Os velhos e maravilhosos cronistas medievais,
profundamente imbuídos do verdadeiro senso sobrenatural da História,
distribuíam a seus personagens títulos simbólicos que designavam a função por eles
desempenhada nos planos da Providência. Átila era o “flagelo de
Deus”, vindo de sua longínqua e ignorada Panonia para reduzir à
austeridade e à penitência, pelo terror e pelo sofrimento, o rebanho de Cristo,
por demais esquecido de seus deveres. Um outro era o “arauto de Deus”,
incumbido de afervorar a piedade decadente dos fiéis, pela pregação universal
da doçura inefável do amor de Nosso Senhor Jesus Cristo. O cruzado era a
“espada de Deus” destinada a defender, contra o islã bárbaro e agressor, o
rebanho de Cristo ameaçado. E assim por diante, uma nomenclatura ao mesmo tempo
ingênua e sublime, áurea no seu conteúdo, cândida na sua forma, esmaltava as
narrativas históricas com a riqueza inesgotável de sua policromia.
Se procurássemos aplicar à História do Brasil o
velho processo simbólico dos cronistas medievais, e representar por meio de uma
figura a obra que, dentro dessa história, Jackson
realizou, sentiríamos sério embaraço. Jackson não
poderia ser propriamente chamado o “gládio de Deus”, porque o gládio é
necessariamente frio e cortante, e Jackson, se era às
vezes cortante, nunca em sua vida foi frio. A técnica de guerra medieval não
dispunha de instrumentos capazes de simbolizar condignamente
a obra de Jackson. Só dentro dos recursos
estratégicos de nosso século podemos apontar um símile adequado. Jackson foi a dinamite de
Nosso Senhor Jesus Cristo.
* * *
O Brasil nunca atravessou uma quadra mais
asfixiante, sob o ponto de vista espiritual, moral e intelectual, do que os
longos anos de estagnação que precederam o apostolado jacksoneano.
Essa situação era o reflexo, talvez, do que ocorria no mundo inteiro. Erraram
crua e crassamente os que quiseram responsabilizar por este estado de coisas os
políticos que então dirigiam o Brasil. Os erros dos políticos foram muito mais
influenciados pela situação psicológica e espiritual do país naquela época do
que o país foi influenciado pelos inegáveis dislates dos dirigentes da coisa
pública. A crise era espiritual e moral, e os que procuraram dar-lhe solução
por meio da substituição dos homens ou da reforma das instituições políticas,
erraram crassamente.
No que consistia a crise? Tristão
de Athayde, cujo nome não pode deixar de ser mencionado sempre que
se escreve sobre Jackson, Tristão
de Athayde, em suas obras, descreveu magnificamente o
otimismo terra-a-terra, o sensualismo imprevidente e
faustoso, o profundo anarquismo das inteligências e das vontades, no apogeu da era
victoriana. Depois da guerra, na Europa, esses
sentimentos tão esplendidamente estáveis, tão presuntuosamente
indestrutíveis, tão imperturbavelmente otimistas, tiveram que ceder sob a ação
conjugada de dois fatores diversos. De um lado, as altas esferas da
inteligência sofriam uma reação cada vez mais enérgica contra o evolucionismo
que era a medula da mentalidade vitoriana. De outro lado, a grande hecatombe de
1914-1918, enchendo a Europa de dores, ruínas, e de mendigos quebrou definitiva
e irremediavelmente o padrão psíquico do homem de “avant-guerre”.
De um lado, averiguava-se que o evolucionismo era falso, e que o mundo poderia
não caminhar gradual e inelutavelmente na senda do Progresso com P maiúsculo. Do
outro lado, verificava-se a veracidade desta afirmação pelo fato de que o
Progresso com P maiúsculo parecera ter cedido definitivamente seu lugar na
velha Europa, gasta e chagada pela guerra, a uma agonia que os espíritos mais
previdentes não podiam deixar de ver, e cujos sintomas, pelo desemprego, pelas
lutas de classe, pelas dificuldades morais e econômicas de toda a ordem, faziam
sofrer intensamente as multidões desvairadas.
Enganar-se-ia, porém, quem supusesse que, com isto,
a era do otimismo estaria encerrada para a América. Enquanto a Europa parecia
afundar-se no caos, raiava sobre a América o zênite do esplendor wilsoneano. Os Estados Unidos tinham atingido seu apogeu.
