É preciso que não esmoreça a vigorosa campanha
movida por elementos católicos de destaque, entre os quais ocupa situação ímpar
meu grande amigo Padre Arlindo Vieira, contra os suplementos infantis que a maior parte dos
jornais publica hoje em dia. Com efeito, enquanto o mal persistir, é preciso
que persista a reação, pois que os editores de tais boletins não poderiam
alcançar mais significativo resultado do que ver os elementos católicos,
fatigados de protestar, já plenamente conformados com a ação demolidora dos
“suplementos”.
Com efeito, dado que a Igreja é infalível, jamais
conseguirão seus adversários mudar a doutrina por ela professada. E, assim, o
máximo que podem alcançar é que se mantenham em silêncio os católicos que o
erro não conseguir separar da Igreja. Mas esse maximum é tanto, representa
inconvenientes tão inapreciáveis que, para evitá-lo, todos os esforços são
poucos e todos os sacrifícios insignificantes.
* * *
Entre os inúmeros males que a maioria desses
suplementos ocasiona, salta aos olhos o incentivo que eles prestam ao
desenvolvimento de certas preocupações já precoces em nossas crianças. Não é de
espantar que os pasquins escandalosos, os órgãos de jornalismo suburbano, as folículas que vivem da exploração de escândalos de toda
ordem, editem boletins imorais. Mas o que é curioso é que até certos jornais,
que procuram observar certa linha, não se pejem em editar folhetins francamente
hostis à formação moral de nossa mocidade.
Tenho em mãos, no momento em que escrevo este
artigo, uma coleção de suplementos editados por um dos jornais mais sóbrios em
matéria de publicidade criminal e sensacionalista que
conheça. Tais boletins infantis não são dos piores. Pelo contrário, encontra-se
entre eles vários que trazem historietas, se não edificantes, ao menos
perfeitamente inócuas. Tudo isto mostra que a orientação do suplemento não
obedece à preocupação que em outros do mesmo gênero parece obsedante
de estimular por todas as formas às mais prematuras e perigosas idéias entre as
crianças. Entretanto, não há um único número desse suplemento que não traga ao
menos uma história em que, quando o enredo não é francamente censurável, os
desenhos são utilizados como pretexto para a exibição absolutamente despudorada
de formas que o recato manda cobrir. Por que essa persistência metódica,
inflexível, que jamais chega aos absurdos de outros suplementos, mas que também
jamais deixa de infringir seriamente as regras da moral? Num certo sentido,
dir-se-ia que tal suplemento é mais nocivo que os outros, pois que sua própria
moderação (aliás tão relativa) lhe serve de passaporte para entrar em ambientes
que se manteriam irredutivelmente fechados a folhas
mais acentuadamente más. E, uma vez franqueadas as portas a um suplemento mau,
quem poderá evitar a entrada dos outros piores?
* * *
Cada vez mais, o mundo contemporâneo parece uma
casa de loucos em que os princípios elementares de lógica estão absolutamente
subvertidos. Por isto, não falta nos meios católicos quem tenha uma ojeriza
militante contra a perspicácia. Descobrir um erro oculto, uma tendência má que
apenas começa a se esboçar, uma afirmação temerária que tem vergonha de si
mesma e que se exibe sob a roupagem capciosa de doutrinas aparentemente
ortodoxas, tudo isto constituía, para o católico, um ponto de honra de
ortodoxia. Assim como o caçador tem seu golpe de vista, e sabe ver longe e
atingir certo, assim também o verdadeiro católico tem uma ortodoxia
infalivelmente certeira, e sabe discernir de longe o erro, argumentando contra
ele sem jamais perder uma só ocasião propícia.
Mas parece que tudo isto, hoje em dia, se está
tornando defeito. É preciso fazer vistas grossas, afirmar que o branco pode bem
ser ao mesmo tempo preto como azeviche, sorrir benignamente quando se nos diz
que a neve dos Alpes lembra invencivelmente por sua coloração o carvão de
pedra, e que nada há de mais parecido com uma fonte da qual brota água fresca
do que o deserto do Saara. E quando algum retrógrado, como o autor destas
linhas, lembra algum argumento, insinua alguma reflexão que timidamente tende a
estabelecer que o branco não é bem exatamente o preto, ou que o frescor da água
não sugere uma impressão tão exatamente igual à de um copo de água fresca, uma
celeuma se levanta: como pode ser alguém tão sem sutileza, tão sem penetração,
tão pobre de dotes intelectuais, que não percebe a sublime elevação intelectual
que se encontra nessa proposição tão clara e tão simples: “o branco é uma cor
absolutamente igual ao preto”?
Assim, não é para todos que esta segunda observação
vale. Não falo dos espíritos nimbados de superior auréola intelectual. Falo
apenas para aqueles indivíduos de mentalidade tosca e retardatária, que ainda
não consideram o hábito de raciocinar como uma funesta mania, e nem o amor à
perspicácia como um dos mais odiosos vícios da inteligência.
Um amigo discreto, silencioso e observador, afeito
a longos silêncios meditativos e finas observações psicológicas, um pobre
coitado enfim, que ainda não assestou os óculos cor-de-rosa que são cada vez
mais de uso na vida intelectual (enquanto cada vez mais se usam os óculos
escuros entre os grã-finos da vida social, parece que os óculos róseos agradam
cada vez mais certos grã-finos da vida intelectual), fazia outro dia, em uma
roda de companheiros em que eu me encontrava, esta sábia e capaz observação:
cada vez mais, certos suplementos infantis costumam apresentar heróis dotados
de sentidos superiores à natureza, uma visão hiper-penetrante,
uma audição super-delicada, etc., etc., que lhe
conferem sobre a natureza e os homens a mais incontestável supremacia. Dizia
muito bem esse amigo que isto prepara a imaginação infantil para o fanatismo em
torno do super-homem, do “gauleiter” nazista em
outros termos, para o misticismo pagão e naturalista do totalitarismo, e para
todos os erros que ameaçam submergir o globo. E esse tem toda a razão, em que
pese aos espíritos superiores que, sorrindo com “sabedoria”, acharem ridícula
essa observação.
* * *
Concluamos. Se uma grande firma fornecedora de
remédios ou de alimentos distribuísse todos os dias, a milhares de crianças,
artigos mortíferos que fossem ingenuamente consumidos por seus compradores, que
celeuma se levantaria! Entretanto, diariamente a mentalidade infantil continua
a ser envenenada com os piores alimentos intelectuais e morais, e ninguém
protesta. Não vale a alma mais do que o corpo? Não vale a vida eterna mais que
a vida terrena? Não vale a glória de Deus mais do que a saúde física das
criaturas? Entretanto, porque tão grande disparidade de conduta em um e em
outro caso?