Os telegramas do Rio noticiaram,
nesta semana, o transcurso de mais um aniversário do falecimento de Jackson de Figueiredo. Como de costume, o Centro Dom Vital
promoveu uma sessão solene. E, pela manhã, depois da Missa, Tristão
de Ataíde falou junto à sepultura do grande campeão
católico que tombou de modo tão inesperado na liça da vida.
É realmente comovedora a
fidelidade com que Tristão de Ataíde,
sentindo-se com razão o herdeiro do programa e da responsabilidade do grande Jackson, mantém viva no Rio de Janeiro a recordação perene
em torno de sua memória. Desse foco de saudades se irradia sobre todos os
Estados periodicamente, nesta data, uma grande nostalgia impregnada entretanto
de um sentimento de profunda e amorosa conformidade com os desígnios da
Providência. Em São Paulo, Jackson teve amigos
pessoais, sinceros e dedicados, que não se terão esquecido dele em suas preces,
particularmente no aniversário de sua morte. E, além de amigos, Jackson tem admiradores que o não conheceram, mas que
compreenderam sua obra, e procuram conservar o que ela teve de melhor, sempre
vivo nas atuais realizações católicas, como marca característica de todo o
apostolado que queira ser fecundo e oportuno...
* * *
Não conheci Jackson
pessoalmente. O que dele sei de melhor, devo-o a algumas palestras que a seu
respeito tive com Tristão de Ataíde.
Quando a Providência o chamou para a vida eterna, era eu apenas um noviço da
Congregação Mariana de Santa Cecília, que sob o olhar
vigilante e a ação formadora do então Monsenhor Pedrosa,
estreava nos primeiros combates do apostolado. Tão distante andava eu ainda de
tudo quanto significasse apostolado concreto no Brasil, que quando tive a
notícia de sua morte não pude medir o alcance do acontecimento. Só muito mais
tarde, comecei a me interessar por sua obra. Mas, em compensação, confesso que,
desde os primeiros contatos que tomei com sua grande personalidade, ela me
empolgou e conquistou definitivamente minha admiração.
A nota mais impressionante do
apostolado de Jackson está na noção meridianamente clara que ele teve de que o grande problema
religioso do Brasil era, em essência, o combate ao indiferentismo geral. Jackson de Figueiredo não perdeu seu tempo em lutar contra
perigos irreais. Positivo, ardente e prático, tendo visto o indiferentismo como
a grande chaga nacional, Jackson contra ele investiu
resolutamente. Não lhe bastou uma campanha doutrinária. Jackson
teve a coragem que muito poucos leigos tiveram antes dele... e depois dele
infelizmente, de dar os nomes aos bois, e de atacar o indiferentismo não apenas
na esfera muito cômoda das concepções teóricas, mas nos usos, nas instituições,
no ambiente em que ele se concretizava entre nós.
A grande virtude de Jackson foi exatamente de ter sido no Brasil, estagnado e
de mentalidade amorfa de seu tempo, a negação viva e palpitante do
indiferentismo. Jackson foi um filósofo lúcido e
vigoroso. Dotado de uma lógica impecável, que, se conquistava as inteligências
pelo rigor do raciocínio, também conquistava e arrebatava as vontades pelo
ardente amor da verdade com que era ela exercitada. A lógica de Jackson não é apenas verdadeira, mas viva e quente. É uma
lógica à moda espanhola, em que silogismos, sempre irrepreensivelmente verdadeiros,
são entretanto proclamados com os acentos de um hino de guerra e ressoam de
retumbantes promessas de grandes epopéias.
A inteligência de Jackson parece ter sido virgem do crime de muitas outras
inteligências, isto é do pecado da indiferença. Se causa repugnância a qualquer
pessoa a indiferença de uma mãe diante do filho que acaba de dar à luz, uma
repugnância análoga merece a inteligência que se conserva indiferente ante as
verdades que ela mesma concebeu. Essa atitude tem uma maldição imediata: a esterilidade
intelectual. Bossuet disse: “Ai dos conhecimentos que
não se transformam em ação e em amor.” Com maior verdade ainda, o grande orador
poderia ter acrescentado: principalmente se sobre eles temos a paternidade de
uma real autoria intelectual.
Indiferente, Jackson
nunca o foi. Sua conversão, pelo que teve de resoluto e de completo, lembra a
de São Paulo. O grande Apóstolo, no momento em que conheceu a luz divina, se
sentiu arder em amor, e portanto em desejo de ação. Daí a sua interrogação
imortal: “Senhor, o que quereis que eu faça?”
* * *
Nós só debelamos o indiferentismo
em nós, quando somos capazes de amar inteiramente a verdade e o bem. Na medida
em que esse “inteiramente” não for real, há uma zona na qual ainda somos
indiferentes. Jackson, que brilhou pelo inteiro
repúdio do indiferentismo, conseguiu neste sentido um triunfo completo. É por
isto que suas convicções católicas
refulgem de um totalitarismo eclesiástico que foi uma das grandes
características de seu espírito.
