A vida espiritual de
cada alma se ressente da ação, ora mais intensa ora menos, destes três fatores contra
os quais o homem luta com os recursos de sua inteligência e de sua vontade,
iluminadas e robustecidas pela graça.
Qualquer pessoa erraria gravemente se, fazendo a
análise da vida espiritual de outra - de um Santo, por exemplo - abstraísse de
um desses três fatores. Eles atuam em todos os homens, se bem que de maneira
sempre diversa de homem para homem, e abstrair de qualquer destes três
adversários seria para o historiador de uma alma uma renúncia completa a
qualquer trabalho histórico e crítico realmente [bem] feito.
II - Essas verdades são geralmente adquiridas, como
também é geralmente aceito pelos católicos que a história de um homem é
essencialmente a história de sua alma. Todo o resto são acidentes que só
interessam na medida em que a alma dele se serviu para aproximar de Deus ou por
eles se deixou dominar e separar do “Criador”.
Infelizmente, porém, essas grandes verdades não são
transplantadas pela generalidade das pessoas para o campo da história dos
povos. Se a História de cada indivíduo é sobretudo essencialmente a história de
sua alma, é obvio que a história de um povo é sobretudo e essencialmente a
história daquilo que costuma chamar de mentalidade do país. É ponto
indiscutível em Teologia que assim como perante Deus cada alma tem sua responsabilidade
própria, também as coletividades humanas, como as famílias, as cidades, as
classes sociais, os países, tem responsabilidades coletivas.
I. Na
liturgia do santo Batismo faz a Igreja com
que os neófitos renunciem ao mundo, o demônio
e a carne e assentem sobre os escombros da dominação de tais inimigos o
edifício da vida espiritual dos filhos de Deus.
II. Não se
trata ai, de uma figura literária, mas de uma realidade objetiva e
indiscutível.
Para se ver isso, basta considerar que um povo tem
responsabilidade própria e definida perante o tribunal de Deus. E um dos
maiores deveres de um povo consiste principalmente na criação de um ambiente
favorável à virtude e infenso ao vício.
III. Assim
como a alma de um indivíduo é objeto de um ação convergente da graça divina,
que toca a inteligência e a vontade, e das tentações do demônio, das seduções
do ambiente a da fragilidade da carne que nos arrastam para o mal, assim a
mentalidade de um país trabalhada por todos esses fatores de santificação ou de
pecado, e é propriamente a história da vicissitude das lutas que na alma
nacional de cada povo as virtudes travam contra o demônio, que constitui a
medula da história nacional.
IV. Destes
fatores que, de um lado ou de outro, solicitam a inteligência e o
livre-arbítrio do homem, um há que é essencialmente ininteligente:
é a carne.
Mas os outros, isto é a graça de Deus, a ação do
mundo e a do demônio, são de natureza inteligente. Na vida de certos Santos,
percebe-se como a ação da Providência é amorosa e sábia. Ela prevê com longa e
inteligente antecedência todos os acontecimentos, tudo dispondo ou tudo tirando
proveito para a santificação das almas. Menos perceptível na vida de outros
Santos, ele nem por isso é menos real. Deus não falta e sua Providência é
sempre infinitamente sábia e amorosa. Por outro lado, também se nota na vida de
certos Santos como o demônio usa de todos os recursos de sua inteligência para
os combater. De longe urde o príncipe das trevas seus embustes, prepara
lentamente as crises, [prepara] paciente e gradualmente os acontecimentos até
preparar aqueles estados de espírito que lhes permitirá desfechar o ataque tão
ambicioso. Ora se há uma ação seguida, inteligente, articulada, pela posse de
uma alma, como não se admitir uma ação inteligente, seguida articulada, para a
posse da mentalidade de um povo inteiro? Isto quanto ao que diz respeito ao
demônio. Vejamos o que se deve pensar do mundo.
V. Quem fala
em mundo não fala evidentemente no mundo material.
O “mundo”, no sentido que a Igreja emprega a
palavra, é a humanidade, o meio ambiente. Esta palavra tem na Escritura duas
significações distintas. Segundo uma, indica toda a sociedade humana. Segundo a
outra, apenas a parte má dessa sociedade. Assim, Nosso Senhor emprega a palavra
no primeiro sentido quando diz que quer que o mundo inteiro arda com o fogo
sobrenatural que Ele veio trazer ao mundo. E emprega a palavra em seu segundo
sentido, quando na agonia, se recusa a rezar pelo mundo.
