Não é preciso ser profeta para prever que o corso tímido que se realizará no
carnaval de 1940, em São Paulo, será talvez o último que entre nós se efetue. O
carnaval agoniza. Os cordões provenientes dos bairros afastados, nos quais a
tradição carnavalesca ainda tem uns restos de vitalidade, percorrem a cidade em
um ambiente de indiferença geral. São em geral cordões raros, feios e sem
graça, conglomerado lamentável de gente que gastou seus últimos recursos e
possivelmente se endividou para comprar alguns cetins e penachos, algumas
lantejoulas de segunda mão e um pó de arroz feito de giz ou de tijolo raspado,
com o anseio de figurar vistosamente nas ruas centrais... onde ninguém pára a
fim de contemplar o cortejo. Alguns de nossos admiradores de favelas [...]
sorriem, entre indulgentes e desapontados, quando o cordão passa. Em um ou
outro ponto, um espectador que ainda não acabou de remendar sua camisa listrada
ou que não comprou fantasia porque ainda deve cinco mensalidades da meia sala
que ocupa no porão em que mora, diz, com certo despeito, algumas brincadeiras
que o bando finge não ouvir. E cifra-se nisto a consagração de tantos esforços,
o sacrifício de tantos recursos, e a imolação de tantas saúdes já minadas pela
umidade dos porões e pela inclemência das condições do trabalho.
Fala-se muito em um exame roentgenphotographico
de bancários, de comerciários, etc., etc. Se a liga
Paulista contra a tuberculose quisesse encontrar campos amplos, eu proporia de
preferência o recenseamento torácico dos cordões. Seria o fim do fim do
carnaval, e a preservação de muitas vidas úteis que, sambando
e pulando, caminha para a sepultura.
Enquanto o carnaval agoniza, Nossa Senhora, a quem
foi dado esmagar a cabeça do demônio, triunfa. Em um gesto corajoso e decidido,
a mocidade católica de São Paulo, cada vez mais numerosa, mais destemida,
renuncia a todas as comodidades e distrações para se encerrar em meditação e
oração. Todas as falanges marianas e da Ação Católica,
com exceção de certos setores da Ação Católica feminina, encerram-se hoje em
retiro autêntico, fechado e dedicado à pregação e à meditação, a fim de
cuidarem de seu aprimoramento espiritual.
Seria supérfluo acentuar a magnitude dessa
realização. O grande remédio para o Brasil tem de ser necessariamente os
retiros espirituais, que se devem tornar cada vez mais freqüentes, mais
concorridos, mais longos.
Na Itália, disse-me um Sacerdote jesuíta, há turmas
de leigos que realizam anualmente os Exercícios completos de Santo Inácio, com
um mês inteiro de reclusão. Evidentemente, são poucos aqueles a quem as
ocupações da vida cotidiana permitiriam um tão longo tempo destinado à
meditação. Entretanto, se estes “poucos” se aproveitarem dessa possibilidade,
quanto bem poderiam por sua vez fazer! Exatamente porque são poucos esses
privilegiados, que responsabilidade tem eles perante Deus por não se servirem
dessa vantagem!
Disse e acentuo que o Brasil deve ser salvo pelos
retiros espirituais. Já é um chavão corrente que o brasileiro “é de fundo
bom”. Esta verdade evidente aumenta nossas responsabilidade. Por que diz o
chavão, que só o “fundo” é bom e não o resto? Muita coisa fizemos de bom, é
certo. Muita coisa deixamos de fazer de mau, que outros povos dos mais cultos e
civilizados praticam. Porém não nos devemos julgar comparativamente aos outros,
mas em relação ao que deveríamos ser. Não tiremos vanglória dos defeitos
alheios, porque são talvez maiores que os nossos. Se é verdade que Deus cumulou
o Brasil de benefícios raros, é certo que nossas responsabilidades são
exatamente por isto maiores. E o grande defeito que nos prejudica é exatamente
a irreflexão, que nos priva dos recursos necessários para arcarmos com tantas
responsabilidades.
Nosso problema é, em grande parte, um problema de interiorização. Precisamos de mais lógica, de mais
coerência, de mais vigor de ânimo, e estas qualidades só se forjam no
isolamento, na meditação e na reflexão.
Ensina a Santa Igreja que sem os recursos da graça
nada podemos, o que é mister haurir a graça na freqüência assídua aos
Sacramentos e à oração. Mas até mesmo estes meios providenciais de salvação
ficam muito longe de produzir em nós a plenitude de seus efeitos santificadores, se os não aproveitarmos pela vida interior
e pela meditação.
Ora, qual o melhor meio de criar estes hábitos, de
alicerçar sobre uma piedade humilde e ardente uma vida interior sólida e séria,
e de, reciprocamente, alimentar com uma vida interior sólida e séria uma
piedade humilde e ardente, do que os retiros espirituais?
Um grande homem é, por definição, um homem capaz de
refletir e de meditar. Implicitamente, um povo não pode ser grande, nem para as
coisas do céu nem para as da terra, se não tiver o hábito da meditação. Franquear
a um povo as portas da vida interior, e irrigar essa vida com a seiva da graça
sem a qual não pode haver salvação, eis a grande tarefa do momento, a grande
realização que as mais imperiosas necessidades do país reclama urgentemente.