É tão santa a Igreja Católica, é tão imperativo o
vigor maternal com que ela conduz as almas para o bem que, quando nas fileiras
católicas algum abuso se introduz graças à deficiência humana, esse abuso, na
quase totalidade dos casos, não consiste em alguma prática má, mas na
hipertrofia de algum conceito verdadeiro ou de algum hábito bom.
É este o caso com o mal que denunciamos no último
número, a respeito da burocracia na qual se engolfa a diretoria de muita
associação religiosa. Só quem não tiver o menor hábito de apostolado pode
imaginar que uma associação pode funcionar sem que seus dirigentes se preocupem
com questões administrativas. É uma ingenuidade sem nome imaginar que uma
associação realmente dotada de vitalidade possa viver sem que seus dirigentes
desçam muitas vezes nos mais prosaicos e desinteressantes detalhes de
organização. Mas esta verdade não deve ser exagerada. Pelo contrário, ela
precisa ser considerada dentro de um conjunto de outras verdades mais profundas
e mais graves. Entre estas, figura a de que o fim primordial de qualquer
associação religiosa é a santificação de seus membros. Se os detalhes
administrativos se tornam tão absorventes que prejudicam a consecução desse fim
primordial, devem positivamente ser sacrificados na medida em que esse fim o
exija. Realmente, as providências administrativas são um meio. E de que adianta
o meio se ele vem a se opor a consecução do fim?
Com o erro de que hoje vamos tratar, dá-se o mesmo.
Não se trata de uma posição propriamente errada. Em si ela é excelente. Convém,
no entanto, não exagerá-la. Não é contra a coisa em si que escrevemos, mas
contra o abuso a que essa coisa se pode prestar.
Escrevendo em nossa última edição a respeito da
preocupação das fitas, fitinhas e fitões, das pedras
falsas, da remessa das circulares, e outras nugas, não é só contra o abandono
da vida interior que protestávamos. Outro pensamento nos vinha também à mente:
enquanto essa gente trata de fitas e de pedras falsas, não se lembrará, por
ventura, de seus irmãos que morrem mártires na Espanha, na Rússia, no México?
Não tem uma palavra ou uma prece para a vitória da Igreja na Alemanha? Não tem
uma jaculatória sequer para que a Providência continue a sustentar aquele admirável
e extraordinário Schuschnigg, que galga agora, passo a passo, seu longo calvário? E,
sobretudo, não se lembram do Papa? Não sofrem com o Papa? Não lutam pelo Papa? Não rezam pelo Papa? Será possível
que, enquanto a terra está renovando sua face, a civilização se encontra
abalada até seus últimos fundamentos, e a Santa Igreja de Deus geme no mundo
inteiro sob o peso de perseguições sem conta, será possível que nesse panorama
geral, para essa gente só existam as questiúnculas administrativas nas quais se
revolvem com volúpia?
* * *
Como se vê, sentimos exatamente a gravidade da
omissão irritante daqueles que, em pleno cataclismo contemporâneo, se julgam no
direito de levar sossegadamente um vidinha espiritual
medíocre, tão indiferente às lutas da Santa Igreja quanto um habitante do
planeta Marte!
No entanto, por mais nobre que seja a preocupação
apostólica dos que ardem de entusiasmo no meio da peleja contemporânea,
dispostos até à efusão de seu sangue se a causa católica exigir, por mais nobre
que seja essa preocupação dizíamos, também ela se tornará nociva se chegar a
abafar a preocupação da santificação de seus membros.
A ouvir-se a conversa de muita gente religiosa,
tem-se a impressão de que Nosso Senhor Jesus Cristo veio ao mundo especialmente
para derrotar o comunismo ou esmagar o nazismo, e que a Igreja Católica não tem
outro fim senão o de aniquilar esses dois adversários.
Se tal gente chega a dirigir uma associação
religiosa, as reuniões mais parecem “meetings” políticos do que reuniões de piedade.
Nos ambientes atacados de sociologite, o quadro é o oposto do que descrevíamos no domingo
passado. A sociologite é um mal agudo, que deixa até
sinais exteriores de sua devastação interna.
