Das mãos de uma editora católica, recebeu o
“Legionário”, ultimamente, a obra traduzida do Bem-aventurado Luiz Maria
Grignion de Montfort, sobre a Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Entre
estas edições, chama atenção por suas qualidades a da Vozes, de Petrópolis, que teve a feliz idéia de traduzir, também, em
apêndice, as orações que o Autor recomenda no seu livro.
As obras do Beato Grignion de Montfort já se
impuseram, no seio da Santa Igreja, por seu excepcional valor e hoje em dia o Tratado da Verdadeira Devoção é geralmente reconhecido como um dos mais
importantes trabalhos que jamais se tenha escrito sobre Nossa Senhora. Dados os
extremos de respeito e de amor para com a Santíssima Virgem a que a obra do
Beato Grignion de Montfort conduz seus leitores, alarmou ele, aliás sem o menor
fundamento, alguns pensadores católicos receosos de que o autor tivesse chegado
a exagerar o culto da hiperdulia que a Nossa Senhora se deve. A Santa Sé, a fim
de acalmar os espírito timoratos, e permitir às almas piedosas que singrassem
sem receio os oceanos de piedade contidos no Tratado da Verdadeira Devoção, declarou entretanto de forma
expressa, explícita e oficial, nada ter aquele livro que colida com o
pensamento da Igreja. É, pois, com apoio nessa garantia de supremo valor que se
deve considerar e examinar a grande obra daquele grande Santo.
Não tenho, evidentemente, o propósito que, partido
de mim, seria descabido e temerário, de produzir um comentário que apresente
algo de novo ou original a respeito de obra de tão grande importância
teológica. O meu intuito, neste artigo, é apenas de apontar ao público algumas
das qualidades daquela obra que mais facilmente lhe possam levar a obter
leitores capazes de a ler, meditar e viver.
* * *
Muito se tem escrito, em nossa época, por pena de
leigo, sobre piedade. Entretanto, cumpre observar que raramente os livros dessa
natureza, ao menos no Brasil, apresentam aquela solidez de pensamento sem a
qual a piedade corre grave risco de se extraviar.
No fundo, essa deficiência decorre de uma concepção
incompleta do que seja a piedade. Raciocinando de um modo simplista, pensa
muita gente que como o anelo supremo de toda a vida espiritual deve ser a
intensificação do amor de Deus, e como o amor que os Santos tiveram a Deus na
vida terrena se manifestou por extraordinárias provas de sensibilidade afetiva,
em última análise o amor será tanto maior quanto mais aguçada e mais viva for a
sensibilidade. De sorte que a obra de um livro de piedade deve consistir em
despertar a maior sensibilidade afetiva possível. Quanto mais terna a
linguagem, quanto mais imaginosa, quanto mais rica de adjetivos, tanto mais
eficaz.
Com isto, evidentemente, toda a estruturação
doutrinária da obra sofre um sério prejuízo. A preocupação literária predomina
sobre a clareza e a ortodoxia do pensamento, e o trabalho inteiro, se consegue
uma vez ou outra tocar o leitor por um artifício feliz de linguagem, não deixa
no fim uma única convicção sólida e profunda, uma única daquelas idéias claras
e substanciosas, capazes de guiar uma vida e determinar uma reforma espiritual.
Nisto, como em tudo, a Santa Igreja deve ser nossa
Mestra. Ninguém mais do que ela se esforça por estimular e formar a
sensibilidade humana, nutrindo-a com todas as impressões capazes de lhe dar uma
verdadeira elevação. Pelas imagens, pelos cânticos, pela música, pelos
esplendores da Sagrada Liturgia, a Igreja fala incessantemente à sensibilidade
dos fiéis, e, auxiliada pela graça de Deus que nunca lhe falta, bem como pelos
recursos de grande talentos humanos, tem ela conseguido tais resultados neste
terreno, que bem se pode dizer que ninguém, em toda a história, tem conseguido
propor à sensibilidade humana temas tão altos e tão nobres, ao mesmo tempo tão
fortes e tão suaves, quanto ela. Ao par disto, ninguém tem conseguido, ao mesmo
tempo, comunicar a essas manifestações sensíveis um cunho tão apuradamente artístico quanto os grandes talentos
inspirados pela Igreja.
