Mais uma vez somos obrigados a interromper a série
de artigos que iniciamos sobre o apostolado leigo em São Paulo. Leva-nos a isto
a excepcional gravidade da situação criada pela questão racial na Itália.
Pensamos bem que todos os leitores têm uma idéia
exata do aspecto doutrinário e político da atual crise. No entanto, não é
possível compreender-se convenientemente a atitude da Santa Sé sem que se
esteja perfeitamente enfronhado no assunto. E como a maior das preocupações do
“Legionário” consiste em estimular a adesão consciente e esclarecida dos
católicos à Santa Sé, pensamos ser de nosso dever dizer algo sobre o racismo em
nossa edição de hoje.
* * *
A bem dizer, o racismo vem de longe, e suas raízes
remotas se cravam no liberal século XIX e até - quem diria! - na Revolução
Francesa e nos naturalistas da Renascença.
Uma das maiores inovações que a Igreja nascente
difundiu pelo mundo foi a idéia de que todos os povos são irmãos por filiação a
um mesmo Pai comum, e sua redenção universal pela efusão generosa do Precioso
Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Como acentua Fustel de Coulanges com base em
admirável documentação, o mundo antigo não tivera idéia desta fraternidade.
Cada povo tinha seus deuses que só aceitavam o culto dos nacionais. Um
estrangeiro não poderia, em caso nenhum, cultuar os deuses de uma pátria que
não a sua. Seria uma traição aos deuses do próprio país, e uma injúria aos do
país estrangeiro que recebessem tal culto.
Esse exclusivismo religioso, gerando conseqüências
políticas e sociais, mantinha todos os povos a uma fria distância uns dos
outros. Descendentes de deuses diversos, os povos se olhavam como estranhos e,
mais do que isto, como concorrentes na fruição das riquezas da terra. Em todo o sentido da expressão, “tudo os
separava, e nada os unia”.
Por isto, os antigos, a bem dizer, não conheciam
direito internacional. Entre os diversos povos, só havia uma lei: a do mais
forte. Em tempo de guerra, todas as crueldades eram permitidas e até
aconselháveis. Em tempo de paz, a concorrência desenfreada, a perfídia, a
desconfiança, eram o ambiente de todos os dias. Toda a vida internacional
antiga tem um só sentido. É o da famosa frase: “Homo homini lupus”.
Com o advento do Messias e a pregação do Evangelho,
a situação se transformou radicalmente. Todos os povos passaram a se considerar
irmãos, e, portanto, a reconhecer a existência de estreitos vínculos afetivos,
reunindo-os sob a imensa e azulada cúpula do amor de Deus. Começou a nascer o
Direito Internacional. As guerras se tornaram gradualmente menos cruéis. As
populações neutras foram respeitadas. Os elementos não combatentes das
populações, como mulheres, crianças, velhos, etc., tiveram proteção assegurada.
A destruição sistemática das riquezas dos países invadidos foi proscrita.
Graças à influência da Igreja, a guerra se mitigava tanto que deixava entrever
o período em que ela seria reduzida apenas àquele minimum que existirá
inevitavelmente enquanto existirem homens sobre a terra.
Vieram, porém, os naturalistas da Renascença e
procuraram construir um Direito Internacional que abstraísse de Deus, isto é,
que traçasse direitos e deveres aos povos, como se Deus não existisse, e
tomando como fundamento principalmente razões políticas ou econômicas. A base
do Direito Internacional medieval fora Nosso Senhor Jesus Cristo. Grotius e seus sequazes
procuraram substituí-lo pelos dois ídolos modernos: o interesse e a “Razão”. A
partir deste dia, tinha começado a barbarizarão do mundo. Realmente, basta ler
a História para se verificar que a desconfiança e a concorrência começaram a
porfiar com intensidade maior do que
nunca entre os homens, e que as leis da guerra foram gradualmente assumindo um
aspecto mais feroz. Hoje em dia, estamos em presença do aniquilamento total do
Direito Internacional. As nações contemporâneas se tratam umas às outras com a
sem-cerimônia agressiva e selvagem das republiquetas
ou dos impérios orientais de há 4.000 anos atrás. Foi a isto que nos conduziu a
laicização da política internacional, empreendida no terreno doutrinário por Grotius e pela Renascença, e traduzida em obras sobretudo
pelos políticos da escola da Revolução Francesa.
