desgaste de
homens, de instituições e de idéias, uma grande transformação se prepara. O
Brasil aí está, como matéria amorfa, para ser plasmada pela corrente de homens
que tenha maior sucesso na tarefa de conquistar o poder em nome de idéias
novas.
Significa isto, em outros termos, que o Brasil está
no momento em que deverá tomar nova forma. Se esta forma obedecer à concepção
da esquerda, o Brasil será não mais o Reino de Nossa Senhora Aparecida, mas uma
China ou um México qualquer. Se a forma
for plasmada por mãos direitinhas, erguer-se-á ante
nós o receio do estado totalitário, com o qual a Igreja é incompatível.
Pobre Brasil! Navegando por um mar revolto, parece que está fadado a
naufragar de encontro a um destes dois escolhos extremistas: Berlim ou Moscou.
Isto, se não se quiser submergir inteiramente no lodaçal do liberalismo.
Muita gente dirá: entre dois escolhos, convém optar
pelo menos mau.
Mas nós perguntamos: não será a mocidade mariana o braço forte com que Nossa Senhora dotou seu Reino
na hora do perigo, para derrubar um e outro escolho, e realizar no Brasil a
política do grande Dollfuss: uma política tendo por ideal o Catolicismo, como norma
de agir o Catolicismo, e como solução para todos os problemas o Catolicismo?