Em um e em
outro sentido, o “mundo”, também exerce uma ação inteligente. Não somos os que
crêem que a responsabilidade de um homem se encerra com sua existência. Suas
ações lhe sobrevivem. As idéias que ele pregou continuam a ter adeptos. As
instituições que ele fundou continuam a atravessar os séculos.
Fala-se em “século de Péricles”, de Augusto, de Carlos Magno, de São Luiz, de Luiz XIV. Na realidade, esses homens não marcaram apenas um século
com sua personalidade, mas muitos séculos, e se esses séculos se assinalaram é
porque continuam a influenciar consideráveis massas humanas durante séculos
inteiros.
Napoleão costumava dizer que
a educação de uma criança começa cem anos antes dela nascer. Que significa isto
senão que nossas idéias, nossos atos, nossas obras estão projetando sua
influência sobre todas as gerações que nascerem dentro destes cem anos?
É isto que explica a coerência e precisão das
grandes linhas dos acontecimentos históricos, linhas nas quais as gerações não
são senão pontos, e os séculos não figuram senão como centímetros.
A história não é e não pode ser um conglomerado de
fatos desconexos e ininteligentes. Não rebaixemos
tanto o homem. Não prescindamos tanto a Deus, não fechemos tanto os olhos à
ação do demônio.
VI - Por isto é que o “Legionário” não vê no grande
assalto do naturalismo que teve início no século XV ou XVI e que, de impiedade
em impiedade, chegou às grandes heresias religiosas, filosóficas e sociais
modernas, somente uma irrupção tumultuária e desordenada do espírito da
lascívia e da impiedade, um mero jogo de paixões inteligentes e interesses
cegos, mas uma investida metódica que o espírito das trevas tramou contra os
filhos do luz.
VII - Com efeito, os pesquisadores que tem estudado
a evolução das idéias religiosas, filosóficas e sociais, dos fenômenos
políticos e econômicos, dos sistemas artísticos e dos modos de vida, desde o
século XV até hoje, se comprazem em mostrar que até mesmo os fenômenos os mais
expontâneos, as idéias as mais enraigadas, os
acontecimentos os mais inesperados, tem sido aproveitados no sentido de
imprimir à marcha da civilização um rumo uniforme que, partindo do naturalismo
humanista, chegou a nossos dias à inteira negação da doutrina e da civilização
católica, na legislação da URSS ou do III Reich.
Voltaire, contemplando a ordem admirável que rege o movimento de todos os corpos celestes,
escreveu a frase famosa: “Je me trouble et ne puis songer que cet horloge existe et n'ait pas d'horloger” [“Eu fico
perplexo e não posso imaginar que este relógio exista e não exista relojoeiro”].
Tanta uniformidade de conseqüências no meio de um tumultuar de idéias e paixões
desconcerta. E não se pode imaginar que sem um relojoeiro a disparidade das
doutrinas e dos interesses dos Tempos Modernos, e na época contemporânea,
apresentasse tal regularidade de conseqüências.
É evidente que o mundo teve uma imensa massa de produções
próprias e expontâneas nesses muitos séculos que nos separam das primeiras
manifestações do humanismo pagão. Mas o fato aí está, patente e até gritante:
apesar de tanta espontaneidade de produção, houve uma coesão tão surpreendente
de efeitos que realmente causa impressão.
VIII - Admite-se geralmente que a Renascença pagã gerou de
monstro em monstro, de erro em erro, de revolução em revolução, o comunismo, cuja doutrina filosófica e social nefasta é a realização
plena dos erros que o paganismo humanista tinha em seu bojo. Em última análise,
a Rússia soviética apresenta uma semelhança chocante com o mundo antigo,
exceção feita do que este tinha de bom. A mesma tirania absoluta, a mesma
exploração de massas imensas por uma pequena oligarquia de gozadores. A mesma
negação da personalidade humana, engolfada em uma concepção panteística
do Estado. A mesma depravação dos sentidos. A mesma indiferença do homem para
com seus semelhantes, que arrancou a um poeta pagão aquela exclamação hoje já
cediça: “homo homini lupus”. A mesma
negação de todos os valores superiores que fazem do homem o rei da criação e o
elevam acima da brutalidade animal.
