Escrevo
na sexta-feira, a uma hora em que as notícias ainda são confusas e a única
coisa que se sabe de positivo é a invasão do território polaco por tropas
alemãs. No ar pairam numerosas interrogações de uma importância vital. Uma a
uma, eu as examino detidamente, a ver se consigo desvendar a priori o curso dos acontecimentos. Mas
estes se desenrolam com tanta rapidez que, possivelmente, o ambiente estará
clareado antes mesmo de este artigo estar concluído. Devo, entretanto, entregar
meu artigo quanto antes, que ocupações inadiáveis me impedirão de o fazer
depois. Não tenho, pois, outro remédio senão oferecer aos meus leitores as
impressões deste momento rápido, que vai ser definitivamente superado pelos
momentos que se lhes seguirão dramaticamente. “Dramaticamente”, digo, porque
ainda mesmo que a situação termine em um novo “Munique”, esta solução pacífica
não deixará de ter seu aspecto dramático: o da capitulação definitiva do mundo
ante seu novo feitor. E talvez seja mesmo esta a mais dramática das soluções.
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A
minha primeira interrogação é esta: o que fará a Itália?
Nada,
absolutamente nada, nesta guerra, posso eu vislumbrar em seus interesses
fundamentais e na índole de seu admirável povo, que explique a fidelidade
inquebrantável ao eixo Roma-Berlim, caso a aliança Berlim-Moscou não seja novamente “camuflada” por algum
estratagema diplomático.
Católica,
e profundamente católica, a Itália além disto é latina, e profundamente latina.
Mais ainda: por uma coincidência, é ela ao mesmo tempo a própria sede da
Cristandade e da latinidade. Latinidade
e Cristandade são, evidentemente, duas coisas absolutamente distintas. Isto,
entretanto, não impede que a Itália seja a sede de uma e de outra.
Ora,
a perdurar o conúbio Berlim-Moscou,
o que poderá haver de mais anticatólico e de mais antilatino ao mesmo tempo do que esta associação de
potências? Doutrinariamente, o eixo Berlim-Moscou é o
eixo paganismo-ateísmo. Historicamente, é ele
absolutamente alheio aos interesses latinos e italianos. Irá a Itália caminhar,
entretanto, neste sentido?
Muitos
indícios deixam prever que não. Profundamente católico, tendo, além disso, um
senso vivíssimo dos valores históricos de seu patrimônio cultural, o povo italiano é perspicaz, inteligente,
crítico e até mordaz. Seu pensamento vivo e impressionável não consome tempo
para transformar as observações em idéias, e as idéias em atitudes. Não será
fácil ao governo, caso ele queira seguir a orientação política que até aqui
assumiu, arrastar atrás de si o povo italiano.
De
mais a mais, ninguém ignora que a monarquia tem, na Itália, um incontestável
prestígio. O rei, usando de suas atribuições, poderá exercer no curso dos
acontecimentos uma ação salutar.
Finalmente,
não se pode negar a Mussolini altas qualidades de
estadista. Diante da pressão da opinião e possivelmente do Soberano, não saberá
ele fazer calar suas simpatias tantas vezes proclamadas com ênfase apaixonada
pelo nazismo e sacrificá-las aos mais altos interesses da humanidade? Devemos
desejá-los, devemos esperá-los, devemos pedi-lo com ardente instância ao
Criador, desde que tal gesto advenham para o mundo em geral, e para os
interesses da Igreja particularissimamente, os
benefícios que tão calorosamente almejamos. O dia em que pudéssemos ver a
Itália definitivamente reintegrada na política do pacto de Latrão
seria para nós um dia de imenso júbilo. É verdade que o pacto de Latrão já está longe. Mas ninguém pode sustentar que o
caminho que ele abriu está irretorquivelmente
fechado.
Uma
esperança sempre consola, ainda mesmo quando brilha pequenina no meio das
trevas de graves angústias. É pequena assim nossa esperança. Mas ela brilha com
o desejo de que Mussolini encontre o caminho de
Damasco. Para Deus, nada é impossível... ainda mesmo quando as razões humanas
para esperar são mínimas.