O presidente abre a sessão. No modo nervoso de
agitar a campainha, no tom marcial com que convoca os sócios, já se vê que ele
vibra dos pés à cabeça. Nada de formalidades: ele entra diretamente no assunto.
Feitas as orações, ele perora longamente sobre o comunismo. Aplausos
prolongados cortam suas palavras. De quando em quando, cônscio de sua
importância (!) algumas frases sintomáticas lhe afloram aos lábios...
precisamos salvar a Igreja que está perecendo... precisamos defender o Papado,
cujos adversários crescem cada vez mais... senão agirmos, o mundo estará
perdido... é missão da Igreja salvar a sociedade contemporânea... e assim por
diante.
Terminado o repolhudo e truculento discurso, um
sócio especialmente convidado fala contra o divórcio. Outro, depois, se levanta
para censurar ou aplaudir qualquer outra notícia política do dia. O ambiente
está escaldante. Todos se agitam. Se um surdo estivesse presente, e não ouvisse
o que se diz, não saberia de que natureza era o “meeting” ali reunido, se da
esquerda, se da direita. Só não imaginaria que é católico, tal a balbúrdia que
reina na sala.
Reza-se. Todos saem barulhentamente. Houve muito
entusiasmo. Terá havido muita santificação?
É este o doloroso problema.
* * *
A Igreja irá perecer se nós não a
auxiliarmos?
Ou nós é que perecemos se não
formos auxiliados pela Igreja?
No quadro que descrevemos, há dois exageros de
coisas boas em si. Em primeiro lugar, o zelo pelas coisas da Igreja desviado a
ponto de, em uma reunião convocada antes de tudo para a santificação dos sócios,
não se dizer uma palavra realmente referente ao incremento do amor de Deus e à
prática da virtude. Em segundo lugar, a preocupação ridícula de “salvar a
Igreja”, ou de rebaixá-la a mera instituição de reerguimento
social. Não, a Igreja não precisa de nós para ser salva. Nós é que precisamos
dela para nossa salvação. Se morrermos, a Igreja não morrerá conosco. Mas se
nos privarmos da defesa espiritual que a Igreja estabelece em torno de nós,
então, certissimamente, morreremos. Quanto à missão
da Igreja de reerguer a sociedade contemporânea, entendamos. Sem dúvida, a
Igreja fará o possível para soerguer a humanidade dos escombros em que jaz. No entanto, isto absolutamente não quer dizer que a
Igreja precise deste soerguimento para sobreviver à crise atual. Se a sociedade
contemporânea recusar a mão misericordiosa que a Igreja lhe estende, poderá ela
deixar levar-se pela enxurrada, sem que com isto sofra o menor abalo a
indefectível rocha de São Pedro. Tenhamos o zelo da glória da Igreja. Ela é
muito mais do que uma estupenda instituição humana. Ela é divina, e só como tal
deve ser considerada.
Em segundo lugar, por mais nobre que seja o zelo
pelos interesses católicos, do que valerá isto a uma alma, se ela não tiver a
verdadeira vida interior? De nada.
Para que o zelo seja verdadeiro, é preciso que ele
se inspire no amor de Deus e da Igreja. E ele será tanto mais autêntico e
intenso, quanto mais autêntico e intenso for esse amor.
Ora qual o meio de conservar o amor de Deus e da
Igreja? O palavrório sonoro sobre questões sociais? Não. A oração, a meditação,
a prática dos Sacramentos, a leitura espiritual. Estas é que são as verdadeiras
fontes do zelo. E é aí, e só aí, que o zelo deve buscar seu melhor alimento.
Não queremos negar a utilidade dos estudos de sociologia.
Deus nos livre de tamanha e tão monstruosa aberração. Não queremos também negar
que, de quando em vez, os dirigentes de associação deverão fazer ouvir uma
palavra incisiva e documentada sobre a situação contemporânea. Tudo isto é
ótimo. Em certos casos, será até indispensável. Mas tudo isto passará a ser
péssimo, se fizer esquecer o fim primordial da associação: a santificação de
seus membros.