A felicidade de todo e qualquer regime político
depende, principalmente, da moralidade reinante no país em que ele se aplica.
Não apenas da moralidade dos governantes, mas também da dos governados, porque
sem ter o valor absoluto que muitos lhe querem emprestar, é não obstante
verdadeira a famosa afirmação de que cada povo tem o governo que merece.
Se é certo, porém, que o vigor moral dos habitantes
de um país é condição essencial para o bom funcionamento das instituições
políticas, não é menos certo que os diversos regimes políticos exigem ou supõem
cada qual umas tantas virtudes especiais, que devem ser particularmente
intensas e autênticas no espírito popular, para que a engrenagem do poder
público possa funcionar com desembaraço.
A nosso ver, a causa máxima da falência das
instituições soçobradas em 10 de novembro foi a ausência, em alguns de nossos
meios políticos e em largas zonas da opinião pública, das virtudes que o regime
democrático supõe. O Brasil nunca teve a formação adequada [para] viver em regime
democrático. E, exatamente por isto, conheceu apenas contrafações desse regime,
que procuravam imprimir à viva força, no País, uma fisionomia que ele não
tinha.
Nenhum dos regimes que governaram o Brasil teve
estabilidade, porque nenhum deles soube despertar o estado de espírito e as
virtudes cívicas necessárias à sua conservação.
Todos os regimes que temos conhecido no Brasil tem
caído em revoluções de poucas horas, sem ponderável efusão de sangue, sob o
olhar indiferente ou satisfeito da população. Ao par de uma especial proteção
divina, que a inocuidade de nossas revoluções
políticas revela claramente, é preciso levar este fato à conta da indiferença
da opinião pública para com todos os regimes que aqui tem vivido. E esta
indiferença resulta do fato de terem os nossos regimes políticos fechado os
olhos à única força capaz de cavar, para eles, no espírito nacional, os
alicerces indispensáveis à sua solidez. A Monarquia não viu ou não quis ver que
o apego às instituições monárquicas, em uma época profundamente liberal, só
poderia proceder de um profundo espírito religioso, capaz de imunizar contra as
investidas sedutoras da demagogia, a opinião pública. Sua cegueira, neste
ponto, foi tão longe que chegou a prender os Bispos de Olinda
e Pará (...). Se tivesse subido ao trono imperial a gloriosa Princesa
Redentora, provavelmente esta linha de conduta teria sido modificada. (...)
Só no Catolicismo poderá o regime encontrar base
para o florescimento das virtudes necessárias à sua existência.
A 1ª República também não compreendeu que, para que
o regime de 89 não degenerasse na pavorosa anarquia em que finalmente veio a
soçobrar 48 anos mais tarde, teria sido necessário estimular na opinião pública
a prática de umas tantas virtudes que são a condição essencial para o
funcionamento de qualquer democracia. Houve, é certo, algumas tentativas de
formação cívica. Mas foram todas vãs, porque careciam de verdadeiras raízes.
Houve, é certo, algumas campanhas nacionalistas. Mas foram tão efêmeras quão
sonoras, porque não passavam de meros fervores literários, e não souberam
apresentar à opinião pública os esteios doutrinários nos quais se deve firmar o
verdadeiro nacionalismo. Foi esta a causa profunda da Revolução de 30, que foi
fruto da inadaptação do Brasil às instituições que o regiam. Veio depois a 2ª
República, tormentosa, agitada, dividida por tendências ideológicas diversas,
que iam desde o tenentismo do Club 3 de outubro até o direitismo da
Ação Integralista Brasileira, da Legião Cearense do Trabalho, da Ação Imperial Patrianovista ou dos camisas kaki do Sr. Francisco de
Campos, que, no terreno filosófico e espiritual, iam desde o materialismo
crasso dos comunistas até o vigoroso espírito católico social que, cada vez
mais, avulta na nossa mocidade. A 2ª República forneceu apenas o ambiente
necessário para que o Brasil perdesse o feiticismo pelas antigas fórmulas
políticas. Quando ia de cheio a campanha neste sentido, pronunciou-se o golpe
de 10 de Novembro, e, de um momento para outro, o Brasil percebeu que estava em
um regime novo.
A 3ª República está colocada na mesma situação que
os regimes que a antecederam. Se, como os recentes discursos do Chefe da Nação
e dos Ministros da Educação e do Trabalho fazem esperar, a III República
procurar na Igreja o manancial doutrinário e moral indispensável para criar
verdadeiras raízes no espírito público, ela poderá realizar uma obra histórica
comparável em grandeza à dos primeiros desbravadores e catequistas. E os
católicos estão obrigados a, dentro deste espírito de larga cooperação, receber
com simpatia todo o gesto eventual das autoridades, tendentes a facilitar a
reintegração do Brasil no único grande caminho que se abre diante dele, que é o
do Catolicismo. Porque temos o direito e o dever de supor que a III República
não repetirá o erro mortal de suas antecessoras, e não fechará os olhos ao que
o Brasil tem de mais genuinamente seu, ao que é propriamente sua alma, isto é o
Catolicismo.
Em um momento em que tanta gente disputa a autoria
do atual estado de coisas, escondendo o distintivo armandista
majoritário que ainda ontem ostentava com ufania, não iremos alistar os
católicos entre os já numerosos candidatos à paternidade do regime que se candidatam
atualmente. Mesmo porque essas tardias reivindicações dos ex-liberais
encobrem no fundo a disputa a proventos que não ambicionamos. Fiéis neste
regime como no que o precedeu, o nosso único ideal de servir a Santa Igreja
Católica e a Pátria brasileira, desdenhamos as compensações materiais que
atraem a outros tão fortemente que a amnésia os assalta e eles estão hoje mais
esquecidos de suas atitudes de ontem do que o “desmemoriado de Collegno”.
Fortalecimento da autoridade para o combate ao
comunismo e ao separatismo dentro de uma ordem corporativa, sempre foi desejado
pelos católicos.
Dentro deste espírito de desinteresse e sem
gananciosas reivindicações de paternidade, devemos lembrar que as três
alegações mais fortes dos que desferiram o golpe de 10 de novembro, de há muito
vinham sendo objeto da maior atenção dos católicos. Em suma, o fortalecimento
da autoridade para que ela combatesse eficientemente o comunismo, a preservação
da unidade nacional contra as investidas do separatismo, e a montagem de uma
máquina corporativa capaz de organizar nossa vida econômica de maneira a evitar
questões sociais catastróficas, tem sido objeto de constante preocupação por
parte dos católicos. Poderia, entre eles, não haver unanimidade a respeito do
modo e da oportunidade de resolver estes três grandes problemas do
fortalecimento da autoridade, da unidade nacional e da economia, esta última
por meio do corporativismo. Mas todos eram unânimes quanto à necessidade de uma
reforma institucional neste sentido. Aliás, o simples fato de serem católicos
significava implicitamente isto, pois que o católico não pode não ser corporativista, não pode querer a anarquia, não pode
pactuar com a fragmentação de sua Pátria, uma vez que essa fragmentação
significaria sua sujeição ao estrangeiro.
Os católicos, uma vez que os fatos se encarregaram
de imprimir um rumo e propor uma solução para os problemas então existentes, só
tem uma atitude: ativamente, e sobretudo muito desinteressadamente,
trabalhar para que essa solução traga ao País a maior soma de proveitos e esse
rumo seja o do Catolicismo, como, com fundadas razões, eles devem esperar.