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Que
atitude tomará o “Legionário”? Se a situação se definisse claramente, como um conúbio marxistico-nazista sem a
associação de qualquer outra potência governada por dirigentes católicos ou ao
menos com uma situação suportável para os católicos, ninguém poderia vacilar.
Mas é difícil que esta situação se apresente tão cruamente. Pelo contrário,
muitos “despistamentos” teuto-russos
podem aparecer para encobrir a solidariedade entre os dois regimes. Esperemos
os despistamentos, verifiquemos qual será a
configuração das alianças no caso de um alastramento do conflito em toda a
Europa. E só depois disto nos pronunciaremos. Porque, mais uma vez insisto
sobre o fato, é difícil que as coisas venham a se delinear publicamente com uma
tal clareza doutrinária nos primeiros dias do conflito. Nada nos espantará
nesta ordem de idéias. Até mesmo que a Rússia se finja, por algum tempo, de
indiferente ao curso das coisas. Estamos na hora das trevas e das confusões. E
será menos provável que o mal arranque definitivamente a máscara cuja ponta
levantou por momentos, do que continue a representar por vezes o papel de Anjo
de luz.
Repitamos,
pois: uma ofensiva clara e exclusivamente nazistico-comunista
contra a Europa nos encontraria como inimigos irredutíveis. Se, porém, pela
confusão dos espíritos mal intencionados e pela moleza daqueles que talvez não
sejam fundamentalmente maus, alguns interesses legítimos se misturarem aos da
dupla nazismo-comunista, só mesmo uma análise
objetiva dos fatos poderá determinar nossa atitude.
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Para
a determinação de nossa atitude, como é obvio, devemos também atender para o
que fizer a Santa Sé. Porque, para nós, o ponto nevrálgico da questão é este.
Todas as nossas simpatias e antipatias serão
orientadas exclusivamente segundo o tratamento dispensado pelos beligerantes à
Santa Sé. Se me aparecesse um ser sobrenatural com o aspecto do mais luzente
dos anjos e ele me dissesse qualquer coisa de mal ou me manifestasse o
propósito de fazer qualquer coisa de mal contra o Vaticano, ele seria por mim
prontamente caracterizado como um indiscutível demônio. Se, pelo contrário, e
por absurdo, me aparecesse a possibilidade de cooperar com o próprio demônio -
por absurdo, repito - em um sentido desejado pela Santa Sé, eu aceitaria a
cooperação. A medida de todas as coisas é a defesa intransigente dos direitos
da Igreja.
Nossa
própria posição de católico faz de nós patriotas ardentes. Aos ditames de nossa
Fé, não são, pois, alheios aos ditames do patriotismo. Mais do que nunca, o
Brasil exige a solidariedade afetuosa de todos os seus filhos.
Em
qualquer emergência, nosso lema será este: pela Igreja e pelo Brasil.
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A
estas considerações convém acrescentar outra, de suma importância.
Não
sabemos o que um futuro provavelmente remoto exigirá de nós como brasileiros.
Enquanto, porém, os imperativos do patriotismo não nos levar a tomar atitude,
não será nossa Fé que nos vai atirar contra qualquer povo do mundo. Por mais que
o “Legionário” seja anticomunista, não será anti-russo.
E por mais que seja antinazista, não será anti-alemão.
Pelo
contrário, em todas as suas manifestações antinazistas
e anticomunistas, inclui ele sempre um ardente ato de amor para com os povos
oprimidos pela ditadura do ateísmo ou do paganismo. Se somos antinazistas e anticomunistas, e se não podemos desejar a
vitória mundial destas ideologias, é com o indefectível afeto de irmãos
amantíssimos em Nosso Senhor Jesus Cristo que saudamos neste momento os
católicos russos e alemães, cujo maior bem ardentemente desejamos. E o que pode
ser este “maior bem” senão o triunfo deles sobre a heresia? Ainda mesmo com
sacrifícios para a Pátria terrena?