Se, por meio de uma frase, devesse sintetizar todas
as impressões que me deixou Dom Duarte Leopoldo e Silva,
diria simplesmente que, como Bispo e como brasileiro, ele foi, por excelência,
um homem de seu tempo.
A afirmação pode causar estranheza. Entretanto, é
rigorosamente verdadeira. Em geral, considera-se “homem de seu tempo” aquele
que por encarnar os vícios e as degradações mais características deste nosso triste fim de civilização é um produto
autêntico do meio em que vive. Na realidade, porém, o “homem do tempo” é o homem que as
vicissitudes da época exigem, é aquele que exatamente por estar no polo oposto
aos defeitos de seus contemporâneos, tem todas as qualidades para exercer uma
missão salvadora. O verdadeiro “homem do tempo” é o homem providencial que Deus
enviou não para se perder com o mundo, mas para salvá-lo. E Dom Duarte Leopoldo
e Silva foi, na acepção plena da palavra, um desses homens providenciais.
* * *
Para se ter uma idéia do que de providencial tinha
a extraordinária figura de Bispo, que acabamos de perder, bastará que se
recorde o ambiente dentro do qual iniciou sua gestão episcopal.
O Brasil estava em plena adolescência psicológica e
econômica e se embriagava avidamente com todos os deleites que sua situação lhe
oferecia.
Com a facilidade de comunicações que o progresso
engendrara, o contato com o Velho Mundo introduzia entre nós lufadas vigorosas
de luxo e de progresso. Rapidamente, a vida social se transformava. Era a luz
elétrica, o telefone, o bonde, o telégrafo, a multiplicação das ferrovias, e o
cinema, que modificavam aceleradamente o padrão da vida doméstica, os costumes
patriarcais, e todo o teor das relações sociais. A cada novo progresso, uma
onda de entusiasmo percorria e fazia vibrar a massa da população. Nenhum herói,
por exemplo, foi ovacionado por nossa gente como os primeiros bondes elétricos
que, sob os aplausos da multidão, começaram a funcionar festivamente na capital
paulista, em um dia de soleníssima e concorridíssima
inauguração. O Brasil sentia que estava nascendo para uma civilização nova. E
ele delirava de entusiasmo por essa civilização.
Para tanto, não faltavam motivos. A civilização
nova se apresentava, aos espíritos incautos, ataviada com todos os encantos
capazes de empolgar as massas. De um lado, um progresso material vertiginoso
concorria imensamente para tornar a vida mais cômoda e mais suave. De outro
lado - e esta circunstância é capital - uma imensa revolução espiritual se
consumava, tutelada pelo prestígio de todas as novas conquistas da física, da
química e da mecânica. A demolição final da velha estrutura política anterior à
Revolução dava lugar ao aparecimento de um mundo igualitário (...), cujos pro-homens fascinavam as massas com a proclamação incessante
de seus novos direitos e as anestesiavam pelo olvido sistemático e criminoso de
seus imperecíveis deveres.
As idéias de Comte, de Renan, de Prudhon, de Saint Simon, de Kant e de Marx nos chegavam da
Europa de envolta com as deslumbrantes invenções do progresso material. Para
muita gente, renegar a Revolução Francesa era renegar ao mesmo tempo a
eletricidade e o progresso. Esta associação de idéias, tida como evidentemente
estúpida hoje em dia, obcecava, então, quase todos os espíritos. E muita gente
havia, para a qual preferir a Kant ou Comte à Igreja com os dogmas da infalibilidade papal e da
Imaculada Conceição, era quase tão ridículo quanto rejeitar o uso do automóvel
ou da luz elétrica, preferindo-lhes a velha vela de cebo ou uma montaria lerda
e manca.
Diante de tudo isto, ou melhor exatamente em
virtude de tudo isto, para o elemento mais representativo da vida intelectual e
social da época, e principalmente para os figurões altifalantes da república
positivista de 91, um Arcebispo outra coisa não era senão o chefe impotente de
um ridículo exército de beatas ovelhas e de homens imbecilizados, cujas minguadíssimas hostes, dentro em pouco, desapareceriam sob
o sol do progresso, como derretem sob o sol do meio dia os bonecos de neve
armados pelas mãos das crianças.
E foi à testa de um tão fraco e tão triste exército
que a Providência colocou, em São Paulo, a figura descomunal de um autêntico Condé ou um verdadeiro Caxias das lutas santas da Igreja de
Deus.
* * *
“Ipse firmitas et auctoritas meam - é Ele
(Cristo) minha firmeza e minha autoridade”. Foi com este lema ardente e
galhardo como um canto de guerra, inscrito em seu brasão de armas, que se
apresentou à sua nova diocese o Bispo Dom Duarte. O seu todo se harmonizava
perfeitamente com o lema. Esguio, alto, de um porte majestoso, com as faces hieraticamente imóveis e lívidas, lábios finos e enérgicos,
gestos comedidos e de uma impecável dignidade, o jovem Prelado parecia uma
figura descida diretamente de algum nicho de catedral gótica, para governar a
pujante e moderníssima diocese.
Colocado ante as investidas de um liberalismo
frenético, Pio IX procurou, a princípio,
fazer as concessões que a doutrina da Igreja lhe permitisse. Longamente, com
uma paciência autenticamente evangélica, cedeu ele tudo quanto pode ceder.