IX - Os escritores nazistas, fascistas e outros tem
acentuado fortemente esta verdade e timbram, em geral, em responsabilizar por
tamanha catástrofe as forças secretas, [...] tradicionalmente
empenhadas em destruir a civilização ocidental, impondo ao gênero humano uma brutalisação e um aviltamento que facilitará a realização
de todos os planos [...].
Neste sentido, tem eles multiplicado livros e
discursos em que, inegavelmente, servindo-se de documentos e argumentos já
divulgados por autores católicos muito anteriores ao totalitarismo, afirmam, ao
par de alguns exageros, muitas verdades incontestáveis e preciosas.
X - Qualquer que seja a posição que a este respeito
se assuma, é impossível não reconhecer que se a destruição total da Igreja
Católica e da civilização
por esta criada é objeto de um plano metódico e multissecular, o nazismo apresenta uma
execução flagrante e completa desse plano. Se os rabinos nacionalistas que
perseguiam a Igreja nos seus primeiros séculos, porque ela pregava ao mundo um
monoteísmo que não estava reservado senão aos filhos de Israel, tivessem podido
ver em uma visão de muitos séculos o partido nazista, como teriam sorrido de
gozo! Pois o que faz o nazismo senão reconduzir à idolatria pagã, abertamente
professada e liturgicamente praticada, um dos povos
mais gloriosos da civilização católica? Se Juliano o
Apóstata tivesse podido
prever o aparecimento de um Hitler no século XX, teria
porventura exclamado o famoso “vicisti tandem, Galilei”? Se os
humanistas pagãos da renascença tivessem podido ver em pleno século XX deuses
mitológicos invocados não mais como figura de ficção literária, mas como
entidades reais, o que teriam exclamado?
Há algum tempo atrás, nas escolas públicas de certos municípios
brasileiros, se tornou obrigatório para os alunos que cantassem um hino a Tupã, antes das aulas. Era uma ridícula e indiscutível
imitação do exemplo nazista. A este propósito, a revista “Careta” publicou uma
espirituosa caricatura em que mostrava um ídolo indígena, posto no alto de uma
coluna, e tendo a seus pés um menino que lhe dirigia o hino.
Na legenda, o caricaturista colocou mais ou menos
as seguintes palavras: “Ó ídolo, eu bem dizia que acabaria por derrotar
Anchieta”. Se todo o mundo pudesse compreender que realidade dolorosa e
profunda há atrás desse gracejo certo, talvez sem que seu autor lhe medisse
toda a importância!
XI - Não podemos perceber por que motivo certos
espíritos obstinadamente curtos insistem em negar qualquer importância real ao
paganismo alemão. Por que se há de entender que ele consiste em uma série de
fórmulas ocas e sem conteúdo que seus próprios autores não tomam a sério? Não é
pagã a legislação? Não o é a educação? Não o é a organização da família? Não
são os princípios de força que norteiam toda a sua política internacional? O
monte Tálgeto, de onde em Sparta se atiravam os
filhos defeituosos, era apontado como símbolo do paganismo. Pois ele existe no III
Reich, não mais sob a forma
material de um monte, mas ressuscitado nas leis, nas idéias, e nas salas
cirúrgicas onde se esterilizam os pretensos tarados. A escravidão era outra
característica do paganismo. E o que é o trabalho forçado que o Sr. Hitler impõe a todos os
habitantes da Alemanha, senão um primeiro passo, e bem grande, para a
restauração da escravidão? O culto da força como única regra da vida dos homens
e dos povos era típico no mundo pré-cristão. E onde
atingiu ele proporções mais assustadoras do que no IIIº Reich, onde se nega aos
países fracos, aos homens fracos, aos povos ditos “inferiores” qualquer papel
no mundo, que não seja o de instrumento para o serviço, uso e gozo dos homens e
dos povos fortes? Fala-se nas feras do Coliseu como típicas do paganismo. Hoje,
nos campos de concentração, não há leões nem chacais. Mas há homens que sabem
fazer sofrer mais do que leões e do que chacais... “Não queremos mártires, mas
apóstatas”, exclamava Juliano. De quem é hoje em dia
essa exclamação? Não é dos adeptos da ideologia do Dr. Rosenberg?