Diante de um mundo decrépito, faminto e cambaleante,
eles se apresentavam com todo o prestígio da juventude, da riqueza, e do poder.
Em última análise, fôra sua intervenção que provocara
a vitória. Nação até então ignorada ou ao menos relegada a um segundo plano
pela “morgue” do Velho Mundo, a jovem república inebriava-se com o gáudio de
ver seu Presidente decidir de todas as questões mundiais naquela velha Europa
ainda tão cheia de prestígio, lado a lado com as maiores celebridades políticas
e militares do Universo. Mais ainda: à opinião norte-americana impressionara
profunda e deliciosamente ver o seu Presidente ser, nas negociações do Tratado
de Versailles, o que fora o grande Metternich no Tratado de Viena: o árbitro da política mundial e o ditador da paz.
O prestígio da jovem e pujante república, e de seu
famoso Presidente, transbordava do campo político para o da vida particular. E
os milionários yankees que começaram
a fluir em número sempre crescente a Paris, logo depois da guerra, gozavam de
um prestígio inconteste, que lhes permitia levar para os pagos natais, como
troféus dos grandes triunfos sociais obtidos na Europa, todos os escombros
daquelas grandes e magníficas coisas que acabavam de ruir. E mais de um milhardário instalou em sua casa de nouveau-riche, com idêntico
orgulho, lado a lado, alguma grã-duquesa russa, algum objeto que pertenceu a
Maria de Médicis, ou algum famoso quadro de Rubens ou de Ticiano, tendo comprado a primeira pelo casamento, e os últimos
nos vendedores de antigüidade; uns e outros, porém, com o único e exclusivo
peso do dinheiro.
Este sentimento de superioridade extravasou dos
Estados Unidos para a América inteira. E foi realmente entre 1918 e 1928 que a
opinião pública viveu, com todos os seus sintomas, o otimismo despreocupado e
jactancioso da era vitoriana. Esse decênio foi, para nós, o da “vida
flauteada”, dos gastos fabulosos, do café a preço alto, das viagens incessantes
à Europa, das orgias e da despreocupação. A era wilsoneana
era tão menos espirituosa e intelectual do que a era vitoriana...
Foi em pleno dia da rápida era wilsoneana
que Jackson surgiu.
A estagnação mental brasileira era completa. O
famoso jazz band, o shimy, o cinema e
o sport, monopolizavam todos os espíritos. Os raros,
se bem que apreciáveis intelectuais, então existentes, eram “rari nantes in gurgite vasto”. Ninguém se
preocupava com eles, como aliás com tudo o que não fosse gozo plácido, jovial e
– “dura veritas, sed veritas”
- luxurioso da vida.
Todo o mundo era católico, todo o mundo era liberal-democrático, todo o mundo era nacionalista. Mas,
tanto o Catolicismo quanto o democratismo, quanto o
nacionalismo não interessavam ao povo. Os cinemas regurgitavam. Os rinks e os campos de futebol também. As multidões aplaudiam
freneticamente as proezas de Tom Mix [artista de
cinema em voga na época, nota do datilógrafo] e as façanhas de Friedenreich [jogado de futebol muito conhecido à época, idem]. Entretanto, essas mesmas multidões, tão frenéticas
no rink, na sala de cinema e no dancing, eram frias na Igreja,
onde oravam pouco e sem fervor, como também eram frias nas solenidades
patrióticas e cívicas, às quais compareciam de mau humor, e de cujo significado
intrínseco se desinteressavam totalmente.
O que era mais triste do que tudo, neste panorama,
era o conformismo dos católicos. Não apenas dos de rótulo, mas ainda de muitos
dos fervorosos. Nunca faltou ao Brasil, mercê de Deus, um pugilo de bravos e
autênticos batalhadores da Fé. Mas como era
incompreendido, ignorado, ou até injuriado seu apostolado!
Foi dentro deste cenário que Jackson
surgiu. E surgiu com a missão providencial de dinamitar a pedreira cinzenta e
informe da despreocupação do ambiente, semeando inquietação e luta na placidez
letal e vergonhosa do Brasil de então.
