Vimos em nosso último artigo que o fim de toda e
qualquer associação católica consiste em dar glória a Deus por meio da
santificação de seus membros, e do trabalho apostólico de angariar novos
membros para santificá-los.
Infelizmente, a verdade é que a questão da
santificação não é tratada pelos dirigentes de associações religiosas com o
supremo cuidado que merece.
Há três “espíritos” que prejudicam imensamente a
formação dos associados: o burocratismo, a sociologite e o pietismo.
Examinemo-los.
Vamos primeiramente à burocracia.
Entra-se sem ser percebido na sede uma associação
X. De pé, todos os seus membros esperam que a hora da reunião chegue. Entra
finalmente o Sr. Presidente, com um sorriso digno, de quem já prevê
discretamente o sucesso que fará. Movimento geral, apertos de mão, etc. A
formação da mesa é um pequeno problema de etiqueta. Há um presidente, um vice,
um secretário, um tesoureiro, e mais cinco conselheiros. Tanta gente não cabe à
mesa. Dos cinco conselheiros, três terão de ficar de fora. Questão angustiante:
quais? Perplexo, o Presidente leva 10 minutos a ajeitar as coisas. Reza-se. Por
fim a sessão começa.
Diz a Santa Igreja que daremos contas a Deus por
todas as palavras que tivermos dito em nossa vida. Contas e contas
estreitíssimas, portanto, teremos de dar pelas palavras que dizemos durante as
reuniões das associações religiosas. Cada palavra inútil dita por um dirigente,
durante tais reuniões, é um minuto de santificação que ele rouba aos
associados, para dar vazas a uma parolagem tola e sem fruto.
Primeiramente, o Presidente agradece a presença de
todos. Lá se vão 5 minutos. Depois, o Secretário lê a ata da reunião anterior
recheada de elogios ao Sr. Presidente, aos Srs. membros da Mesa, aos Srs.
Associados, a todo o mundo. Muita literatura. Uso abundantíssimo de sinônimos,
tão abundante mesmo que, de princípio a fim, todas as palavras se repetem
prolixamente umas às outras. Também, quando há poucas idéias, ou a gente usa
muitos sinônimos ou cai inevitavelmente no pleonasmo. E pleonasmo é coisa muito
feia para um secretário de uma associação tão tradicional. Por isto, lá se vão
15 minutos. A ata é posta em discussão, e, depois de uma pausa em que os
sócios, em silêncio, tomam fôlego, o Sr. Presidente interpreta seu silêncio
como aprovação. Depois, vem o balancete, também muito explicativo. Finalmente,
o Sr. Presidente toma a palavra. Parece que se vai entrar na parte mais
substancial. S.S. começa afirmando sua gratidão pelo comparecimento de tão
elevado número de irmãos. Depois, noticia os confrades que morreram e faz um
pequeno necrológico de cada um. Se foi médico, tem direito ao adjetivo
“dedicado”. A profissão de comerciante dá direito a “honrado”. A de engenheiro,
a “competente”. Para o advogado, é-se mais
parcimonioso. Bastará dizer que foi advogado “nos auditórios da Capital”. É uma
expressão sonora, que passa bem à guisa de elogio. Farmacêuticos, dentistas,
funcionários, etc., tem direito a uma adjetivação mais flutuante, escolhida pelo
Sr. Presidente, na abundância de sua facúndia, no próprio momento em que fala.
As mães de família sempre foram “zelosas e dedicadas”. As crianças, sempre
“inocentes”. Depois, o Sr. Presidente ordena ao Sr. Secretário a expedição dos
ofícios de pêsames.
O Sr. Presidente aborda, em seguida, a magna
questão da reunião. As circulares não chegam regularmente aos associados.
Estende-se longamente sobre o correio. Explica meticulosamente como é feita a
selagem. Prova que a lista de sócios está completa, e que a todos são enviadas
as circulares. Os sócios queixosos, de seus bancos, fazem suas lamentações. O
debate se generaliza. Finalmente, o amigo do primo de um chefe de seção do
Correio promete intervir. Volta a paz.
Vem depois a questão das opas e dos balandraus.
Estão ficando cada vez mais caros. Como fazer? Importará a associação,
diretamente da Europa, os rubis, as safiras, as esmeraldas, as pérolas, os
brilhantes, as turquesas e tutti quanti necessários para os fitões?
Alguém acha que seria melhor simplificar as fitas, munindo-as de menos jóias
falsas. Sua voz se perde no desdém geral. Onde se viu proposta tão descabida?
Afinal, constitui-se uma comissão. Estudará a momentosa questão, e dará depois
um relatório.
Extenuado, o Sr. Presidente suspende a reunião.
Todos se levantam pressurosamente. Reza-se. Despedidas protocolares. Todos se
separam.
No final das contas, em uma reunião destas, o que
se disse de útil? Que esforço se fez para iluminar a inteligência dos
associados, de sorte a inserir nelas, cada vez mais profundamente, a semente da
Verdade católica? O que se fez para consolar seus corações, às vezes torturados
de dores? O que se fez para lhes apontar com clareza o dever a cumprir? O que
se fez para lhes dar ânimo para o cumprimento desse dever?
A resposta é dolorosa: nada, nada, absolutamente.
* * *
De propósito, na descrição que fiz, carreguei um
pouco as tintas, e tomei como padrão um tipo especial de associação.
Dói dizê-lo, mas é a pura verdade que deformações
como essa, mais ou menos acentuadas, se encontram em associações de quaisquer
tipos, tanto Ordens Terceiras, quanto Irmandades,
Congregações Marianas, Pias Uniões, Conferências Vicentinas
ou Apostolados de Oração.
Lembro-me de ter assistido, em mais de uma
Congregação, reuniões assim. Fala-se das circulares que não chegam, da nomeação
de novos zeladores, da eleição de nova diretoria, de um Congregado que está
doente, da seção de xadrez ou de bilhar que não funciona como deve, dos
Congregados que não sentam no banco indicado, dos que se ajoelham com um joelho
em lugar de dois, dos que cantam alto demais, dos que cantam baixo demais, e
assim se escoa todo o tempo da reunião.
Com essa poeira administrativa, será possível,
porventura, santificar as almas? Será com essas questiúnculas que se poderá fazer
os espíritos caminharem no amor de Deus?
Quem não vê que esse burocratismo
amaldiçoado é uma erva daninha que faz esquecer as belezas de nossa Religião,
relegadas a um segundo plano em tantas reuniões, em benefício de bizantinismos que não têm o menor interesse, o menor
alcance, e o menor proveito?
Quando se acabará com este péssimo sistema?