O livro de Paulo Setúbal é muito mais do que
o histórico de uma alma ou até mesmo de uma geração. Ele é a própria história
viva e empolgante do drama espiritual do Brasil contemporâneo. Todos aqueles
que tem qualquer parcela de responsabilidade pelos destinos do Brasil, pais de
família, professores, sociólogos, estadistas, deveriam ler a extraordinária
experiência íntima de Paulo Setúbal. Através de suas páginas de sangue, não é
apenas um homem que chora e que sofre.
“Confiteor” é o grito
lancinante de gerações inteiras que foram desviadas de Deus: o grito não apenas
da geração de Paulo Setúbal, mas de todas as outras que se lhe tem seguido até
aqui, e ainda de algumas outras que virão.
Não pertenço à geração de Paulo Setúbal. Mas a tal
ponto é verdade que seu livro é o drama de todos os brasileiros deste século
que, ao ler o “Confiteor”, tive a impressão de ser
ele um mosaico em que se engastavam pedacinhos de meu próprio passado, de
permeio com episódios e impressões que companheiros do meu tempo me contaram em
confidência, ou que neles espreitei furtivamente, nos rápidos instantes em que
as almas, distraidamente, se abrem. Entre a geração de Paulo Setúbal, a minha e
as que se lhe seguiram, há mais do que simples analogias, há identidades
profundas no sentir e no pensar. A bem dizer, a diferença foi só uma, mas esta
formidável, essencial, básica: o movimento mariano que proporciona aos moços de
hoje o ambiente salvador que a Paulo Setúbal e aos do seu tempo faltou
inteiramente. Uma diferença, pois, que é uma atenuante para ele e uma agravante
para nós.
* * *
“Confiteor”
é o grito lancinante de gerações inteiras que foram desviadas de Deus.
Em substância, o drama de Paulo Setúbal foi o de
uma alma que perdeu a pureza e mais tarde perdeu a Fé, que se esquivou
sistematicamente aos chamamentos divinos que eram para ele a moléstia e a
vocação sacerdotal, e que, no ocaso prematuro de sua vida, se voltou para Deus
em um magnífico gesto de contrição, que encheu de nobreza, de esplendor e de
santidade os últimos meses de sua existência terrena.
Mas este drama é de tal maneira vivido, de tal
maneira sentido, de tal maneira narrado, que o eleva às culminâncias
de uma das mais belas obras do gênero em nossa literatura contemporânea. Maior,
por exemplo, do que o comovedor e deslumbrante prefácio de Antero
de Figueiredo no “Último Olhar de
Jesus”.
Paulo Setúbal foi um dos corações mais genuinamente
brasileiros que jamais tenham pulsado em nossa terra. E por isto, tudo o que
ele nos conta de si se aplica, com variantes, a cada um de nós.
Criança ainda, sua alma era um fino vaso de
cristal, que continha as flores dos mais delicados sentimentos. A Fé, a pureza,
o amor filial, a simplicidade, tinham em sua alma aquele delicado e alvo
esplendor de meiguice, que é a nota distintiva inefável, suavidade do culto
piedoso ao Salvador, pela doçura incomparável do amor de sua mãe, o coração de
Paulo Setúbal foi na infância aquele “coeur d'un homme vierge”
que ele mesmo compara a um vaso de insondável profundidade. E o vaso estava
cheio até os bordos dos mais puros e preciosos perfumes.
Mas é só do coração de Paulo Setúbal que se poderia
dizer tudo isto? Qual o brasileiro batizado que não guarda, da manhã de sua
vida, impressões análogas?
É preciso ler o que Paulo escreveu
do Cristo, para se avaliar a doçura do que o Cristo disse a Paulo.
Veio depois a hora da tentação.
O primeiro assalto foi o da impureza. O respeito
humano, as solicitações instantes de nosso meio social corrupto, o exemplo
escandaloso de toda a sua geração, montaram o assalto ao “coeur d'un homme vierge”, ao coração
profundo como um vaso profundo, e cheio até os bordos, de inebriantes perfumes.
E o vaso trincou-se. Mais tarde, a brecha se tornaria mais larga, até que o
vaso se partisse em cacos.
Trincou-se por que? A mãe, uma santa. O professor,
outro santo. O colégio, autenticamente católico. Por que, então, trincou-se o
vaso?
