Insistentemente, tem os Santos Padres recomendado
que a humanidade intensifique o culto que presta ao Sagrado Coração de Jesus a fim de que, regenerado
o homem pela graça de Deus e compreendendo que deve ser Deus o centro de seus
afetos, possa reinar novamente no mundo aquela tranqüilidade da ordem, da qual
mais distante estamos, quanto mais o mundo descamba pela anarquia.
Assim, não poderia um jornal Católico deixar
desapercebida a festa que há dias transcorreu do Sagrado Coração. Não se trata
apenas de um dever de piedade imposto pela própria ordem das coisas, mas de um
dever que a tragédia contemporânea torna mais tragicamente premente.
* * *
Não há quem não se alarme com os extremos de
crueldade a que pode chegar o homem contemporâneo. Essa crueldade não se atesta
apenas nos campos de batalha. Ela transparece a cada passo, nos grandes e nos
pequenos incidentes da vida de todo o dia, através da extraordinária dureza e
frieza de coração com que a generalidade das pessoas trata seus semelhantes.
As mães em cujas entranhas decresce de intensidade
o amor pelos filhos; os maridos que atiram à desgraça um lar inteiro, com o
único intuito de satisfazer seus próprios instintos e paixões; os filhos que,
indiferentes à miséria ou ao abandono moral em que deixam seus pais, voltam
todas as suas vistas para a fruição dos prazeres desta vida; os profissionais
que se enriquecem às custas do próximo, mostram muitas vezes uma crueldade fria
e calculada, que causa muito mais horror do que os extremos de furor a que a
guerra pode arrastar os combatentes. Realmente, se bem que na guerra os atos de
crueldade se possam mais facilmente aquilatar, os que os praticam tem, se não a
desculpa, ao menos a atenuante de que são impelidos pela violência do combate.
Mas aquilo que se trama e se realiza na tranqüilidade da vida quotidiana não
pode muitas vezes beneficiar-se de igual atenuante. E isto sobretudo quando não
se trata de ações isoladas, mas de hábitos inveterados que multiplicam
indefinidamente as más ações.
A guerra, tal qual ela é hoje feita, é um índice de
crueldade, mas está longe de ser a única manifestação da dureza moral
contemporânea.
* * *
Quem diz crueldade diz egoísmo. O homem só
prejudica seu próximo por egoísmo, por desejar beneficiar-se de vantagens a que não tem
direito. Assim, pois, o único meio de extirpar a crueldade consiste em extirpar
o egoísmo.
Ora, a teologia nos ensina que o homem só pode ser
capaz de verdadeira e completa abnegação de si mesmo quando seu amor ao próximo
é baseado no amor de Deus. Fora de Deus não há, para os afetos humanos,
estabilidade nem plenitude. Ou o homem ama a Deus a ponto de se esquecer de si
mesmo, e neste caso ele saberá realmente amar o próximo; ou o homem se ama a
ponto de se esquecer de Deus, e, neste caso, o egoísmo tende a dominá-lo
completamente.
Assim, é só aumentando nos homens o amor de Deus,
que se poderá conseguir deles uma profunda compreensão de seus deveres para com
o próximo. Combater o egoísmo é tarefa que implica necessariamente em “dilatar
os espaços do amor de Deus”, segundo a belíssima frase de Santo Agostinho.
Ora, a festa do Sagrado Coração de Jesus é, por excelência,
a festa do amor de Deus. Nela, a Igreja nos propõe como tema de meditações e
como alvo de nossas preces o amor terníssimo e
invariável de Deus que, feito homem, morreu por nós. Mostrando-nos o Coração de
Jesus a arder de amor a despeito dos espinhos com que O circundamos por nossas
ofensas, a Igreja abre para nós a perspectiva de um perdão misericordioso e
largo, de um amor infinito e perfeito, de uma alegria completa e imaculada, que
devem constituir o encanto perene da vida espiritual de todos os verdadeiros
católicos.
Amemos o Sagrado Coração de Jesus. Esforcemo-nos
por que essa devoção triunfe autenticamente (e não apenas através de alguns simbolismos da realidade) em todos os lares, em todos os
ambientes e, sobretudo, em todos os corações. Só assim conseguiremos reformar o
homem contemporâneo.
* * *
“Ad Jesum
per Mariam”. Por Maria é que se vai a Jesus.
Escrevendo sobre a festa do Sagrado Coração, como não dizer uma palavra de
comoção filial ante esse Coração Imaculado que, melhor do que qualquer outro,
compreendeu e amou o Divino Redentor? Que Nossa Senhora nos obtenha algumas
faiscas daquela imensa devoção que tinha ao Sagrado Coração de Jesus. Que Ela
consiga atear em nós um pouco daquele incêndio de amor com que Ela ardeu tão
intensamente, são nossos votos dentro desta oitava suave e confortadora.