Assim, se houve um plano pré-meditado
para assentar sobre os escombros do mundo cristão, o mundo pagão, força é
confessar que o nazismo realiza uma situação concreta que teria feito sorrir de
gozo os autores deste plano.
XII - Quer isto dizer que entre o nazismo e o comunismo não existem
diferenças? Não. A diferença está em que o nazismo procura realizar com um
método sumamente inteligente e com um sábio espírito de contemporização aquilo
que o comunismo tentou levar a cabo com uma estúpida precipitação. O comunismo
começou por incendiar igrejas e conventos, trucidar Sacerdotes e virgens
consagradas ao Senhor, destruir com uma só investida todo o mundo czarista e recostar comodamente sobre seus escombros. Mas
os morticínios fizeram mártires. Os crimes levantaram protestos e ascenderam
ressentimentos. Sob os escombros das igrejas queimadas, ou à sombra das poucas
igrejas que se conservavam abertas, a vida espiritual começou novamente a
reflorir. A despeito do aspecto desolador em que a Rússia se encontra, das
inúmeras e deploráveis ruínas morais que o bolchevismo conseguiu realizar, é
inegável que não foi possível extirpar dali a Igreja Católica. O próprio chefe do serviço de propaganda oficial do
ateísmo, nascido cismático, se converteu ao Catolicismo por ver o heroísmo
sobrenatural com que os católicos resistiam à perseguição. Milhões de almas se
perderam provavelmente. O povo se bestializou no ateísmo e na depravação. Mas
não foi possível impedir que a Igreja sobrevivesse e estendesse suas
raízes. Mais uma vez a mão sangrenta da
revolução via escapar-lhe das garras a oportunidade de esmagar integralmente l’infâme, isto é,
a Igreja. Dos escombros do bolchevismo, como outrora dos da Revolução Francesa,
a Igreja emergia vigorosa e cheia de uma vitalidade contra a qual todas as
violências haviam sido irremediavelmente vãs.
XIII – Se um simples pecado mortal é coisa
sumamente odiosa, que dizer-se de perseguição torpe e demoníaca que o comunismo
moveu à Igreja? Não há palavras que bastem para censurar, nem lágrimas que
bastem para chorar, nem energias que bastem para combater os horrores do
comunismo. A Igreja floresce apesar da perseguição, e não por causa da
perseguição. Tem-se repetido, com razão, que o sangue dos mártires é semente de
cristãos. Mas essa afirmação implicaria em uma criminosa canonização de todos
os perseguidores e de todas as perseguições, se não nos lembrássemos de que não
menos fecunda sementeira de cristãos é a palavra de Deus distribuída aos povos
pela Hierarquia em tempos de paz e liberdade religiosa. Isto posto, é preciso
não supor que um católico pode ver na perseguição um bem ou quase isto: em tal
caso, Nero teria sido um benfeitor e Constantino um
malfeitor da Igreja.
XIV - Tudo isto não
obstante, como não reconhecer que o inimigo mais perigoso do Catolicismo não é
a espada, mas o sofisma, não é a ameaça, mas a mentira, e que Marat ou Calles fizeram muito menos mal às almas do que Voltaire ou Kant? A terribilidade
de um inimigo não se mede pelo vigor com que se serve da espada, mas pela
agilidade com que manuseia a pena.
Ora, se o comunismo tem sido abominavelmente cruel
no exercício da violência, como mostrar que o nazismo tem sido ainda mais
perigoso pois que, sem desdenhar a crueldade (digam-nos os campos de
concentração), montou pelo rádio, pelo teatro, pelo cinema, pelo livro, pelos
jornais, pelas exposições ambulantes, por todos os meios enfim, a mais
formidável máquina de descristianização, por meios ideológicos que jamais a
História tenha visto? Na sua ação ideológica internacional, o comunismo
fracassara. Dotado de dinheiro larguíssimo, de todo o bafejo [...] das forças
secretas, [...] o comunismo explorou contra a Igreja o ataque direto e
desabrido, a injúria soes, a blasfêmia e a calúnia. E depois de muitos
decênios, eis que prometera aos operários riquezas mirabolantes, jamais
alcançou maioria eleitoral em qualquer país.
