Como deve um católico considerar
os últimos acontecimentos europeus? É esta a questão que tem acudido a
numerosos amigos que tem desejado conhecer o ponto de vista exato do
“Legionário” a este respeito.
Respondendo a esta questão, procuremos, com
imparcialidade própria a católicos, examinar a questão.
Desde logo, impõe-se que distingamos, na recente
crise centro-européia, três grupos de questões
perfeitamente diversos: 1) como deve o católico considerar as conseqüências
ideológicas dos últimos triunfos do eixo Roma-Berlim?
2) como deve o católico considerar a violação dos tratados firmados entre
diversas potências européias e a Checoslováquia? 3) como deve o católico considerar, sob o ponto de vista
de seus fins e resultados, os vôos políticos do Sr. Chamberlain?
Examinemos uma por uma, estas questões.
* * *
Nenhum católico digno desse nome pode duvidar de
que o nazismo representa, no mundo contemporâneo, um perigo doutrinário imenso,
que ameaça atirar as almas a um paganismo tão funesto e tão completo que até
mesmo os espíritos os mais moderados se sentem inclinados a afirmar que o
nazismo em nada é preferível ao comunismo.
Ainda recentemente, estive lendo uma obra magistral
muito documentada, “Le Retour Offensif du Paganisme”, de Gustavo Combés. Com citações dos mais qualificados representantes do
nazismo, e principalmente do Sr. Hitler, mostra aquele autor que o nazismo realizou um prodígio
de incongruência com a elaboração de uma doutrina ao mesmo tempo atéia e
idólatra, em que o sangue, a raça e o solo são adorados como deuses. Ora, ter
tais deuses é ser ateu, mas, ao mesmo tempo, é ser idólatra.
Esta idolatria gera, no terreno político e social,
conseqüências tão profundamente diversas das do Evangelho que a sociedade
integralmente nazista tem de ser necessariamente uma sociedade integral,
irremediável e ferozmente anti-cristã.
É incontestável que o comunismo é a antítese do
Catolicismo. Mas o nazismo, por seu lado, constitui outra antítese da doutrina
católica, muito mais próxima do comunismo do que qualquer destes do
Catolicismo.
Isto posto, qualquer alastramento de influência
nazista na Europa Central deve ser visto pelos católicos exatamente com os
olhos com que a Igreja, na Idade Média, considerava os avanços dos muçulmanos
no centro europeu. São hordas anti-cristãs que se
avolumam e que se estendem. Nas almas seus efeitos são idênticos aos das patas
do cavalo de Átila: por onde passam, esterilizam, matam e extinguem toda
vitalidade espiritual.
Tanto mais perigosa se torna esta influência quanto
observarmos que a projeção da doutrina nazista não constitui um perigo apenas
para os povos de língua alemã mas para todos os outros povos. Haja vista a
Itália, que caminha a passos largos para a aplicação da doutrina racista na sua
íntegra, e que toma neste particular atitudes cada vez mais suspeitas, como a
do Sr. Mussolini no seu discurso de Trieste.
Os católicos, portanto, sejam eles brasileiros,
italianos, alemães, turcos ou chineses, devem deplorar profundamente o avanço
de Hitler pela Europa Central. Qualquer nacionalismo que transforme em júbilo
este justíssimo pesar, é um ato de desamor a Deus. Porque se Deus dever ser
amado acima de todas as coisas, a Santa Igreja deve ser colocada acima de
qualquer pátria terrena.
* * *
Isto posto, façamos outra pergunta: se o Sr. Hitler
não fosse nazista, se não fosse um heresiarca impregnado de ódio contra a
Igreja, como deveriam os católicos considerar suas reivindicações territoriais?
Postos de lado, nesta hipótese, os supremos e impostergáveis direitos da Igreja, temos uma questão moral
a resolver, que seria a seguinte: até que ponto tem a Alemanha a obrigação de
respeitar o tratado de Versailles? E, ao lado desta questão, teríamos outra: até que ponto
estavam a França e a Inglaterra obrigadas a
respeitar seus compromissos para com a Checoslováquia?
Os princípios católicos, nesta matéria, são claros.
A grande dificuldade consiste em ver com clareza os fatos, para que sobre eles
se apliquem com precisão e lógica os princípios.
É óbvio que um tratado é coisa sagrada, que obriga
gravemente a todas as potências contratantes.
A imprensa alemã sustenta, entretanto, que a
Checoslováquia criou condições de vida insuportáveis para os sudetos, e que estes adquiriram, com isto, o direito de
reivindicar sua incorporação ao Reich.
