O “Legionário” se associa de coração às homenagens
comovidas que a imprensa paulista tributou às pequeninas vítimas do terrível
desastre do Cinema Oberdan. Seria supérfluo encarecer
o caráter trágico daquele doloroso acontecimento. A tenra idade das vítimas, o
pânico que dominou seus últimos momentos de existência, o modo doloroso pelo
qual pereceram, o caráter do inesperado acontecimento e o pesar das famílias,
constituem motivos tão evidentes para comover qualquer coração humano que o
“Legionário”, animado por um sentimento infinitamente mais intenso e mais
ardente do que o simples humanitarismo, isto é pela caridade cristã, não pode
deixar de manifestar seu profundo pesar pela tristíssima ocorrência.
Neste momento, porém, nosso dever
de jornalistas católicos não consiste em produzir lamentações estéreis sobre um
fato já consumado, mas de lembrar a todos os nosso leitores que devem prestar
aos infelizes mortos e às famílias enlutadas o tributo de seu amor cristão,
orando pelas almas dos primeiros, pedindo para estas, ao Sagrado Coração de
Jesus, que é a “fonte de todas as consolações”, resignação e força para que
suportem cristãmente a grande provação
que sobre elas se abateu.
* * *
Cumprido este dever, não paremos aí. Cumpramos
ainda outro infelizmente mais espinhoso
e delicado.
Não podemos deixar passar sem algumas reflexões a
nota de sensacionalismo com que muitos jornais desta
Capital noticiaram o acontecimento. Seria fácil suspeitar que esse sensacionalismo obedeceu a móveis econômicos, visando uma
tiragem maior e mais remuneradora. Preferimos, porém, não admitir tal hipótese
por demais triste para nossos corações de jornalistas, e, sem entrar na
indagação do fito com que se faz sensacionalismo, apontar apenas o mal que ele produz.
Fazendo, não rompemos a solidariedade que devemos a
nossos colegas da imprensa. Solidariedade não significa apoio incondicional,
mas apoio no bem. Porque apoio no mal não se chama solidariedade, mas
cumplicidade. E esta cumplicidade, de modo nenhum quereríamos tolerá-la.
Definamos primeiramente, com clareza, o que
entendemos por “sensacionalismo”. É um vício da
imprensa contemporânea apresentar aos leitores todos os fatos sob um aspecto
sensacional, a fim de atrair sua atenção e despertar seu interesse pelo jornal.
De um modo geral, este processo pode aplicar-se a todos os assuntos. Há, pois,
o sensacionalismo político, que visa entreter as massas em estado de constante
agitação e superexcitação à vista dos acontecimentos políticos. Há o sensacionalismo econômico, que exagera a gravidade das
crises econômicas dos “cracks” de bolsas, etc. Há o sensacionalismo dos desastres, que acentua a nota trágica
de todos os acidentes noticiados pela reportagem. E há, finalmente, o pior dos sensacionalismos, que é o dos crimes, o qual consiste em
noticiar de tal maneira os crimes que empolgue a opinião pública pela
divulgação dos episódios particularmente trágicos ou imorais.
Em uma época em que a vida intensa das grandes
cidades exerce sobre os nervos uma pressão intensa e nefasta, em uma época em
que os acontecimentos dramáticos se multiplicam indefinidamente, quer no
terreno político, quer no econômico, quer no doméstico em virtude da total
desorganização desse mundo que se afastou de Deus, motivos não faltam para que
a opinião pública seja mantida em um estado de permanente hipertensão. E esses
motivos são tantos e tão graves que Alexis Carrel, no seu famoso livro “L'Homme, cet Inconnu”, não hesita em apontar a loucura e as diversas formas de
degenerescência nervosa como um dos grandes perigos que ameaçam o mundo
contemporâneo. Se já é perigosa a simples hipertensão provocada pela vida
moderna e pelas crises contemporâneas, o sensacionalismo
da imprensa, do cinema e do rádio eleva esse mal ao auge, pela impiedosa
exploração que faz das misérias alheias.
Se, ao menos, o sensacionalismo
fosse sempre verídico, isto é, se explorasse apenas, nos acontecimentos
noticiados, os detalhes trágicos realmente existentes, ainda teria uma certa
aparência - aparência, dizemos, e só aparência - de respeitabilidade.
Infelizmente, porém, tal não se dá. Às vezes, a imprensa exagera detalhes
secundários e até insignificantes de certos fatos, para causar sensação entre
os leitores. Em outras ocasiões, chega mesmo, e isto não é raro, a inventar
detalhes que absolutamente não são verídicos. O que, em outros termos, implica
em dizer que, raramente, os jornalistas que exploram o sensacionalismo
violam um dos seus mais graves e imprescritíveis deveres, que consiste em dizer
sempre a verdade, e só a verdade.