Ora, manda a verdade que se acrescente que a
máquina de propaganda nazista foi utilizada com uma habilidade superior aos
recursos da natureza humana. O nazismo não começou
incendiando conventos nem matando sacerdotes: preferiu preludiar com a
assinatura de uma concordata. O comunismo atirou os maus contra os bons. O
nazismo começou por atrair a confiança dos bons, para depois os arrastar ao
mal. Foi tal a convicção que a propaganda
incutiu no espírito do povo de que Hitler era um novo Godofredo de Bouillon que vinha salvar a
Igreja do comunismo, que Pio XI, na Enciclica “Mit Brennender Sorge”, em que condenou o nazismo, chegou a ponto de
afirmar que só levantou sua voz contra este quando a perseguição já estava tão
visível que ninguém a poderia de boa fé contestar, e isto se bem que, durante
um largo espaço de tempo anterior, o Santo Padre já tivesse tido o desejo de se
manifestar. Em outros termos o que significa isto? O próprio Pontífice o disse:
receava ele não ser crido se denunciasse as perseguições nazistas, tal era a
eficácia da propaganda oficial teuta, e por isto só
falou quando a própria evidência dos fatos lhe servia de documento.
De lá para cá, como correram as coisas! O autor
destas linhas não pode esquecer do acento de dor de um Sacerdote alemão que lhe
dizia que, efetivamente, as devastações ideológicas do nazismo na juventude
arrolada sob a bandeira hitlerista eram as mais
vastas e desoladoras possíveis! Os moços! Como os amou Nosso Senhor! E como não
poderia sentir o coração cortado de dor pensando que uma multidão deles chega
ao paganismo o mais cru, nas fileiras nazistas?
Quer-se ter uma idéia da devastação que o nazismo
conseguiu causar? Quem não conhece almas que recebem com assiduidade os
Sacramentos que sempre creram em tudo que a Igreja crê, fizeram tudo o que ela
manda, e no entanto... afirmam mais ou menos veladamente que Pio XI errou quando
condenou o nazismo? Ou que, sem ousar chegar tão longe, pensam e agem em função
do nazismo como se jamais o Santo Padre o tivesse condenado? E que depois disto
se horrorizam diante da complacência de certos católicos franceses para com o
comunismo, como se eles não tivessem incidindo em abominação igual! Oh, o arqueiro e a trave!
XV - Muito recentemente, se publicou na Inglaterra
uma obra verdadeiramente extraordinária, de um sacerdote alemão, que, sob o
pseudônimo de “Testis Fidelis”, narra toda a perseguição do III Reich contra o
catolicismo.
É importante notar que o autor dessa obra, citado
aliás em uma Pastoral do Cardeal-Arcebispo de Londres, mostra que a política do Sr. Hitler contra a Igreja não
é apenas uma série de medidas de perseguição. Toda essa política tende a
desenvolver um largo e profundo plano de descristianização do povo, a fim de
eliminar toda a influência dos Evangelhos e assentar sobre princípios diametralmente
opostos a estas uma civilização (?) nova.
Não se trata, pois, de uma luta passageira, mas de
um antagonismo profundo, irredutível e militante, que empreende o cerco da
Igreja com todas as armas. É o que “Testis Fidelis” demonstrou com impressionante precisão.
XVI - Nos planos de impiedade o comunismo
fracassou. E assim, mais uma vez, o demônio atirará a um canto o azorrague, e
começará a fazer a guerra de sofismas e mentiras que tão bom resultado lhe
trouxe no Paraíso terrestre. A violência comunista não surtiu resultado total.
A vitalidade da Igreja na Rússia, no México ou na Espanha dos republicanos será
um dos mais belos capítulos de sua história em todos os tempos. Se o Sr. Hitler
vencer na Rússia, sob a sua inspiração se começará a fazer ali o que se faz na
Alemanha, e o que se começou a fazer, mais ou menos, por toda a Europa nazificada. O comunismo depravou os tíbios e os maus e
perseguiu os bons. O nazismo encherá a princípio de entusiasmo, os bons, para
depois arrastar para o mal.
