Nosso clichê representa milhares de braços num
gesto entusiástico de solidariedade ao Führer alemão.
O que significa esse gesto? Um juramento de fidelidade incondicional. A quem
essa obediência prestada por milhares e milhares de pessoas? Ao Sr. Adolph Hitler, o homem sob cuja autoridade se está restaurando o culto
dos velhos deuses mitológicos, que para honra da civilização todos os homens
sensatos supunham definitivamente destruídos pela obra missionária de São
Bonifácio. E quem presta este juramento idolátrico? Índios? Negros
do Sertão da África? Amarelos das encostas do Thibet?
Não, alemães que tem atrás de si uma tradição de mais de mil anos de civilização
cristã. Desde que se comemora nesta semana o dia das missões, não é
inconveniente examinar este tremendo surto de idolatria, no seio de uma das
nações mais gloriosas e mais cultas do mundo.
* * *
Começamos por não saber, verdadeiramente, o que o católico
deve recear mais, se o ateísmo radical da Rússia, se o paganismo do Sr. Rosenberg. O primeiro é cruamente materialista na sua essência,
amoral nas suas conseqüências, brutal no seu método. Na doutrina como na prática,
representa um extremo oposto ao catolicismo. O paganismo do Sr. Rosenberg pelo contrário, não é ateu e, em certo sentido,
dir-se-ia até que não é brutal. Mas afirma deuses falsos, e uma religião cuja
prática conduz a conseqüências políticas e sociais exatamente idênticas às do
comunismo.
Os horrores do amor livre comunista não são maiores
do que os do nudismo “rosenberguista”.
Por outro lado, se o ateísmo é o maior dos males, porque representa a negação
completa de Deus, ele fere tão a fundo as exigências mais fundamentais do
sentimento humano que não pode ser de longa duração em um povo. Enquanto o
paganismo, dando certa satisfação a essas exigências, tem longevidade maior e
sob este ponto de vista é mais perigoso para a civilização.
* * *
Como explicar na Alemanha este surto de
paganismo e de barbárie?
A explicação é fácil. Como muitos outros movimentos
da direita, o “nazismo” apresentava
uma doutrina flutuante, que sob muitos aspectos se prestava a múltiplas
interpretações. Entendida em sentido católico essa doutrina, poderia ser
altamente louvada sobre muitos pontos de vista. Mas ela comporta outras
interpretações nitidamente hostis à Igreja.
Assim, as fileiras hitleristas
apresentavam vultos os mais antagônicos como pensamento, desde católicos
convictos até protestantes intransigentes, ou pessoas que criam em um Deus vago
que ninguém sabia no que consistia.
O pretexto para a formação desse conglomerado
fantástico era a frente única contra o comunismo ateu.
* * *
Mas havia realmente uma grande desordem doutrinária
no hitlerismo? Ou pelo contrário havia um pensamento
central que tendia a tornar-se mais nítido e a absorver os demais pensamentos
representados em suas fileiras?
Entre os católicos, os mais argutos começaram a
optar pela segunda hipótese. Havia nas fileiras hitleristas
um grupo de orientação nitidamente pagã que pleiteava a restauração do culto
dos deuses germânicos. Essa corrente era a mais barulhenta, e seus
representantes subiam gradualmente na hierarquia do partido. E muitos católicos
viam nela a bússola que indicava rumo que o hitlerismo
iria seguir.
* * *
E Hitler? O que dizia ele?
Pessoalmente,
dizia-se católico. E para dar de sua catolicidade uma prova irrefutável... ou
considerada tal pelos ingênuos, chegou a receber a Sagrada Comunhão.
E o paganismo rosenberguiano?
Aos católicos que se manifestavam inquietos, dava-se imediatamente uma resposta
tranquilizadora: doutrinariamente, o neo-paganismo
era um tal absurdo que morreria por sim mesmo. Não se devia prestar muita
atenção ao aspecto positivo e construtivo do hitlerismo,
que poderia apresentar falhas. O que era necessário, isto sim, era combater o
comunismo. Subindo ao poder, Hitler, que era católico, arranjaria tudo. Para
que prestar atenção nas asneiras de Rosenberg quando,
nas fronteiras alemãs, rugia o monstro de Moscou?
* * *
Como sempre, os ingênuos e os previdentes entraram
em conflito. E as hostes católicas se cindiram. Von Papen e alguns outros
tomaram o rumo hitlerista. E graças ao apoio deles
Hitler subiu.
E o Episcopado? Iluminado pelo Espírito Santo, já
havia discernido o que havia de venenoso no hitlerismo
e, antes deste galgar o poder, já o havia condenado.
Mas e os católicos alemães? Como católicos, como
alemães, e até como hitleristas, deveriam ter
profundo espírito de disciplina. Por que não acompanharam seus Bispos?
