Resumamos nossos dois artigos anteriores:
1) Os inimigos da Igreja e da civilização ocidental
por ela elaborada jamais sonharam em estabelecer no mundo uma ordem liberal. O
liberalismo foi, para eles, um pretexto para dissolver a estrutura de base
monárquica e aristocrática da Europa ocidental, para a substituir por uma ordem
jurídica e social inteiramente oposta.
O Catolicismo, dí-lo Leão
XIII com sua soberana e
decisiva autoridade, não se identifica com qualquer forma de governo, e pode
existir e florescer, quer em uma monarquia, quer em uma aristocracia, quer em
uma democracia, quer ainda em uma forma mista, que contenha elementos de ambas.
O destino do catolicismo não estava, pois, ligado ao das monarquias européias.
Isto não obstante, é incontestável que estas
monarquias, ao menos em seus traços fundamentais, estavam estruturadas segundo
a doutrina católica. O liberalismo quis abolí-las e
substituí-las por uma ordem diversa. A transformação que ele operou foi de
monarquias aristocráticas de inspiração católica, em repúblicas burguesas e
liberais de espírito e mentalidade anticatólica.
Parecendo alterar apenas a forma de governo, o liberalismo, na realidade,
deslocou as organizações políticas de nosso século e do século passado, das
bases católicas em que assentavam, em bases anticatólicas.
Foi esta a tarefa histórica do liberalismo.
2) Na realidade, porém, o liberalismo sectário e anti-clerical foi, no fundo, sempre e invariavelmente... anti-liberal. A história de todos os movimentos liberais é
esta. Enquanto estavam na oposição, reclamavam a liberdade de pensamento.
Empossados no poder, começavam por perseguir do modo mais cruel os seus
adversários ideológicos. Assim, pois, a reivindicação das liberdades públicas
não era para eles o ideal a ser atingido, mas mero meio para conseguir o
estabelecimento de um regime ferreamente ditatorial, que lhe servisse para
impor livremente suas idéias.
Foi este o caso do terror, na França, e de todas as
revoluções liberais vitoriosas, quer na Europa quer na América.
Retenhamos, pois, a seguinte conseqüência de
incalculável importância: a ditadura de uma idéia hostil à Igreja foi sempre o
móvel supremo do liberalismo. Para ele, a liberdade consistia em mero meio de
ação quando estavam em oposição os liberais. O liberalismo jamais foi
autenticamente liberal.
3) Precisemos a idéia suprema que, sob o pretexto
liberal, o liberalismo queria fazer triunfar.
Assim como a aceitação, pela
humanidade, dos princípios católicos, embora constitua atitude de caráter
religioso, tem conseqüências de ordem política e social tão profundas, que
chega a gerar uma civilização inteiramente nova, assim também, e
necessariamente, a aceitação de doutrinas anticatólicas
deve gerar uma outra civilização, em que as instituições políticas e jurídicas,
a organização social, o regime do trabalho e a vida de família sejam
inteiramente diversos.
Essa dupla apostasia, a das almas primeiramente, a
das instituições e da sociedade em segundo lugar, foi sempre o móvel profundo
da pseudo Reforma, da Revolução Francesa, dos movimentos (...) de aparência
liberal, etc. etc.
A expressão política e social mais coerente e mais
radical desta corrente está no marxismo: uma ditadura proletária e absolutamente
igualitária, de base perfeitamente anticatólica, que
persiga com a máxima intransigência e o máximo rigor tudo o que, na ordem
meramente ideológica como na ordem política, seja de molde a lhe causar o menor
obstáculo.
4) Dotada pelo Espírito Santo de
uma maravilhosa fecundidade, a Igreja Católica, a despeito de todo o trabalho
movido contra Ela, reconquistou depois da guerra de 1914 imensa influência nas
almas. À luz das ruínas fumegantes do conflito
europeu, e sob a impressão sinistra dos movimentos sociais que ameaçavam
subverter e consumir o mundo inteiro, a opinião pública começou a compreender
melhor as Encíclicas e ensinamentos da Santa Sé, e o grande fato da pós-guerra
foi indiscutivelmente um renascimento religioso verdadeiramente maravilhoso.
Uma expressão desse renascimento foi o êxito com
que, em quase todos os países europeus, os católicos, dóceis ao ensinamento de
Leão XIII, começaram, por toda
a parte, a intervir na vida cívica, organizando grandes agremiações eleitorais
que se apossaram da direção dos negócios públicos, e por toda a parte esmagavam
as esquerdas. Bruning na Alemanha, Dollfuss na Áustria, o
Partido Católico na Bélgica e na
Holanda, a Federation Nationale Catolique na França, Gil
Robles na Espanha, Dom Sturzo na Itália,
servindo-se da liberdade de ação que o regime liberal outorgava indistintamente
a bons e maus, conquistaram na vida cívica triunfos assinalados. Um
renascimento de influência católica na vida cívica foi a conseqüência de seu
renascimento na vida intelectual.