Hoje como ontem, amanhã como hoje, o “Legionário”
sustentou e sustentará a identidade do substratum ideológico do nazismo e do comunismo. Essa solidariedade ideológica não ficou apenas no
terreno meramente doutrinário e especulativo. Publicaremos no próximo número
uma lista de notícias que o “Legionário” deu em outras ocasiões, demonstrando a
solidariedade efetiva entre os dois regimes.
XVII - Quem sabe - poder-se-ia objetar - se o Sr.
Hitler teve o intuito de iludir o comunismo com uma aliança falsa, esperando
depois atacá-lo quando já estivesse em declínio o poderio inglês? Quem sabe se
não foi no próprio interesse da civilização católica que ele procedeu assim?
Não se compreende que o comunismo se tivesse
deixado ludibriar assim. Não teria ele previsto isto? e teria ido seu engano a
ponto de dar ordens a todos os partidos comunistas do mundo a fazer o jogo do
nazismo?
Depois, se são esses os intuitos do nazismo, como
explicar que ele faça tão forte perseguição religiosa na Alemanha? Para iludir?
E também será para iludir que ele entregou parte da Polônia aos bolchevistas,
sujeitado-a a uma tremenda perseguição religiosa? Serão esses os processos dos
homens de Deus?
Entregam eles ao demônio milhares de vítimas para
salvar a humanidade? Haveria mais abominável maquiavelismo do que o que jogasse
com os destinos eternos das almas, mandando umas para o inferno para que outras
se salvem?
XVIII. O
“Legionário” mostrou insistentemente como depois do pacto teuto-russo,
certo anti-bolchevismo de fancaria cessou
inteiramente, pessoas que escancaravam a boca para falar do comunismo e
censurar.
A temibilidade de um
inimigo e não a aliança deste com a Inglaterra emudeceram de súbito quando o
comunismo se aliou ao nazismo.
Toda a cócegas anti-bolchevista
neles se havia acalmado como que por encanto... E contra o Sr. Hitler nem uma
expressão de desencanto, nem uma voz de reprovação: “Il
Fuherer ha sempre raggione”...
Agora, provavelmente, esse comunismo de fancaria
vai renascer, pois que será um pretexto disfarçado para apregoar a benemerência
do novo Constantino do século XX.
XIX. E o que
acontecerá?
Prever é sempre ingrato. Mas não está fora de
cogitação que o Sr. Hitler, se vencer, constitua na Rússia um governo que
procure fazer uma concordata com a Igreja (concedendo embora aos cismáticos
posição melhor), e chegue talvez à restauração da monarquia (o que é pouco
provável). Mas será uma monarquia ou governo Quislingeano.
Como na Alemanha, a obra de desorientação começara por uma fase de acordos.
Depois... virá o resto, isto é, a perseguição, a abolição gradual da fortuna
particular, a paganização intensa, etc. etc. Em suma,
para a Rússia gloriosamente renintente ao comunismo,
se procurará encontrar meio mais eficaz de paganização.
É isto o que, ao menos no momento, parece mais provável.
Mas se a Rússia vencer?
Já acentuamos como é lamentável... e, infelizmente,
pouco raro o espetáculo de católicos que não se persuadem de que o nazismo e
seus vários sucedâneos internacionais são contrários à Igreja. Há certa gente
dotada de uma ingenuidade ou de um nacionalismo invencivelmente opaco, até que
se constitua, que uma frente absolutamente única contra o inimigo comum de
todos os católicos, infelizmente durará. Mas se vencer a Rússia, a frente única
estará automaticamente formada. E todos nos encontremos em trincheira opostas à
dela, dispostos a todos os heroísmos para esmagar a III Internacional, de cujos erros todos os católicos devem ser inimigos militantes,
intransigentes, meticulosos e apaixonados. A nefandíssima
“politique de la main tendue” está morta e
sepultada.
Em relação aos comunistas, só há duas atitudes que
de nenhum modo se excluem: rezar para que Deus os esclareça, e lutar em todos
os campos e terrenos para que eles não façam mal ao próximo alastrando suas
péssimas doutrinas.