Os escritores católicos tem insistido - muitas
vezes com menos energia do que seria mister - sobre o nexo íntimo que liga a pseudo-Reforma protestante e o humanismo pagão, à Enciclopédia
e ao livre pensamento voltaireano, e por suas vez a
Enciclopédia e o livre pensamento à Revolução Francesa e ao comunismo. Quem não
possuir uma noção exata, objetiva e documentada a respeito da relação de causa
e efeito existente entre esses diversos acontecimentos, quem não se tiver
imbuído desta convicção até à medula dos ossos e a raiz dos cabelos, quem não
conhecer com todos os detalhes (...) a preparação de todos esses cataclismos,
não pode ter uma visão segura da História e da política de nossos dias. Esses
conhecimentos, a meu ver, fazem parte do A B C de qualquer jornalista ou
pensador católico que cogite de questões políticas e sociais.
No entanto, aqueles que, no Brasil, se ocupam com o
combate ao câncer do liberalismo e ao seu genuíno produto, que é o comunismo,
esquecem-se muito freqüentemente de que o liberalismo não é o único filho do
Protestantismo, e que este gerou outro filho, não menos parecido com o pai, que
é o nazismo.
É certo, é evidente, é incontestável que o
liberalismo é filho genuíno do protestantismo. Mas ele foi o fruto com que o
protestantismo envenenou principalmente as nações latinas, levadas, muito mais
propensas por seu temperamento para com os princípios liberais, do que os povos
nórdicos, pachorrentos e disciplinados.
No elemento germânico em geral, o protestantismo,
além do vírus do liberalismo, inoculou outro veneno, que são as teorias da
força. Estas teorias (aliás, muito aparentadas com a concepção democrática da
vitória sistemática das maiorias) é que geraram toda a concepção militarista e
brutal da política internacional de Frederico II e de muitos dos Hohenzollern, e, depois, criaram o Império de Bismarck, a paixão militarista alemã, as escolas
filosóficas alemãs do século XIX e, por fim, como produto arquetípico
da filosofia nietzscheana, o hitlerismo.
Diante dos olhos estarrecidos de
toda a humanidade sensata, o hitlerismo destroi os altares de Nosso Senhor Jesus Cristo,
substituindo novamente pelos ídolos pagãos. O que pensar deste vergonhoso
índice de decadência a que chegamos? Delírio momentâneo de um ditador obcecado
pelo mando? Ou, pelo contrário, sintoma profundo de uma corrupção ideológica e
moral, característica deste “fim de civilização” que vivemos?
De há muito, ambos os sucedâneos do protestantismo,
isto é, o liberalismo e as doutrinas da força, molestam a Igreja, criando-lhe
dificuldades humanamente invencíveis, às quais ela se tem sobreposto graças,
unicamente, a um especial auxílio da Providência Divina.
No século passado, tivemos dois pequenos ensaios do
que seriam no futuro a perseguição comunista e a perseguição nazista. Na
França, a política laicista dos Gambetta e dos Combes oprimiam a Igreja em nome da liberdade, fechando
Conventos, confiscando os bens eclesiásticos e expulsando Nosso Senhor das
Escolas, com o argumento que os “sem Deus” da Rússia não fizeram senão ampliar
e reeditar. Ao mesmo tempo Bismarck fazia, na Alemanha,
guerra de morte à Igreja em nome das doutrinas cesareanas
da força, com alegações que também elas foram apenas ampliadas e reeditadas
pelo nazismo. Em um caso e no outro, porém - e é capital que se retenha isto -
os frutos eram idênticos, isto é, a massa do povo era tanto quanto possível
descristianizada, com evidente júbilo para quantos, desde tempos longínquos,
tramavam a destruição da civilização católica e da Santa Igreja de Deus.
* * *
Se muita gente compreendesse isto, veria o nazismo
com outros olhos. Tenho um número apreciável de amigos que vêem a política
contemporânea sob o único prisma da gênese (...) do comunismo pelo liberalismo,
e deste pelo protestantismo. (...) Seu grande erro, porém, consiste em
considerar o liberalismo como filho único da reforma. (...) O protestantismo
produziu na Alemanha um processo evolutivo de idéias filosóficas e fatos
político-sociais, que, paralelamente ao liberalismo e em aparente antagonismo
com este, gerou com uma lógica de ferro (verdadeira se não fossem erradas suas
premissas) o nazismo.