Provada essa afirmação da imprensa alemã, realmente
ninguém se poderia legitimamente opor ao “Anschluss” dos sudetos, porque o Tratado
de Versailles nunca poderia obrigar validamente um
povo a se submeter a condições de vida insuportáveis - tomo a palavra no seu
sentido etimológico e literal - isto é, que ninguém pudesse suportar.
Há aí, pois, uma questão de fato a ser apurada.
Serão insuportáveis essas condições de vida? Serão verídicas as informações da
imprensa alemã? Nesta questão de fato, a doutrina católica não entra, e a Santa
Igreja não se pronunciou. Cada católico pode, pois, achar o que entender.
Minha impressão pessoal, no entanto, é de que há ao
menos 90% de probabilidade de que essas condições de vida não eram
insuportáveis, e de que, como de costume, a imprensa nazista mentiu, e mentiu
escandalosamente. Para mim, pois, parece probabilíssimo
que, com a Checoslováquia, o Sr. Hitler fez o que fez em inúmeras outras ocasiões
de sua vida: desonrou a palavra oficial e inviolável do Reich. E com isto fica
tudo dito.
* * *
Vamos agora ao “caso” Chamberlain-Daladier.
Agiram bem os “premiers” inglês e francês,
abandonando o camundongo tcheco à ferocidade dos
leões?
A França, sobretudo, tinha para com a
Checoslováquia os mais sagrados compromissos. No que se convencionou chamar a
“hora h”, ela os rompeu. Andou bem?
[erro tipográfico] ...sobre as quais a Igreja não
se pronunciou, e em relação às quais os católicos são livres de opinar, sendo,
entretanto, obrigados a fazê-lo com sinceridade, imparcialidade e honestidade.
Se realmente se acha que o sacrifício da
Checoslováquia poderia trazer a paz ao mundo, a França e a Inglaterra tinham todo o
direito de suspender o cumprimento de suas obrigações. O infortúnio tcheco, por mais deplorável que seja, não pode obrigar a
França e a Inglaterra a transformarem a Europa e quiçá o mundo inteiro em um
montão de ruínas.
O bem geral deve ceder ante o bem particular. O
compromisso franco-tcheco nunca poderia ser
interpretado imoralmente, de forma a justificar o arrasamento do mundo em
benefício de um povo.
É verdade que a política dos Srs. Chamberlain e Daladier adiaram a guerra? A
este respeito, achem os católicos o que quiserem. Minha opinião individual é de
que, de alguns dias, a guerra foi adiada. Mas que essa paz mais do que precária
foi comprada por um preço absurdo, e que o recuo franco-inglês
revela uma miopia assombrosa.
Como o “Osservatore Romano”, achamos simpático o
gesto do Sr. Chamberlain de ir a Berchtesgaden conferenciar com o Füehrer. Era um supremo esforço para manter a paz razoável
e duradoura. Mas o que resultou desse esforço é uma paz tão precária e tão vã
que não compreendemos como o Sr. Chamberlain teve
coragem de pedir para ela o concurso e o apoio do Rei e dos ministros ingleses.
Aliás, tanto quanto nos consta, também foi só a
viagem de Chamberlain que o “Osservatore” elogiou,
mas a folha do Vaticano manteve silêncio quanto às conseqüências desta viagem.
Quanto à Checoslováquia, individualmente, não posso
deixar de elogiar e admirar a coragem de seus filhos.
* * *
Resumindo, fizemos as seguintes proposições:
I) - Todos os católicos são absolutamente obrigados
a deplorar o alastramento do nazismo pela Europa Central;
II) - Quanto à atitude do Sr. Hitler, impondo a
anexação, meu juízo pessoal é de que é francamente imoral, mas tratando-se de
questões de fato, devo ter a lealdade de acentuar que esse meu juízo é
exclusivamente pessoal, e que a Igreja não opinou a respeito;
III) - Quanto à atitude do Sr. Chamberlain,
pareceu-me simpática enquanto teve o aspecto de uma tentativa suprema para a
salvaguarda da paz. Hoje, ela aparece como um revoltante gesto de fraqueza, ao
qual infelizmente o Sr. Daladier se associou. Para a
França, essa fraqueza foi muito mais grave, porque a França tinha tratados
sagrados com os tchecos. Mas também essa opinião é
puramente pessoal;
IV) – Finalmente, é capital não se esquecer que a
Providência pode ter se servido de tudo isto para poupar a guerra ao mundo,
intervindo de forma inesperada nos acontecimentos.