Tornou-se um lugar comum, em todos os círculos
anticomunistas, a afirmação de que o regime soviético tal qual é praticado na
Rússia, não constitui senão
um grosseiro falseamento das idéias igualitárias que Karl
Marx pregou.
Em lugar de dar início a uma era de igualdade, o
comunismo se converteu, na Rússia, em uma ditadura sanguinária de meia dúzia de
privilegiados que, por detrás da máscara do comunismo, sugavam o povo russo e
levavam, acobertados por um terrível regime de força, uma vida dissipada ou
opulenta, em diametral contraste com os princípios essenciais do comunismo.
Evidentemente, não significa isto que a doutrina
comunista seja bela e que o que nela se deve condenar é a aplicação falsa que
recebe. Do comunismo de Marx pode dizer-se o que de
Judas disse a Escritura: do alto da cabeça até a
planta dos pés nada existe nele que seja são. Mas, sendo embora hedionda, ou
antes precisamente por isto, a máscara da doutrina comunista entusiasmava as
multidões cúpidas e sanguinárias de nossos dias, e por detrás delas, rindo-se
da imbecilidade do homem contemporâneo, os atuais senhores do Kremlin vem
submetendo a Rússia a uma tirania perto da qual a tão decantada crueldade dos Tzares não passa de um
sonho dourado.
Assim, pois, entre a Rússia real e a Rússia
fictícia, entre a Rússia que a III Internacional realizou e a que ela pintava
para o exterior com intuito de propaganda, havia uma diferença profunda, que
qualquer observador superficial poderia verificar.
* * *
O noticiário telegráfico desta semana trouxe, nesta
ordem de idéias, informações preciosas. Chegou-nos pelo telégrafo a notícia de
que importantes modificações seriam introduzidas na Rússia soviética. A
primeira afetaria o exército. Em obediência aos pruridos revolucionários do
comunismo, nunca permitiriam os ditadores russos que o exército vermelho se
organizasse à moda do Ocidente, com uma hierarquia de oficiais nitidamente
definida e dependente, de modo exclusivo e direto, do Ministério da Guerra.
Pelo contrário, ao lado da hierarquia militar, dentro do próprio exército havia
uma hierarquia cvil que controlava os
militares e ao mesmo tempo se incumbia da propaganda do comunismo. Essa hierarquia
parecia incumbida também de mitigar o que a disciplina militar tivesse de
excessivamente rígido e, assim, acomodar a vida de caserna aos princípios
bolchevistas. Ora, informa-nos o telégrafo que, agora, essa hierarquia foi
abolida e o exército soviético, “pondo de lado preocupações demasiadamente
democráticas”, resolveu tornar mais rígida sua organização hierárquica,
jogando, caserna afora, os pobres civis que ali existiam.
Por outro lado - e isto toca as raias do
inconcebível - para realçar a dignidade da hierarquia militar, os sovietes
restauraram para certas patentes do exército vermelho o uso do espadim
decorativo, daquela mesma espada que era, antes da Revolução Francesa,
distintivo de fidalguia e que ficou de tal maneira ligada à idéia de distinção
e elegância aristocrática, que dela se servem com razão todos os exércitos
civilizados de hoje, ainda mesmo que não tenha mais qualquer utilidade bélica,
e até os inofensivos membros das Academias de Letras não julgam completa sua
indumentária de gala sem que por sua vez a cinjam luzentes sobre o fardão dos grandes dias.
Evidentemente, a Rússia oficial, convencional,
irreal, a Rússia que pintavam para os agitadores está morrendo e através de sua
casca em decomposição a Rússia verdadeira está começando a mostrar sua
fisionomia.
* * *
Para tanto, contribui um importantíssimo fator.
Além da “desdemocratização” do exército, outra “desdemocratização” também foi empreendida: a das fábricas.
A liberdade do operário - ou antes a libertinagem do operário, pois que o
comunismo jamais quis a liberdade real do operariado - era, pela legislação
soviética, protegida de mil modos. Assim, em toda a indústria soviética não
havia autoridade efetiva dos chefes de seção sobre os operários.
Realmente, na Rússia todas as autoridades eram
proibidas, excetuada a da Tcheka. Assim, a indústria
soviética conservava aparência democráticas, desmentida apenas pelo fato de que
o poder, que havia talvez escapado inteiramente à mão de quem de direito, se
encontrava concentrada, de modo brutal e absoluto, nas mãos dos tiranos da polícia
soviética.
Ora, o mesmo telegrama que anunciava a expressiva e
ridícula restauração do espadim anunciava também que os chefes de oficina se
veriam, de agora em diante, investidos em autoridades real, e que os sovietes
passariam a lhes garantir plenamente o exercício de funções diretoras.
Para quem conhece todo o barulho feito pelos
bolchevistas a respeito da “liberdade” operária, não é difícil imaginar a
transformação que tudo isso significa.
* * *
Um pormenor, entretanto, muito interessante em tudo
isto, e que reservamos expressamente para o fim, consiste em que, de agora em
diante, não se exigirá mais que os militares estejam filiados ao partido
comunista russo para merecerem promoção.
O que significa isto? Todo o mundo sabe que dos
bolchevistas tudo se pode com razão dizer, exceto que são tolos. Ora, eles não
podem ignorar o risco que corre o regime com a promoção de oficiais que se
recusam a filiar-se no único partido oficial existente no país. Por que recusam
eles a tal filiação, quando esta lhes traria todas as vantagens possíveis?
Evidentemente, a razão não pode ser outra senão esta: tais oficiais não apoiam
o partido. Ora, sua promoção o que significa neste caso? Não é preciso ser um Machiavel para responder a isto.
Assim, pois, o comunismo começa a rejeitar a
máscara comunista sem rejeitar nem seu espírito, nem seus processos. A Rússia
real, a Rússia objetiva, a Rússia que os comunistas quiseram fazer e fizeram de
fato quando estavam “com a faca e o queijo na mão”, esta Rússia se despe do
“travesti” comunista e aparece tal e qual é aos olhos do mundo inteiro: oligárquica, autoritária, tirânica, absorvente, perigosa.
Evidentemente, o que pode significar isso? Que os
comunistas estão ensaiando alguma tática nova. Qual será ela? Ainda é cedo para
dizê-lo. Mas nossa geração, que já assistiu à aliança de quase todas as
potências do pacto anti-Komintern com a Rússia,
assistirá, talvez, a alguma outra cena do gênero. Será, por exemplo, a Rússia
se transformar em potência anti-Komintern. E se não
for isso, será qualquer outra farsa neste gênero. Os ingênuos que se preparem.
Deve haver pelo ar algum “menu” rico em fraudes de toda ordem e que estou certo
de que, com sua voracidade habitual, não deixarão de deglutir e degustar a
todas elas, sem exceção.