Muitos foram os comentários de caráter litúrgico e piedoso que se fizeram a respeito da data da
Imaculada Conceição. Entretanto, uma das reflexões que o assunto suscita
ficou completamente de lado. Cumpre recordá-la porque ela conserva, em nossos
dias, uma atualidade palpitante.
* * *
Não é fácil, para quem vive em nossos dias, ter uma
idéia da devastação que o racionalismo e o modernismo
fizeram na sociedade européia e americana, em todo o decurso do século XIX.
O espírito humano, profundamente trabalhado pelos
materialistas, pelos revolucionários de todos os matizes, sentia dentro de si
uma revolta ardente contra o sobrenatural que o levava a repelir tudo quanto
não pudesse cair diretamente sob a ação e o controle dos sentidos. Por isto
mesmo, todas a religiões, e principalmente a Católica, na qual o sobrenatural
se patenteia de forma visível e autêntica, foram como que postas de quarentena
pela opinião pública. E todos os espíritos procuravam, tanto quanto possível,
libertar-se da crença em uma ordem de fenômenos que não se enquadrasse
rigorosamente dentro das leis da natureza.
A bem dizer, talvez nove décimos da opinião
européia estava eivada de racionalismo e de
modernismo. Evidentemente, essa contaminação não era igualmente extensa nem
igualmente profunda em todos os espíritos. No entanto, mais visível em uma,
menos em outros, ela tinha se insinuado de tal maneira que, mesmo entre os
católicos leigos os mais eminentes, se podia notar uma ou outra infiltração
daquelas tremendas formas de heresia.
Quatro eram as posições principais tomadas pela
opinião pública perante a grande crise religiosa da época:
1 - aqueles que, corroídos a fundo pelo vírus racionalista e modernista, tinham sido atirados aos
extremos da irreligiosidade, isto é ao ateísmo radical seguido de um anti-clericalismo militante e não raras vezes sanguinário;
2 - aqueles que, sem ter a coragem de romper com
toda e qualquer convicção religiosa, estavam explicitamente colocados fora da
Igreja, admitindo tão somente um espiritualismo ou um cristianismo vago,
largamente acomodado aos princípios modernistas e racionalistas;
3 - aqueles que, sem ter a coragem de romper com a
Igreja nem com o espírito do século, proclamavam-se católicos, mas sustentavam
seu direito de professar, em um ou outro ponto, doutrinas contrárias às da
Igreja;
4 - aqueles que, sem ter a coragem de sustentar que
divergiam da Igreja e muito menos de se separar dela, procuravam, entretanto,
interpretar capciosamente a doutrina católica, de forma a lhe alterar em alguns
pontos o conteúdo autêntico e tradicional, e acomodá-lo com os erros da época.
A dizer a verdade, os que estavam inteiramente fora
dessa classificação, os que haviam rompido inteiramente com o espírito do
século e que se conservavam sem nenhuma jaça de racionalismo
ou de modernismo eram tão poucos que podiam ser contados pelos dedos, nas
fileiras do laicato, especialmente nos círculos intelectuais e sociais
elevados.
O aspecto que a Igreja apresentava era, então, a de
um imenso edifício que se esboroa aos pedaços. De seus milhões de filhos,
pouquíssimos conservavam seu autêntico espírito. Na sua quase totalidade, eles
conservavam apenas réstias de Fé, como o horizonte do crepúsculo, que conserva
réstias de luz, vestígio derradeiro de um dia que está chegando ao seu fim. E a
noite completa não haveria de tardar.
* * *
À vista disto, como deveria agir a Santa Igreja?
As opiniões estavam divididas e, efetivamente, o
assunto era dos mais delicados.
Por um lado, uma reação clara e definida haveria de
gerar uma imensa oposição, arrastando para a heresia explícita e categórica
muitos espíritos que ainda se achavam ligados, mais ou menos, à Igreja
Católica. Por outro lado, entretanto, se não se opusesse um dique formal e
categórico à onda da heresia, que ia subindo, seria inevitável que, mais cedo
ou mais tarde, os desastres assumissem proporções tais que a Igreja viesse a
conhecer os mais tristes e mais angustiosos dias de sua existência.
Pio IX optou por um gesto
de energia, e resolveu convocar o Concílio do Vaticano, a fim de estudar e de
decidir sobre a infalibilidade papal e o dogma da
Imaculada Conceição. Um grande e largo gesto de audácia da Igreja enfrentava,
pois, o espírito do século, em um desafio que parecia louco. Realmente, falar
em dogmas naquela época já era uma temeridade. Definir dogmas novos, temeridade
maior. E definir como dogmas exatamente a Imaculada Conceição e a
Infalibilidade papal, em uma época tremendamente racionalista
e democrática, parecia uma verdadeira loucura.
