Numerosas são
as comemorações que por toda a parte se realizam, a fim de celebrar de modo
condigno o cinqüentenário da Encíclica “Rerum
Novarum”. Entre estas, avulta de modo particular o “Congresso de Direito Social”
que, com a colaboração de nossas autoridades eclesiásticas e civis e por
iniciativa de um ativíssimo e valoroso grupo de realizadores, visa perpetuar o
reconhecimento de todo o Brasil ao imortal Pontífice que, por seus
ensinamentos, indicou o único caminho a seguir na tormentosa “questão social”.
O que
publicamos em nossa edição de hoje, somado a tudo quanto sobre tão relevante
acontecimento se vai ouvir nas sessões do “Congresso de Direito Social”, torna
dispensável ao autor do artigo de fundo falar sobre a doutrina da “Rerum Novarum”. Assim, procuro abordar hoje um outro
aspecto da grande Encíclica.
* * *
Há dois modos
de se estudar uma idéia. Um consiste em considerá-la de modo apenas
especulativo. É propriamente o estudo da doutrina, estudo este sempre
fundamental, sempre indispensável, sempre primacial em importância e cuja
carência tanto prejudica a vida intelectual em nossos dias. O outro consiste em
passar da posição especulativa para uma atitude mais prática, em mobilizar a
vontade a serviço da doutrina que se estudou, em embeber dessa doutrina toda a
personalidade ou, em outros termos, em assimilar essa doutrina, fazendo dela
uma mentalidade.
Ora, a “Rerum Novarum” não é apenas uma exposição especulativa, mas
uma Encíclica [que] cria uma mentalidade. E jamais teremos compreendido
suficientemente a obra de Leão XIII se não atendermos a isto.
Muitas eram as
mentalidades a respeito do problema social, antes da “Rerum
Novarum”. Em geral, cada mentalidade traduzia a preocupação dominante de quem a
possuía. Uns, levados por sentimentalismo vivaz, consideravam tão somente as
desgraças da classe operária, e, na ânsia febril de lhes dar remédio, se transformavam em
apologistas de todos os meios, pacíficos ou violentos, legítimos ou ilegítimos,
para realizar logo, e inteiramente, uma transformação que aliviasse o
operariado dos males de que sofre.
Outros,
preocupados com o problema da autoridade, com a necessidade de fazer face a
todo o transe, à onda revolucionária que crescia, de evitar que o igualitarismo
nivelador se apoderasse de toda a organização social e destruísse as “elites”
tão indispensáveis à grandeza da civilização, tendiam a ver sobretudo na
questão social uma questão social, uma questão de revolução e de
contra-revolução, e assim eram incondicionalmente do lado da autoridade e dos
patrões, por mais justas que fossem as reivindicações operárias.
Ao lado destes
dois grandes grupos havia evidentemente os exploradores. Os demagogos
especulavam com a miséria operária, para facilitar o curso da revolução. E os
plutocratas da alta finança internacional exploravam evidentemente os
princípios de autoridade, para justificar seus lucros imoderados e sua sede de
ganho.
* * *
Leão XIII começou por desfazer este choque de
mentalidade e separar nitidamente os exploradores dos idealistas. Não pode
haver maior flagelo para os demagogos do que os conceitos, por vezes santamente
duros, que o grande Papa expendeu sobre a “peste” do socialismo e sobre o
câncer do espírito de revolução. Seria preciso ler as Encíclicas contra a
maçonaria – a grande envenenadora
da questão social – contra o liberalismo, etc., para compreender tudo quanto
Leão XIII levou a cabo contra a “raça de víboras” que, sob pretexto de
caridade, queria atear o incêndio diabólico da revolução social. Paralelamente
a isto, Leão XIII desmascarou duramente
as manobras dos ultra-plutocratas que, sob pretexto
de autoridade, queriam apenas oprimir o próximo e derrocou todo o castelo de
pretexto e preconceitos liberais atrás dos quais se entrincheiravam para negar
à Igreja e ao Estado o direito de intervir na questão social. Finalmente Leão
XIII mostrou claramente que os católicos não devem estabelecer uma falsa
antinomia entre autoridade e caridade, que a autoridade não é tirania e a caridade
não deve ser igualitarismo e que, por conseguinte, é indispensável que os
elementos realmente católicos jamais ataquem a autoridade dos patrões levados
por um falso espírito de caridade, ou combatam as reivindicações operárias
quando legítimas, levados por um falso espírito de autoridade. Quebre-se os
dentes à hidra do liberalismo demagógico, decepe-se o demônio do egoísmo,
estabeleça-se um largo espírito de cooperação católica entre as classes e nem
os ditames da caridade chorarão a autoridade e nem a dignidade da autoridade
ferirá os direitos da caridade.
* * *
Esta
mentalidade de equilíbrio, evidentemente, é essencial para se compreender e
executar a “Rerum Novarum”. Sem ela, nada é possível
fazer em matéria de atividade social
católica.
Mas a este propósito
cabe uma pergunta. O panorama social, depois de Leão XIII, ficou muito
mais carregado em cores do que era então. Se hoje vivesse o grande Pontífice,
como consideraria ele a realidade atual?
Exatamente como
a considerou Pio XI no “Quadragesimo Anno”. Isto é, com o mesmo equilíbrio e a
mesma sabedoria, e portanto preconizando as mesmas soluções.
A luta hoje não é tanto entre
patrões e operários, quanto entre o estatismo e o
individualismo. E a este problema Leão XIII teria exatamente a palavra de equilíbrio
que teve Pio XI. Assim, não procuremos fazer hoje em dia da doutrina católica
nem um pretexto para a restrição abusiva das funções do Estado e nem um
pretexto para uma dilatação usurpadora de suas atribuições. Trabalhemos com a
mentalidade da Igreja, sendo sempre, como ela, intransigentemente equilibrados
em todos os nossos juízos e atitudes. E assim chegaremos certamente àquela
vitória que tantos corações ardentes e
almas generosas colimam.