Um grande moralista, o Padre Veermesch, professor da Gregoriana,
sustenta que a virtude que mais falta aos homens do século XX é a fortaleza. A
afirmativa pode causar espécie. Por toda a parte, ao que parece, predominam as
características da brutalidade do homem contemporâneo. Como, pois, sustentar
que é a fortaleza que lhe falta? Não se poderia, muito pelo contrário, afirmar
que o que ele perdeu foi o senso da mansuetude, da benignidade, da misericórdia
farta?
Se bem que paradoxal, a opinião do insigne Jesuíta
é perfeitamente verdadeira. O excesso de brutalidade não prova que possuamos a
virtude da fortaleza. Não se confunda o
endurecimento do coração paganizado dos homens de nossos dias, com a tempera de
aço que deve ter todo coração verdadeiramente cristão. A brutalidade
contemporânea não é algo que supera ou transcende a fortaleza, mas é pelo
contrário uma caricatura dela. Assim, pois, a evidente bestialização
da humanidade não significa, de modo nenhum, que ela possua aquela energia
sobrenatural cuja carência o insigne professor da Gregoriana
costuma lamentar. Por outro lado, se é fato que a brutalidade é a grande
característica dos processos daqueles que estão arrolados sob as bandeiras de
Satanás, (e digo intencionalmente no plural a palavra “bandeiras”, porque hoje
Satanás possui diversas, com diversos emblemas e diversas cores), é
absolutamente evidente que o mesmo não se pode dizer daqueles que lutam pela
boa causa. A única característica do século XX não está na brutalidade dos
maus, mas ainda na tibieza, na mansuetude covarde, na ingenuidade opaca, na
irreflexão leviana, daqueles que, muitas vezes, empunham armas em defesa da boa
causa. Chamberlain não é menos
característico de nossa época do que Hitler; a perfídia de Von Papen não é mais típica
do que a cegueira de certos católicos alemães que por ele se deixaram iludir,
e, de modo geral, só há, neste triste século, uma coisa tão surpreendente e tão
chocante quanto a brutalidade e o cinismo dos totalitários: é a ingenuidade e a
falsa paciência dos que se lhes opõem.
* * *
Pensava eu em tudo isso quando, há dias, lia o
noticiário europeu referente ao pacto turco-búlgaro. Segundo informava um despacho telegráfico, foi em vão
que se esperou que a Rússia levantasse uma
oposição qualquer àquele acordo, no qual não é difícil discernir as marcas
digitais de Von Papen,
embaixador nazista junto a Ancara. Interessada em defender a Rumânia, a Rússia recuou. Interessada em defender a Bulgária, recuou também. Interessada em salvar os frangalhos de
seu prestígio europeu, conservando restos de hegemonia nos Balcãs, não se mexeu. E assim, sem estorvos nem embaraços, a
influência nazista chegou àquela península, cobrindo hoje quase toda a Europa,
e realizando assim um bloco totalitário imensamente temível para a Igreja.
Entretanto, os noticiários dos jornais, deixando
transparecer evidentemente as esperanças do público, e, por sua vez,
alimentando-as, encaminhava todos os espíritos no sentido de admitir uma
próxima intervenção soviética na Europa oriental, intervenção essa que pusesse
em sério cheque a expansão nazista. Entre esses infelizes “esperançosos” não
terão faltado leitores do “Legionário” que, acompanhando já há anos a campanha
que vimos fazendo no sentido de demonstrar a evidente afinidade nazi-soviética, a cada passo se põe a esperar novamente a
colisão dos dois países totalitários e a estruturar castelos de ilusões com
base nessa hostilidade evidentemente irreal.
Claro está que essa ilusão, versando sobre os
acontecimentos bem remotos, não terá trazido para a Igreja conseqüência
catastróficas. Isto não obstante, fica-se a pensar se as orientações de tais
elementos, no caso de deverem enfrentar acontecimentos mais próximos, seria
muito mais esclarecida e muito mais sagaz. Digamos a verdade. Nosso povo é
ingênuo. A ingenuidade não é nele insanável e todos os homem que, por seu
valor, souberam se destacar entre nós, fizeram-no pelo triunfo sobre esse
pendor nacional. Num certo sentido, dado que todos os povos tem seus pendores
maus, ainda devemos julgar-nos satisfeitos pelo fato de que nosso pendor é
este, enquanto tantos outros tendem para a brutalidade sem limites. Mas essa
verificação não nos deve servir de consolo, como aos Apóstolos, que dormiram no
Horto das Oliveiras durante a agonia do
Senhor, não poderia servir de consolo legítimo o fato de não terem sido eles nem
o traidor nem os soldados que entregaram ou prenderam o Mestre. Muito mal tem
sido feito pela ingenuidade dos bons e por isso mesmo o Mestre lhes recomendou
a vigilância. Ora, o que é a atitude do ingênuo, senão a do indivíduo que não
sabe vigiar? E o que é a vigilância senão a vitória sobre a ingenuidade?
Assim, pois, não é apenas por
motivos meramente acadêmicos, que lamentamos tanta ingenuidade que se discerne
em torno de nós. A razão é mais profunda. Mas os ingênuos continuarão a não
concordar... Para certos ingênuos, a única cura possível é a primeira dentada
do lobo. Só então acordam, se a dentada não for desde logo em órgão vital.