São de tal maneira poderosos e eficazes os métodos
de propaganda empregados pelos Estados totalitários que até hoje ainda não foi
possível tornar absolutamente patente em todos os setores da opinião pública a
causa profunda do dissídio que separa da Igreja os países chamados da
“direita”.
Em geral, pensa-se que se o III Reich é mal visto
pela Santa Sé, deve-o exclusivamente ao cerceamento sistemático da
liberdade da Igreja, ao fechamento da fina flor das associações católicas, à
supressão dos jornais católicos e a interdição de numerosos conventos, e
quiçá de Ordens Religiosas inteiras.
Evidentemente tudo isto é grave. Mas a luta entre a
Igreja e o nazismo se prende a causas
que transcendem de muito a importância destes criminosos atos de perseguição.
Se a oposição entre o catolicismo e o hitlerismo
consistisse apenas em uma legislação anti-religiosa promulgada por este,
estaria sempre aberta a porta para uma esperança de reconciliação. Porque no
momento em que as circunstâncias fizessem amainar esta política, teriam
desaparecido todos os motivos de conflito. A Historia da Igreja, tão rica em
ensinamento experimentais do maior valor, mostra que não seria este o primeiro
caso de uma crise debelada pela Santa Sé, por uma resistência suave e
intrépida, que acaba sempre por desgastar as energias do perseguidor. “L' Eglise est une enclume qui a usé bien de marteaux” [A Igreja é
uma bigorna que desgastou muitos martelos], disse um escritor francês. E
ninguém pode negar que ele tem plena razão.
Infelizmente, porém o programa anti-religioso do
nazismo está longe de ser um aspecto acidental e extrínseco da política do III
Reich, um produto de preconceitos anti-clericais
hauridos no ambiente pestilencial deste século, que ruiriam sob o esforço de
persuasão mais diligente dos católicos ou ao contato regular e freqüente com o
dignitário eclesiástico que as funções do governo impõem aos estadistas.
A realidade é que a política anti-religiosa do III
Reich é um carácter essencial deste, um traço
fundamental do seu conteúdo ideológico ou, melhor ainda, o sentido profundo e a
própria razão de ser do nazismo.
Julgam muito superficialmente a realidade os que
supõem que as falanges nazistas galgaram as escalas do poder com aquele imediatismo ambicioso e personalista que caracterizava a
maior parte dos partidos políticos da democracia liberal. São ingênuos e
prestam assim um assinalado desserviço à Religião, os católicos que se
comprazem em mostrar em Hitler e seus sósias
espirituais do mundo inteiro, meros ambiciosos que disfarçam, atrás das exterioridades charlatanescas de
suas grandes cerimônias cívico-políticas, a mesma
cupidez imediatista de algum chefe eleitoral que,
depois de grandes lutas, chegou a assumir a direção de seu vilarejo. Desde os
primeiros momentos, o partido hitlerista se definiu
claramente como algo de muito mais complexo e muito mais temível do que um
simples partido. O hitlerismo é antes de tudo uma
filosofia, entendida esta palavra no sentido mais amplo que comporta, isto é,
uma doutrina comportando uma concepção própria sobre a origem e o fim do homem,
sobre a essência da causa a que o homem deve seu ser, sobre os deveres do homem
para com esta causa, e implicitamente contendo uma autêntica religião de
caráter estritamente filosófico e que exclui qualquer revelação. Esta
filosofia, como todas as filosofias, não se podia confinar logicamente ao puro
domínio da especulação. As correntes filosóficas geram necessariamente uma
concepção especial sobre o que seja o homem em si, e, portanto, sobre todo o
teor das relações dos homens entre si, e destes com o Estado. Implicitamente,
deveria decorrer de todos estes princípios uma concepção especial do que seja o
Estado. E daí todo um programa de organização política e social que, longe de
ser inferido, como fazem habitualmente os partidos políticos, da observação da
realidade objetiva, era deduzido com rigor matemático dos primeiros princípios
filosóficos assentados pela seita nazista para serem aplicados, de um jeito ou
de outro, à realidade. Por isto, desde o primeiro momento, o partido nazista
revelou ser algo de muito maior do que um simples grupo de politiqueiros
mantendo escolas, desenvolvendo a cultura física, criando uma literatura, um
gosto (?) artístico, um padrão de vida inteiramente novo no seio de suas
próprias fileiras, o nazismo mostrou que pretendia elaborar uma nova
civilização, e que a conquista do poder não era para ele um fim, senão um meio
vital para a realização do grande fim que deveria ser a estruturação de uma
sociedade diversa da atual.
* * *
Muito leitor do “Legionário”, ao percorrer estas
linhas, estará sorrindo maliciosamente ao supor que caímos em involuntária
contradição. Então, o “Legionário” que sempre pregou a inanidade
de dois dos traços mais salientes e mais visíveis na ideologia nazista, a saber
seu cunho anticomunista e a sua nota tão fortemente nacionalista, este mesmo
“Legionário” vem hoje falar em ideologia hitlerista!
Pois não foi ele que, durante anos a fio, sustentou que o hitlerismo
não tem ideologia?