Por isto, é preciso que se compreenda que o furor
anti-religioso do nazismo não é um episódio transitório e fugaz da vida
contemporânea, uma explosão de imbecilidade ocorrida subitamente nas fileiras
anticomunistas alemãs, um delírio que passará mais cedo ou mais tarde sem ter
deixado maiores vestígios. O nazismo é resultado de uma evolução profunda, sua
política anti-religiosa faz parte integrante de seu pensamento, e esse
pensamento é (...) visceralmente anti-religioso. (...)
* * *
Sem subir a longas digressões doutrinárias para
justificar meu pensamento, bastará que eu alinhe alguns fatos. Eles mostrarão
que o nazismo tem desenvolvido sua política religiosa com prejuízo manifesto
das reivindicações mais essenciais de sua política interna e externa. Diga-se
de Hitler o que se disser, força é reconhecer que ele
não é um tolo. Todos estes inconvenientes de sua política anti-religiosa não
lhe terão passado desapercebidos. Por que, então, arca com eles, se não porque
fazem parte integrante de seu programa e de sua ideologia?
Enumeremos alguns itens:
1) O Sr. Hitler apregoa ser um
paladino da luta contra o comunismo. Não percebe ele que sua política anticatólica o priva do apoio que vinte milhões de
católicos alemães lhe dariam nesta luta? E que, perseguindo a Igreja, ele
divide estúpida e inutilmente as forças de reação anticomunista?
2) O Sr. Hitler quer instituir na
Alemanha um regime autoritário. Não percebe ele que não há melhor força para
disciplinar o povo e prestigiar a autoridade do que a Igreja que só aspira à
influência espiritual? Por que se priva ele desse apoio, e inaugura na Alemanha
um regime tirânico com o qual nenhum católico pode estar de acordo?
3) O Sr. Hitler quer unificar todos
os alemães dentro de um grande bloco homogêneo. Por que exclui deste bloco 28
milhões de católicos que hoje fazem parte do III Reich? Por que guerreá-los, se
seu programa é unir?
4) O Sr. Hitler quis anexar a
Áustria à Alemanha. Não percebeu ele que já teria conseguido seu desideratum sem
violência, há muitos anos, caso sua política anti-religiosa não inspirasse o
horror que inspirou aos infelizes e gloriosos católicos austríacos?
5) O Sr. Hitler gosta de fazer
propaganda nazista em todos os países do mundo. Não compreende ele que sua
propaganda fica condenada ao mais irremediável fracasso na América Latina, que
ele tanto cobiça, porque o nazismo é considerado, hoje, entre os católicos,
como uma heresia política não menos detestável que o comunismo?
6) O Sr. Hitler não ignora que se este tivesse uma
política religiosa diametralmente oposta à atual, seria tido pelos católicos do
mundo inteiro como um novo Constantino, figura providencial à qual todos os
filhos da Igreja prestariam sua simpatia desde a Patagônia até o Oceano Ártico,
e desde Lisboa até Pequim? Se fosse esta a posição do Sr. Hitler, na própria
França ele encontraria muita gente que o atacaria sem entusiasmo sob as ordens
de um Blum. E creio que poucos seriam os governos que
se permitiriam de arrastar o nome do Sr. Hitler pela rua da amargura, como
fazem agora. Ora, o Sr. Hitler, sempre tão hiper-sensível
aos ataques da imprensa mundial, por que então persegue a Igreja?
7) Dir-se-á, talvez, que ele tem contra os
católicos queixas amargas, porque o extinto Partido do Centro sempre se recusou
a confundir suas fileiras com as do nazismo. Tais queixas seriam injustas. Mas
ainda que não o fossem, que queixa pode ter o Sr. Hitler do cardeal Innitzer? O Sr. Hitler que soube tão bem se reconciliar com
antigos e ardentes inimigos quando seu interesse assim o exigiu; o Sr. Hitler
que...
Aqui ficam estas perguntas. Através delas o leitor
poderá compreender que é pueril qualquer esperança de reconciliação entre o
nazismo e a Santa Igreja, e que o fenômeno nazista é algo de imensamente mais
perigoso do que à primeira vista pode parecer.