Ao comentar o conflito teuto-russo,
em seu último número, o “Legionário” prometeu publicar uma lista com algumas
notícias que deu em várias ocasiões demostrando a solidariedade efetiva dos
regimes nazista e comunista.
Move-nos a fazê-lo somente o desejo de tornar bem
patente aos nossos leitores o nosso pensamento, submissos aos interesses da
Igreja e para evitar que se lance a confusão aos espíritos.
Poupamo-nos o trabalho e o espaço deixando de citar
a opinião constante do “Legionário”
sobre a identidade entre o nazismo e o comunismo, expressa anteriormente
ao famoso pacto nazi-soviético, e que infelizmente
muitos leitores recebiam com um sorriso incrédulo, pois então Hitler se
preocupava em aparecer como campeão da luta contra o comunismo.
Essa máscara ele tirou apenas quando lhe conveio -
nas vésperas do ataque à Polônia - para conseguir mais
facilmente seu intento.
Desde então - setembro
de 1939 - convencidos nossos leitores da solidariedade entre os dois regimes,
preocupamo-nos em preveni-los contra as futuras manobras dos dois chefes anticatólicos e seus sequazes.
Ainda em 1939
escrevíamos que “essa aliança, desde que convenha, se mostra como é: cada vez
mais forte”.
Nesse mesmo ano
supúnhamos possível a qualquer momento um domínio do Reich pela Rússia.
“É verdade que, afinal,
exausta tanto a Alemanha quanto as democracias pela guerra, a Rússia será capaz de impor-lhe uma reviravolta em seu
regime interno. Mas isso não deve preocupar muito aos sequazes de Hitler:
porque, afinal, um ou outro regime vem a ser a mesma coisa...”.
Em 17 de Dezembro de
1939, quando ainda não arrefecera o espanto causado pelo pacto nazi-soviético, comentando as manobras hitleristas
para evitar uma aliança dos países escandinavos com a Inglaterra visando o
auxilio à Finlândia, escrevíamos:
“Noticiado um possível
conflito do Reich com os sovietes, aqueles países ficam numa situação
extremamente difícil: auxiliar a Finlândia ligando-se a quem?
Na verdade, o próprio
auxílio da Itália à Finlândia prejudicando com a retenção em
território alemão de numerosos aviões. Assim, mantendo a incerteza do ambiente,
o Reich se reserva sempre uma última possibilidade de se salvar, sacrificando
sua grande aliada.
Mas, principalmente,
ele mantém a confusão no cenário internacional, possibilitando a Rússia, enquanto dure essa
indecisão, ir avançando em território finlandês.
A aliança teuto-russa é mais profunda do que muitos querem crer. Sob
a aparente divergência de formas, há um mesmo fundo em ambos os governos.
Durante muito tempo
insistimos em que essa aliança se daria, afinal, quando as conveniências o
mandassem. E desde que ela se fez, notamos que é preciso não se esquecer que se
trata de duas formas de uma só orientação, o que explicará, a qualquer momento,
o sacrifício de uma para assegurar a vitória da outra.
Indiscutivelmente seria
o ideal que o Reich pudesse se salvar da guerra que imprudentemente provocou,
para aí substituir em Moscou a foice e o martelo pela cruz suástica”.
Através de todas as
alternativas da guerra, desde 1939 até este ano, prevenimos sempre de forma
idêntica os nossos leitores contra a confusão que um conflito teuto-russo poderia causar nos meios católicos.
Desses inúmeros trechos
dos artigos de fundo, “7 dias em revista” e “nota internacional” esparsos nesta
folha, oferecemos mais alguns trechos aos nossos leitores, com o fito de
preveni-los mais uma vez contra a cilada inimiga:
“...na Alemanha, ainda
ecoam os últimos sons do festim nazi-soviético, que
hoje mostra a nu a solidariedade de suas heresias, se bem que estas ainda
possam, amanhã, retomar a comédia, e os disfarces de ontem.