Por isto mesmo, uma imensa celeuma se levantou nos
próprios arraiais católicos quando a deliberação do Pontífice foi conhecida.
Discutiu-se amplamente. E, para ser objetivo, manda a verdade que se diga que a
oposição foi tão forte que a quase totalidade dos Bispos franceses se opôs
claramente à definição daquelas duas verdades de Fé.
Por que isto? Porque discordassem delas? Não. Mas
porque achavam que o espírito transviado do século XIX só poderia ser atraído
ao redil por um largo sorriso de concessão e de tolerância; que não é com
golpes de audácia mas com uma invariável brandura, que se consegue a conversão
das massas; que seria loucura das mais declaradas, procurar desafiar o espírito
público. Realmente, com esta atitude ousada, todos se irritariam e se
confirmariam no erro. Seria necessário contemporizar e conquistar pela
persuasão e pela doçura. Só esta tática é que seria viável.
* * *
No Concílio do Vaticano, reuniu-se a Santa Igreja através de seus Bispos,
iluminados pelo Espírito Santo, e além da questão doutrinária, este grande
problema de estratégia foi discutido. A bem dizer, era talvez a primeira
ocasião em que este problema estratégico se apresentava
ao exame do Episcopado com tanto vigor, depois do Concílio Tridentino.
Os fatos pareciam dar inteira razão aos Bispos de
opinião diversa da do Papa. Uma celeuma imensa se levantava pela Europa. As apostasias se multiplicavam. As discussões no Concílio eram
longas e apaixonadas. Em última análise, ao lado da questão doutrinária se
discutia o seguinte problema:
1 - um gesto de vigor tendente a preservar as
massas do erro, conseguirá realmente imunizar os elementos não contagiados?
2 - esse gesto não terá como conseqüência exacerbar
os espíritos que vacilam e levá-los à heresia?
3 - sobretudo, não produzirá ele o efeito de enraigar no erro indivíduos que poderiam talvez, pela
persuasão, ser conduzidos à Verdade?
À primeira questão, o Concílio respondeu, “sim”. Às
outras duas, “não”.
Foi este o significado da promulgação solene
daqueles dois grandes dogmas.
* * *
Aparentemente, o Concílio errara. Continuava a irritação
da incredulidade. O Arcebispo de Paris foi assassinado em plena Catedral por um
indivíduo irritado pelo dogma da Imaculada Conceição. Rios e rios de tinta se
gastaram para provar que o Concílio era retrógrado e obscurantista. Rui Barbosa
escreveu seu famoso “O Papa e o Concílio”. A revolta contra a Igreja era franca
e declarada...
Entretanto, os resultados esperados pelo Concílio
não se fizeram esperar muito.
Em primeiro lugar, todos os católicos militantes
deram sua adesão incondicional. No seio do povo, as verdades definidas pela
Igreja foram aceitas graças ao vigor com que a Igreja as promulgara. Até nos
círculos intelectuais, o vigor com que agira o Papa lhe atraiu o respeito
geral, e todo o mundo começou a respeitar e se interessar por uma Igreja dotada
de tal vitalidade. O racionalismo e o modernismo
foram decaindo gradualmente. E, hoje em dia, a Igreja esmagou com sua vigorosa
autoridade o dragão que ameaçou devorá-la no século XIX.
* * *
Evidentemente, ninguém pode negar o alcance deste
acontecimento histórico. Erram os que condenam as manifestações vigorosas da
Fé, e que julgam imprudente e contraproducente qualquer gesto de energia e de
vigor combativo dos filhos da Luz contra os filhos das Trevas.
Aí está o triunfo formidável e definitivo de Pio IX a prová-lo. Ao que
ficou dito acima, só uma ressalva temos que acrescentar. É que se o modernismo
e o racionalismo foram enfrentados e esmagados na sua
forma aguda, eles ainda se dissimulam sob a forma de mil erros diversos e precisam
ainda ser vigorosamente combatidos. Foi para a extirpação destes e outros erros
que Pio XI constituiu a Ação Católica. E a nós só nos
cabe apoiá-la e prestigiá-la com todas as nossas forças, para que ela realize
hoje o que já no século XIX realizou o magnífico golpe de Fé do Papa Pio IX.