Aos católicos Brasileiros, e principalmente aqueles
que souberam conservar-se fora e acima nas disputas partidárias, assiste no
momento presente um dever imperioso, de cujo exato cumprimento dependerá, em
grande parte, a solução da atual crise política.
O que há de mais grave na atual situação política é
o estado de espírito apreensivo e fantasioso que ela sugere. Do que, no
momento, temos mais medo para o Brasil é o próprio medo com que muitos
brasileiros encaram as dificuldades da hora presente.
Nosso perigo mais iminente consiste no pessimismo e na exacerbação do
espírito partidário.
Já nos referimos, em outro local desta folha, à
campanha de boatos que, insistente e insidiosamente, se tem organizado para perturbar
os espíritos. Some-se a esta campanha a natural apreensão despertada pelos
fatos que são de domínio público, e compreender-se-á o nervosismo geral com que
todos os cidadãos encaram a crise política que se formou em torno da sucessão
presidencial.
Esse nervosismo, por sua vez, aguça
extraordinariamente as paixões partidárias, extremando as opiniões, e
transformando em inimizades irreconciliáveis as mais inofensivas divergências.
E, com tudo isto, a tarefa dos elementos interessados em perturbar a ordem e
solapar os alicerces da Pátria lucram extraordinariamente.
A tarefa dos católicos deve consistir em contrariar
este manejo pérfido. No momento em que o boato tenta aumentar a inquietação do
espírito, nossas palavras devem ser de um realismo sereno que, sem se
transformar em um otimismo tolo, desminta as invencionices
com que se procuram “aumentar a aflição
dos aflitos”. E, principalmente, à vista das paixões partidárias que cada
vez se avolumam mais e se tornam mais ácidas, os católicos devem ter uma linha
de conduta superior, apontando a todos os brasileiros, de todos os credos
políticos compatíveis com nossa civilização, o dever fundamental da hora
presente, que consiste em manter a paz.
A paz é, no momento atual, o modo
de fazer guerra aos inimigos do Brasil.
Por mais que se diga ou se escreva sobre a
impotência da opinião pública no Brasil, é, incontestável que todas as nossas
revoluções são precedidas de um movimento de opinião em que se procura preparar
os espíritos para receber favoravelmente a futura guerra civil. Assim foi em
1922, em 1923, em 1930 e em 1932. Sem que o estado de espírito pré-revolucionário sature o ambiente, penetre nos quartéis,
nas oficinas, nos lares, nos clubes burgueses, não é possível o sucesso da
revolução. A simpatia do público, mesmo quando este se mantém alheio à luta
armada, tem uma ação catalítica, um efeito de presença, que constitui um dos
mais preciosos fatores de êxito, pela sua favorável repercussão sobre o moral
da tropa armada.
O Brasil é um país em que não se compreende a
eclosão de um movimento revolucionário sem a coexistência dos dois fatores seguintes:
concurso da força armada e a simpatia de uma parte da opinião pública.
A perdurar o atual estado de espírito, em que o
pessimismo ou a paixão partidária da massa é a nota dominante, o segundo fator
estará constituído. E bastará que a política consiga envolver nas malhas de
suas intrigas alguns militares de prestigio, para que se encontre o Brasil a
dois passos da guerra civil.
Parece-nos que só um cego não poderá ver o que
afirmamos.
Os católicos deverão demostrar, pois, com muita
insistência, que o nosso grave, o nosso mais temível perigo no momento atual é
o próprio nervosismo com que consideramos as dificuldades em que nos debatemos,
e a paixão partidária exagerada que este nervosismo inspira em nós.
É essa ação apaziguadora, esclarecedora,
orientadora, que os católicos devem desenvolver no momento presente. Porque
eles, melhor do que ninguém, podem avaliar os prejuízos incalculáveis que a
Igreja e a Pátria sofreriam se o espírito aventureiro de que alguns apaixonados
transformassem o Brasil em uma nova Espanha.
* * *
Como estamos fartos de sofrer interpretações
capciosas acerca do que escrevemos, não será inoportuno esclarecer, antes de
terminar o artigo, que as censuras que ele contém se referem ao espírito
partidário apenas nos seus excessos, e que estamos longe de afirmar que o
entusiasmo partidário, por si só, é digno de censura.
É tal a exacerbação de certas paixões, que
esclarecimentos como este são sempre oportunos.