Porque o movimento hitlerista
era absorvente. Quem jurara fidelidade ao Füehrer e
freqüentava os círculos hitleristas perdia o espírito
de disciplina em relação à Igreja. E quando ela chamou ao aprisco as ovelhas
desgarradas, estas já estavam longe demais, e não encontraram o caminho da casa
paterna.
* * *
E o Sr. Hitler?
Começou a mostrar as garras. Deu toda a força ao
Sr. Rosenberg e, hoje em dia, a mentalidade do Sr. Rosenberg é a do partido hitlerista.
O que parecia inverossímil aos incautos se realizou. E os previdentes passaram
pela amarga dor de ver confirmados os seus prognósticos.
* * *
E por quantas andam as coisas na Alemanha
atualmente?
Um pequeno fato esclarece tudo. Em recente artigo,
o “Osservatore Romano” informava que
o Sr. Hitler havia baixado instruções para que se economizasse o mais possível
o vinho e o trigo necessários à Transubstanciação no
Santo Sacrifício da Missa e a comunhão dos fiéis. Além disto, deveria ser
queimado o menos possível de óleo nas lamparinas junto ao Santíssimo
Sacramento.
Enquanto essa miserável economia se fazia para com
o Sacramento do Amor, eis uma estatística do que se deglutiu no Congresso de Nuremberg: foram consumidas 3.300.000 refeições diárias, 400 mil quilos de salchichas, 800
mil quilos de carne, além de outros víveres.
Não é expressivo?
* * *
Mas há outras coisas curiosas. Enquanto a economia
alemã não comporta certa largueza nem no emprego de farinha nas hóstias, o Sr.
Hitler presenteou Sr. Mussolini com as insígnias da
grã-cruz da Águia alemã, guardadas em uma pequena caixa de prata, com
incrustações de âmbar. As insígnias são de ouro, cravejadas com brilhantes.
Assim, gasta-se com um homem imensamente mais do
que se recusa a Deus.
Mas há mais ainda.
Enquanto se faz economia com o culto divino,
economias insignificantes e miseráveis que rebaixam quem as faz, o governo hitlerista abria largos créditos... para o governo russo (!)
emprestando-lhe dinheiro exatamente no momento em que ele se preparava a
intervir na China.
O dinheiro que se nega ao culto de Deus se gasta
com um simples mortal e, mais ainda, se fornece aos próprios inimigos da civilização.
À margem deste fato monstruoso mas verídico,
perguntamos de passagem se o Sr. Hitler
podia estar certo de que este dinheiro não seria empregado pelos sovietes para
alimentar as mesmíssimas tropas
comunistas que o próprio Sr. Hitler combate na Espanha...
* * *
Mas ainda há mais.
A este homem, tão carregado de culpas perante a
Igreja e a civilização, o Sr. Benito Mussolini, que nas linhas gerais de sua atuação tem mais de
uma vez agido em sentido católico, dá o abraço afetuoso de um irmão e de um
correligionário.
É este homem que o Sr. Mussolini
convida para visitar a Itália, naquela mesma Roma onde se encontra o Coliseu no qual o paganismo
procurou esmagar o Cristianismo. É certo que o Sr. Hitler se sentirá bem na
cidade onde imperou Nero. Mas a Itália de hoje não é
a de Nero mas a de São Pedro. E a presença de Hitler
na Capital do Mundo católico e da catolicíssima
Itália não poderá ser aprovada por nenhum católico do mundo.
Entretanto, até a data da visita já está marcada.
Será em julho do ano vindouro.
* * *
Cortesias oficiais entre chefes de Estado apenas?
Não. Hitler e Mussolini tem timbrado em provar que não são apenas
chefes de Estado amigos, mas de partidos irmãos.
Por isto, o Sr. Hitler recebeu as insígnias de
oficial honorário das milícias fascistas.
Se fosse uma distinção meramente internacional,
poder-se-ia ter dado ao “Füehrer” alguma graduação honorária no exército
italiano, como é usual entre soberanos. Mas a condecoração foi da milícia
fascista.
Não é expressivo?
* * *
Tomará o fascismo o caminho do hitlerismo?
Pedimos ardentemente a Deus que não. O gênio político do grande Mussolini, que já uma vez o deteve à beira do abismo,
poderá mais uma vez conservá-lo no bom
caminho.
Mas é inegável que o fascismo tem gravíssimos erros
doutrinários. A prova disto é que algumas obras fascistas estão condenadas pela
Igreja. E a aproximação exagerada do fascismo e do hitlerismo
cria agora perspectivas sombrias.
Queira Deus tornar vãos nossos receios, para o bem
das almas, salvaguarda da civilização e glória da Itália!