Porque a formação religiosa não fora tão profunda,
nem tão completa, nem tão perfeita, quanto seria mister. E quando o assalto do
mundo, do demônio e da carne investiu sua alma, ele baqueou. Baqueou porque era
forte demais para ela o exemplo unânime dos colegas, o escárnio dos irmãos, a
atração da concupiscência.
Para resistir, teria sido necessária instrução
religiosa, formação espiritual ou ao menos amigos bons.
E Paulo Setúbal só encontrou tudo isto pela metade
da parte de todos, excetuada talvez sua Mãe.
Mire qualquer brasileiro este quadro, e diga, caso
ele não tenha a graça de ser virgem, se esta história é só de Paulo Setúbal, ou
se não é também a sua.
* * *
Alargou a brecha a impiedade. Por falta de
instrução religiosa, por injunções do ambiente, pelo
sarcasmo dos amigos maus e pela ausência dos amigos bons, Paulo perdeu a Fé.
Porém perdeu-a também, e cumpre não esquecê-lo, porque na sua alma não habitava
mais a pureza que agrada ao Cordeiro de Deus.
Mas perdeu Paulo realmente a Fé? Ele o afirma, e eu
o creio. Mas ele perdeu a Fé como a perdem os brasileiros em geral: isto é,
muito menos pelo fato de inteligência mal informada no ver a verdade, do que
pela recusa da vontade em praticar o bem.
E por isto este rapaz incréu,
afogado na sensualidade que dele fizera uma alma gananciosa, sensual e frívola,
tinha súbitos movimentos para Deus. Quando entrou para a Ordem 3ª do Carmo, e
quando sentiu vocação para o Sacerdócio, que objeções lhe fez sua inteligência
de incrédulo? Nenhuma. Porque, no fundo, não tinha nenhuma a fazer. Incrédulo,
ele o era. Mas muito mais porque não queria crer, do que porque realmente não
cresse.
Paulo Setúbal quis ser Padre! Quem haveria de o
supor, lendo há 6 ou 8 anos atrás as suas obras!
Mas abra-se tanto e tanto coração que por aí anda
soberbo e endurecido. E diga-se depois se também ele não teve horas em que a
graça de Deus o visitou no fundo do abismo, como visitou o filho pródigo quando
mais duro ia o seu exílio. Aí, como no mais, o drama de Paulo Setúbal é o
arquétipo do drama espiritual contemporâneo.
* * *
“Confiteor”
é a ardente apologia da Fé e da Pureza que ele lança à mocidade de sua terra.
Finalmente, quando sua vida declinava para o ocaso,
Paulo Setúbal se converteu. Sua conversão foi profunda e sua contrição amarga.
Com que carinho de filho Paulo Setúbal se refere ao
Bom Pastor que encontrou na tarde de sua vida! Quanto daria eu para saber que
longas horas de conversação teve Paulo com o Cristo, para poder amá-Lo com tão extremosa adoração!
É preciso ler o que Paulo escreveu do Cristo, para
se avaliar a doçura do que o Cristo disse a Paulo nessas longas horas de
intimidade.
Mas o amor de Paulo não ficou aí. ele se expandiu
no apostolado, e a obra que ele produziu foi esse extraordinário “Confiteor”, ardente apologia da Fé e da Pureza que ele
lança, do fundo da sepultura mas também do alto da glória dos justos, à
mocidade de sua terra.
Com que humildade autêntica ele o fez! Com que
pesar sincero! Com que amor radioso ao Coração de Jesus!
Todas as pessoas a quem a idade e outras
circunstâncias permitem leituras realistas, deveriam ler “Confiteor”.
Ele é um presente de Paulo Setúbal moribundo, a todos os brasileiros, mas
especialmente às almas virginais ou contritas, que vivem sob o manto da Virgem
das virgens, para que amemos ainda mais o bem que praticamos, ou choremos mais
o mal que fizemos.
* * *
É curioso, mas eu, que nunca vi Paulo Setúbal,
fiquei com saudades dele ao terminar a leitura de seu livro. Saudades dele e
simpatia para com as figuras privilegiadas em cujo convívio ele introduz o
leitor: sua santa mãe, seu professor, sua esposa, sua admirável filhinha.
É a todos eles, à memória dos que foram e à virtude
dos que ficaram, que dedico este artigo. É uma homenagem sem o valor literário
de outras, mas entusiástica, sincera e comovida como poucas.