Posto de um lado o monstro hediondo da revolução
social, e de outro lado a santíssima Cruz do Redentor, a humanidade abandonava
cada vez mais a revolução, e se aproximava cada vez mais da cruz.
5) Foi à vista disto que o demônio resolveu
fazer-se cruzado. Empunhou a bandeira da reação social. Multiplicou por todos
os países os partidos da pseudo-direita, e,
intentando o propósito evidentemente temerário e irrealizável de fazer uma
cruzada sem cruz, quis promover a reconstrução de uma cristandade sem Igreja,
de uma cristandade sem Cristo, de uma cristandade que não seria senão o cadáver
da verdadeira e autêntica Cristandade.
Daí o nazismo de camisa parda, o camisa oliva dos
fascistas britânicos, etc. etc.
Em última análise, o que viria a ser o regime
instituído por estes partidos: uma ditadura tão férrea quanto a comunista, tão
sem religião quanto ela, tão igualitária quanto ela. Logo, este anticomunismo
era, no fundo, perfeitamente comunista.
Em outros termos, a reação era uma grande farsa!
6) Mostrou-o exuberantemente Pio XI, nas duas magistrais Encíclicas contra o nazismo e contra
o comunismo. O pacto Ribbentrop-Molotov veio dar-lhe razão.
Na ordem teórica como na prática, a ditadura proletária e anticatólica
do nazismo se apertam a mão amistosamente. A farsa acabou: o pseudo-cruzado acabou abraçando o neo-mahomet,
e deixou abandonada a Cruz que simulara defender.
Durará esta situação?
Depende. É o que hoje pretendemos mostrar.
* * *
O grande meio de “bluff” dos partidos da pseudo-direita
é o entusiasmo. Criam eles uns tantos lemas de
sentido vago, de valor literário duvidoso, mas capazes de empolgar as massas.
Ambíguos, estes lemas, que cada qual os interpreta à vontade, conciliam as mais
variadas tonalidades da opinião pública. Isto tudo se arregimenta em partidos
submetidos a uma calefação psicológica intensa. Todos os seus partidários
aplaudem freneticamente idéias vagas, programas vagos, objetivos de ação vagos.
Todo o mundo se sente embriagado de heroísmo diante de vagos perigos,
multiplicados na imaginação dos partidários pela circulação de notícias dramáticas
sobre conspirações, etc. Um entusiasmo ardente arrebata a multidão. O incondicionalismo é apresentado como único meio de vitória. Analisar
ou raciocinar é trair. Pensar, portanto sem raciocinar ou analisar, também
pensar é trair. Só uma coisa é legítima: obedecer sem discutir, morrer sem
saber porque.
Assim, ao lado da
Religião forma-se, no coração do partidário, uma idolatria política que ocupa
em seus afetos um lugar que só à Religião deveria pertencer. Está preparado o
terreno: no dia em que a Religião tiver um atrito com o partido, o entusiasmo
deve arrancar da Igreja o fiel que o amor de Deus já não conseguirá reter.
Isto posto, é evidente
que qualquer obra de nazificação supõe necessariamente uma
obra de entusiasmo. É preciso gerar o entusiasmo. E, para tanto, é preciso ter
algum grande inimigo comum contra o qual atirar as massas fascinadas.
Assim, não é impossível que a propaganda nazista,
dia mais dia menos, ou ano mais ano menos, restaure o velho mito do
anticomunismo. Atuando a fundo na mentalidade dos povos conquistados, a
propaganda nazista procurará nazificar a todos eles.
Não nos iludamos: o desmembramento dos países pequenos como a Holanda, a Bélgica, a Suíça, etc., servirá de ficha de consolação à França de Pétain. Procurar-se-á entusiasmar o povo francês, o povo
belga, o povo holandês, o povo norueguês. A todos dará uma compensação na
carniça dos povos pequenos. E neste dia, a propaganda nazista terá chegado ao
auge de sua eficácia.
Isto posto, quem não percebe que o cenário se pode
modificar bruscamente, e que amanhã como ontem somos capazes de ver um mundo
cada vez mais bolchevizado pelo nazismo, atirar-se contra o comunismo, para o
destruir? Pouca gente perceberá a farsa. No fundo, quando o nazismo houver
vencido o mundo, terá vencido realmente o programa da III Internacional.
Simplesmente, a bandeira rubra terá sido substituída pela parda, a foice e o
martelo pela cruz suástica.
Mas a Igreja de Deus é indefectível. Antes disto,
Deus intervirá nos acontecimentos, e salvará a pobre humanidade pecadora.