Primeiramente, lançou ele uma grande inquietação no
espírito dos que se julgavam bem com Deus e a Igreja, porque acendiam ao
Criador uma vela, aliás pequena e de cera falsificada, enquanto um braseiro de
círios, acesos com suas próprias mãos e sempre renovados, ardia aos pés de Mamon, e de Afrodite. Como um novo cadet de Gascogne, verdadeiro e autêntico Cyrano de Bergérac do
Catolicismo, Jackson investiu truculentamente contra
essa gente, e no vigor fulminante de seu ataque, deixou-os ao mesmo tempo
atônitos e iracundos.
Depois sua investida foi contra Rousseau e todo o
liberalismo. Não era mais possível aos católicos, adorar a deusa Razão oculta
sob os véus transparentes e impudicos da “Igualdade, Liberdade, Fraternidade”.
Era preciso romper com o liberalismo socializante que
dominava a época. (...) Era preciso romper com todos os ídolos que desvairaram
o Brasil Imperial e Republicano. Jesus Cristo não se podia assentar nesse novo panteon, ao lado de divindades falsas e espúrias. Cristo,
para ser Rei, só o quer ser sem divisões nem partilhas. E o católicos não Lhe
pode votar um coração dividido com Mamom, Afrodite e os ídolos satânicos da Revolução. Para
tornar clara esta afirmação, aliás sempre e sempre proclamada pela Hierarquia
Eclesiástica e por um núcleo de católicos integrais e convictos, Jackson fez obra de alta cirurgia espiritual. Cortou,
talhou e retalhou à torto e à direita. Sangrou o próximo em abundância. E
atraiu atrás de si um verdadeiro tropel de indignados.
Jackson, no amorfismo da sociedade de então, foi um reivindicador
estrepitoso e épico dos direitos da Igreja. Foi ele quem separou o joio do
trigo, os católicos autênticos dos não autênticos, os leais e generosos
daqueles que pensavam poder “filar” o Céu, fazendo evolar
sua alma, diretamente, de um corpo entregue a todas as corrupções até o seio da
bem-aventurança eterna.
Certamente, Jackson não
foi o primeiro a proclamar estas verdades que a Igreja nunca se fartou de
repetir. Mas seu apostolado recebeu de Deus o dom de atingir o Brasil inteiro,
e de fazer efetivamente o que raramente, antes disto, tinha sido operado na
massa da opinião, isto é, a fixação nítida das fronteiras que separam a Igreja
do Mundo, o Reino de Cristo do de Satanás, a Verdade do Erro, a Luz das trevas.
Quando Jackson morreu, há
precisamente dez anos, um imenso clamor de ódio o perseguia. Todos aqueles a
quem havia galhardamente enfrentado, o odiavam a fundo e com rancor. De seu
truculento apostolado, parecia resultar apenas um fato: a irritação daqueles a
quem procurara esclarecer.
A Providência, porém, se encarregou de, com o
tempo, desmentir esta impressão errônea e estultamente superficial. O
Apostolado de Jackson ecoou pelo Brasil inteiro, e,
do Norte ao Sul, do fundo do sertão ao litoral, almas e almas, formando legiões
e multidões, acorreram sob a bandeira autêntica e exclusivamente católica que
esse grande paladino levantara. Um renascimento católico imenso acompanhava e
brotava da obra de Jackson de Figueiredo. Uma
primavera de energia, de galhardia espiritual, de santa e heróica
combatividade, brotava no Brasil. Na realidade, os pusilânimes e os estultos só
viram na obra de Jackson o ódio que despertou. Os
que, entretanto, não vêem as coisas com um olho só, apontam na explosão do
grande dinamiteiro de Cristo a causa mais fundamental
– humanamente falando – do admirável renoveau por que o Brasil está passando.
Entre as almas deslumbradas pelo fogo do grande
meteoro espiritual que foi Jackson, figura Tristão de Athayde. Esse grande
apóstolo não foi atraído ao Catolicismo senão pelo trágico clarão de incêndio
com que Jackson iluminava e esclarecia, aos olhos dos
incrédulos, as magnificências da Esposa de Cristo.
Seria estulto se quiséssemos ver na obra de Jackson um sol sem manchas. Ela teve, talvez, o mal
decorrente da hipertrofia de suas qualidades. Sem embargo disto, foi à grande
explosão da dinamite espiritual de Jackson que
devemos o desbastamento do terreno e a remoção dos
escombros sobre os quais marcha hoje, em glorioso desfile de vitória, a
mocidade católica do Brasil.