Deixando de lado os comentários meramente políticos
sobre a visita do Sr. Hitler ao Sr. Mussolini, façamos algumas observações sob o ponto de vista
religioso.
Serão amargas. Mas já se tem dito que as reflexões
as mais dolorosas são como certos remédios amargos que perdem toda a sua
eficiência quando ministrados juntamente com açúcar ou qualquer outra
substância doce.
* * *
Comecemos pelo começo. Como obteve o Sr. Mussolini público para
aplaudir nas ruas o Sr. Hitler? Procurando iludir os católicos sobre a atitude do Papa.
É típico o fato seguinte:
O “Osservatore Romano” publicou sobre o “Anschluss” um comunicado oficial, que tornava patente o
desagrado com que a Santa Sé recebeu o fato.
Este comunicado foi reproduzido por todos os
jornais do mundo, com exceção dos de Roma, onde a censura fascista impediu sua
divulgação.
Poucos dias depois, em novo comunicado o
“Osservatore” estranhava esta atitude desleal das autoridades fascistas.
Naturalmente, o Sr. Mussolini precisava arranjar
público para aplaudir o Sr. Hitler na espectaculosa
recepção que lhe preparava. E por isto quis dar aos católicos italianos a
impressão de que a divergência entre a Santa Sé e o nazismo não era
tão grande como se supunha.
Fatos como este definem a verdadeira fisionomia do
homem em que erroneamente se quer ver o paladino da Igreja em nosso século. Não
negamos os serviços por ele prestados à Igreja. Mas era de seu interesse
político prestá-los. Agora, é à cruz suástica que ele quer servir, porque este
é no momento o seu interesse.
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Durante a visita, confirmaram-se plenamente as
opiniões externadas pelo “Legionário” sobre a inegável afinidade doutrinária
existente entre o nazismo e o fascismo.
Durante a visita o Sr. Mussolini de um lado afirmou
a identidade de princípios entre o fascismo e o nazismo durante o banquete que
ofereceu ao “füehrer” e, de outro lado, o Sr. Hitler declarou
textualmente aos jornalistas que o foram entrevistar:
“Folgo também em registrar a íntima compreensão
entre o fascismo e o nazismo. É, sem dúvida, o mesmo mundo que o nosso. A
comunhão de idéias é partilhada pelos dois povos, conforme o Sr. Mussolini pode constatar
durante a sua viagem à Alemanha, da mesma forma que eu o constato na minha
atual viagem à Itália”.
Não só estas
declarações, como outras do Sr. Hitler, que não reproduzimos por amor à brevidade, comprovam por
assim dizer oficialmente nossa tese. Também foi particularmente expressivo o
banquete de confraternização dos partidos nazista e fascista, oferecido em um
velho monumento da Roma pagã pelo secretário geral do fascio ao secretário geral do
partido nazista.
* * *
A Via Imperial, pela qual
transitaram solenemente os chefes do fascismo e do nazismo, é uma das avenidas
monumentais recentemente abertas em Roma. Presta-se bem às exibições
espectaculosas dos regimes da pseudo-direita.
Apesar de declarações tão positivas sobre as
afinidades entre o fascismo e a heresia nazista, o Sr. Mussolini teve o desplante de
querer que o Papa não protestasse.
E o “Popolo d'Itália”, jornal do Sr. Mussolini, irritou-se com as medidas tomadas pelo Vaticano durante
a visita do Sr. Hitler e com as enérgicas
palavras com que o Papa lastimou que, no dia da Santa Cruz, se elevasse em Roma
outra cruz que não a de Cristo.
E o órgão fascista repetiu os eternos conselhos que
todos nós estamos acostumados a ouvir, como o seguinte: “nós, católicos”
gostaríamos de dizer ao Papa que é muito perigoso falar da cruz de Cristo,
manejá-la como uma arma e depois encontrar-se só frente a frente com os
bolchevistas.
É curiosa a mania dos atuais homens da política de
se dizerem católicos, para aconselharem o Vaticano a seguir a orientação que
eles desejam e não a orientação ditada pela doutrina católica.
Só essa atitude já é o maior sinal da sua falta de
convicções católicas sérias, porque o Papa é o Chefe da Igreja Católica, como
tal, todo católico deve seguir a sua orientação, sem o que deixa de merecer o
nome de católico.
* * *
Por outro lado, é de se notar a insistência em
afirmar que a Igreja é impotente contra os seus inimigos, precisando, portanto,
de encostar-se nos governos fortes para dar-lhes combate.
Na verdade, essa insistência demonstra justamente o
contrário. Eles é que precisam da Igreja, e daí a célebre mania de se
proclamarem católicos. A Igreja de Deus não precisa de ninguém e se por vezes
ela parece correr perigo, são apenas momentos de luta, a que se segue
invariavelmente a sua vitória, para felicidade do mundo e maior glória de Deus.
* * *
Ao lado de tantos erros doutrinários e políticos,
mencionemos um erro financeiro.
Não há quem não conheça as péssimas condições
financeiras da Itália, forçada ainda há pouco a pedir um empréstimo em Londres.
No entanto, o Sr. Mussolini despendeu 13
milhões de dólares com a recepção do “füehrer”
alemão, ou seja a soma fabulosa de 221.000.000$000.