* * *
“Assim, pois, o
comunismo começa a rejeitar a máscara comunista sem rejeitar nem seu espírito
nem seus processos. A Rússia real, a Rússia objetiva, a Rússia que os
comunistas quiseram fazer e fizeram de fato quando estavam “com a faca e o
queijo na mão”, está Rússia se despe do “travesti” comunista, e aparece tal
qual é, aos olhos do mundo inteiro: oligárquica,
autoritária, tirânica, absorvente, perigosa.
Evidentemente, o que
pode significar isto? Que os comunistas estão ensaiando alguma tática nova.
Qual será ela? Ainda é cedo para dizê-lo. Mas nossa geração, que já assistiu à
aliança de quase todas as potências do pacto anti-Komintern
com a Rússia, assistirá talvez a alguma outra cena do gênero. Será, por
exemplo, a Rússia se transformar em potência anti-Komintern.
E se não for isso, será qualquer outra farsa neste gênero. Os ingênuos que se
preparem. Deve haver, pelo ar, algum “menu” rico em fraudes de toda a ordem de
que, com sua voracidade habitual, não deixarão de deglutir e degustar a todas
elas, sem exceção”.
* * *
Em 29 de Dezembro de
1940 prevíamos o que ora sucede, no seguinte tópico:
“O “Legionário” já teve
ocasião de dizer insistentemente, em mais de um de seus números, que a
hostilidade fictícia do nazismo contra o comunismo, amainada oficialmente
(“oficialmente”, sim e só “oficialmente”, pois que no terreno concreto nunca
houve luta e nada havia a amainar) por interesses políticos de momento,
poderia, de um instante para outro, readquirir novo vigor, sendo muito do
feitio do ditador nazista dar um golpe rijo no comunismo, apresentar-se assim à
humanidade como um novo Constantino, e, prestigiado pelos louros desta vitória
“cristã”, empreender mais resolutamente do que nunca a guerra ao Catolicismo”.
“Noticiamos, em edição
anterior, que o Partido Comunista búlgaro, obediente à III Internacional como
costumam sê-lo todos os partidos da esquerda, distribuiu na Bulgária numerosos
boletins em que procurava desanimar o povo em relação a qualquer reação
violenta contra a investida nazista.
Dias depois, o
telégrafo nos trás, entretanto, a curiosa informação de que o Kremlin protestou
oficialmente contra a ocupação da Bulgária por tropas alemãs.
Assim, ao que parece, a
Rússia procura novamente afivelar a máscara do anti-nazismo,
ainda há poucos dias considerada antiquada e inútil pelos dirigentes
soviéticos. É possível que a farsa vá longe”... previa o “Legionário”, quando
surgiram os primeiros rumores da ocupação nazista na Bulgária.
“A política
internacional continua cheia de mistérios, entre os quais o mais importante é o
das relações teuto-russas. As duas potências
totalitárias parecem estar representando, para o mundo inteiro, uma farsa de
esconde-esconde. Ora deixam cair a máscara de sua pseudo-incompatibilidade,
e apresentam ao público suas faces idênticas de irmãs siamesas, ora cobrem-se
novamente com a máscara de inimigos iracundos, e ameaçam travar entre si uma
luta de morte. No meio de tudo isto, o público crédulo e ingênuo fica sem saber
o que pensar. E, assim, a mascarada vai continuando enquanto os atuais senhores
do mundo quiserem”.
* * *
A dança de aproximações
e recuos entre a Rússia e o III Reich, indicada no tópico acima, teve
confirmação no seguinte, publicado em outra ocasião, em 1940, reproduzindo os
comentários dos jornais, que previam então um esfriamento daquelas relações:
“Disto, seria um índice
expressivo o tratado anti-soviético firmado pelo
governo japonês com um grupo de chineses por este elevado à categoria de
governo da grande república oriental. Aliado da Alemanha, o Japão não poderia
entrar em colisão com os sovietes sem afetar, indiretamente, a solidez das
relações russo-germânicas. A atitude do Japão não
teria, certamente, sido tomada sem uma sondagem prévia em Berlim, onde teria
sido declarado que um atrito nipo-soviético e um
conseqüente esfriamento germano-russo, não
desgostariam Berlim. E, assim, a precariedade das relações entre o comunismo e
o nazismo transpareceria claramente.
