Tenho por incontestável que se tantas e tantas
obras católicas vegetam à míngua de recursos pecuniários, isto se deve em
grande parte ao fato de que as pessoas que possuem recursos pecuniários não
pesam devidamente a responsabilidade que sua fortuna lhes impõe. Entretanto, se
esta noção fosse mais geralmente divulgada, que facilidade encontrariam muitas
obras que correspondem às mais urgentes necessidades, quer da pobreza
desamparada, quer das almas famintas de bom alimento espiritual, quer enfim do
culto, que precisa ter uma magnificência correspondente à sublime elevação dos
mistérios que nele se celebra.
Desejo, pois, ao menos na limitadíssima parcela do
que me é possível, concorrer para esse feliz resultado.
Todos conhecem a parábola dos talentos, narrada no
Santo Evangelho. Um homem rico foi fazer uma viagem, e deixou distribuída entre
seus servos uma certa quantia que deveriam fazer render. A um deu três
talentos, a outro deu dois, e, finalmente, a mais outro, deu um. De regresso da
viagem, chamou a contas os servos. Os dois primeiros haviam feito render o
depósito, apresentando um lucro proporcional à quantia que lhes fora confiada,
e para ambos o Senhor destinou excelentes recompensas. O terceiro limitou-se a
enterrar o talento recebido. Não o gastou, não o guardou levianamente de sorte
que os ladrões dele se apoderassem. Pelo contrário, guardou-o com sumo cuidado,
a fim de o restituir ao amo. Mas, negligente, preguiçoso, inepto, não soube
fazer render o dinheiro que lhe era entregue. Por isso, quando o amo regressou,
com uma naturalidade um tanto displicente, o servo lhe restituiu o talento. E o
amo o fulminou com uma severa condenação.
* * *
Os pouquíssimos ricos que estiverem lendo este
artigo não se iludam com o sentido da palavra “talento”. Talento não significa,
aí, como aliás a própria narração indica à evidência, qualidades intelectuais
ou artísticas. Significa dinheiro. “Talento” era o nome que se dava a uma moeda
antiga, e o Salvador, empregando a palavra, referiu-se diretamente ao dinheiro
entregue pelo Senhor a seus servos. É esta a interpretação unânime de todos os
exegetas do Evangelho, e nenhum subterfúgio poderia caber a este propósito.
Penso que não seria difícil para qualquer pessoa
possuidora de dinheiro refletir um pouco sobre a saliente analogia que se
encontra entre sua própria situação, e a dos servos da parábola a quem deu Deus
dinheiro para fazer render.
Servos, os ricos deste mundo o são como os da
parábola, porque todos nós somos servos de Deus, e menos do que isto, porque o
amo domina seus servos como patrão, mas Deus é para nós muito mais do que um
simples patrão, já que é nosso Criador.
Dinheiro emprestado, eles tem por certo, pois que,
se perante todos os homens são os donos legítimos do dinheiro, segundo toda a
justiça são eles, perante Deus, que é soberano Senhor de todas as coisas, os
ricos não são senão meros prestamistas, em cujas mãos Deus depositou a fortuna,
mas da qual continua Ele a poder dispor como melhor entender.
Assim, também eles são servos que receberam
dinheiro emprestado e que devem fazer render.
* * *
Admitamos que um Pai dê a um filho uma parcela de
sua fortuna, para que ele a utilize. O Pai não renunciou à propriedade dos bens
que entregou ao filho. Reserva para si o direito de os reclamar quando melhor
entender. Seu propósito, fazendo o empréstimo, foi apenas o de, colocando
convenientemente seus haveres, ajudar também seu filho. Assim, entra nas
intenções amorosas do Pai que o filho use em seu próprio proveito a fortuna, se
bem que com sábia moderação. Mas não pode ele permitir que, nesse uso, o filho
se exceda de tal maneira que se recuse a auxiliar o Pai em suas necessidades,
ou que destrua o patrimônio que lhe foi confiado.
É exatamente esta a situação dos homens ricos, a
quem Deus na Sua Providência concedeu a ventura de possuir abundantes haveres
materiais. Podem eles fazer render para si a fortuna, utilizando-se, se bem que
com temperança, na satisfação de suas necessidades. Negá-lo seria cair no mais
rasteiro socialismo. Mas nem por isto tem eles o direito de deixar perecer, à
mingua de recursos materiais, os mais fundamentais interesses da Igreja de
Deus, fazendo com que o dinheiro renda só para eles, e julgando estultamente
que são verdadeiros poços de virtude, pelo simples fato de não terem dissipado
sua fortuna em orgias e desmandos de toda a espécie.
* * *
Vou prová-lo de outra maneira.
Tomemos o exemplo de um jornal católico, ou de uma
rádio emissora católica.
Diariamente, centenas
de milhares de almas são envenenadas pela disseminação de doutrinas anticatólicas, veiculadas pela má imprensa e pelo mau rádio.