Longe, e muito longe de nós, portanto, está a
preocupação de ignorar o papel da sensibilidade na vida da piedade. Deixemos
esta triste tarefa aos protestantes, e continuemos dóceis aos maravilhosos
ensinamentos que, a este respeito, nos dá a Santa Igreja.
Entretanto, se não queremos reduzir em nada o papel
da sensibilidade, também estamos muito longe de lhe atribuir na vida de piedade
uma importância que ela não tem.
Como a vida de piedade se destina a santificar o
homem, a importância que têm respectivamente a inteligência, a vontade e a
sensibilidade é proporcionada à magnitude das funções de cada uma no homem.
Ora, se o papel da sensibilidade é grande, ninguém
poderá, por pouco que reflita, deixar de reconhecer que a ação da inteligência
e da vontade ainda é muito maior.
Assim, pois, a verdadeira formação de piedade não
se deve contentar com ministrar à sensibilidade estímulos sobre estímulos. Ela
só será sólida se se alicerçar sobre verdades claras,
substanciosas e fundamentais, ministradas e assimiladas a fundo pela
inteligência. E só será real se se servir destas
verdades como meio para disciplinar vigorosamente a vontade, em um combate
árduo e duro que, se bem que a alma seja espiritual, com toda a propriedade de
expressões se pode chamar de sangrento. De nada vale a vida espiritual se ela
prescindir de uma instrução religiosa sólida, e de uma luta efetiva,
disciplinada, constante e intransigente conosco. Um exemplo que não me farto de
repetir, e que aliás é corriqueiro, explicará tudo. Conheci uma pessoa que
vivia em estado de pecado mortal habitual, e que, entretanto, cada vez que
fazia uma Via Sacra, chorava copiosamente pelas dores de Nosso Senhor. Tentei
mostrar a esta pessoa como deveria aproveitar esta compunção sensível para se
afastar do pecado. Foi tudo inútil. A sensibilidade era viva, mas a vontade não
era reta. O epílogo desta situação foi uma decadência moral que chegou até às
últimas raias do que pode um homem fazer. Sensibilidade, não faltava. Mas, e o
resto?
* * *
É raro encontrar um livro que, de modo mais
patente, tenha os dois predicados, o de esclarecer a inteligência, e o de
estimular a sensibilidade, do que o do Beato Grignion de Montfort. Seu Tratado é uma verdadeira tese, com
lampejo de polêmica. A argumentação é sólida, substancial, profunda. Jamais se
nota nele que um arroubo de amor venha perturbar a indefectível serenidade e
justeza do pensamento. Sua profundidade chega a ser tal que freqüentemente os
leitores não iniciados na Teologia - e é este meu caso - têm de fazer um sério
esforço de inteligência, para o compreender. Mas em compensação não há uma só
frase inútil ou sem sentido em seu livro. Todas as palavras têm seu valor exato
e calculado. E todos os conceitos geram convicções claras e profundas, que não
despertam apenas sobressaltos de sensibilidade em momentos em que nosso
temperamento se mostra propício a isto, mas idéias luminosas e substanciosas,
que geram aquele amor sério e sólido, capaz de sobreviver heroicamente às mais
implacáveis aridezes da vida espiritual.
Entretanto, não se julgue que o Tratado da Verdadeira Devoção é uma fria
exposição de princípios. Em cada ponta de frase, o Beato Grignion de Montfort
deixou gotejantes o suor de sua inteligência e o
sangue de seu coração. Sua argumentação, se é lúcida, está longe de ser
fleumática. Pelo contrário, é apaixonada, ardente, comunicativa. A cada
demonstração vitoriosa, seu escrito toma acentos de gritos de triunfo e de
júbilo. Sua linguagem lembra a de São Paulo. E por isto o grande Faber disse da obra de
Grignion de Montfort que depois das Escrituras Sagradas, nada se escreveu de
mais candente do que sua famosa oração pedido missionários de Maria.
Se há um trabalho em que se compreende aquela luz
intelectual cheia de amor, de que fala Dante, esse é
o de Grignion de Montfort.
Lê-lo é facilitar poderosamente o progresso na vida
espiritual. Difundi-lo é acumular coroas de méritos no Reino dos Céus.