Quase dez anos depois de sua
morte, o Santo Padre Pio XI, em memorável alocução dirigida contra os
totalitarismos modernos, afirmou só haver um totalitarismo legítimo: é o do
poder que a Igreja exerce sobre nós. Realmente, só a Igreja tem o direito de
ser totalitária em relação aos seus filhos. E estes só serão perfeitos na
medida em que se integrarem dentro deste totalitarismo sagrado.
Ora, neste sentido, Jackson foi um totalitário. Tendo conhecido a Igreja na sua
verdadeira fisionomia, ele a amou inteiramente, e lhe pertenceu na plena
integridade de seu ser.
Daí sua Fé completa e
desassombrada, que se caracterizava pelo seu incondicionalismo
tão chocante naquela época. Jackson foi o adversário
determinado e irredutível de todos os católicos (?) que pretendem ter o direito
de rejeitar alguns artigos de Fé, e de adotar outros; continuando entretanto a
se servir do catolicismo com de um rótulo cômodo.
Daí também seu espírito
apostólico. Impossível lhe seria, tendo rompido com qualquer forma de
indiferentismo, cruzar os braços ante a luta entre a Igreja e seus adversários.
Jackson se dedicou inteiramente ao apostolado. Não
foi apenas um escritor que, além de se dedicar a um grande número de causas
temporais, foi “também” católico. Jackson foi
católico antes de tudo. Ou melhor, foi exclusivamente católico. Porque
renunciou ao serviço de quaisquer causas temporais em que não estivesse
empenhada a Causa por excelência, ou seja a causa da Santa Igreja de Deus.
Daí ainda sua combatividade. Jackson tinha horror ao apostolado cômodo, ou melhor, ao
apostolado comodista, pois que só para os comodistas o apostolado pode ser cômodo. Inimigo do
comodismo, era ele adversário de todas as pequenas “habilidades apostólicas”
que o comodismo costuma insinuar para tornar menos árduo o serviço de Deus. Daí
o fato de ser ele combativo. E daí o praticar ele tão bem aquela norma aliás
absolutamente evangélica, segundo a qual se deve reputar inimigo de Jesus
Cristo todo aquele que não estiver explicitamente com Ele, isto é, com a
Igreja. Jackson era lealmente inabordável para certas
“aproximações” velhacas que muitos “espiritualistas” ou “cristãos” procuram com
a Igreja, bem como de certos charlatães mais ou menos cultos e inteligentes,
que estão perpetuamente “a caminho da conversão”. São aposentados, que encontram
pousada fixa no longo caminho que medeia entre a Igreja e o erro. No fundo, são
soldados do indiferentismo, que amam as trevas da morte, e que, imersos dentro
delas, se comprazem em trocar sorrisos com os filhos da luz, para iludirem sua
própria consciência, ou a do próximo... Se Jackson
estivesse vivo, com que ardor a lógica de seus princípios o obrigaria a
investir contra tanto e tanto “cristão” que flirta com muitos católicos, mas
que se recusa a intitular-se a si próprio católico!
A parte mais característica da
obra de Jackson, entretanto, jamais estaria
inteiramente descrita, se se omitisse sua luta, não
apenas contra o erro, mas ainda contra aqueles que se fizeram como que a
encarnação do espírito das trevas.
Não falta quem, com evidente perversão
da verdade, julgue que o amor ao próximo, se nos leva a condenar o erro,
entretanto nos obriga também a tratar com idêntica distinção, indiferentemente,
o que erra e o que acerta; o que prevarica e o que persevera, o que sobe de grau
em grau no amor de Deus “e o que, pelos escândalos públicos de sua doutrina ou
de sua vida, desce degrau por degrau a escada do inferno.
A Santa Igreja ensina exatamente o
contrário. Para tanto, basta ler o capítulo referente aos excomungados “vitandos”, com os quais o católico está proibido, sob pena
grave, de entreter toda e qualquer espécie de relações, salvas estritíssimas exceções estabelecidas pelo Código de Direito
Canônico. Entretanto, há olhos que não querem ver... e ouvidos que se doem mais
com os arrojos de linguagem de Jackson
em relação aos adversários da Igreja do que com as injúrias por estes atiradas
contra Nosso Senhor Jesus Cristo.
* * *
Pareceu-me útil lembrar estes
traços característicos do apostolado de Jackson, nos
quais se encontram as notas mais belas e mais afinadas de seu senso católico.
Qualquer apostolado que queira ser
fecundo e oportuno deverá se orientar por este princípio. Porque qualquer
apostolado que, no Brasil, não se dirigir, em primeiro lugar, contra o
indiferentismo religioso, o liberalismo e o modernismo (tão vivo e tão
virulento, a despeito de suas aparências de morto), será mera luta com pólvora
de festim...