Finalmente, chegou a convicção de que se não é com vinagre que se atraem
abelhas, não é com açúcar que se domam leões. E diante das imprecações furiosas
do ceticismo, Pio IX enfrentou a incredulidade do século com a definição
trovejante dos dogmas da infalibilidade papal e da Imaculada Conceição. E o que
a doçura de Cristo refulgente no seu vigário não conseguira, conseguiu-o
finalmente o açoite de Cristo, que seu Vigário resolvera empunhar. Estrebuchante, a impiedade começava a declinar na Europa,
pelo golpe mortal que o Papa lhe inferira.
Dom Duarte compreendeu a lição que o grande
Pontífice deu ao mundo. E a característica essencial de seu pontificado foi a
lógica inflexível e a energia inquebrantável com que nunca, em tempo algum, sob
nenhum pretexto, deu o mínimo quartel aos princípios que a Fé romana reprova.
Em pleno zênite de liberalismo, ele foi sobretudo
um grande disciplinador. Armado só de poderes
espirituais, soube fulminar condenações certeiras com uma habilidade
verdadeiramente cirúrgica, em todos os numerosos abcessos que eriçavam de irregularidades e abusos nossa vida religiosa. Previdentíssima, sua autoridade não se exercia apenas em
sentido repressivo, mas ainda preventivo. Na disciplina eclesiástica, soube dar
à Arquidiocese uma tal organização que seus seminaristas e seus sacerdotes
foram dotados de uma legislação que os punha ao abrigo da menor infiltração de
liberalismo, colocando-os constantemente entre a alternativa da indisciplina
explícita, ou da conduta modelar. Na vida social, soube, com uma intuição
diplomática admirável, situar seu prestígio de Arcebispo na altura devida à sublimidade
de seu cargo, tratando com os poderosos da arquidiocese com a mesma linha - mutatis mutandis, é
claro, porque o bom senso foi sempre uma de suas grandes virtudes - com que o Papa
trata com os poderosos do mundo inteiro. Tratando com os elementos políticos,
soube fazê-lo com a sobranceria de um Arcebispo e o respeito de um cidadão
modelar. Tratando com os elementos populares, soube aliar à majestade de um
Pastor a doçura de um Pai.
O que, sobretudo, era admirável no Arcebispo, era
seu imperturbável equilíbrio. No início de sua vida episcopal em São Paulo, sua
conduta retilínea e intransigentemente disciplinadora
lhe valeu inúmeras adversidades. Mas ele continuou
sempre imperturbável, sem se deixar intimidar pelas ameaças, nem arrastar por
um mesquinho espírito de vingança. Quando os governos o ignoravam oficialmente,
ele timbrava em manter toda a pompa própria à sua excelsa autoridade. Quando os
governos o reverenciavam, ele continuava o mesmo, nem acrescido pelas honras de
hoje nem diminuído pelos ultrajes de ontem, porque sua grandeza não vinha dos
homens, mas de Deus. Quando o Estado lhe era adverso, foi um denodadíssimo reivindicador dos
direitos da Igreja. Quando, em 1934, a situação lhe permitiu uma interferência
imensa na vida do Estado, foi um denodadíssimo
campeão da não intervenção do Clero na política. Ninguém, mais do que ele, foi
implacável para com a impiedade insolente e revoltada. Mas desafio a quem me
mostre, de sua parte, um só gesto de inclemência para com as almas humilhadas
por uma sincera contrição. Ninguém mais do que ele foi cioso de sua autoridade.
Mas desafio a quem me mostre uma única oportunidade em que se tenha prevalecido
de seu cargo para obter manifestações de apreço a sua pessoa ou benefícios para
seu patrimônio particular.
Dom Duarte esmagou, em São Paulo, a impiedade e o
liberalismo, pela energia admirável com que os enfrentou, e pelo equilíbrio
ainda mais admirável com que soube usar sua admirável energia.
* * *
Disse São Bernardo com acerto que a
glória humana é como a sombra de nosso próprio corpo. Quando corremos atrás
dela, ela nos foge. Quando fugimos dela, ela nos persegue.
Dom Duarte nunca procurou a glória dos homens. Pelo
contrário, parecia ter um prazer especial em esmagar qualquer desejo individual
de popularidade, para cumprir inteiramente seu dever.
Por isto mesmo, a popularidade, no fim de sua vida
episcopal, seguiu ao seu encalço.
E enquanto tantos e tantos cabotinos, que sacrificaram
honras, talentos, fortuna e a própria salvação eterna para obter popularidade
jazem hoje no esquecimento, os despojos mortais de Dom Duarte tiveram a maior
consagração popular que jamais se tenha visto em terra paulista.
No meio de tantas honras humanas, seu corpo frio
estava impassível [como] fora sua grande e santa alma aos aplausos ou às
censuras dos homens. O que lhe interessara fôra tão
somente a conquista da perfeição e o amor completo de Deus.
Por isto mesmo, recebeu a glória eterna das Mãos d'Aquele que, com doçura infinita, disse um dia “ego ero merces vestra magna nimis - serei eu mesmo vossa recompensa imensamente
grande”.
Cristo foi a única recompensa que ele almejou. E
ele a tem, agora, no seio da bem-aventurança eterna, por todos os séculos dos
séculos, sem fim.