Não podemos alongar excessivamente as proporções
deste artigo. Senão demonstraríamos ponto por ponto aquilo de que todo homem
sensato já está persuadido, e que é unanimemente aceito por todos os sociólogos
e criminologistas: o sensacionalismo
é um dos importantes fatores da dissolução dos costumes e das moléstias
nervosas de nossos contemporâneos. Particularmente as fotografias de vítimas de
desastres e de crimes concorrem para tornar banal aos olhos do público de pouca
cultura, o aspecto da dor e do crime. O que, ainda segundo a opinião de todos
os criminalistas, constitui um passo importantíssimo
para a criminalidade. Note-se bem, não é apenas o sensacionalismo
em torno dos crimes, mas ainda o que se faz em torno dos desastres, que é
altamente nocivo e constitui um estímulo indireto à prática dos crimes. A este
respeito, não há, entre os cientistas, a menor voz discordante.
* * *
Por que projetar a luz indiscreta
das reportagens sensacionais sobre dores trágicas que só na discrição e na
intimidade podem encontrar um lenitivo?
Por que transformar os sofrimentos
alheios em pasto de curiosidades malsãs e em
passatempo de espíritos ociosos?
Não terá fim esse abuso? Não
agirão as autoridades? Não protestará a opinião pública?
Isto posto, basta lembrar o sensacionalismo
com que nossa imprensa em geral costuma noticiar crimes e desastres, para ver
até que ponto esse péssimo vício penetrou na imprensa paulista.
Felizmente, há exceções. E uma destas é o “Estado
de São Paulo” que, sem favor nenhum, é, em matéria de sensacionalismo,
uma folha de uma correção que seria modelar, se os seus suplementos em rotogravura não contivessem páginas mais de uma vez
excessivamente... “livres”, em matéria moral. O “Diário Popular” também é
modelar sob este ponto de vista. E estes órgãos, para não mencionar outros,
poderiam bastar para demonstrar que não é toda a nossa imprensa que se deixou
conquistar por este terrível mal.
Quem primou, no caso do Cinema Oberdan,
na exploração do sensacionalismo, foi o “Diário da
Noite”. Esse jornal que foi o único a se julgar obrigado a uma edição super-sensacionalista consagrada só ao desastre, publicou
numerosas fotografias que não tinham a menor utilidade para o público e eram
indiscretas quanto às famílias das vítimas, fotografias essas nas quais se viam
os inditosos meninos, feridos ou mortos e estendidos no chão do necrotério, e
pessoas das famílias enlutadas, entregando-se às expansões trágicas de sua dor.
Quem aproveitou com isto? Para que avivar a dor das famílias com uma
publicidade imoderada? Que lucro, por exemplo, teve em ser fotografado, aquele
pai que a objetiva implacável do repórter colheu em pleno ato de beijar o
cadáver de seu filhinho? Por que desrespeitar a dor
alheia projetando a luz da publicidade sobre dores cruciantes que cada qual
gosta de conservar no recesso da intimidade? Os títulos e subtítulos não foram
menos berrantes do que as fotografias: “Fogo! Fogo! O grito fatídico que
partido da galeria, provocou a verdadeira catástrofe. Dor. Balbúrdia. Angústia,
cenas lancinantes em momentos de indescritível pavor. Um amontoado de cadáveres
enchia a escada!” e assim por diante.
O mais curioso é que a “Folha da Noite”, jornal sem
dúvida muitíssimo mais sóbrio do que o “Diário da Noite”, publicou uma nota
contra o sensacionalismo das fitas de cinema que
provocam, como as do Oberdan, cenas de pavor. E, na
mesma edição em que essa nota se publicou, havia a exploração jornalista sensacionalista do próprio desastre de domingo!
* * *
Não é sem um fim prático que escrevemos estas
reflexões. É preciso que os católicos
compreendam todo o mal que lhes faz o sensacionalismo,
e que evitem cuidadosamente que os jornais sensacionalistas
sejam vistos e lidos pelas pessoas de suas famílias... e por si próprios. É
natural que cada qual queira ter uma informação exata dos acidentes verificados
na cidade. Mas essa informação nunca dever ser transformada em exploração
jornalística e, quanto aos crimes, sua publicação deveria ser pura e
simplesmente suprimida pela censura.
Os católicos devem, pois, manifestar seu desagrado
às folhas que assim procedem, escrevendo-lhes seus assinantes e leitores
enérgicos protestos, e coagindo por todos os modos possíveis a imprensa sensacionalista a mudar de rumos.