Em meu último artigo, procurei mostrar que aberram
lamentavelmente do senso católico os fiéis que supõem atender a um dever de
caridade desejando que a paz se restabeleça quanto antes no mundo, mas que
entendem por paz uma cessação qualquer das hostilidade, que evite a qualquer
preço a carnificina e a efusão de sangue ainda que por meio de graves
injustiças internacionais.
Se a paz com justiça, a paz desejada pelo Santo
Padre Pio XII com tão apostólico ardor, é um bem
inestimável, a tranqüilidade decorrente da injustiça consumada, e que implique
na cessação de qualquer resistência contra os fatores de desagregação da
civilização católica, não pode deixar de constituir uma monstruosa catástrofe
para o mundo contemporâneo, certamente comparável ao que foi, para a
antigüidade romana, a queda do Império do Ocidente.
* * *
Consideremos hoje o sentido corrente do vocábulo,
que é ao mesmo tempo seu sentido mais restrito.
Não pode haver justiça
quando se nega aos povos fracos o direito de existir. Não pode haver justiça
quando se afirma que a ordem internacional não deve ser baseada sobre o
princípio de igualdade fundamental e natural de todos os povos, mas sobre uma
hierarquia anti-científica de raças, que, baseada na apreciação de valores
acidentais ou imaginários, deseja fazer com que o mundo inteiro viva para o uso
e gozo de um ou de poucos povos, supostos privilegiados. Todos estes conceitos
implicam em uma violação radical da verdade, e em uma subversão fundamental da
justiça, de modo que a paz baseada sobre eles outra coisa não seria senão a
apoteose da injustiça.
Seus direitos se confundem, e tentar separá-los já
é violá-los.
Assim, se a paz só deve ser desejada pelos fiéis
com a condição de que ela respeite os direitos dos homens, a fortiori deve ela parecer sumamente
repugnante a qualquer coração verdadeiramente católico, se tiver por base o
repúdio dos direitos de Deus.
* * *
Tenho plena certeza de que muitos leitores, se bem
que concordando em tese com o que acabo de dizer, sentem uma certa estranheza à
vista da afirmação que faço. Direitos de Deus? Como poderia uma paz violá-los?
Que relação pode haver entre uma coisa e outra?
O assunto é por demais complexo para ser debatido
neste artigo.
Aliás, nem pode ele ser compreendido por quem não o
analise com zelo. Todos sabem como o amor de Deus costuma multiplicar os
recursos da inteligência e da vontade do homem, de sorte que eles se tornam
aptos a compreenderem as coisas com uma clareza e com uma energia por vezes
superiores a seus recursos naturais, desde que entre em jogo os sagrados
direitos da Santa Igreja. É a estes espíritos que me dirijo.
Toda a vitória que represente não apenas o triunfo
de um país mas de uma ideologia, não somente de um povo, mas de uma filosofia,
evidentemente será uma derrota dos católicos, desde que essa ideologia
teológica ou filosófica não seja a da Igreja. Assim, qualquer paz que
signifique o franqueamento de todas as fronteiras à
dissolução de doutrinas que são contrárias as de Jesus Cristo, será por certo
uma paz que um católico não pode desejar.
Exemplifiquemos com a Rússia. De um momento para
outro, pode este país entrar em guerra. Suponhamos que o curso dos acontecimentos
internacionais fosse tal que a vitória da Rússia representasse não
somente a vitória de um grupo de potências às quais ela estivesse aliada, mas a
vitória única e exclusive da URSS sobre todos os beligerantes, de sorte que
ela, ao vencer, se tornasse igualmente senhora dos vencidos e dos seus próprios
aliados. Quem ousaria afirmar que tal desfecho não seria soberanamente perigoso
para os interesses das almas? Quem ousaria negar que a paz estabelecida por
meio do triunfo do governo soviético seria uma paz contrária à Igreja, a
consumação da derrota da justiça, a abominação da desolação, enfim?
Não se pretenda, pois, que não pode haver interesse
da Igreja em jogo em um conflito internacional qualquer. Pelo contrário, tais
interesses podem existir, e apresentar carácter de
rara relevância.
* * *
Poderá alguém sorrir ao ler estas linhas. Qual o
valor da contribuição pessoal do “Legionário” ou de seus leitores no curso dos
acontecimentos ciclópicos, em que as forças mais
poderosas se empenham em luta de morte? Para que, então, tratar deste assunto?
A resposta é simples. Não há acontecimentos em que
não esteja presente a providência de Deus. Não há armas que possam vencer a
omnipotência do Criador. E não há graças que a oração não possa alcançar.
Em proveito dos supremos interesses de todos os
católicos, que são os interesses da Igreja, em benefício dos interesses mais
fundamentais e mais sagrados de nosso diletíssimo
Brasil, ao par da mobilização
de todos os recursos naturais, há sempre a mobilização possível dos recursos sobrenaturias, mais poderosos, mais decisivos, mais
importantes do que aqueles.
Os estadistas de nossos dias confiam apenas nos
braços que empunham fuzis. Longe de nós o imaginar que quem quer que seja
esteja dispensado de empunhar o fuzil para cumprir seu dever para com a Igreja
ou a Pátria. Mas há braços que, não podendo empunhar fuzis, podem empunhar
certamente rosários, e os próprios braços que empunham fuzis sentirão,
decuplicar suas forças se souberem alternar o manejo da arma e a do Terço.
Para rezar, somos todos
poderosos. Rezemos
muito, e sobretudo rezemos bem.
A Sagrada Liturgia tem uma oração que se pede a
Nosso Senhor a graça de conhecermos Sua Vontade, de modo que, pedindo-Lhe coisas que Lhe são agradáveis, consigamos obter
o que por nossas preces suplicamos.
Se queremos a paz, peçamos uma paz conforme o
Coração de Jesus, isto é, conforme as intenções de Pio XII. Porque se pedirmos uma paz que não seja a paz com
justiça, a paz de Cristo no Reino de Cristo, que esperanças podemos ter de ser
atendidos?