* * *
Daí brotou o fruto que necessariamente teria de
brotar. Entregue a si mesmo, o homem que abstrai de Deus é naturalmente
sanguinário e egoísta. Leva-o a isto a triste herança do pecado original, e
suas simples forças naturais não são capazes de o conservar sempre no caminho
árduo do dever plenamente cumprido.
Na Alemanha, o fruto direto dessa laicização foi o paroxismo do
orgulho nacional. Não faltavam motivos para tanto. Inteligente, dotado de uma
energia invejável, servido pelos recursos naturais de um solo admiravelmente
aproveitado, o alemão tinha largos motivos para sentir em si o levedo proibido
do orgulho. Nas Universidades alemãs se acentuava cada vez mais a noção da
grandeza intelectual e material da Germânia. Não
tardou que esse entusiasmo nacionalista se transformasse em uma verdadeira
mística. E começaram a ser sustentados do alto das cátedras os pontos de vista
os mais abstrusos. Não faltou mesmo quem afirmasse que o povo alemão é uma
espécie de povo-messias, destinado providencialmente a realizar em si as altas qualidades de
um super-povo que fosse o pináculo da humanidade e
que salvasse o mundo inteiro das imperfeições de que atualmente sofremos, isto
pela simples irradiação das virtudes e da sapiência teutônicas. E não se julgue
que fosse esse o pensamento de algum charlatão metido em beca de professor
universitário. Não seria difícil mencionar os mais altos nomes da filosofia
alemã e indicar os traços deste pensamento em suas obras.
* * *
O nazismo se apresenta como uma reação ao
liberalismo alemão. Na realidade, ele não é senão a Alemanha prussiana e protestante de Bismarck
com todas as suas características elevadas ao maior índice de veemência que se
possa imaginar.
Por isto mesmo, todo o misticismo nacionalista
alemão se consubstanciou
no racismo, termo com que se designa o conjunto de princípios teóricos e de
conseqüências políticas relacionadas com a concepção que o alemão nazista faz
de sua própria raça. (...)
Evidentemente, se de um lado o pensamento católico
é fixo e imutável, o pensamento nazista comporta muitas variantes. (...)
Como se vê, o contraste entre o racismo e o
Catolicismo é total e irremediável.
Como não justificar, então, as apreensões
manifestadas pelo Santo Padre sobre a adoção oficial e ruidosa da política
racista na Itália? É certo que as autoridades italianas não endossaram ainda,
abertamente, os erros clamorosos que são inerentes à doutrina nazista. Na
Alemanha também, no entanto, esses erros não foram arvorados de uma só vez.
Pelo contrário, o governo nazista só foi proclamando um por um. E alguns, até
aqui, não passam de reivindicações do partido, que o Sr. Hitler espera o momento
oportuno para endossar.
Imitando servilmente a Alemanha, o Sr. Mussolini abre caminho para
que a Itália chegue aos maiores excessos do racismo. Poderia ao menos o Duce tranqüilizar
relativamente os católicos italianos por meio de declarações peremptórias de
que ele condena os excessos do racismo hitlerista. No
entanto, enquanto o Santo Padre manifesta suas apreensões, o Sr. Mussolini se limita a dizer que fará o que bem entender. E
seus jornais em coro clamam que o Papa não se deve meter em política. A palavra
pacificadora e tranquilizadora que o Duce poderia proferir ainda não veio, e parece que não
virá.
Para onde caminhará a Itália? (...)