Multiplicam-se indefinidamente os recursos pelos quais o mal se alastra, e
atrai para os vórtices da impiedade e da corrupção as almas remidas pelo
Precioso Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Reflita-se simplesmente
no seguinte: a quase (?) totalidade dos jornais “neutros” costuma publicar
artigos, notícias, anúncios ou fotografias nocivos às almas. Segundo um cálculo
elaborado por técnicos, qualquer jornal é lido por uma media de quatro
leitores. Assim, sempre que um jornal sai com um artigo contra a Religião,
desde que ele tenha uma tiragem de 50.000 exemplares diários, que é a média de
nossos grandes diários, são 200.000 pessoas que vão ter em mãos um alimento
espiritual contrário aos interesses de suas almas. Em outros termos, quando o
jornal sai da rotativa e se apresta a ser distribuído pela cidade e pelo Estado
inteiro, dá-se exatamente a mesma coisa do que se um exército de 200.000
pregadores saíssem a rua para falar contra a Igreja.
Reciprocamente, o bom jornal pode representar um
exército diário de 200.000 pregadores que falam em favor da Igreja.
À vista disto, pergunta-se: por que temos tantos
jornais que não são católicos, e temos tão poucos, tão pequenos, tão pobres
jornais católicos? Com que dinheiro se alimenta os jornais que não são
católicos? Com o dinheiro de católicos. Por que não florescem os jornais
católicos? Por falta de dinheiro. Onde está o dinheiro dos católicos? Nas mãos
dos jornais não católicos, nos bancos, ou nos clássicos “pé de meias”. É esta a
crua e dolorosa realidade.
Levemos mais adiante a meditação. Ela é severa, mas
exatamente por isto é frutuosa.
Diz a doutrina da Igreja, que é infalível, que
Nosso Senhor Jesus Cristo remiu todos os homens, e não apenas alguns, e que Ele
teria sofrido tudo quanto sofreu, e finalmente morrido na Cruz, ainda que fosse
simplesmente para salvar uma só das almas perdidas pelo pecado. Em outros
termos, ainda que houvesse uma só alma perdida, e essa alma fosse a do menos
inteligente dos homens jamais existentes, Nosso Senhor Jesus Cristo teria dado por bem empregada toda a Sua
Paixão, simplesmente pelo fato de salvar tal alma.
Assim, o preço de uma alma é o preço do Precioso
Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Isto posto, é incontestável que milhares de almas
poderiam ser salvas, se tivéssemos pessoas bastante generosas para fazer um
jornal católico, que, pondo nas mãos de milhares de leitores jornais que nada
contém de nocivo às almas, por isto mesmo contribuem eficazmente para evitar
que jornais maus vão ter a estas pessoas, e constituam para elas uma ocasião
próxima de pecado.
Por que estas milhares de almas não tem este meio
de salvação? Porque inúmeros ricos não são tão generosos quanto deveriam ser. O
Precioso Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo não é aproveitado pela almas, as
dores, os gemidos, os tormentos do Salvador para elas se perdem, porque muitos
ricos encolhem avaramente suas mãos. Como se
compreende bem, depois disto, a lamentação da Escritura: “Qualis utilitas a sanguine
meo”. Qual a utilidade de meu sangue, pode
exclamar o Salvador, para tantas almas que continuam a se perder?
No dia do juízo final, tudo isto virá à tona. E
cada um de nós, em lugar de se escusar preguiçosamente, com os mil e um
pequenos pretextos com que narcotizamos nossa consciência, deve formular para
seu próprio uso a seguinte pergunta explícita:
“Por que não auxilio eu o jornal católico? A razão
que tenho para isto, eu a repetirei desembaraçadamente a Deus Nosso Senhor,
quando no dia do juízo final, dia tremendo de calamidade e de miséria para as
almas más, ele me chamará às contas?”
Exemplifiquemos. Se eu disser a Nosso Senhor nesse
dia que eu não dei meu dinheiro para o jornal católico, porque tinha receio de
que o jornal feito com concursos de meu dinheiro não fosse nem tão moderno, nem
tão perfeito, nem tão atraente quanto eu desejaria, Nosso Senhor poderá me
objetar que melhor seria um jornal católico tecnicamente imperfeito, do que a
ausência total de qualquer jornal católico. Nesse caso, o que responderei eu?
Continuarei tão à vontade quanto estou agora?
Se eu disser a Nosso Senhor que minha fortuna não
seria suficiente para fazer o jornal todo, e que, não tendo a certeza de que
outros também não contribuiriam, julguei que não deveria esbanjar meu dinheiro,
Nosso Senhor bem me poderá responder que eu era tão rico que os 20 ou 30 contos
que deveria dar ao jornal católico absolutamente não me fariam falta real.
Assim, melhor seria que eu tivesse cumprido meu dever, fazendo recair sobre as
outras pessoas que também devessem concorrer, a plena responsabilidade de sua
omissão, o que responderei eu?
E se eu disser a Nosso Senhor que apliquei todo o
meu dinheiro a aliviar misérias físicas, como a doença, e Nosso Senhor,
recompensando-me embora por isto, me apontar, entre os demônios, alguns doentes
que eu socorri, e que ali se encontram por toda a eternidade, porque se
afastaram de Deus em conseqüência da leitura de um mau jornal, o que
responderei eu?
* * *