Tudo isto parece claro,
e bem raciocinado. Mas é errado”.
E estava errado. Não
demorou muito para vermos Stalin e Matsuoka, um nos braços do
outro.
* * *
Em novembro,
comentávamos as manobras diplomáticas de Hitler:
“Após a visita de
Hitler à França, e do seu encontro com
Franco, verificou-se que os
esforços de Laval e Serrano Suner foram em parte frustados por várias
circunstâncias.
Na Espanha verificou-se idêntica resistência da opinião
pública à tentativa de arrastar o país à guerra para servir o eixo.
Em vista dessas
circunstâncias, que impedem o ataque a Gibraltar e de haver fracassado a invasão da Inglaterra, restando assim apenas a possibilidade do ataque
ao Império pelo canal de Suez, Hitler necessitava
resolver com a Rússia a questão dos Dardanelos.
A URSS, por todas as
formas e em todos os tons, fez constar sua oposição ao domínio dos Balcãs pelo
eixo com desrespeito à sua zona de influência.
Hitler invadiu os
Balcãs. A URSS não se moveu apesar disso.
Verificando a
inutilidade dos esforços junto à Espanha - para o que afivelara novamente a
máscara anticomunista, autorizando sua imprensa a atacar o governo de Moscou,
Hitler deixou a farsa e resolveu entrar mais uma vez em entendimento com os
sovietes.
Para esse fim vale
muito a lembrança da guerra russo-filandesa, e a imprestabilidade do exército moscovita. Dos fracassos de
seus aliados tira o füeher grande proveito, para se
impor como senhor único da Europa.
Assim, a desvalorização
das forças russas permitiu-lhe exercer pressão suficiente para que Molotov se abalasse de Moscou a Berlim”.
Agora, a situação
estava melhor preparada, e o anticomunismo de última hora arrasta toda a
Europa.
* * *
“Como todos vêem, a colaboração germano-russa
está atingindo seu auge, pela intervenção ativa russa, ao lado da Alemanha, na
política asiática. O “Legionário” já previu longamente tudo quanto se está
passando. E, exatamente agora, quando parece ter chegado a seu zênite esta
colaboração, permitimo-nos adiantar mais uma coisa a nossos leitores, coisa
esta que certamente lhe causará surpresa: no pé em que estão estas relações,
tanto é possível que durem longamente, quanto que de repente a Alemanha agrida a Rússia. E tudo isto sem que deixe de ser perfeitamente real a
simbiose nazi-comunista.
“Qui vivra verra”.
* * *
Convencidos da solidariedade teuto-russa,
estávamos também certos da inconveniência da sua clara manifestação, para o
nazismo, esperando antes um aparente conflito.
Por isso manifestamos nossa surpresa quando
numerosos telegramas anunciaram que aviadores russos auxiliavam o Iraque em sua luta contra
a Inglaterra:
“Também a atitude da Rússia é motivo de surpresa.
Não porque houvesse razões para se duvidar da solidez dos laços que unem Berlim
e Moscou - laços que se romperão apenas quando, vencidos os demais adversários
comuns - e que são todos os países em que ainda predominam uma civilização
cristã e católica - devem decidir da supremacia entre si. A surpresa no caso
consistiu em que não se esperava que a Rússia arrancasse já a mascara da
neutralidade e fosse auxiliar materialmente a luta contra a Inglaterra.”
Os fatos demonstram ser razoável essa surpresa: os
telegramas a respeito não eram verdadeiros.
* * *
Concluindo uma nota sobre as manobras do gênero das
acima expostas, em que eram comparsas Hitler-Stalin,
deixávamos claro o nosso pensamento, há alguns meses atrás:
“A repetição desse fato não esclarece apenas os
espíritos obtusos ou de má fé: na realidade a política nazista ou comunista são
irmãs gêmeas, e uma estará afinal disposta até a se sacrificar pela outra, para
a consecução do fim comum: a destruição da civilização cristã no mundo.”