Não. O que o “Legionário” sempre sustentou é que a
verdadeira ideologia hitlerista não era anticomunista
nem nacionalista, e que o hitlerismo era, na
realidade, a expressão disfarçada de um conteúdo ideológico tipicamente
comunista. Por isto, nossa folha não perdeu uma única oportunidade para
assinalar a colaboração teuto-russa que foi íntima e
eficaz mesmo quando a propaganda de um e outro Estado iludia as massas com uma
polêmica recíproca destinada a desnortear os espíritos e permitir, na ordem
concreta dos fatos, uma mais proveitosa colaboração e um mais intenso
entrelaçamento de interesses. O “Legionário” nunca sustentou que o nazismo não
tivesse ideologia. O que ele sustentou é que a ideologia nazista é esotérica,
isto é, se apresenta uma para os efeitos de propaganda e outra para o consumo
interno de seus membros mais qualificados. E esta ideologia de uso interno, o
“Legionário” sempre a denunciou como comunista.
Neste sentido, o livro de Rauschnigg, ex-secretario de Hitler, é
frisante. Conta ele que, certa vez, falava-se em uma roda de íntimos, se não me
engano todos eles “gros bonnets” do
partido nazista, na ideologia do “Mein Kampf”. A certa altura alguém emitiu uma opinião
diversa daquela que o Führer desenvolvera em sua
obra. Outro interlocutor apontou-o solícito celeremente a “heresia”. Hitler porém, que estava
presente, interveio, e disse que não ligava a menor importância a alguns dos
aspectos políticos e sociais de sua obra. Depois o Führer
teve uma afirmação de cujo texto não me recordo, mas que deixava perceber que o
nazismo tinha de mais fundamental era libertar a humanidade do jugo da
Revelação, e colocá-la em um regime todo ele baseado em um puro materialismo
filosófico, naturalismo este que implicaria, praticamente, na implantação de um
panteísmo oposto à crença em um Deus pessoal. Por menor que seja o crédito que
se queira dar ao livro de Rauschnigg, é curioso
verificar como as suas conclusões, só muito recentemente publicadas na imprensa
brasileira, condizem claramente com as impressões do “Legionário”. Em última
análise, pois, o que se pode dizer é que o nazismo é ele próprio uma religião
oposta in totum ao
Catolicismo, e que, portanto, não luta com este por razões acidentais e
extrínsecas mas em obediência a sua própria razão de ser. Seria impossível, ao
meu ver, imaginar um conflito mais insanável do que este. E se Hitler bem como
os demais chefes nazistas se convertessem, dir-me-a
alguém, não seria possível a conciliação entre a ideologia nazista e o
Catolicismo? Não. Porque nesse dia o nazismo teria deixado de existir. Entre o
protestantismo e o Catolicismo, por exemplo, não há conciliação possível. O que
é possível é apenas a reconciliação dos protestantes com a Igreja. O que supõe
a abjuração do protestantismo, e não uma conciliação deste com o Catolicismo.
* * *
Se na ordem filosófica e religiosa o desvio é
profundo, ele o deve ser também, de modo
inevitável, na ordem política e social. Porque qualquer sociologia não pode ser
senão a aplicação de uma filosofia social. E uma filosofia social não pode
deixar de ser capítulo amplo, mas um mero capítulo, de uma estrutura filosófica
inteira. Por isto, entre o Catolicismo e o
nazismo, o conflito se manifesta inexorável, fatal, inevitável, inclemente, de
vida e de morte em um terreno fundamental: na concepção corporativa.
* * *
A Igreja Católica engendrou, na Idade Média, o
corporativismo admirável que elevou a humanidade, naquela quadra, a tão alto
grau de prosperidade econômica. Este corporativismo não era, entretanto, senão
a aplicação, à vida política e econômica, da concepção que a Igreja tem sobre o
homem. Toda a concepção católica a respeito do corporativismo tem em sua base
uma concepção filosófica sobre o homem e suas relações com Deus. E, como o
totalitarismo das direitas também tendo uma concepção própria sobre o homem,
sobre Deus, e sobre as relações entre ambos, é evidente que o corporativismo
católico nada pode ter de comum com o corporativismo totalitário.
O corporativismo totalitário é uma falsificação
grotesca do corporativismo católico. Ou, melhor, não é uma falsificação. É um
estelionato. Porque entre um e outro corporativismo nada há de comum em matéria
essencial. Só o nome é comum, porque, para iludir a massa, o Estado totalitário
usou esta expressão clássica na sociologia católica, expressão esta destinada a
insinuar uma afinidade totalmente inexistente, entre o totalitarismo e a
Igreja.
Em nosso próximo artigo, veremos como este
estelionato é criminoso, e como o corporativismo estatolátrico
é exatamente o oposto da sociologia católica.
Este corporativismo implica, nos Estados que o
adotam, em uma virtual oficialização do paganismo. Porque ele é uma conseqüência
da filosofia naturalista e portanto pagã do totalitarismo. E, se é verdade que
quem aceita os princípios quer as conseqüências, também é certo que quem aceita
as conseqüências quer também os princípios.